« julho 2005 | Entrada | setembro 2005 »
agosto 22, 2005
E pronto
Acho que vou ficar mesmo por aqui, um dia mais cedo do que o mar me oferecia. Talvez ele me obrigue a contar tanta água, tanto ir, ou talvez não. Talvez que se o fizer o faça aqui, ou talvez noutro lugar qualquer. Que este calendário não tem dias depois de amanhã, e eu já não os sei inventar, nem sinto já magia nisso. E há também outras coisas na minha vida que me pedem que volte, calcule-se, como se eu daqui tivesse alguma vez partido.
Ai, que me esquecia ...

Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:15 PM | Comentários (11)
Delírios Náuticos ( ... 2!!! )
Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:25 AM | Comentários (6)
agosto 19, 2005
Delírios Náuticos ( ... 5)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:04 PM | Comentários (0)
Vai uma apostinha?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:50 PM | Comentários (2)
Konfesso
K m irrita prfte esta kosa de abrv as plvr e substituir os ‘q’ por ‘k’ s/ aparente vantg. Ateh prcbo isso n tlm. Mas kuando s escreve spr assim, k krlh, andamos a jgr a k agora? Axo ateh k ixto eh prfte hipócrita (aki n arranjei trmo abrev pk a puta da plvra kara n t ‘q’ nem ‘ch’ nem trassos)
Avi%o k %ó re%pondo a kem u%ar o ‘%’ pelo ‘s’, e k m irritam os %nob% k t a mania k e%crvm bem xeios d vgais i acento%, pronto. Perdao, kria dzr pronto%. E perdao p ter uzado "perdao", pk eu n %ou kareta e tb sei scvr xeio d erro% soh k as vzs tenho a mania k sou kota
Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:11 PM | Comentários (11)
O quadro de mensagens lá de casa anda assim

Giz há, faltam-lhe é as mãos que o escrevem
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:02 PM | Comentários (2)
O ritmo, o tempo e a vetustez na blogosfera
Com tanto blogue a fechar, começo a ficar receoso sobre a melhor atitude a tomar relativamente a esta casa. Uns porque aproveitaram a época de pousio para assim suavizarem o seu desaparecimento, os outros porque, quando voltarem, e dando de chofre com o resultado desta súbita fúria de eclipses, são bem capazes de se sentirem confrontados com o seu tempo, com a inevitável velhice, e verem nisso o relógio biológico da blogosfera a tiquetaquear o seu fim. Reconheço que, talvez porque fui assistindo a este fenómeno de apagamentos de forma espaçada neste mês, ou talvez porque este é ainda um espaço adolescente, não me sinto rebocado por esse fulgor de despedidas.
Mas tenho de me declarar apoquentado com tudo isto, especialmente com a altura escolhida pelos defuntos. É que está quase aí a vir o dia em que deixarei esta pequena parcela de terreno em pousio, e durante um longo mês, uma eternidade portanto aqui por estes lados. Ora, não seria nada agradável que quando voltasse a pôr as chaves na porta, descobrisse que o vilarejo onde a fundeei, a blogosfera, era agora sítio fantasma, cheio de novelos de palavras mortas a rebolarem ao vento, qual terra de cowboys abandonada. E é disso que muito receio que já se sabe que nestas coisas de debandar, nunca se é o primeiro, mas ninguém quer ser o último.
Mas depois constato, por quem nos traz as notícias de mais um abandono, que esse fenómeno, pelo menos na parte que mais aflige, é coisa que assola apenas os mais idosos, blogues ancestrais, com quase dois anos, calcule-se, ou ainda mais, coisa da pré-história afinal. Os mais antigos, resistentes, sítios criados por exemplo lá nos remotos inícios de 2003, falam, sem esconder uma ponta de nostalgia é certo, no natural e inevitável processo de regeneração. E aliviam-me referindo e identificando um leque bastante confortável e auspicioso de novos blogues, ainda neófitos é certo, mas onde seguramente já estará a germinar a semente que me regozijará no futuro, e de entre os quais certamente assistirei, com enorme alegria, a algumas ressuscitações.
Quando voltar, este blogue estará a fazer um ano. Ora, isso no ciclo de vida da blogosfera não fará de mim, pelos vistos, um enérgico jovem, mas também não me deve apontar ainda para o caminho dos meus últimos dias. A meio do que venho a constatar ser a “esperança de vida” na blogosfera, estarei por essa altura talvez a atingir a maioridade, ainda uma réstia de pujança, mas já miscida com alguma anciania que certamente maior distanciamento me há-de trazer para averigurar estes blogofenómenos.
Mas isso é mais tarde, que agora ainda não expulsei de mim completamente o receio de que, à velocidade com que o tempo aqui acontece, com que nos empurra para a velhice e nos cansa as palavras, não possa acontecer que, quando voltar, esteja a regressar tarde demais. É que aqui tudo se faz depressa demais, tudo se sente em excesso, e cada palavra que aqui se lavra acrescenta mais um trecho de idade. O meu receio caros leitores é que, quando voltar, venha de lá habituado a esse estranho tempo biológico, mais distendido, e que sem dar por isso, retorne aqui distraidamente a pousar palavras num sítio já moribundo, como um velho lunático que por aqui se debruça a tentar ainda pôr as ossadas de pé, no meio de um enorme cemitério que o rodeia.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:32 PM | Comentários (5)
agosto 18, 2005
“Então vais contar isto lá no teu blog?”
Começo a não gostar nada desta ideia de ter uma vida que, ainda agora acontece, e já se lhe espera a segunda versão. E é até com algum embaraço que vejo esta parte de mim que até para os amigos se começa a tornar ‘cinematográfica’. Ora bolas, mas afinal, ando a brincar com o quê?
Ok, aqui escreve-se, aqui me escrevo, aqui escrevo sobre o que me apetecer, e blá, blá, blá, metade deste blogue trata isso mesmo, de explicar porque ele existe. (Este será mais um desses post’s circulares, ou talvez verse mais longe, que é da escrita que fala, quando ela se tenta a substituir a nós.) Mas afinal, que ousadia é esta de pensar que me pode explicar a mim? É este o meu alvoroço de hoje, pensar que isto de escrever seja uma suave mentira, retocada, tacitamente aceite por mim e por quem me lê. Nada disso será grave, desde que isso não trate uma personagem ‘emendada’ que se faz passar por mim.
A verdade é que aqui podemos ensaiar de novo o que fomos, e o que fizemos, e até justificar o que não fomos. Reconstituímo-nos, melhores, naturalmente, e burilamos argumentos, fazemo-los agora nossos, e atenuamos as reacções que não queríamos ter tido, se necessário justificamo-las até à exaustão, e acentuamos, engrandecemos até, os episódios que mais nos enaltecem, tudo isso faz parte da nossa natureza humana quando a esta se lhe dá uma caneta para a mão. Esta será para mim a atracção, o pintar-me com melhores cores do que as que tenho, não para vós, mas por mim. Narcísica? Pois claro, qual a escrita que não o é?
Isto de retocar o que já fomos, ainda quase acabados de ser, emendando o que de facto somos, poder reescrever o dia de ontem sabendo que por hipótese o estaremos a dar de novo para ser lido a quem connosco o viveu, agora reconstruído à nossa maneira, é novo luxo deste Olimpo dos tempos modernos. E é em certa medida uma enorme perversão. Usar a eloquência maturada da escrita como se esta fosse o relevante do que somos, acima, e para além dos nossos gestos e reacções; substituir a espontaneidade pela reflexão cuidada, por um cursor que vem atrás e que emenda e nos rescreve de novo; e voltar a desenhar o que somos, recursivamente, iterativamente, retroactivamente, como se ‘ser’ pudesse ser um engenho de palavras, e logo aqui, logo após, poder justificar porque se é, porque assim se é; usar desta dupla possibilidade de voltar a ser, isto é quase primazia divina. Mas é acima de tudo uma suave mentira que se constrói com detalhe, e que, como todas as coisas aprimoradas, se torna agradável aceitar. Por mim que as escrevo, e eventualmente para quem as quiser assim ler(-me).
Mas foliar com esta magia dos tempos modernos tem os seus riscos. Que há em tudo, mesmo naquilo que nos parece ser privilégio dos deuses, um golpe de aríete, os rumores que em nós se congeminam, quando algo vai além do que é devido, e retorna em atoarda do desassossego. Sem darmos por isso vemo-nos no encargo de ter de ‘ser’ por duas vezes, mesmo que a segunda, esta abusiva versão escrita, não o seja verdadeiramente, mas ainda assim, constitua a parte complementar que os outros esperam do que já fomos. Mas nós não somos conjecturáveis, nem sequer somos traduzíveis, e tentá-lo é tarefa árdua e incompleta, e ingrata. Porque além disso, esta coisa soletrada, filha do nosso incontrolável fulgor em nos escrevermos, virá inevitavelmente trazer-nos … o ciúme. Sim, disse-o agora bem - este ensaio de “honestas” mentiras, com que nos fazemos aditar será, mais tarde ou mais cedo, o objecto da nossa inveja. E quase todos os dias nos vemos a concorrer com uma personagem maquilhada, que aqui vamos acrescentando, contra a qual nada podemos. Que o que escrevemos de nós, por mais sincero que o tentemos, será sempre muito melhor do que nós que o escrevemos.
E onde está a preversão e o ciúme em tudo isto? Aqui. Aqui mesmo, se um dia, aqueles que nos rodeiam, esperarem de nós, já não apenas aquilo que somos, mas também aquilo(isto) que escrevemos de nós.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:34 PM | Comentários (8)
agosto 17, 2005
Destacarei
“A Memória Inventada” é um blogue que só recentemente descobri, e onde escrevem o Tulius Detritus, o John Difool e o Ivan. Sem desmerecimento para os seus outros co-autores, é aqui, pelo Ivan, pelos seus textos, que me merece o destaque. E insistindo no abuso de lançar os filtros da minha preferência em textos alheios, queria ainda enfatizar de entre todos eles, aqueles que se guardam na categoria “A Bola no Olival”, e cujos posts são sempre titulados por ‘BnO’.
Tratam-se de deliciosas narrativas, contadas de uma forma tão especial que faz com que pareçam ter acontecido ontem, enquanto nos íamos juntando à rapaziada lá da rua, ‘abancando’ pela tarde fora, como sempre aconteceu todos os dias. E se, já o disse, a forma como se escrevem esses textos nos leva quase espontaneamente nessas digressões da memória, há ainda algo mais que delas me traz leitor cativo. Já não é apenas o deleite com que se lêem tais relatos; há naquelas fabulosas descrições futebolísticas tanta ‘proximidade’, que quase me sinto abusar dessas memórias inventadas partilhadas. Mas isso não será assim tão estranho, ou não fossem os tempos os mesmos, e o bairro de onde se contam o mesmo em que cresci. Quase que aposto que terão havido nessas tardes umas quantas ‘jogas’ organizadas contra nós, lá no ‘Maracangalha’, (jogatanas que, claro, teremos vencido – nem valerá a pena discutir isto, que nas minhas memórias ‘nós’ vencemos sempre).
Fica então aqui o destaque, com o respectivo caminho para estas memórias inventadas nos Olivais (à especial atenção do Zéze, do MB e do Bill),
Com as devidas saudações Olivalenses.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:50 PM | Comentários (6)
O efeito dos passadiços lançados pelos ‘hiperblogues’ no meu esbaforido contador de visitas
Como é que tu chamas àqueles blogues que lançam os tentáculos dos seus leitores sobre os outros mais pequeninos JPT? “turbo-leitores”?
Aposto que mesmo em plena
pasmaceira época de estival, se viesse um trackback de um desses porta-aviões, me encheria a casa de visitas, não? Pelo sim pelo não vou já pôr o ‘naperon’ na mesa.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:45 PM | Comentários (3)
Delírios náuticos ( ... 7)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:00 PM | Comentários (0)
É desta! desta é que é!!

Leio algures que em Julho os portugueses gastaram 154 milhões de euros em apostas no Euromilhões. Leio noutro algures que o valor despendido (investido) em despesas de educação foi de 111 milhões de contos. E aqui não leio, constato: os portugueses aspiram a ter uma ‘boa’ vida 'investindo' na sorte, mais do que na educação.
O problema é que alguém se esqueceu de explicar aos portugueses que sem a educação devida nunca poderão compreender que a aspiração da sua vida é representada pela probabilidade de acertar com as suas cruzinhas em 1 de entre [50! / ( 5! x ( 50-5 )! ) x 9! / ( 2! x ( 9-2 )! )] = 76.275.360 possibilidades! …. Ah, é verdade, isto é calculo combinatório, probabilidades, essas coisas que não nos levam a ricos e que se aprendem com a educação. Simplifiquemos então, olhemos para as entradas/prémio desta semana: [10.000.000 apostas = 0 vencedores]. De facto, para quê complicar, sai ou não sai, e pronto. É a fezada, e na próxima sou eu! é a fezada!
Os piores na educação, mas os maiores apostadores da Europa dos euromilhões! (E calcule-se, há um toquezinho de orgulho quando ouvimos isto dito ali ao lado). É assim, uns tecem destinos outros cantam fados. Aqui nesta terra o empenho de uma vida troca-se pela ponta de sorte que há-de vir, e as aspirações logo se resolvem quando o prémio sair. Este é o país da barraquinha dos tiros, que agora sou eu e ai que foi quase, e que se lixe maria que isto há-de sair-me. Há algo de primitivo nisto, já só instinto animal, quando um homem em vez de acreditar em si mesmo, deixa de aspirar a fazer o seu futuro, e o enrola na sorte que há-de vir. Algo num povo se está a atrofiar quando dos mealheiros das famílias sai mais para a quimera dos euromilhões, que para a formação dos seus filhos, talvez a única coisa que verdadeiramente lhes devemos.
E atenção, que para a semana há “jackpot”, é desta, é desta … e a chatice das compras escolares, todos os anos a mesma coisa, que isto é só gastar, gastar
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:03 PM | Comentários (6)
agosto 16, 2005
Delírios náuticos ( ... 8)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:50 PM | Comentários (3)
Não fui treinado para tanto "eu"
Nós, os dois miúdos, a avó Vitorina, um cão e um gato. Levei o meu mundo para férias, deixei-os à beira da piscina, e voltei para cumprir com a minha sorte profissional. E por aqui me debito agora a trabalhar, em sossego e sem interrupções … sem ‘interrompimentos’ diria. Bom tempo este para o trabalho, em que por aqui me uso e abuso. Que trabalho há muito, e agora é boa altura. Agora não incomoda resolvê-lo a todo de uma vez, que nem há quem espere pelo meu atraso.
Aldrabices! Isso do trabalho, essa coisa que construo, quase obsessivamente, para me afastar, para me atrasar, de uma casa que agora está estranhamente vazia, na qual se guarda um silêncio que não sei viver. É assim, nesse logro que arquitecto com coisas inadiáveis e compromissos importantes, que aprendi a fugir da altura em que faltarão os barulhos, as suas vozes, os tropeços em algo que alguém deixou no caminho, traços de outros. Que fatalmente, nada esconderá o facto de ali apenas estar eu.
Nunca aprendi a viver só comigo. Sou irmão de mais cinco, cresci no meio do barulho e de uma multidão de afectos. Quando um dia parti dessa vida de filho e irmão, foi para construir logo outra, mas já não só, nunca só, e depois quase pai, e já mais gente outra vez. Sempre vivi rodeado de afectos, e na família fui somando-os. Cresci e tornei-me adulto sempre com outros, e nunca tive de me treinar para lidar só comigo.
A verdade é que assim, apanhado desprevenidamente sozinho, tudo deixa de ser urgente ou importante, ou interessante. Amolece-me a vontade do que quer que seja, e o que quer que seja é tempo demais que se tenta esconder com a pressa de o terminar. Tudo ali em casa, onde estou só eu, se faz desajeitadamente. Nada tem ordem ou urgência, e sem outros também não tem significado. É deriva e fastio.
E fico para ali, no liga-desliga, a disfarçar a companhia de alguém que nada exige de mim, que afunda o silêncio quando se fica calado porque estou calado, que soterra a vontade quando nada exige se eu nada tenho que fazer, que me empurra para uma mansidão onde pairo sobre as horas, angustiado, para que algo, além de mim, aconteça. Tudo ocorre num sítio que me é estranho, e onde me sinto a mais comigo mesmo.
Na verdade é como se me sentisse inibido comigo mesmo. Como se de repente me pedissem para ali ficar com alguém que não conheço, e isso me atormentasse, só de pensar em tanto “eu”. Como se fosse uma conversa que não se dá por iniciada, e se suspende naqueles momentos intermináveis e embaraçosos, e eu ali, acabrunhado, a ficar sem saber o que dizer fazer comigo. Há nisto até uma vergonha púbere, de quem de repente descobre que nunca aprendeu a solidão, essa parte que nunca treinei, e de que sempre, sorrateiramente, soube fugir.
É um bom tempo para trabalhar, enquanto espero que voltem de férias. No resto, se um dia tiver de o aprender, hei-de saber crescer com essa parte em que sobra um enorme absurdo de mim. Se um dia precisar, hei-de treinar-me, dia após dia, sozinho, até que deixe de me sentir um desconhecido. Mas por agora, não lhe vejo proveito nenhum. Na solidão, se posso, hei-de continuar criança.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:44 PM | Comentários (10)
agosto 12, 2005
Delírios náuticos ( ... 12)
Aiiii
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:30 PM | Comentários (10)
O sítio das saudades
Há um dias expurgava assim as saudades do Francisco
Primeiro um estava no Algarve, com a tia. Depois voltou. Mas quando voltou já tinha partido o outro para o acampamento de escuteiros nos Açores. Pensava eu que assim fosse menos espinhoso, uma espécie de só meia saudade. Esqueci que pelos olhos de um também falam as saudades do outro.
Agora somos quatro os que estão por fora. O escuteiro e cada um de nós, os outros três, que enquanto estamos já quase só estamos para o lugar dele, ali vazio, na mesa.
Hoje acrescento mais saudades, e do sítio onde estas vivem
Poderia também falar de outros que estão de férias, ou do meu pai. Mas não vou falar. Há em todos nós um diálogo interrompido que ninguém ousa reinventar, com receio que lhe perca o rasto. Como quando escrevemos, e vemos algo a vir, e o vamos burilando, tanto e tanto, que quando voltamos para onde nos interrompemos já não encontramos o caminho que seguíamos. Há coisas que vivem apenas na dimensão das coisas que se sentem. É por isso que tenho imensos lugares vagos na minha vida. Para lá me poder sentar de vez em quando, onde guardo e reabro as saudades que tenho dele. São lugares que não se escrevem. São lugares que nem são só meus. Por isso nunca os saberia escrever sozinho. E deve ser por isso também que nunca se apagam.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:40 AM | Comentários (3)
agosto 11, 2005
Está na altura dos postes amaricados

El tiempo pasa, nos vamos tornando viejos
Y el amor no lo reflecte, la razoonnnnnnnn
(não me consigo lembrar do nome do tipo que cantava isto.
Epá, a música era pirosa mas sei lá, punha-me com pele de galinha)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:50 PM | Comentários (0)
E eu aqui com a história da judiciária por acabar ...
Mas deixem lá, estimadas leitoras de tal enredo policial, a vós digo o mesmo que tenho dito aqui ao pessoal: "não se preocupem que quando voltarem de férias notarão que não me esqueci de vós! Nem vão dar pela minha falta". JQ, a do matadouro é que não vai dar para acabar, que ando demasiado deprimido para reencarnar histórias dessas.
Ide todos para férias descansados, que eu e o "Culinária daqui ou seja lá de onde for", tomamos conta disto. Que ninguém pense que a blogosfera descansa. Enfim, mas só para a semana que isto aqui anda a dar forte agora (que ideia esta de inventarem trabalhos a entrar em Agosto).
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:54 PM | Comentários (7)
Ou seja,
Na verdade só há um mundo, o nosso - com as partes que dos outros nele cabem. Os outros são maiores quando há mais espaço para os arrumar cá dentro. Quando o nosso mundo é uma caixinha minguada só cabem os ‘outros’ pequenos, ou então, apenas as partes pequenas dos outros. Por isso é preciso repetir todos os dias a mesma coisa: “os outros não são nossos, os outros não são nossos, os outros não são nossos”, não vá um dia o nosso mundo ficar exíguo demais para os poder continuar a ter.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:16 PM | Comentários (7)
Intimidade
Em nosso redor existem 3 mundos. O que nos vem de dentro, o que nos tem lá fora, e o dos outros que nesse vivem. Quando trazemos este último até nós, é tão longa a distância que o fazemos percorrer, são tantas as mazelas que lhe fazemos pelo caminho, fica este tão estropiado para caber dentro de nós, que quando finalmente o julgamos ver, nem percebemos que esse outro ‘mundo’, afinal, nunca chegou a ser verdadeiramente nosso. Complicado? É por isso que às vezes, para simplificarmos, gostamos de chamar a isso “intimidade”. Quando julgamos que o que está ‘lá fora’ também é nosso.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:06 PM | Comentários (1)
agosto 10, 2005
Mas antes disso ... Dolly

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:28 PM | Comentários (3)
Olha
Vou-me deitar pronto. Há muito tempo que não vou para o vale dos lençois antes da meia-noite, e a verdade é que não me apetece estar acordado (gregos, sempre os gregos)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:23 PM | Comentários (0)
Os vales do calor
No ‘Outsider’, esta foto diz tudo dos tempos que grassam
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:03 PM | Comentários (0)
Para reflectir (e decidir) depois das férias
Este blogue foi criado para ser o meu saco de boxe. Neste espaço deveria escrever aquilo que não consigo soletrar. Mas apesar do nome estapafúrdio com que o assino, deixei de me esconder o suficiente para isso, para falar entre mim e eu. E agora que tanto preciso dele assim, e me vejo continuar a escrever, coisas que nem parecem vir de mim, textos que saem para disfarçar o que eu queria escrever, só posso concluir que ele se fez demasiado próximo dos receios, das inibições, e dos azedumes do que eu sou. Os mesmos defeitos, e as mesmas coisas que lhe ficam por dizer. Tornou-se mundano, enfarpelado, jovial e contraído. Para isso não preciso dele, basto eu.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:11 AM | Comentários (16)
Esta noite
Umas abraçadeiras de plástico, o presente do Diogo, as compras do supermercado e um jantar à pressa.
(Não!)
Um jantar de plástico, as abraçadeiras para o Diogo, um presente no super-mercado e as compras à pressa.
(Ai, ainda não!)
Um plástico de presente, o jantar no supermercado, umas abraçadeiras à pressa, e as compras do Diogo.
(Assim também não!)
Um supermercado de plástico, um jantar de presente, as compras do Diogo, e as abraçadeiras à pressa.
(Agora é que é!)
As abraçadeiras de presente, umas compras de plástico, o Diogo à pressa, e um jantar de Supermercado.
(Deve ser assim (?)
É o mal de se resolver tudo debaixo do mesmo tecto: qualquer coisa serve!)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:37 AM | Comentários (0)
agosto 09, 2005
O Xica
Faz um mês que ele se fez anunciar pela recepcionista: “está aqui o Sr. Xica dos Olivais”. Fiquei surpreendido ao princípio, afinal já lá iam mais de 25 anos. Mas depois lá fui recordando que num outro dia tive encontro fugaz aqui perto, e lhe terei referido a coincidência de trabalharmos bem perto um do outro. Era portanto caminho que eu próprio antecipara.
Enquanto o aguardava no gabinete fui revendo esses outros tempos. Ele terá sido o único “miúdo da rua” que tive como amigo na infância. Talvez considerá-lo como amigo seja exagero, mas eu ajudava-o, por vezes, e ele protegia-me da malta mais rude lá do bairro. E conversava-se, lá pelo meio daquelas tardes lentas e disponíveis. Era por isso uma relação sincera, talvez não de amizade, mas certamente de confiança (*). E tinha-lhe simpatia, nisso de ir para além da esfera da sua zona, dessa ousadia de passar a fronteira. Censure-se o raciocínio, mas era assim, e raros eram os casos em que estas duas gentes se misturavam, e ir assim até ao outro lado, para o pé dos “putos queques” seria certamente lá dos lados dele motivo de chacota. Acharia haver ali melhor futuro, talvez até possível de seguir? Sempre acreditei que era isso, e isso, sem qualquer afectação, levou-me a respeitá-lo e a augurar-lhe uma vida melhor, pelo menos mais a jeito de se ter um “bom” futuro. Enquanto eu ainda estudava já ele trabalhava. Claro que também roubava os “putos queques” como nós, (mas não nós), nos tempos que lhe sobravam. Quase uma perna no presente, que com usos do seu bairro assim o municiava, e outra no futuro com que se queria precaver. Aliás, um dos seus primeiros trabalhos tinha-o arranjado eu lá na fábrica do meu pai. Depois o meu pai perdeu a empresa, mas já antes disso ele tinha partido para outro ganha-pão. E foi por aí que o comecei a perder de vista. Fui sabendo que criara família, que se mantinha lá pelo bairro e que era algo inconstante nos empregos (por culpa do seu génio imaginava eu), mas que lá se ia safando, que lá se ia dando ao trabalho.
E agora ali estava ele. Contou-me do filho que se afundava na má vida e a quem já não tinha mão, da vida de caridade que fazia em casa dos sogros, e do sogro, um bêbedo, da penúria que vivia há 10 meses, da esmola da mulher que calculasse eu como era isso. Mas que se mantinha sem vícios, nem tabaco, nem álcool, nem nada dessas coisas, e que aquelas mãos nunca se recusaram a nada, que não era homem para se ficar. Que a desgraça de tudo aquilo era aquele seu génio, que acabava sempre por chatear-se com o patrão. E antes de sair ainda insistiu que me devolveria os 40 Euros, que agora a coisa ia melhorar, que aquilo era só para resolver os transportes no primeiro mês, e que quando tudo já estivesse mais certo e recebesse o ordenado logo viria ter comigo para acertar contas, que com ele era assim mesmo, e que eu era um grande amigo …
E eu anuía com a cabeça, que depois logo mos devolveria. Ambos sabíamos que isso não iria acontecer, mas era o jeito mais fácil para esconder a vergonha. Provavelmente no dia seguinte as coisas terão voltado a ser o que ele me contou, mas ainda assim duvido que o torne a ver. Vi-lhe os lábios cerrados, depois o abraço, a querer dizer mais, e percebi que naquele momento se terá ali acabado de esgotar o orgulho daquela parte da infância que ainda trazia consigo, a parte que tinha a ver comigo. Tanto, e uns míseros 40 Euros.
(*)Esta é uma versão atenuada, talvez até um pouco emoldurada, vítima certamente dos tempos vagos a que remonta ou talvez porque aqui não cabe tê-la pormenorizada; Para uma versão mais episódica, escrita com o esplendor fotográfico com que tão bem ele sabe criar, recomendo um dos últimos comentários deste post, pela mão do JPT
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:30 PM | Comentários (15)
Dolly (a terapeuta)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:27 AM | Comentários (6)
agosto 08, 2005
Comunicado editorial
Escrevo e depois clic, clic. Quando finalmente olho para o texto é do lado público que o vejo. Não há grande mal nisso, desde que o leitor conceda que nos cinco minutos seguintes (um toque aqui ou ali, um erro que passou e que agora se corrige), possa esse texto sofrer alterações cosméticas.
Mas, também há os que escrevo e depois clic, clic. E quando finalmente olho para o texto que escrevi … arrependo-me subitamente de o ter exposto. Foi o que aconteceu há cinco minutos atrás. Talvez tarde demais, pois já aqui se acercavam alguns leitores. A esses as minhas desculpas.
Infelizmente, não posso garantir que isso não volte a acontecer (como aliás já antes tinha acontecido). Este é um blogue volúvel. Nem eu o quero de outra forma. Escreve-se, e depois logo se vê. A inversa não me serviria para nada, partindo do princípio que é o desejo da escrita, acima de tudo, o que aqui me prende.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 07:00 PM | Comentários (6)
Delírios náuticos (... 16)
É Agosto, mês de refregas incertas e de marinheiros noviços: tempo de devaneios. E devia ser sempre assim, só de caneta na mão, que sotavento e barlavento isso é para quem quer chegar. Aqui arriba-se e orça-se, que não é a rota que nos fixa, é o vento que volteia e nós que com ele rondamos.
Não há mais na navegação: ou se veleja à rota, ou ao vento. É a prosa cuidada, ou desvarios apenas. Na rota ‘cuidada’ leva-se direcção, é desengano, é fazer do marear travessia e do mar a estrada, que não é de ali estar que se quer, mas sim o chegar mais do que o ir. Ao ‘desvario’ do vento, somos nós que nos levamos, que não interessa para onde, é o ir que é encanto, e chegar é apenas o seu fim. Tragam-se as velas de través, gire-se o leme nos nervos do vento, gingue-se a proa por todos os horizontes que o mar nos quiser dar, que no fim logo se emenda.
Pode-se lançar prosa desse mar que se cruza pela rota, mas não é assim que saberemos escrever o mar. Talvez as vagas, a fadiga, a embarcação que range, mas não o mar, que esse assim riscado não é mar, é água. Pode-se tentar descrever o mar que nos traz pelo vento, mas nunca o conseguiremos, que esse mar não se escreve. A esteira que aqui borbulha já ali é rumo, as brisas que aí vêm já nas velas se esgueiram, tudo no mar apenas se deixa escrito, que quando o temos nas letras já ele se foi, já outro mar nos leva. Só há o mar que vem e o mar que foi, não há mar de que se saiba falar.
Mas teimo eu. E agora sigo por aqui, e aqui mesmo uma vírgula, e vai agora, virar de bordo, e enquanto penso para onde vou já sigo com nova esteira, e já está, que se bolina de novo. Mas rondei a frase cedo demais, e nada conclui ainda. Caçam-se escotas, lança-se rumo para distante, adorna o casco, e finos se fazem os sulcos a sotavento, mas falha-me a frase de novo, que nessa bolina só há tempo para estar, e sonhar, e essas são coisas que não se contam. Mas teimo eu, há que tomar rota - tenha-se a mão no leme e os olhos ao vento que assim não há caminho - e talvez se conte, se assim o deixarmos ir de encontro às palavras.
Agora já mais ao largo, e mais atento, há que evitar faltarem sílabas. É aqui que cambarei, e aqui terei para contar. Que por cada três linhas algo de concreto se deve contar. Senão não há lastro, fica-nos o barco de capa, e dali já não se sai. Mas que se conta quando ali estar é assim, não há chegar, e nisso nada há de concreto. E já devaneio de novo, falta rota, falta mão, agora é já o vento que falta. Aqui ou há rota, e assim escrevemos nós, ou lá se vai a embarcação para as águas que ela quer. Mas bate-nos o vento de capa, e agora já nem estibordo nem bombordo. Nunca virar de bordo cedo demais, que a proa se amolece, fica-nos folga na vela, devaneia-se, perde-se rumo, fica o texto sem o ser. Desespero já, e é assim mesmo, é aqui mesmo que lanço ferro - que continuar a escrever sem que depois saiba amarar o texto, não é coisa de marinheiro
Mas torna o vento e já vai tensa a embarcação, e rasga a quilha o texto na página branca, que é assim que se desliza, não há timoneiro, não há vontade, há apenas o mar que se escreve. E saem a borbulhar da popa voraz, as letras todas que a esteira vai levando. É assim navegar ao vento, deixar que o mar se escreva. E lá ficou o farol de estibordo, lá se dobrou o pontão de entrada, e já mais longe, já não vejo o texto, que é o mar que me leva agora outra vez. É o movimento que conta, a água que passa, é este ir assim que não é preciso mais para chegar ao fim do texto. Mas não é mar, é apenas texto que o conta. Que o mar, esse não se deixa falar.
Velejar é isto, escrever sem parar, sem querer chegar, é fingir que se escreve o mar que não se sabe contar.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:10 PM | Comentários (10)
Olhar outra vez
Estava uma luz tremeluzente que desenhava com riscos volúveis o seu redor ...
Ou então não. O mesmo local, a mesma noite, mas nada se vê para além daquela luzinha mortiça. [As coisas, mesmo que se olhadas exactamente no mesmo instante, podem parecer tão desiguais. E podem chegar a ser tão diferentes que nem se chegam a encontrar na mesma realidade] ...
Ou então não. Poderemos ser apenas nós que nos atraiçoamos ao querer vê-las sempre da mesma forma. A forma que nunca foi delas. Ou que já não é delas ...
Ou então não. As coisas não mudam assim, nem nós as vemos diferentes. Continuam a ser como são, apenas precisamos é de as compreender outra vez.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:25 PM | Comentários (1)
Hoje ao pequeno-almoço, para quem quisesse ler
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:06 AM | Comentários (8)
A reler coisas antigas,
de quando ainda saltava muros
e a pensar …
… já fui muito maior do que sou hoje!
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:45 AM | Comentários (4)
agosto 06, 2005
Dolly (um momento intelectual da)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:20 AM | Comentários (7)
agosto 05, 2005
Delírios náuticos (... 19)
Pé ante pé caminho para as férias. Cuidadoso, que não quero despertar o imprevisto, que Deus me salve do que mas possa roubar. Dia após dia conto as gotas da vontade, como água mole que se vai esbanjando neste visco de ficar aqui. Já rastejo no que faço, e assim me hei-de levar até ao dia do zarpar. Que me arrastem os dias, as horas e os minutos que faltam, que há-de ser assim, por justiça, para que o peso das coisas seja mais certo: Se o mar me vai ter por mês inteiro, se eu dele irei assim tanto beber, que a terra de mim abuse nestes dias em que lhe resto, que tudo o que dela tiver de comer, assim farei.
E agora a mesma coisa numa versão "a armar aos cucos":
Pé ante pé caminho para as férias.
Cuidadoso, que não quero despertar o imprevisto,
que Deus me salve do que mas possa roubar!
Dia após dia conto as gotas da vontade
como água mole que se vai esbanjando
neste visco de ficar aqui.
Já rastejo no que faço,
e assim me hei-de levar
até ao dia do zarpar.
Que me arrastem os dias,
as horas e os minutos que faltam,
que há-de ser assim,
por justiça, para que o peso das coisas seja mais certo:
Se o mar me vai ter por mês inteiro,
se eu dele irei assim tanto beber,
que a terra de mim abuse nestes dias em que lhe resto,
que tudo o que dela tiver de comer,
assim farei.
Uns "enter" aqui e ali, depois uns itálicos a fazer parecer coisa antiga, e fica logo com outro ar não é ?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:38 PM | Comentários (16)
Aos amuados até o quadro dos recados serve
Na cozinha, mesmo em frente da mesa onde resolvemos algumas refeições, pintei seis azulejos com uma tinta preta especial. Supostamente isso serviria para um quadro de ‘memos’, dessas coisas que lembram das faltas do frigorífico, recados, etc. A verdade é que aquilo tem sido usado para ‘postar’. O último que por lá deixei dizia assim “ Eu, nós e o mundo”. Nem sei bem o que isso queria dizer, mas acho que era para espicaçar os miúdos em conversas sobre a nossa individualidade e os círculos concêntricos que em nós formam os conceitos de comunidade.
Anteontem aborreci-me seriamente com o Francisco e a coisa agravou-se a ponto de determinar certas regras que agora ele deveria cumprir. Ficou arreliadíssimo, mas não recalcitrou o que quer que fosse. Nisso sai a mim, amua simplesmente. Quando ontem nos sentámos à mesa o que lá (r)estava dizia assim: “ (apagado), nós e o mundo”. Percebi-lhe a raiva no “eu” que se tinha embaciado. Respeitei-lhe o gesto. Sem pretender confrontá-lo directamente, insinuei apenas o quadro preto. Ele acenou que sim com a cabeça, subtil mas explicitamente.
Parece-me bem que aquele quadro, mais do que cumprir fins decorativos ou como instrumento da logística da cozinha, irá mas é mostrar-se particularmente útil para servir os nossos complexos e acabrunhados códigos comunicacionais. Quem sabe não será a última reserva, nos momentos mais críticos desta casa de amuados.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:26 PM | Comentários (9)
"Irritadices"
O país arde, a blogosfera está parada, o trabalho silencioso que eu tanto queria pôr em dia não flúi, a maior parte dos meus amigos está de férias, cá em casa estamos todos esfalfados, e eu ando imprestável e irascível.
A melhor parte do almoço é quando ele nos interrompe. Mesmo que seja só por causa de uma tosta mista.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:06 PM | Comentários (4)
Acordo
E de imediato a primeira pergunta que ressalta em mim é: E hoje, como vai ser?
[Às 4h da manhã fomos acordando todos cá por casa. O ar era quase irrespirável e a casa cheirava a lareira. O rio que se costuma ver das janelas da frente estava tapado por uma cortina de fumo espesso. Ouvimos a rádio: parece que era lá longe, para Sintra e Mafra. Parece que era "lá longe"]
Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:00 AM | Comentários (5)
agosto 04, 2005
Blogs e sensibilidade
JPT, (afinal) sempre há uma ‘mesa’ onde se trocam conversas. Lamento a perda que (afinal) sentes, e é talvez vampirismo, mas tenho de dizer que gosto muito quando escreves assim, essas coisas que se eu soubesse escrever como tu, certamente escreveria assim.
De uma mesa se ouve a conversa da outra? E ficaram vazias aquelas que escutavas? Não te levantes tu daquela que eu escuto.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:58 PM | Comentários (4)
Dolly
[ hoje não há Dolly ]
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:30 PM | Comentários (2)
Holocausto – arde o país, ardemos nós
Horrorosas as imagens que a televisão transmite, e os testemunhos que lemos e ouvimos. Não há palavras para descrever tudo isto, nem ninguém que por aqui passe precisa de mais palavras. Não o sei descrever, nem creio que o precise de fazer.
Penso sim (no pouco já) que se poderia fazer no domínio da prevenção e da sensibilização (que ninguém ganha a guerra contra o fogo com baldes e ramos de oliveira, e mais não há). A verdade é que não vi uma campanha mais intensificada que visasse esclarecimento à população, sobre os cuidados, a prevenção e a protecção do fogo. Bem sei que é senso comum, mas temos todos em comum o mesmo senso? E também não vi nenhum responsável (e já se justificava ouvir alguma coisa) que mais do que arranjar desculpas nos demonstrasse campanhas organizadas, lançasse apelos, esclarecesse sobre as formas organizadas de como a população pode ajudar, nada. Bem sei que não sou propriamente um homem que vive colado aos noticiários, mas há muitos outros, seguramente mais de metade da população portuguesa que ainda estará mais longe das notícias e dos jornais que eu, e se a mim pouco chega... Nos países frios, o estado zela no combate à neve e a população está informada dos procedimentos e cuidados a ter com o frio. Nós somos um país de chamas, e nada disto é (infelizmente) novo para nós - já devíamos ter aprendido tanta coisa. Não são as chamas que devemos combater, que essas haverão sempre de nos vencer, são as faíscas, as beatas, os fogareiros, as queimadas, os descuidos e os incendiários que as alimentam. Nem é cada um por si, com um raminho de àrvore numa mão e um balde na outra que assim contribui de forma relevante, somos todos juntos, enquanto colectivo, enquanto sociedade que se organiza para combater este monstro. É difícil perceber isto? Galguem kilómetros de gramofone na mão, requisitem as rádios e as televisões para uma campanha séria, substituam as carantonhas nos cartazes de campanha que decoram os ‘outdoors’ por imagens evocativas, encomendem campanhas aos publicitários por metade do que gastam na promoção de personalidades, câmaras, autarquias e partidos, mas por favor, façam alguma coisa para além de discursos e discussões em volta de helicópteros e bombeiros. E há tanta coisa para fazer antes das chamas, e às vezes custa tão pouco!
Já agora, só mais uma coisinha, esta sobre os dementes incendiários (estou enganado ou terei lido que 60% dos fogos são postos por esses anormais de *****? mesmo que esteja enganado, que sejam só 10%, ou 5%) e a comunicação social que continuamos a ter. Falo das imagens que nos chegam, dos momentos de terror, mas falo sobretudo das imagens das chamas, das labaredas, das faíscas, do mal ardente que se vê nos campos, nas casas e nas caras. Não se mostra o sangue a um vampiro pois não? Então do que estão à espera para fazerem um verdadeiro serviço público e deixarem de brincar com o fogo. Por favor, não passem imagens do fogo!! , escondam as consequências dos actos dos loucos, escondam o protagonismo que um incendiário encontrará implícito nestas imagens do holocausto, afastem essa gente do fascínio da ‘bela obra’ que fizeram. Informem, façam um pacto na comunicação social, unam-se numa campanha de sensibilização também, mas não sejam ingénuos, não mostrem o sangue aos vampiros!
(desculpem o desabafo, e a ortografia, que aqui também se arde)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:15 PM | Comentários (7)
II - o Toldo
A COR E A LUZ– os segredos dos sentidos
É notável o resultado da eleição da cor na ambiência recriada neste ensombro. O níveo e espesso branco que se escolheu para a coloração das telas, assim como a quadratura destas, contribui para uma maior identificação com as velas das nobres naus portuguesas que dão o mote inspirador à obra, ao mesmo tempo que trabalha de forma admirável a luminosidade assim filtrada.
O sol que é deixado transpirar de forma delicada por esta cobertura, envolve-nos numa tonalidade sépia que inspira um ambiente clássico e repousante. Esta suave luminescência é reforçada pelos tons pastéis da madeira utilizada pelo “deck”, resultando da mesma um ambiente acolhedor, fresco e elegante, que se espraia ao longo de toda a organização do espaço, e nos convida numa sedutora viagem pelos sentidos.
(Outra vez o telemóvel? Mas as coisas nesta casa parece que têm asas!? Porque raio haveria ele agora de ir parar em cima da mesa alguém me diz? Olha, agora vai mesmo assim … mas que chatice)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:50 PM | Comentários (4)
I- Toldo
AS TELAS E O CORDAME – uma elegante alusão náutica
Todo o conjunto é uma explícita alusão às velas, e estas ao mar. A cava que se forma em cada uma das seis telas, inflada pelas brisas, brinda-nos com uma convexidade geometricamente suave e agradável, e que inspira o visitante da sua sombra a zarpar em evasivas navegações. Essa alusão náutica está presente em toda a obra, nas ilhózes, nas entreforras, e por fim no cordame que é intencionalmente deixado cair em pontas, das uniões onde opera.
Todos os pormenores ostentam uma clara inspiração vélica. Esta evidente associação marítima é ainda mais reforçada pelo movimento ondulado que cada uma das telas insinua sob o efeito das erráticas refregas de vento que as varrem, acentuando a fantasia dos mares, e convidando a agradáveis momentos sabáticos aos quais nem o mais prosaico convidado resistirá.
(Mas quem é que deixou a merda do telemóvel em cima do muro? Ãh? … quero lá saber se ainda estamos “no ar”, o que eu sei é que ando aqui a esforçar-me para ver se vendo aquela gaita e só vejo gente à minha volta a atrapalhar-me! Assim não posso mostrar a outra foto que estava bem melhor! E depois a canícula acaba-se e lá se vai o negócio!!)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:04 PM | Comentários (7)
Porque hoje estão 40º C ...
é talvez a altura própria para vos apresentar, e em exclusivo
Pois estará certamente o leitor mais assíduo lembrado de quando aqui se projectou a antepara para o meu pátio, projecto esse que veio aliás a ser enriquecido com valiosos contributos para a sua concepção, e que resultou no espaço harmonioso e funcional que aqui foi esboçado.
Cumprida a obra, (da qual presentemente o autor desfruta orgulhosamente), é altura de vos apresentar a mesma, o que faremos espaçadamente ao longo do dia (e sempre que a l(ab)uta deste vosso apresentador se puder ver interrompida). Para além das incontornáveis imagens que aqui serão disponibilizadas, contamos ainda poder abordar, (com despretensiosas e singelas palavras), alguns aspectos da sua natureza conceptual.
No fecho desta prefação, não podemos omitir os nossos sinceros agradecimentos aos cunhados e comentadores que deram o seu valioso préstimo à obra, e sem os quais estaríamos agora a tostar aqui neste árido e inóspito lugar.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:45 AM | Comentários (7)
Dolly (+16)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:45 AM | Comentários (4)
agosto 03, 2005
Acho indecente
Sou quase o único que ainda posta em Agosto, aqui esforçado no meio da canícula só para animar a magra hoste que não está na praia, e mesmo assim não tenho leitores. Hão-de cá vir em Setembro … que sempre quero ver se aguentam a minha ausência.
Seis?! Palavra de honra que ainda agora vi 6 on-line!! Eu e esta miséria dos queixumes. Queiram desculpar caros leitores.
Sete !!! Agorinha mesmo! E nem estamos na hora de ponta. Deve ser dos gif's, tenho de pôr mais gif's destes. E trab..., traquê? Ah pois, já vi a resma. Com licença, que isto vai voltar a 6 até ao fim do dia
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:39 PM | Comentários (16)
Quem disse que não se passa nada em Agosto?
No preciso momento em que giro a chave, ouço vir um carro completamente baldado. É impossível não reparar. Interrompido assim, sigo-lhe a velocidade com um abanar de cabeça reprovador. Mas subitamente o Clio branco bloqueia as rodas e vejo-o arrastar-se numa travagem longa, de través, claramente na minha direcção (!) Já lá não estou. Instintivamente protejo-me junto à frente do meu carro, deixando-o de permeio com aquele filme de acção que ali me envolve – só depois penso na estupidez deste raciocínio de avestruz, assim a livrar-me da desenfreada viatura, para a trocar pelo impacto do meu carro, caso este fosse abalroado. Mas já o afogueado Renault se estanca ao atravessado na espinha do estacionamento, aí a uns dois metros de mim. Travam-se-me os impropérios na garganta que já as portas se abrem com a mesma desenvoltura do automóvel que até ali chegou. O susto troca-se pela preocupação. Saem de lá dois marmanjos que deixam as portas escancaradas e se lançam na minha direcção. Vejo na mão do que sai pelo meu lado uma coisa a luzir. O outro enquanto circunda a frente do carro levanta a camisola por trás com uma mão, e com a outra agarra (vejo-a distintamente) … o punho de uma pistola. Não pode ser, isto não me pode estar a acontecer. Deixo-me descair sobre o capot, sem reacção, manso, é o que quiserem. Mas ... passam por mim! Nem sequer me fitam, (parece que afinal eu não faço parte deste filme), e lançam-se que nem loucos pela ribanceira abaixo.
Ainda no recobro da situação e a cena repete-se. Lá da esquerda ouço de novo um guinchar de pneus. Desta vez é um jipe da GNR. Recapitula quase a mesma trajectória e com uma destreza apreciável estaca paralelamente ao Clio. São dois homens e uma mulher. Repetem os mesmos gestos dos primeiros, e seguem-lhes os passos de olhar carregado de adrenalina. Os outros ainda se vêm a uns bons 20 metros, e agora começo a recear que esteja em zona de conflito. Nem hesito, desta é que já ninguém me impede de entrar no carro. Ainda tenho tempo para perceber que afinal os primeiros não fogem dos segundos, (ao menos isso), que também eles vão no encalço de alguém. Lá à frente dobram a esquina em passo corrido. Já atrás da linha de batalha, deixo que a curiosidade vença o nervoso, e mesmo com o motor já ligado deixo-me ficar um pouco mais por ali. Quero ver o desfecho. Mas soam dois tiros, depois mais um. Os GNR’s que vão mais atrás, instintivamente, agacham-se. Pronto, nem hesito, está na altura de me pôr a milhas que o fim da história logo vejo na televisão. O telemóvel toca e estupidamente ainda me interrompo para me escusar de não poder falar agora. “Estás no meio do quê?”, ainda ouço.
Nunca mais vou à Bobadela. Reuniões agora, só em Lisboa e em local previamente inspeccionado.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:40 AM | Comentários (8)
Dolly (ai que já me esquecia deste compromisso editorial)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:15 AM | Comentários (9)
Sai um ‘toldozinho’ para disfarçar
A culpa é minha, é até desconsideração, esta de começar histórias que não acabam. E já não são uma nem duas vezes. Mas esse é o risco em que incorro ao atrever-me a contar histórias reais que se passaram comigo. Eu não sei contar histórias nem sou bom narrador, quando muito arrisco avivar memórias, e essas assim extraídas, só têm a parte do meio, sem pontas, sem princípio nem fim. E sucede-me sempre isto: quando tento escrever algo que aconteceu comigo, e sem que o consiga justificar, dou por mim enfartado, já sem estímulo para continuar, sem o saber fazer até. Procuro-lhe uma ponta que já não encontro, deixo-me escorregar para a frente no tempo, e depois volto para trás, ando por ali num tique-taque do passado, mas nada, que ela se esconde.
Em qualquer uma destas histórias (ai o matadouro, durante 3 meses não pude ver um bife à frente) foram mais as situações e as sensações que me ficaram, e foi isso, por um absurdo qualquer, que eu senti necessidade de passar à escrita. Meros trechos apenas, nada que se sucedesse em capítulos com parágrafos tonitruantes. E haveria alguma coisa mais para cumprir nisso? Francamente não sei, talvez o que eu me lembre, ou o que eu quero recordar, se tenha dito no que havia para dizer. Só isso pode justificar esta esquiva desfaçatez de não lhes conseguir dar um fim.
É uma justificação ranhosa não é? Fica então a promessa de um fim com foguetes e fogo-de-artifício, (quando este se quiser escrever), e para as duas, que a do matadouro também anda aqui atravessada.
Mas entretanto aproveito e vou preparando o fecho da história do toldo:
O antes
e o depois
e já são três histórias para terminar! (mas esta é mais fácil) :)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:50 AM | Comentários (9)
agosto 02, 2005
Este blogue devia chamar-se: “Esta coisa de escrever só é mesmo bom é nas primeiras linhas”
Esta coisa da 'acusação em fascículos' já vai em 9998 caracteres. Deve ser isso, chego aos 10.000 caracteres e dá-me a travadinha!
Com esta já deve ser aí a quarta história que fico sem vontade para a acabar.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:40 PM | Comentários (9)
III - Para se ser inocente é preciso conseguir parecê-lo
(Primeiro aquele telefonema inaudito)
Ninguém se sente indiferente quando procura pelo gabinete 16ª nas instalações da polícia judiciária com um cartão ao pescoço que é distintamente de cor diferente dos outros, sobretudo se esses outros, de mangas arregaçadas, forem os que aparentam um ar caseiro e jovial. E isso pode ter efeitos psicológicos agravados se depois nos acomodarem num banco de madeira, na berma de um corredor austero, ao longo do qual vemos cruzar continuamente indivíduos com ar cabisbaixo e nada integrado, em passo arrastado por grilhetas invisíveis, e com um cartão ao pescoço, de cor igual ao meu.
Por princípio sou um indivíduo sereno e cerebral pelo que o insólito da minha situação já tinha sido várias vezes mastigado, estando eu convicto (pelo menos julgava estar, ou estaria nos primeiros momentos de espera) que a justificação que em breve intentaria junto dos Agentes da Autoridade (e aqui já exagerava em pronunciá-los prenunciá-los com as letras maiúsculas do temor, embora ainda não o soubesse), certamente iria dar tudo isto por resolvido. A verdade é que a natureza das acusações só por si deveria bastar para que qualquer agente experimentado tirasse daí as suas ilações, como aliás comecei por inicialmente presumir. E enquanto por ali me via sentado, e pela enésima vez, discorria sobre as mesmas, nos termos em que o prestável Agente B me as tinha enumerado.
Pois a menina L, que diz ser sua colega lá no Instituto, afirma que o senhor incorreu em coisas gravíssimas, algumas delas – devo acrescentar – para mim inéditas, e olhe que já por aqui ando há mais de 15 anos. Nada disto me parece muito comum, mas compreenderá que mandam os procedimentos que solicite a sua vinda até cá, para prestar declarações sobre o que esta Senhora refere … Ora, ela insiste que o senhor se chateou com ela no autocarro e que (1) usou de violência com o intuito de lhe cortar uma madeixa de cabelo ( e ressalva que quer destacar esta como acusação própria), mas que ainda que não se terá ficado por aí, pois que ao fazê-lo tinha como fito uma (2) espécie de feitiço, de que ela foi vítima e sentiu na pele durante largos dias. Como se não bastasse, refere ainda que o senhor, não contente com o mal causado, lhe (3) terá subrepticiamente injectado uma substância - através do uso de uma seringa - nos Yogurtes que ela transportava no supermercado, para isso tendo-se fingido acercar dela casualmente, e que também nisso – insiste ela – se perspectivava uma tentativa de envenenamento, pelo que, receando tal coisa, se terá desfeito da prova do delito. Mas caro senhor, as coisas não se ficam por aqui, e ao que parece terão estes sido os três delitos ainda assim menos graves, e que ocorrem na sequência do seu desagrado por a dita senhora, até então mantendo uma relação de amizade consigo, não se lhe ter oferecido para uma relação sexual. E terá sido aqui que as coisas terão azedado ainda mais, posto que ela também insinua que o senhor, vendo-se assim contrariado, a (4) terá forçado a ter relações sexuais, a que ela se conseguiu escapulir, o que ainda assim não deixa margem para dúvidas de se tratar de uma tentativa de violação. Finalmente acusa-o ainda de uma (5) perseguição maníaca (nos transportes públicos, na vigília á casa onde mora, nas aulas que frequenta no Instituto, durante as lides das compras do supermercado do bairro) e que terá acabado por afectá-la psicologicamente, (note que a senhora refere que isto já se passa após a violação de que foi alvo). Terá ainda o senhor, em meados de Julho deste ano, e vendo-se soçobrar em todos estes intentos, chegado ao limite de a (6) agredir brutalmente na via pública.
É evidente que tudo isto era um enorme absurdo. E se estas últimas acusações, as mais graves e mais comuns, até poderiam ter sido perpetradas por um crápula qualquer, já as primeiras eram dignas de um conto de bruxas, e (resmungava para comigo), pouco razoáveis de supor num rapaz bem composto, prosaico estudante de engenharia, tão vocacionalmente distante dessa coisa das magias negras. Mas estar ali, com aquele cartão rosa escuro incomodava-me. E porquê tanto tempo de espera? Repetitivamente, de dez em dez minutos lá desfiava eu cada uma das acusações, os dedos fingindo-se de ábaco, enquanto mentalmente revia o que iria responder a cada uma, e a forma como iria desmantelar aquilo, e até como ensaiaria os gestos e as expressões. Ao fim de duas horas, tinha já o rabo dorido e a cabeça conformada. E de cada vez que remoía tudo aquilo, mais me distanciava da argumentação genuína e espontânea que era suposto resolver desde logo tal imbróglio. As palavras que originalmente interiorizei com alguma naturalidade tinham-se tornado termos decorados de um discurso que já não era o meu.
Quando finalmente um dos Agentes me chamou à porta encontrou um rapaz de corpo arqueado, agastado da espera e da invulgar situação. E os olhos, que foi por aí que o veterano polícia se interessou, eram dois círculos esbugalhados e indiferentes ao que encontravam na sua frente, talvez porque estivesse concentrado num labiríntico algoritmo de justificações que iria ensaiar, mas também porque poderia ser um simples lunático. E depois os dedos, para onde olhou de seguida, entrelaçados de forma invulgar, num tenso espasmo, como se tivessem a enumerar algo, mas também uma possível evidência de um tique neurótico. Em tudo isso me sentia ser observado, clinicamente, e por cada justificação que encontrava, antevia logo uma alternativa comprometedora. E nada me fazia retornar a um comportamento normal, à aparência inocente e injuriada que eu deveria aparentar. Até a boca, trauteando sozinha as palavras baixas que fazia por não esquecer, também ela se mostrava longe de contribuir para a imagem branda que um rapaz inocente naquela situação deveria mostrar. E a consciência de tudo isso, de me ver assim observado, tudo isso contribuía ainda mas para que eu, incontrolavelmente, parecesse um receoso e apoquentado suspeito.
Ainda me tentei recompor. Mas quando entrei na sala tinha a noção de que dificilmente poderia ter dissimulado, (lá estava eu a pensar em disfarçar, mas disfarçar o quê? Representar um inocente, camuflar um criminoso? Mas eu não era culpado!), aos olhos de um arguto investigador, a postura de um presumível culpado.
(...)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:45 PM | Comentários (7)
Ainda a propósito d’O Comércio do Porto e d’A Capital
O José Quintas desenvolve uma excelente análise sobre o medonho destino da comunicação social escrita em Portugal. Nada que se desconhecesse mas, constatações assim trazidas de forma tão lúcida e fundamentada, e sobretudo por alguém que não faz parte, justamente, desses 'media', não pode deixar de me fazer sentir angustiado (e sim, falo de alguns princípios democráticos, como por exemplo o direito a exigência da diferença de opinião). Isto, dá que pensar, no que tudo isto irá dar.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:50 AM | Comentários (2)
Um 'ca ganda melga' é o que eu sou

Casa:
Quantas vezes já disse que o talher não se agarra assim …
Não se esqueçam que amanhã devem …
Olha, é só para te lembrar que no sótão …
Quem é que tratou do cocó dos gatos …
Vê o ar dos pneus que aquilo …
Já disseste à tua mãe que …
Trabalho:
António aqui deixo lista das correcções ….
Luis, já avisei os homens da TT que para a semana ….
Zé Manel, lembro-te que o servidor …
Junto anexo os vários itens que é preciso tratar junto de …
Boas férias a todos e aproveito para recordar …
Está visto, o meu destino é ser um gajo muita chato !
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:00 AM | Comentários (5)
Dolly
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:05 AM | Comentários (2)
agosto 01, 2005
Dolly (breves palavras prévias)
Porque o verão, como é sabido, estimula anormalmente a actividade intelectual, irei dar-me ao exagero de aqui deixar intervaladamente alguns postes mais esotéricos. Para que o leitor não os estranhe completamente, tive nos critérios de selecção a preocupação de os relacionar com esta época estival. As pranchas que aqui serão afixadas, de origem alheia, e que dão pelo nome de Dolly (famosa musa dos Cartoons), apesar de evocarem todas elas bons costumes e usarem de um recatado traço, foram encontradas em sítio menos decoroso, e que por essa razão me vejo proibido de citar.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:43 PM | Comentários (7)
Vaidade
Se é para zarpar,
Que me importa se é pouca vela

Ou será que as coisas que fazemos
Mais do que o que delas queremos
Só servem para o que parecemos ?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:15 PM | Comentários (6)
Por detrás de uma Empresa que fecha …
Quando ouço que mais uma outra empresa fechou sinto sempre esta enorme sensação de perda. Não é o dano económico (racionalmente, admito até que na maior parte dos casos, dessas empresas inviáveis provenha já somente um encargo), nem sequer a pulverização do contexto sócio-afectivo que se havia criado entre os seus colaboradores (são aspectos complexos esses, e estou distante, não os posso valorizar). Penso sim nos processos de trabalho, nos segredos da profissão, no fim declarado de um “saber fazer” que ao longo de anos foi apurado naquela organização, único, e que é agora subitamente aniquilado. Há um mestre que provavelmente não poderá mais passar os segredos do seu ofício aos mais novos – tudo o que ele aprendeu ao longo da vida irá sendo esquecido numa reforma prematura e mole de que ninguém fará uso, já nem ele, até ao dia em que em jeito de epitáfio alguém de mais idade dirá “era um dos melhores torneiros que conheci”. Só isso. Uma profissão inteira assim esbanjada, sem quem lhe possa dar continuação. É cortado o princípio fundamental da aprendizagem. É como se tudo voltasse a começar do zero. Quando uma casa fecha, todos os seus misteres se fecham para sempre numa história que daqui a uns tempos não ouviremos a mais ninguém contar. Mas é apenas isso que incomoda? Então e o impacto social? E as desgraçadas famílias que ficam sem o seu ganha-pão, não é isso o mais importante? Posso parecer frio e hipócrita, até talvez tenham razão, mas dou por mim a olhar lá mais para a frente, para o futuro - o futuro que já não será uma continuação melhorada do presente, um futuro que terá de começar de novo, e sozinho. Um futuro ignorante.
E por favor, não me venham dizer que os velhos já nada têm a ensinar neste mundo novo, e que a história agora é outra. Não enquanto a parte nobre e fundamental de uma profissão ainda se basear no SABER. Não enquanto a aprendizagem – não confundir com estudos e diplomas – for a forma mais efectiva da valorização do homem.
E depois há mais, há ainda muito mais que isso, a outra parte que eu não consigo explicar, mas que sugiro veementemente que a possam sentir aqui …
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:00 PM | Comentários (6)
Imodestamente
Sou um gajo blogue importante, ponto! Quantos por aí têm um clube de associados como este? Pelas mãos da sua Presidenta, com tão reconhecida criatividade e empenho directivo, começo a temer que “o rato tenha parido uma montanha”(*).
(*) Eu sei que a expressão não é bonita e que pode dar azo a mal-entendidos, mas só me vinha aquela outra do “dá deus nozes a quem não tem dentes” e essa seria confissão a mais já.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:00 PM | Comentários (11)
Viva, entrei de férias !!!
Como? Não, não fui para nenhum lado. Se vou fazer umas voltinhas e uma praizinha por aqui? Não vai dar, tenho trabalho. Mas o que não está a perceber? Eu não disse que “fui” de férias, disse que “entrei” de férias. Quem foi de “férias” foram os outros todos !!
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:05 AM | Comentários (6)




