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julho 19, 2005
Que um bom ócio requer sempre algum cuidado de programação
O domingo é indubitavelmente o melhor dia para a prática de um dos desportos que mais me entusiasma, o belo do ócio. Porventura, os menos experimentados, cairão facilmente no erro de considerar que esta é uma actividade apática e sem qualquer arte ou esforço por parte do seu promotor, e quase posso até presumir ouvi-los dizer que o ócio será todo igual, que mais não é que “deixar andar” o tempo. Nada de mais errado, só possível se ajuizado por alguém que se deixou enrodilhar num permanente e frenético estado ocupacional, que nos torna uns desmesurados dependentes funcionais, e que nos enche de evitável actividade interrogativa. E manda nisso a compostura que nos envergonhemos dos momentos em que por falta de compromissos não nos conseguimos sentir extenuados, atrasados e preocupados com tudo. Desses, receio que nunca venham a poder sentir o prazer supremo de nada fazer, e nisso deixarem de usufruir da forma mais grata e genuína de usar o tempo.
Já para aqueles que por distracção ou convicção encontram em momentos da sua vida algumas réstias de tempo para gastar - ai abençoados seres - importa talvez discorrer um pouco mais sobre isto do ócio. Não, não basta espojarmo-nos em cima do sofá e entretermo-nos a entreabrir e a fechar os olhos, abusando do tempor com brincadeiras que tentamos com as nuances do vermelho que o sol nos pinta nas pálpebras. Lamento decepcionar alguém, mas até o ócio, se se pretender que seja devidamente saboreado,requer cuidados disciplinados e uma treinada imaginação. Tudo tem de ser preparado com uma acérrima obstinação, ou caso contrário arriscaremos a ver esse tempo que queremos reinventar só para nós, mesmo que seja para o maltratar, ser interrompido por um contratempo menor, desses que nascem das coisas que alguém nos faz crer que temos de fazer hoje quando poderíamos bem fazê-las amanhã.
Enfim, o ócio não é uma simples disciplina da ronha, da qual julgamos poder usufruir gratuitamente. Para tirar pleno partido desta actividade de remanso é necessário uma férrea preparação prévia, acautelando para que nada lhe falte ou que venha intrometer-se. Pois já se sabe, assim que nos virmos reclamados de alguma actividade, dificilmente conseguiremos retornar ao estado hibernético que tão difícil é cultivar. Mas, ainda que possa parecer um paradozo, tenha presente contudo que para usufruir desta ancestral arte de lazer é preciso que a saibamos preencher com inúmeros compromissos. Não se assuste o indolente leitor, que esses compromissos, enquanto tal, ainda estão longe de cumprir. Na verdade eles apenas se formulam por nós justamente por sabermos de antemão não os querer cumprir, mas que, para deleite completo, simularemos que são encargo a que não nos poderemos escapar. Eis na prática algumas recomendações preciosas que aqui deixo com o intuito de fazer compreender melhor este tipo de planificação:
1. Nunca se levante cedo. Quando não resistir mais a este padrão mais comum do ócio procure conservar a névoa do sono até ao mais tarde possível – Não se esqueça que um quadro intelectual amorfo contribuirá e muito para os momentos que de seguida usufruirá
2. Respeite sempre a fase do ócio do roupão, e se possível conserve umas peúgas nos pés e o cabelo despenteado – o corrente erro da higiene matinal e do vestir, não só induz uma actividade exagerada e nociva como ainda o deixará vítima e sem argumentos para qualquer sugestão descarada que alguém se proponha fazer
3. Nunca almoce antes das 15h nem ingira alimentos pesados que impliquem actividade digestiva – esse efeito pode trazer-lhe um sintoma de vitalidade que poderá no limite sugerir a apetência pelo exercício físico
4. Por altura do almoço, se não conseguir convencer ninguém a preparar-lhe uma boa feijoada sugiro que não se predisponha a ir além de uma farinha cérelac – este produto lácteo contem glícidos que o fartarão de forma assaz razoável, e requer além disso poucos cuidados de preparação, resultando num acessível e interessante efeito de fastio
5. Inventarie as vezes que for possível os stocks do seu frigorífico e da sua despensa até conseguir elaborar uma lista extensa de coisas urgentes que deve adquirir urgentemente. Arrisque mesmo sugerir uma ida ao hipermercado – é fundamental assumir compromissos que depois não irá cumprir e isso terá ainda maior impacto quanto o grau de urgência dos mesmos
6. Comprometa-se sempre, consigo, com os seus familiares e com terceiros - se as coisas que escrupulosamente garantirá que não irá fazer não tiverem qualquer impacto, nunca poderá tirar partido do verdadeiro prazer que é poder adiar, cancelar, prorrogar ou ignorar esses contratempos enquanto se espreguiça no sofá da sala
7. Seja generoso. Diga sempre que sim a todos os pedidos de ajuda, propostas de visitas, ajudas na bricolagem, passeios com as crianças, tratar dos gatos e indiscriminadamente a qualquer outro tipo de combinação - não basta não cumprir, para aspirar ao ócio pleno é preciso que isso seja feito a troco de verdadeiras consequências para os outros. Só assim valorizará o descanso a que tnto aspira, dando-lhe valor de troca
8. Compre antecipadamente uma playstation e deixe que os seus filhos aluguem dois ou três DVD’s – irá comprovar que o burburinho que ressoa da sala da televisão não só provoca um excitante embalo como pode mesmo constituir um pólo de atenção para a mãe deles, desviando assim a atenção de si
9. Marque sempre horas para todas as coisas com que se comprometeu – e desfrute dos momentos únicos em que primeiro experimenta o incómodo de ter de fazer algo, depois a fase explosiva de sentir que se atrasou sem qualquer motivo aparente e finalmente desfrute do exaltante momento que é poder assumir que não quer saber dos compromissos para nada. Irá notar também que este gesto de indiferença trará um maior aconchego ao seu descanso
10. Saiba resistir aos apelos dos que o rodeiam para que faça algo que já tinha prometido - se necessário ligue o televisor suficientemente alto para que pareça estar interessado e suficientemente baixo para que possa dormitar o aconselhável
11. Se ainda não chegar diga que não tem nada para vestir ou arranje um compromisso atrasado que sabe que depois não cumprirá – guerreie por estes saborosos momentos de ócio que arranjou para si. O pior que lhe pode acontecer é que a família lhe saia porta fora, o que, tendo em conta o lazer pretendido, nem é mau
12. E não se esqueça, não fazer nada só por si não traz prazer, o deleite máximo vem do facto de nada fazer quando tem imensas coisas para fazer. Mantenha ao longo do dia um elevado nível de compromissos, mas evite que isso o faça sair do meio das almofadas.
Posto este rol de bons conselhos, deixarei para mais tarde, sobretudo pensando nos mais activos neófitos, alguns exemplos que poderão seguir.
Publicado por Eufigénio Lagoa às julho 19, 2005 06:21 PM
Comentários
Isto não é imaginação ... isto é muita prática.
Publicado por: karla em julho 19, 2005 10:01 PM
Neófita com réstias de tempo, apresenta-se para restantes instrucções. ;)
Apenas sugeria que no ponto 8 fosse incluído o enorme leque de bons filmes de animação em cartaz para o pai levar os filhos ao cinema quando a mãe está com uma enorme enxaqueca de ócio. ;)
Publicado por: maria arvore em julho 19, 2005 10:03 PM
Ai que isso sabe tão bem...
Publicado por: sofia em julho 19, 2005 11:17 PM
Nãoooo Karla, tenho lá tempo para isso, eu é roupa a pendurar, loiça na máquina, os TPC dos miudos, o jantar que no domingo é por minha conta, apenas fralava do que vejo, nada que tenha tido a sorte de experimentar.
Terás de esperar um pouco Maria A., que pelo andar da carruagem esta semana nãio traz ócio nem ao pequeno-almoço. Essa parte das mães terem ócio é que não percebi bem, isso não é contra-natura?
Como qualquer acepipe que se saiba cuidar de dispor com ar apetitoso Sofia, pois metade do que nós gostamos é provado antes de o termos. Do ócio digo a mesma coisa, demais farta, bom é poder antecipá-lo e preveni-lo cuidadosamente.
Publicado por: Eufigénio em julho 20, 2005 12:05 AM
olha o trabalho a que tu te dás para não fazer nada! :))))
Publicado por: riquita em julho 20, 2005 01:05 AM
É como digo Riquita, não fazer nada sem trabalho não sabe a nada
Publicado por: Eufigénio em julho 20, 2005 01:07 AM
Isto merece uma leitura mais cuidada, com tempo (que por agora não tenho).
Até te vou recomendar um livro sobre o assunto.
Publicado por: cap em julho 20, 2005 02:32 AM
Só um Engenheiro para programar o ócio.
Publicado por: MB em julho 20, 2005 09:25 AM
Agradeço então Cap, sou um estudioso sobre o assunto
Vou encarar isso como um elogio MB (isto da programação das coisas tem muito que se lhe diga, quem não a faz? - nem que seja como se diz na linguagem técnica uma FIFO - First-in-First-out)
Publicado por: Eufigénio em julho 20, 2005 09:40 AM
"A Arte de Não Fazer Nada (Formas Simples de Encontrar Tempo para Si Mesmo)" de Véronique Vienne com fotografias de Erica Lennard. Editora Sinais de Fogo, 09/2001.
http://www.sinaisdefogo.pt
Queres o ISBN? ;)
Publicado por: cap em julho 21, 2005 06:05 PM