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julho 28, 2005

É só um Blogue (que caia a guilhotina)

O instante da expiação ocorre sempre de forma súbita e inesperada. O culposo é trazido até à praça pública, e as suas vergonhas são postas à vista de todos. Aos poucos vem fluindo a multidão que logo se apercebe e primeiro se abeira do justiceiro cortejo, e já depois acorre lesta, arquejante até. Segue altivo o homem que o leva pela ponta de uma corda, e vai sorrindo emproado às incitações da turba, é glória fazê-lo, e assim os trás exclamados, aos populares. Chegado ao palanque da penitência é lá no alto amarrado, não tão longe para que não lhe cheguem escarros e escárnios, que essa é a sua punição. Depois são lidas em voz alta, assim trazidas ao povo pelo dignitário da moral - homem eloquente que faz da palavra a razão, e que impante se mostra – uma por uma, as indignas prevaricações que cometeu. É aí que a turba mais se exalta, e já nada a acalma. Há sempre pedras por perto que são lançadas com nojo. Cada arremesso forja a fúria da lançadura seguinte. Aqui ou ali forma-se um redemoinho de gente, talvez incidente, que os há. Lá se a distingue, que é demência sempre, e alto grita o temerário que gesticula tais vitupérios. Mas já pela mole de gente enraivecida se vê calado. Há lá razão em escutar a quem não tem razão que lhe valha. E de novo, como a seara penteada pelo vento, logo a turba se inclina com mira no delinquente. O malvado criminoso que ao princípio ainda se arrojava de despique, pouco a pouco, sob tal metralha lancinante - e larga-se tudo, pedras, raiva, voz - às mãos da populaça se vai abandonando a tão penitente destino. Está mudo e quedo agora. Um ébrio ambiente se fermenta no silêncio que agora o sepulta. É o auge, e grita rouco o justiceiro, faz coro a grei, cada um, o povo todo, sentem em si a força de tantos e de tão justos tantos serem. Abaixo o transgressor, viva nós, viva a gente que a justiça está feita.

E tudo se acaba, que a pobre e pouca alma já nem estrebucha. Paulatinamente vão voltando os post’s que contam coisas do mundo, dos vizinhos, dos governos, do que se viu e ouviu. E segue o Blogue, que é só um blogue.

Publicado por Eufigénio Lagoa às julho 28, 2005 10:39 PM

Comentários

Ai Eufigénio Saramago que me vi transportada para o Rossio no tempo da Blimunda Sete Luas com a lenha a arder.

Dá vontade de pegar na passarola e voar.

Publicado por: maria arvore em julho 28, 2005 10:59 PM

Olha, foi exactamente para aí que me vi transportado hoje

Publicado por: Eufigénio em julho 28, 2005 11:06 PM

... mais um post fantástico, pleno de lucidez.

Publicado por: karla em julho 28, 2005 11:13 PM

Tá bestial o teu post.

Publicado por: catarina em julho 28, 2005 11:22 PM

(ps: do que fica atrás do conteúdo, eu de pedras na mão me confesso parte da turba pecadora)

Publicado por: catarina em julho 28, 2005 11:25 PM

Às vezes saem-me assim umas coisas mais para o erudito, vá-se lá saber porquê. Agora é só escrever sem infantilidades ortográficas e mando isto para lanzarote

Publicado por: Eufigénio em julho 28, 2005 11:25 PM

Brutal.

E eu que, com o asco, não conseguia dizer nem uma palavra, e tu aqui com estas todas, a dizerem o que senti. Olha, obrigada, simplesmente.

Publicado por: Mi em julho 28, 2005 11:41 PM

O meu expurgo é o teu expurgo Mi ;)

Publicado por: Eufigénio em julho 28, 2005 11:43 PM

Beurk! :))

Publicado por: Mi em julho 28, 2005 11:59 PM

Já estás melhorzinha? Olha, eu já me sinto outro ...rs

Publicado por: Eufigénio em julho 29, 2005 12:00 AM

Já, sim. Obrigada :)

Publicado por: Mi em julho 29, 2005 12:14 AM

São do piorio, por vezes, os blogues. E outras vezes são assim, Eufigénio, como o teu.

Publicado por: João Pedro da Costa em julho 29, 2005 07:20 AM

JPC, Mas entre uns e os outros, ainda há os do melhorio, como o teu (não é troca de galhardetes)

Publicado por: Eufigénio em julho 29, 2005 10:49 AM

Só podendo nesta altura reportar-me à forma do teu post, Eufigénio, estou encantado com a tua arte para exprimires a impressão que as coisas te deixam.
Quanto ao conteúdo, e pelo meu envolvimento recente num episódio "análogo", abstenho-me (por ora) de tecer qualquer tipo de considerações. Excepto, claro, a de que confirmas a cada instante que és um gajo firme nas tuas convicções e de bom fundo. E isso é sempre digno do respeito e da admiração que nunca te escondi e que reafirmo neste comentário.

Publicado por: sharkinho em julho 29, 2005 11:34 AM

É da janela Sharkinho que eu mais gosto de ver a procissão passar. Não é dom, é só afastamento das multidões. Sempre achei que nestas, o discernimento não se soma, que quase sempre se atrofia. E isso que falas das convicções, oh pá, é certamente a minha fobia às confusões, e nada mais.

Publicado por: Eufigénio em julho 29, 2005 12:35 PM

Clap clap clap (isto é suposto ser aplausos, apesar de eu desconfiar que os aplausos não soam assim)

Publicado por: lyra em julho 29, 2005 02:03 PM

Publicado por: Jorge Morais em julho 29, 2005 02:58 PM

Daqui te tiro o chapéu amigo Eg....

Publicado por: Luna em julho 29, 2005 05:57 PM

Uf Lyra, pensei que eram pedras.

Mas que truques de magia trazes tu das férias Luna? explica lá como me tiras tu daí o meu chapéu, ein ?

Publicado por: Eufigénio em julho 29, 2005 07:05 PM

!

Publicado por: Eufigénio em julho 29, 2005 07:06 PM

eu disse chapéu não disse boné! nem disse de quem

Publicado por: Luna em julho 29, 2005 09:15 PM

?!

Publicado por: Luna em julho 29, 2005 09:16 PM

Eufigénio,

O nick aqui não é à toa. É o nick de uma exaltada que, às vezes, devia medir as palavras e não as mede. Depois, lê-se um texto destes e fica-se a pensar um bom bocado.

Mas, tendo os telhados bem envidraçados, sei que quase sempre me acabam por perdoar o "a quente" que digo e a forma como o digo. E esse mesmo tipo de atitude sei perdoar também.

Mas custa-me a elaboração planeada. Custa-me qualquer atitude pidesca. Custa-me ver desrespeito.

Não nego que serei capaz de fazer tudo o que não gosto. Mas penso que nunca seria capaz de crueldade planeada, nem de lançar à corja, deliberadamente, quem nem se pode defender.

Olha, é por textos destes que me tens sempre aqui, mesmo caladinha. Gosto de te ler. E, à custa de tanto te ler abanando a cabeça em concordância quase sempre (a jardinagem é que me parte toda), só me resta dizer que gosto de ti :)

Publicado por: HipatiaComTelhadosDeVidro em julho 29, 2005 10:56 PM

Eu gostaria de vos dizer a todos que me comprazem os elogios ao texto. Não pela forma como são escritos, mas pela sinceridade/verticalidade que vos leva aqui a comentá-lo, independentemente dos gradientes da razão. Fiz-me entender?
Abraços e beijos a todo(a)s

Publicado por: Eufigénio em julho 30, 2005 01:21 AM

lamento mas não percebi. gostei das palavras, identifiquei-me com a aversão à maralha e aos julgamentos sumários mas fiquei com uma impressão muito vaga que terá havido alguma ocorrência particular que me escapou (ou às tantas estou mais uma vez a ver filmes num drive-in durante o dia:)

Publicado por: jose quintas em julho 30, 2005 04:06 AM

esqueci-me de te dizer....que és lindo! :)))
não digo q gosto de ti, porque não quero fazer concorrência á Hipatia;)...
Man... bola prá frente que atrás vem gente( no rugby é mais ao contrário mas não rima)

Publicado por: Luna em julho 30, 2005 11:17 AM

Muito bem escrito, Eufigénio.
No entanto não gostei, porque se a forma é boa, não aprecio o conteúdo: reitera a ideia que tenho de que as pessoas preferem uma insinuação velada, uma certa hipocrisia, que salvaguarda, sobretudo, a honra de quem a pratica, mas não de quem é o alvo da mesma. Repara que não estou a falar de ti, mas daquilo de que tu falas. No fundo, independentemente da forma que as coisas têm, é uma apologia da cobardia em detrimento da frontalidade.

Publicado por: susana em julho 30, 2005 11:26 PM

A frontalidade Susana, tem muitas formas. Repara que no linchamento público não está em causa a razão ou a justiça, mas a forma. Nem vou discutir o que deve ser tratado em sede pública ou privada, apenas digo é mais dificil ser frontal que não o ser, não porque isso exija coragem (aqui, cada um de nós com um ecrã pela frente, o que é isso da coragem), mas apenas porque isso nos obriga a gerir com mais cuidado o limite do que é razoável e civilizado para não se cair na ofensa gratuita, nos excessos, na agressividade desmedida. Também eu aqui não retrato o lado da razão, mas apenas a forma de a usar.

E Susana, sei que não concordas, mas insisto; aqui na net, em que cada um está sózinho do lado de onde escreve, é tão fácil e tão sedutor confundir a frontalidade com a agressividade.

Publicado por: Eufigénio em julho 31, 2005 12:59 AM

voltei só para corrigir aquele "lamento mas não percebi".
logo após, dei uma volta por aí e cheguei lá. fico-me por aqui. já cá não estou.
(e não lembro de mais nenhum advérbio de lugar)

Publicado por: jose quintas em julho 31, 2005 03:01 AM