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julho 21, 2005

Miseráveis inquilinos é o que somos !

palnetafogo.jpg No limite, pode mesmo não ficar nada. Exagero meu – sempre fica o carbono (talvez um dia quando nos tivermos extinguido alguém possa aproveitar este lixo que deixámos). De um lado uns que ateiam, do outro quem não sabe apagar (*). O crime reparte-se. Por todos nós. E o que mais me ofende é que a casa não é nem era nossa.

(*) Não falo dos bombeiros. Ou também falo. E agora batam-me, com um raminho de oliveira, como (ai miséria), se quisessem apagar um fogo.

Publicado por Eufigénio Lagoa às julho 21, 2005 03:12 PM

Comentários

Pena é que poucas pessoas pensem assim.
Sentem este mundo como garantido e esquecem-se de o cuidar.
Por aqui, passadas mais de 24 horas desde que o fumo começou a aparecer, este ainda é bem visivel, tal como o cheiro...

Publicado por: sofia em julho 21, 2005 05:34 PM

Dizes bem, o crime reparte-se por todos nós. Eu dou por mim a nem querer saber, como se a ignorância me livrasse da angustia de saber que o país arde.

E para ver algum verde, vou até aquele blog com nome esquisito... sexo + crime + qualquer coisa.

Publicado por: karla em julho 21, 2005 05:35 PM

Há dias, falavas das cinzas que caíam no Porto, eu contei que passei literalmente no meio das chamas, de comboio.

Agora, passo numa paisagem quase lunar, coberta de negro com uns resquícios chamuscados de árvores.

E estou-te a falar de dezenas de km2. É horrível. Sabes qual é o comentário que mais ouço? «Pelo menos assim, não torna a arder. E, às tantas, deixa de haver incêndios porque já ardeu tudo!»

Que loucura é esta?

Publicado por: Andy em julho 21, 2005 06:24 PM

Estamos todos a arder!!!

Mas fomos nós que promovemos um desenvolvimento assimétrico do país que potenciou o êxodo para as cidades litorais e a consequente inexistência de gente não-idosa nas zonas rurais para garantir o cuidado normal e de limpeza das florestas?

Mas fomos que nós que não implementámos medidas eficazes de prevenção de incêndios, nem fizémos participar as populações da discussão dessas medidas a não ser pelo voto nas eleições?

Esta bolinha de terreno não é nossa mas o Senhorio acha que é dele e não ouve os inquilinos.

Publicado por: maria arvore em julho 21, 2005 08:54 PM

Ontem ía buscar alguns dos meus rapazes a uma colónia na Apúlia, quando junto à zona industrial de Laudos vimos um incêndio perto de um parque com contentores. Como ía a conduzir a carrinha pedi a um rapaz que vinha comigo para ligar para o 112 para avisar da ocorrência.

Tentámos ligar mais de 10 vezes e desligavam... Quando finalmente conseguimos responderam-nos de forma agressiva que não era esse número. O número dos bombeiros era o 117. Ninguém tinha conhecimento de tal mas se calhar é porque andamos muito distraídos.

Toca de ligar para o 117. Desta vez fui eu que fiz a chamada. Para meu grande espanto, quando de forma solícita começo a informar sobre o incêndio ouço do outro lado uma voz irritada e arrogante que se limita a dizer que já está um carro dos bombeiros a caminho e que já tinham conhecimento da situação, fazendo-nos quase sentir culpados por termos tomado esta iniciativa.

Uma das minhas batalhas junto dos rapazes é a prática ( e não tanto a teoria)da cidadania, mas quando eles assistem a este tipo de resposta questionam-se se valerá a pena descentrarem-se de si próprios e intervirem na comunidade.

Publicado por: Condessa às Avessas em julho 21, 2005 10:42 PM

A Condessa relata uma experiência menos boa mas, pelo meu lado, não podendo dizer que ligo todos os dias, mas tendo já ligado o número de emergência 112 por diversas vezes, fui sempre impecavelmente tratado, com educação e celeridade.

Publicado por: Santa Cita em julho 21, 2005 11:34 PM

Os incêndios são apenas uma pequena parte do mal que estamos a fazer ao planeta que vamos deixar aos nossos netos.

Publicado por: Marco Oliveira em julho 22, 2005 09:49 AM

Pode ser uma pequena parte Marco, mas cada uma combate-se com medidas específicas, e esta, confesso, é das que mais mexe comigo. E certamente que não se resolve com esta estúpida resignação, tão à portuguesa, como a Sofia, a Karla e o Andy referem. E deve ser isso que está por trás desta vergonha de não emprestarmos os nossos esforços na proporção da calamidade que todos os dias ocorre. Mas sobre isso ando com uma vontadinha de dizer umas coisas, (acho que sou eu também a expurgar esta sensação de impotência e vergonha). Para já não posso deixar de pensar que somos muito pouco exigentes com quem se entrega a combater os fogos. Estou a ser injusto? Como é que eu tenho lata para dizer uma coisa das pessoas voluntariosas que chegam a perder a vida por isso? É precisamente por isso, a besta de fogo, e as bestas que os ateiam voluntário ou involuntariamente, não se combatem com boas vontades, mas com profissionais preparados e meios empenhados, como aliás leio por trás do que diz a Karla e a Condessa às Avessas. E Santa Cita, se há boas excepções não são certamente na forma como atacamos o fogo. Estou a ser injusto? Lá para o fim de semana, no aconchego do lar, por entre notícias do holocausto, hei-de ter oportunidade para me justificar melhor.

Publicado por: Eufigénio em julho 22, 2005 11:56 AM

Isso do voluntariado profissional dava um post muito interessante... seria desafiante perceber qual o conceito de voluntariado emergente de cada cabeça. Que não partilhamos todos do mesmo ponto de vista é ponto assente. Ser voluntário é, para mim, dispôr do meu tempo livre a dedicar-me, de forma profissional, a uma determinada actividade que valorize a comunidade "gratuitamente". Porque quem é realmente voluntário, de corpo e alma, encontra algo na prática do voluntariado que o preenche.

Publicado por: Condessa às Avessas em julho 22, 2005 09:58 PM

Condessa, sem qualquer desvalorização pelo voluntariado (aliás acho-o a manifestação cívica mais activa e pragmática) diria que há coisa que não é legítimo que o estado (preguiçoso) 'peça' ao voluntariado que as resolva

Publicado por: Eufigénio em julho 22, 2005 10:02 PM

O voluntariado não deve sobrepor-se ao Estado na resolução dos problemas mas pode participar nessa ajuda. A fazer terá de estar devidamente preparado. Falamos de fogos mas podemos falar do voluntariado nos hospitais em que o voluntário lida de muito perto com o sofrimento humano. Deverá intervir de qualquer maneira? Que cuidados deverá ter? Qualquer um pode ser voluntário? A quem é que respondem? Quais são as consequências da sua intervenção???????

Nesta sociedade cada vez mais egocêntrica parece-me urgente incrementar a participação cívica. Mas não se deverá fazer de qualquer forma nem com espírito "caritativo"...

Publicado por: Condessa às Avessas em julho 22, 2005 10:43 PM