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agosto 08, 2005
Delírios náuticos (... 16)
É Agosto, mês de refregas incertas e de marinheiros noviços: tempo de devaneios. E devia ser sempre assim, só de caneta na mão, que sotavento e barlavento isso é para quem quer chegar. Aqui arriba-se e orça-se, que não é a rota que nos fixa, é o vento que volteia e nós que com ele rondamos.
Não há mais na navegação: ou se veleja à rota, ou ao vento. É a prosa cuidada, ou desvarios apenas. Na rota ‘cuidada’ leva-se direcção, é desengano, é fazer do marear travessia e do mar a estrada, que não é de ali estar que se quer, mas sim o chegar mais do que o ir. Ao ‘desvario’ do vento, somos nós que nos levamos, que não interessa para onde, é o ir que é encanto, e chegar é apenas o seu fim. Tragam-se as velas de través, gire-se o leme nos nervos do vento, gingue-se a proa por todos os horizontes que o mar nos quiser dar, que no fim logo se emenda.
Pode-se lançar prosa desse mar que se cruza pela rota, mas não é assim que saberemos escrever o mar. Talvez as vagas, a fadiga, a embarcação que range, mas não o mar, que esse assim riscado não é mar, é água. Pode-se tentar descrever o mar que nos traz pelo vento, mas nunca o conseguiremos, que esse mar não se escreve. A esteira que aqui borbulha já ali é rumo, as brisas que aí vêm já nas velas se esgueiram, tudo no mar apenas se deixa escrito, que quando o temos nas letras já ele se foi, já outro mar nos leva. Só há o mar que vem e o mar que foi, não há mar de que se saiba falar.
Mas teimo eu. E agora sigo por aqui, e aqui mesmo uma vírgula, e vai agora, virar de bordo, e enquanto penso para onde vou já sigo com nova esteira, e já está, que se bolina de novo. Mas rondei a frase cedo demais, e nada conclui ainda. Caçam-se escotas, lança-se rumo para distante, adorna o casco, e finos se fazem os sulcos a sotavento, mas falha-me a frase de novo, que nessa bolina só há tempo para estar, e sonhar, e essas são coisas que não se contam. Mas teimo eu, há que tomar rota - tenha-se a mão no leme e os olhos ao vento que assim não há caminho - e talvez se conte, se assim o deixarmos ir de encontro às palavras.
Agora já mais ao largo, e mais atento, há que evitar faltarem sílabas. É aqui que cambarei, e aqui terei para contar. Que por cada três linhas algo de concreto se deve contar. Senão não há lastro, fica-nos o barco de capa, e dali já não se sai. Mas que se conta quando ali estar é assim, não há chegar, e nisso nada há de concreto. E já devaneio de novo, falta rota, falta mão, agora é já o vento que falta. Aqui ou há rota, e assim escrevemos nós, ou lá se vai a embarcação para as águas que ela quer. Mas bate-nos o vento de capa, e agora já nem estibordo nem bombordo. Nunca virar de bordo cedo demais, que a proa se amolece, fica-nos folga na vela, devaneia-se, perde-se rumo, fica o texto sem o ser. Desespero já, e é assim mesmo, é aqui mesmo que lanço ferro - que continuar a escrever sem que depois saiba amarar o texto, não é coisa de marinheiro
Mas torna o vento e já vai tensa a embarcação, e rasga a quilha o texto na página branca, que é assim que se desliza, não há timoneiro, não há vontade, há apenas o mar que se escreve. E saem a borbulhar da popa voraz, as letras todas que a esteira vai levando. É assim navegar ao vento, deixar que o mar se escreva. E lá ficou o farol de estibordo, lá se dobrou o pontão de entrada, e já mais longe, já não vejo o texto, que é o mar que me leva agora outra vez. É o movimento que conta, a água que passa, é este ir assim que não é preciso mais para chegar ao fim do texto. Mas não é mar, é apenas texto que o conta. Que o mar, esse não se deixa falar.
Velejar é isto, escrever sem parar, sem querer chegar, é fingir que se escreve o mar que não se sabe contar.
Publicado por Eufigénio Lagoa às agosto 8, 2005 04:10 PM
Comentários
Todas as ondas do texto me levam à conclusão do último parágrafo.
E assim, mesmo o que não se sabe contar parece que é possível de ser sentido.
Publicado por: maria arvore em agosto 8, 2005 08:22 PM
é mesmo só por ser sentido Maria A., já que não é por fazer sentido
Publicado por: Eufigénio em agosto 8, 2005 09:08 PM
Ai que me falta o :)))
Publicado por: Eufigénio em agosto 8, 2005 09:09 PM
Velejar assim, sem enjoar. Fechar os olhos e saborear o mar. :)
Publicado por: cap em agosto 9, 2005 01:06 AM
Na esteira dos inúmeros livros que explicam os livros de aventuras infantis de Dan Brown nas igrejas e aquelas coisas de padres misturadas com trivialidades esotéricas de pacotilha ao estilo dos livros do Robert Charroux sobre ovnis, a Atlântida e sociedades secretas, vimos explicar (sei lá a quem) o livro “EQUADOR – A Epopeia portuguesa em África”, não aquele do queque do M. Sousa Tavares, mas do outro que é muito melhor. Esclarece-se o significado das passagens mais obscuras e relatam-se alguns factos históricos que consubstanciam algumas passagens de cariz ficcional.
“braça”- do latim brachia - plural de brachin (braço). Antiga unidade de medida de comprimento eqyuivalente a 22 cm, que corresponde mais ou menos ao comprimento dum braço esticado. Os marinheiros do Sec. XV andavam sempre de braço esticado e frequentemente com o pulso aberto, diga-se.
“cabotagem” – Tipo de navegação mariconça, sempre à vista da costa para não se perderem.
“Barbaria” – Era o nome que os Romanos davam ao Norte de África, excepto à Tunísia a que chamavam… África. Sítio onde se comprava haxixe, tapetes e chinelos.
“Bojador” – Pôrra, toda a gente sabe esta merda. É aquela barriga que África faz, nos Camarões ou na Costa do Marfim, ou lá o que é.
“Tramontana” – É o nome que os gajos davam naquela época à Estrela Polar. A altura angular dessa estrela chama-se “latitude”. Ir baixa, quer dizer que eles estavam perto do Equador. Perdê-la é mau, a menos que se tenha um gpszito.
“Navegar à bolina” – Maneira de navegar á vela contra o vento. Vai-se assim aos esses e vai-se mudando as velas de um lado para o outro e prontos,
“Canárias” – fêmeas dos canários e ilhas cheias de espanhóis e José Saramago.
“pesar o sol” – Tentativa ridícula de estimar a longitude com uma cruzeta de pau e uma ampulheta. Geralmente não resultava e eles iam parar a sítios que não tinham nada a ver com o destino e depois iam de cabotagem até atinarem. Mas também qualquer sítio servia. E depois os mapas também ficavam todos torcidos.
“Portulano” – Manual náutico com mapas e coisas assim. Por vezes tinham iluminuras pornográficas com santas a mostrarem os tornozelos. Com a rebarba com que eles andavam aquilo era um bocado perturbador e mais um factor de desorientação. Pedro Nunes, um século depois fez um livro incompreensível chamado “Tratado da Esfera” para ajudar os pilotos, mas eles embebedavam-se a bordo iam parar a outros sítios que depois descobriam (Brasil, Índia, China, Califórnia, Austrália, etc.)
“bombordo” – O lado esquerdo da embarcação.
“estibordo” – Está-se mesmo a ver qual é o lado.
“mangue” – O mesmo que mangal, uma floresta litoral inundada todos os dias por água do mar constituída por árvores dos géneros Rhizophora e Aviccenia e cheia de bicharada, caranguejos, e lama na maré baixa.
“cafre” – indivíduo de raça negra. Não é coisa que se chame a ninguém até porque poucos iriam perceber. É preferível usar expressões consagradas como "escarumba" ou "tição", por exemplo.
“gibão” – peça de roupa apaneleirada que basicamente é o mesmo que “bermudas”.
“fiouco” – Tecido muito manhoso que se rasga com muita facilidade normalmente vendido pelos ciganos.
“N´Gambo” – Orgulhosa tribo guerreira do Congo que só é conhecida dos livros do Tarzan.
“cipaio” – Polícia nativo que andava com um uniforme destinado a humilhá-lo. Camisa e gravata e …saias. O chapéu era uma espécie de penico.
“soba” – O chefe dos pretos. O gajo que papava as mulheres todas na aldeia e ainda era dono das vacas todas.
“monanganbé” – Palavra incompreensível duma música de Rui Mingas, que foi o Ministro do Desporto e depois Embaixador de Angola em Portugal e só por ser prêto, pois viveu a maior parte da vida em Lisboa e diz-se que papava aí muitas gajas.
Publicado por: bill em agosto 9, 2005 03:23 PM
Ou deixar seguir a escrita ao "deus-dará" Cap
Bill,
Vou encadernar isto e levar para bordo pá, juntamente com o "portulano" claro.
(e uma pergunta de algibeira, sabes porque se chama bombordo ao lado esquerdo?)
Publicado por: Eufigénio em agosto 9, 2005 03:35 PM
(já tenho post para os próximos delírios náuticos)
Publicado por: Eufigénio em agosto 9, 2005 03:36 PM
Algibeira, lado esquerdo, diz lá...
Publicado por: bill em agosto 9, 2005 04:26 PM
(ahahah ... olha do lado esquerdo que este se foi lembrar)
Era o bombordo do qual os nossos comparsas antepassados viam a terra quando navegavam (à vista) ao largo de àfrica no caminho do "sei lá para onde vou"
Publicado por: Eufigénio em agosto 9, 2005 04:43 PM
Cabo Verde, pá... os gajos viam sempre Cabo Verde do bordo bom...
Publicado por: bill em agosto 9, 2005 04:50 PM