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julho 12, 2005

Os complexos segredos da escrita

Raramente tenho algo para dizer. Para agravo meu prometi-me que nunca andaria por aqui a ecoar notícias, isto é, ou sai cá de dentro ou não sai (quase como o neo-realismo do post anterior). Ora, como sabereis nem sempre é fácil trazer algo para aqui só porque se quer. É um exercício que exige um certo método. É preciso deixar embalar os dedos até criar um ritmo de transe. Depois, no final, logo se atenta aos pormenores, mas antes é preciso que saia. Tentarei explicar melhor.

Começo normalmente por aqui, do lado esquerdo do topo da página. Agora deixo que os dedos vão pairando sobre as teclas - essa é a parte mais penosa, ainda se tivesse uns dedos delgados, mas assim, com estes trambolhos espalmados acabo por pisar nas outras teclas, e isso atrapalha-me, interrompe-me - até que o cursor se vá encostando cada vez mais à direita. É importante que tudo saia num ritmo frenético, que nos impeça de pensar, ou melhor, que quase consigamos escrever aquilo que pensamos. Quando já saíram caracteres suficientes para que a linha se quebre e retorne por baixo de novo encostada na esquerda, normalmente paro. Às vezes preciso de um pouco mais, pois é evidente que não posso interromper algo, que mesmo sem nada ser, ainda está a meio de ser alguma coisa. Como agora por exemplo, que já lá vão algumas linhas. Quando assim é, costumo usar o ponto final parágrafo,

que ajuda a arrumar o texto, torna-o mais afirmativo e normalmente não fica mal, pois forma um bloco de quatro ou cinco linhas que não assustará os leitores mais indolentes, que assim saberão que podem passar por cima sem que percam o sentido das coisas, isto claro quando as coisas que assim saem, como agora, não têm nenhum sentido, e mesmo quando não se usa o ponto final parágrafo deve procurar-se usar os pontos para que os leitores, coitados, possam recuperar o seu ritmo natural de respiração, pois que isto do estilo “saramaguiano” não é para todos, os leitores, digo, e ponto, aqui, aqui já convém pôr um ponto. Dizia eu portanto que primeiro que tudo há que procurar chegar ao primeiro parágrafo. Ajuda-nos a ganhar novas ideias, a voltar ao ponto onde estávamos, e além disso torna-se um bom indicador para as porções de texto que o estimado leitor pode saltar.

E pronto, depois lá sigo embalado com a ideia que entretanto surgiu. É evidente que nem sempre isso acontece. Quando assim é e nos vemos enganados pela falta de inspiração sugiro frases curtas. Usar pontos em todo o lado. Quase em vez de vírgulas. Reparem que isso faz parecer que tudo se escreve mais introspectivamente. E quando o leitor dá por ele já não sabe onde íamos. É bom truque e deixa tudo com um ar mais afirmativo. Mas se ainda assim se achar que a coisa está demasiado vazia é melhor apagar tudo e começar de novo. Tantas vezes quantas forem necessárias. Mas claro que há alturas em que não há tempo para novas tentativas. Quando assim é, passo o corrector ortográfico por cima disto e pimba, lá vai post.

Ah, muito importante! convém acabar sempre com um parágrafo curto e conclusivo. É ele que dá razão de ser ao texto, mesmo quando o texto não tem razão de ser (o trocadilho também vai sempre bem e ajuda a realçar algo, mesmo que nada haja para realçar).

Publicado por Eufigénio Lagoa às julho 12, 2005 12:26 PM

Comentários

Ah! Então é assim que se faz para ficar "assim"? Bem me parecia que andava a fazer qualquer coisa muito errada ;)

Publicado por: vanus em julho 12, 2005 12:38 PM

Assim como? Mas eu disse alguma coisa? :)

Publicado por: Eufigénio em julho 12, 2005 12:42 PM

Quando tanto se fala do processo criativo... vem mesmo a calhar. E ainda bem que não te esqueceste do último parágrafo, sempre "curto e conclusivo", tão ontológico e estético!

Publicado por: alchemist em julho 12, 2005 01:04 PM

Depois de te ler de um fôlego com as necessárias pausas na tua pontuação fico na mesma impressionada pela forma como ligas os neurónios às teclas e debitas o sentido da escrita quase a fazer-me pensar que também deves ter uma máquina que faz plim.

Publicado por: maria árvore em julho 12, 2005 01:56 PM

Alchemist, isto era só a explicação de um processo "não criativo". Daqueles em que a ontologia, expugarda dos sons, se resume apenas às palavras que querem sair (não encares este meu vício assim tão adjectivadamente que me deixas em dificuldades para responder aos teus comentários)

Maria olha as vírgulas parece que afinal não leste com atenção o texto e os parágrafos o ultimo em especial o tão mais importante lá está ele lembras-te ? plim

Publicado por: Eufigénio em julho 12, 2005 02:11 PM

plim ?

Publicado por: Eufigénio em julho 12, 2005 02:12 PM

Plim da máquina que faz plim do filme «O Sentido da Vida» dos Monty Python e foi exactamente por ter lido o teu último paragráfo que não terminei o meu com nada «curto e conclusivo». :)

Publicado por: maria árvore em julho 12, 2005 02:34 PM

Meu caro,
Aqui está um belo exemplo que poderia pertencer ao Manual do Guterrismo que te envierei por e-mail.

Publicado por: MB em julho 12, 2005 05:34 PM

Ah, eu dos M.Python só me lembro do Plofff do tipo gordo.

Eu sei que abusei um pouco dos leitores MB, mas não vejo razão para tanta agressividade da tua parte com essas insinuações de porte guterrista

Publicado por: Eufigénio em julho 12, 2005 06:07 PM

Este é um daqueles 'posts' que devia ficar sempre 'à tona' (tipo 'bolha de ar')...

Publicado por: Leonel Vicente em julho 12, 2005 06:38 PM

Que exagero Leonel Vicente ... um tipo faz um "plim" assim como não tem mais nada para dizer e levam-no logo a sério. Era s+o o que me faltava passar por Edite Estrela

(esse termo do João Pedro Costa pegou mesmo, não foi?)

Publicado por: Eufigénio em julho 12, 2005 08:46 PM