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julho 28, 2005
II - Para se ser inocente é preciso conseguir parecê-lo
(...)
Enquanto seguia caminho, ia matutando em toda a situação. Apesar da insistência do Agente B para que me dirigisse de imediato às instalações da Rua … tinha-lhe notado na voz um tom simpático, até estranhamente cúmplice, como se assim se quisesse desculpar da maçada do procedimento. Tinha até confidenciado ao telefone do que era acusado, e por quem era acusado. Primeiro fiquei naturalmente estupefacto, tudo aquilo me parecia um filme surrealista, mas depois, e por isso mesmo, encaixando tão vasto e implausível rol de queixas na geométrica realidade, isso até me trouxe confortado. Ao correr as razões, e antevendo quem as esgrimia, achei que todo aquele absurdo seria relativamente fácil de desmantelar, e que cedo retornaria com todo aquele mal entendido devidamente desembrulhado.
Mas havia sempre o lado formal por cima dos raciocínios, e as histórias mirambolantes de ouvir contar e imensos ‘ses’ que imaginativamente inventariava em cada semáforo que me parava. Para todo o efeito estava perante acusações graves, e ainda ressoava o conselho do meu pai, que sim senhor, claro que tudo isso era uma loucura que logo se veria que assim era, mas que com estas coisas nunca se brinca, que eu esperasse que ele ia telefonar ao seu advogado. Claro que recusei peremptoriamente tal ideia. Mas recordo que foi nessa altura, e por lhe notar no olhar, o dele mesmo, algumas dúvidas - não que as tivesse relativamente à minha absoluta inocência, mas que a gente sabe que se a rapariga chegara àquele ponto alguma coisa haveria de ter acontecido - foi exactamente aí que receei que pudesse estar metido numa embrulhada. Afinal aquilo não passaria nunca por ser uma conversa de sanar mal-entendidos à mesa do café. Se por um lado era evidente a falta de senso em toda a situação e nas insólitas acusações que sobre mim recaíam, por outro lado, aquilo que para mim era óbvio teria de ser demonstrado, ou pelo menos justificado.
E foi assim, por entre o pára-arranca dos semáforos, que uma macabra suposição foi se foi apoderando de mim: não bastaria ser inocente, teria de os convencer disso, e para isso, teria de o parecer. E isso foi, obviamente, a mais inoportuna coisa que eu podia ter pensado. Sempre fui um péssimo actor.
(...)
Publicado por Eufigénio Lagoa às julho 28, 2005 12:15 AM
Comentários
(tou aqui caladinha para não perderes tempo com as respostas aos comentários e continuares a história...)
Publicado por: catarina em julho 28, 2005 12:36 AM
Como se tu não soubesses que este meus folhetins em fascículos ficam sempre a meio. (mas olha, a ti confidencio-te uma coisa. Lembras-te do post sobre o técnico e as máquinas de cartões perfuradores e ... mais um que ficou a meio? pois ;) )
Publicado por: Eufigénio em julho 28, 2005 12:40 AM
Ah, e era só para dizer que me sinto honrado de teres interrompido a conversa ao telefone para aqui vires comentar ...rs
Publicado por: Eufigénio em julho 28, 2005 12:42 AM
:)))
Os Megabloguegos simpáticos são assim, comamim. :)
Publicado por: catarina em julho 28, 2005 12:58 AM
Ó mestre do suspense e do policial, ciente da caracterização dos personagens, a verdade é que estou aqui em pulgas para descortinar a acusação.
Sobre os actores, parece-me que os bons animais de palco são maus actores na vida. :)
Publicado por: maria árvore em julho 28, 2005 11:53 AM