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agosto 02, 2005

III - Para se ser inocente é preciso conseguir parecê-lo

(Primeiro aquele telefonema inaudito)

(E depois o trajecto até lá)

Ninguém se sente indiferente quando procura pelo gabinete 16ª nas instalações da polícia judiciária com um cartão ao pescoço que é distintamente de cor diferente dos outros, sobretudo se esses outros, de mangas arregaçadas, forem os que aparentam um ar caseiro e jovial. E isso pode ter efeitos psicológicos agravados se depois nos acomodarem num banco de madeira, na berma de um corredor austero, ao longo do qual vemos cruzar continuamente indivíduos com ar cabisbaixo e nada integrado, em passo arrastado por grilhetas invisíveis, e com um cartão ao pescoço, de cor igual ao meu.

Por princípio sou um indivíduo sereno e cerebral pelo que o insólito da minha situação já tinha sido várias vezes mastigado, estando eu convicto (pelo menos julgava estar, ou estaria nos primeiros momentos de espera) que a justificação que em breve intentaria junto dos Agentes da Autoridade (e aqui já exagerava em pronunciá-los prenunciá-los com as letras maiúsculas do temor, embora ainda não o soubesse), certamente iria dar tudo isto por resolvido. A verdade é que a natureza das acusações só por si deveria bastar para que qualquer agente experimentado tirasse daí as suas ilações, como aliás comecei por inicialmente presumir. E enquanto por ali me via sentado, e pela enésima vez, discorria sobre as mesmas, nos termos em que o prestável Agente B me as tinha enumerado.

Pois a menina L, que diz ser sua colega lá no Instituto, afirma que o senhor incorreu em coisas gravíssimas, algumas delas – devo acrescentar – para mim inéditas, e olhe que já por aqui ando há mais de 15 anos. Nada disto me parece muito comum, mas compreenderá que mandam os procedimentos que solicite a sua vinda até cá, para prestar declarações sobre o que esta Senhora refere … Ora, ela insiste que o senhor se chateou com ela no autocarro e que (1) usou de violência com o intuito de lhe cortar uma madeixa de cabelo ( e ressalva que quer destacar esta como acusação própria), mas que ainda que não se terá ficado por aí, pois que ao fazê-lo tinha como fito uma (2) espécie de feitiço, de que ela foi vítima e sentiu na pele durante largos dias. Como se não bastasse, refere ainda que o senhor, não contente com o mal causado, lhe (3) terá subrepticiamente injectado uma substância - através do uso de uma seringa - nos Yogurtes que ela transportava no supermercado, para isso tendo-se fingido acercar dela casualmente, e que também nisso – insiste ela – se perspectivava uma tentativa de envenenamento, pelo que, receando tal coisa, se terá desfeito da prova do delito. Mas caro senhor, as coisas não se ficam por aqui, e ao que parece terão estes sido os três delitos ainda assim menos graves, e que ocorrem na sequência do seu desagrado por a dita senhora, até então mantendo uma relação de amizade consigo, não se lhe ter oferecido para uma relação sexual. E terá sido aqui que as coisas terão azedado ainda mais, posto que ela também insinua que o senhor, vendo-se assim contrariado, a (4) terá forçado a ter relações sexuais, a que ela se conseguiu escapulir, o que ainda assim não deixa margem para dúvidas de se tratar de uma tentativa de violação. Finalmente acusa-o ainda de uma (5) perseguição maníaca (nos transportes públicos, na vigília á casa onde mora, nas aulas que frequenta no Instituto, durante as lides das compras do supermercado do bairro) e que terá acabado por afectá-la psicologicamente, (note que a senhora refere que isto já se passa após a violação de que foi alvo). Terá ainda o senhor, em meados de Julho deste ano, e vendo-se soçobrar em todos estes intentos, chegado ao limite de a (6) agredir brutalmente na via pública.

É evidente que tudo isto era um enorme absurdo. E se estas últimas acusações, as mais graves e mais comuns, até poderiam ter sido perpetradas por um crápula qualquer, já as primeiras eram dignas de um conto de bruxas, e (resmungava para comigo), pouco razoáveis de supor num rapaz bem composto, prosaico estudante de engenharia, tão vocacionalmente distante dessa coisa das magias negras. Mas estar ali, com aquele cartão rosa escuro incomodava-me. E porquê tanto tempo de espera? Repetitivamente, de dez em dez minutos lá desfiava eu cada uma das acusações, os dedos fingindo-se de ábaco, enquanto mentalmente revia o que iria responder a cada uma, e a forma como iria desmantelar aquilo, e até como ensaiaria os gestos e as expressões. Ao fim de duas horas, tinha já o rabo dorido e a cabeça conformada. E de cada vez que remoía tudo aquilo, mais me distanciava da argumentação genuína e espontânea que era suposto resolver desde logo tal imbróglio. As palavras que originalmente interiorizei com alguma naturalidade tinham-se tornado termos decorados de um discurso que já não era o meu.

Quando finalmente um dos Agentes me chamou à porta encontrou um rapaz de corpo arqueado, agastado da espera e da invulgar situação. E os olhos, que foi por aí que o veterano polícia se interessou, eram dois círculos esbugalhados e indiferentes ao que encontravam na sua frente, talvez porque estivesse concentrado num labiríntico algoritmo de justificações que iria ensaiar, mas também porque poderia ser um simples lunático. E depois os dedos, para onde olhou de seguida, entrelaçados de forma invulgar, num tenso espasmo, como se tivessem a enumerar algo, mas também uma possível evidência de um tique neurótico. Em tudo isso me sentia ser observado, clinicamente, e por cada justificação que encontrava, antevia logo uma alternativa comprometedora. E nada me fazia retornar a um comportamento normal, à aparência inocente e injuriada que eu deveria aparentar. Até a boca, trauteando sozinha as palavras baixas que fazia por não esquecer, também ela se mostrava longe de contribuir para a imagem branda que um rapaz inocente naquela situação deveria mostrar. E a consciência de tudo isso, de me ver assim observado, tudo isso contribuía ainda mas para que eu, incontrolavelmente, parecesse um receoso e apoquentado suspeito.

Ainda me tentei recompor. Mas quando entrei na sala tinha a noção de que dificilmente poderia ter dissimulado, (lá estava eu a pensar em disfarçar, mas disfarçar o quê? Representar um inocente, camuflar um criminoso? Mas eu não era culpado!), aos olhos de um arguto investigador, a postura de um presumível culpado.

(...)

Publicado por Eufigénio Lagoa às agosto 2, 2005 02:45 PM

Comentários

A senhora não se te ofereceu??? Pois é, eu sempre achei que essas macumbas dos cabelos cortados e queimados à meia noite junto com as tripas de uma galinha não resultavam nada bem (um ramo de flores, uns chocolates, sempre são coisas que dispõem melhor).
Venha de lá o resto! :)

Publicado por: catarina em agosto 2, 2005 03:42 PM

Só para passar os dias na máquina dos cartões perfurados Catarina ;) , o que julgo ser uma forma subtil e generosa de se oferecer. Mal sabia eu quanto me custaria tal favor.

(com esta brisa fria não sei se terei força para continuar tanta prosa)

Publicado por: Eufigénio em agosto 2, 2005 03:48 PM

A simpática colega estava tão apaixonada pelo «rapaz bem composto» que não aceitou que fosse apenas um «prosaico estudante de engenharia».

Agora vou ficar aqui à espera- posso trazer um ar condicionado para manter a temperatura - de ver como se desembrulharam os dedos desta situação.
( e no final, vou queixar-me que tens um bruxedo na escrita que nos cola os olhos ao monitor ;))

Publicado por: maria árvore em agosto 2, 2005 05:51 PM

E eu, vou queixar-me de assédio literário. Qual será a punição para este crime, alguém sabe?

Publicado por: karla em agosto 2, 2005 06:16 PM

espantado é como eu fiquei
acho que esses «dedos de ábaco»:) nunca te levaram tão longe em termos de escrita humorística (bem, não exactamente... mas sim, humorística - transformar uma situação desconfortável numa narrativa destas é, no mínimo, humor)
por acaso não ficaste com o contacto da menina L? é que eu tenho um fraco muito forte por aves raras assim
agora, para além do «matadouro», faço questão de ler os próximos capítulos

Publicado por: jose quintas em agosto 2, 2005 10:33 PM

José Quintas, nem tu sabes o que eu me ri na altura ... cof, cof

Maria A. - 7
Karla - 8
Mais alguma queixinha? se quiserem até vos posso fornecer o telefone do Agente B :)

Publicado por: Eufigénio em agosto 3, 2005 01:55 AM

E vale a pena investigar o Agente B?... O: -) (anjinho copiado ao Cap)

Publicado por: maria árvore em agosto 3, 2005 03:56 PM