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julho 13, 2005
Vai, não vás, vai, não vás
E penso, estará ele lá bem? São 15 dias, ao relento, é muito tempo, e sem telefones, e tão novo ainda. E se por acaso algo correr mal, sei lá, um grupo de miúdos sem mais nada que fazer senão para embirrar com alguém. Ou as botas (irra, eu já deveria saber que nunca se devem usar botas novas para grandes caminhadas), e se lhe fazem umas bolhas enormes, e ele sem outras, a arrastar-se dorido todos os dias nas explorações de costa-a-costa. Ou até coisas mais simples, como as saudades dos livros que costuma amontoar na mesinha de cabeceira antes de adormecer, ou do quarto, ou de nós. Pensar que algo que corra mal terá de ser suportado por ele durante duas semanas, sem um aconchego sequer, isso transtorna-me. Como vai ele depois passar cada um dos dias que ainda faltam? E eu, onde estarei eu para o consolar e lhe dar ânimo, e explicar-lhe(me) que nem tudo o que sobre ele sucede eu posso controlar. Mas posso, se for preciso meto-me no avião e trago-o de volta, ai isso trago. Não, isso não creio que deva fazer, e também não saberia se ele precisaria que o fizesse, ou se quereria. Oh, provavelmente irá andar tão encantado nas explorações e na montagem dos acampamentos que nem se lembrará de nós. Claro!, desde quando é que um miúdo se entristece ao ver-se assim numa ilha selvagem. Claro que vai tudo correr bem. Eu devia era andar orgulhoso de o ver partir assim, já rapazola autónomo. Mas, … mesmo assim, … nada me livra desta angústia.
Agora que os vou ‘libertando’, começo a perceber que deixá-los crescer é também saber suportar esta angústia. Que ser pai é também ser capaz de esconder em nós este afogo com aquilo que não podemos fazer por eles. Provavelmente irá ser sempre assim, até que eles se tornem homens. Ou talvez mesmo para além disso, talvez para sempre, mesmo quando já homens, quando nem sempre eu lhes puder valer.
( Não sei porquê prevejo que hoje vai ser servida alguma ironia ao jantar. Já estou a ouvir um “com que então eu é que sou mãe galinha, ein?”)
Publicado por Eufigénio Lagoa às julho 13, 2005 07:42 PM
Comentários
Fala-se tanto da tarefa desenvolvimental de autonomização do adolescente e raramente nos debruçamos sobre o outro lado da questão: o luto do papel de superpai que vamos perdendo...
Publicado por: Condessa às Avessas em julho 13, 2005 11:05 PM
Provavelmente irá ser sempre assim...mesmo para além disso de eles serem homens. Mas também se aprende a conviver com a plena autonomia deles... quando não há outro remédio.
Beijinhos
Publicado por: madalena em julho 13, 2005 11:14 PM
É disso mesmo que me "queixo" cara Condessa
Madalena, esse comentário é muito bem vindo. Confesso até que ainda escrevia o post e já estava a pensar que precisava dele. Terá de ser assim não é? também nós haveremos de passar pela puberdade deles, a adolescência e o seu estado adulto, também nós aprenderemos a conviver com isso? Melhor assim, tanta exaltação já me preocupava :)
Publicado por: Eufigénio em julho 14, 2005 10:01 AM
E eu confesso que lia o post (e já não é a primeira vez) e já estava a pensar que IREI precisar dele(s)...
Caro Eufigénio, posso ir tomando notas? Também tenho dois rapazes, também preciso de aprender...
Abraço!
Publicado por: Andy em julho 14, 2005 10:14 AM
Certamente Andy, embora duvida da sua utilidade. Aqui são mais as dúvidas que as respostas
Publicado por: Eufigenio em julho 14, 2005 10:18 AM
eufigénio,a coisa que mais nos ensina a minimizar essa angustia, é quando algum dos nossos filhos não tem asas para voar.infelizmente, é a pior maneira de aprender a benção que é essa autonomia que tanto nos preocupa.
um abraço
Publicado por: riquita em julho 14, 2005 10:27 AM
Riquita, e assim percebemos melhor como esta sensação de os ver desabrigados faz parte da felicidade de ter, como dizes, uns filhos "com asas". (e este mundo de pai, como tudo o que só se foca em si mesmo, com estas "angustiazinhas", também ele pode ser pequenino)
Obrigado pelo teu comentário.
Publicado por: Eufigénio em julho 14, 2005 10:41 AM
Como filha adulta, sinto um enorme prazer em perceber que me permitiram que as asas crescessem, que me tenham ensinado a voar mas, que ainda hoje, procuro e encontro o ninho seguro onde voltar.
Publicado por: karla em julho 14, 2005 11:07 AM
Então, que das dúvidas nasça alguma luz, e que a(s) tua(s) experiência(s) e as ideias dos que aqui passam nos façam crescer a todos e ajudar os nossos pequenos! E suportar as nossas angústias...
Publicado por: Andy em julho 14, 2005 11:10 AM
Karla, eu também tive a sorte de ter pais corajosos que me souberam "dar asas". E hoje, quando sinto os meus filhos, percebo que isso será talvez das missões mais dificeis do ser pai: esse saber estar "perto e longe".
Andy, e que belos contributos aqui têm havido para tanta "angústia"
Publicado por: Eufigénio em julho 14, 2005 11:29 AM
Sr. Pai Galo,
Se bem me lembro, os nossos Pais deram-nos estas liberdades mais cedo ainda.
E nós sentíamo-nos uns heróis. Raramente pensávamos no conforto do lar. E ficavam para sempre estas estadias longe, sobretudo se fossem intensamente vividas.
Não te amargures, orgulha-te de poderes proporcionar esta aventura à criança. Que sorte que ela tem.
Publicado por: MB em julho 14, 2005 01:07 PM
Sobretudo folgar de tanta "supervisão" não é MB? Pois
Publicado por: Eufigénio em julho 14, 2005 05:06 PM