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julho 25, 2005

A falta de um disco rígido e um passarinho

Passei toda a manhã a espicaçar gentes para que me arranjem o computador o mais rápido possível, a tentar-me ressuscitar. Entretanto fui relembrando e desmarcando as reuniões ‘inadiáveis’ e trabalhos ‘urgentes’ que hoje tinha agendados no computador que já não existe. Foi-se a máquina e os suportes de memória, foram-se os agendamentos. Mas assusto-me no meio de tudo isto. Afinal, desvinculo-me tão facilmente de todos esses compromissos, das coisas que ainda ontem eram imprescindíveis, que chego a temer que, não trazendo isso consequências, possa também eu não ser importante.

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Subitamente dou por mim na estação, os morfes esquecidos com o espanto, empastando-me a boca, e o comboio da manhã de segunda-feira que já parte e segue viagem, indiferente, sem mim. Lá vai o chiar, que se arrasta com a carga de tanto afazer, e ai que lá leva os meus. Depois nada, apenas o silêncio que lhe sobrevém, e que estranhamente não me encontra em desespero. Não fico, como julgava, como quase juraria, ansioso de seguir viagem, e nem me vejo rogar pragas pelo atraso que esta distracção me consentiu. Antes pelo contrário, ter ficado por aqui, com falta de ligação a tudo o que estava programado ser a minha vida hoje, traz-me sossego – e já só este bafo de ar parado como quem anuncia que o tempo que a vida nos dá pode ter vagares de chilreios de passarinho (e cai-me o nó da gravata, e ela voa ali na boca do bicharoco, será graveto para ninho; fico nu agora). Vou-me recostando, que aqui ninguém me vê, e está tudo tão calmo.

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Está tudo tão calmo? Alguém que anuncie o meu atraso, que por aqui me fiquei acidentado, alguém que explique que me perdi aqui, que é dano, que já nada tenho daquelas coisas fundamentais que tanto procuravam em mim – não. Nem isso, não avisem nada. Avisar do quê, se eu não sinto a falta, ninguém sentirá a falta de mim. Está calor. Calor? O calor sentido assim, sem ser um acessório de um dia ataviado de coisas por fazer afinal parece mais importante do que costuma ser. Agora, vou-me deixar ficar por aqui sentado e talvez me deixe ficar a experimentar sentir o calor. Assim mole, sem atrapalhar as ‘contas do dia’, é até bom. Talvez fume agora uma cigarrilha enquanto brinco com as curvas do ferro forjado que sigo com o olhar curvilíneo até ao fim do telheiro, … mas ai, as coisas importantes que eu deveria ser hoje. Mas, (já nem o oiço ao comboio), quais coisas?

Publicado por Eufigénio Lagoa às julho 25, 2005 03:08 PM

Comentários

é, quando se perde muito, há uma espécie de libertação para o futuro. aproveita.
um beijo

Publicado por: riquita1303 em julho 25, 2005 05:39 PM

Férias...

Publicado por: cap em julho 25, 2005 07:53 PM