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julho 29, 2005
"Interrupimentos"
Passei o fim-de-semana passado a jardinar. As plantas já o pediam, e eu também. É bom mexer na terra quando estamos assim, até já fartos de nós. Andar por ali a trautear com as mãos, isso é folgar. E depois, ao vê-las frescas e a espigar, sem arrelias nem atropelos, nem coisas mais importantes que crescer apenas, é trazer à evidência o que anda esquecido: O MUNDO É SIMPLES, nós é que o complicamos.
Este fim-de-semana vou montar o toldo. O pátio vai ficar lindo, e o curativo acabado.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:51 PM | Comentários (19)
julho 28, 2005
É só um Blogue (que caia a guilhotina)
O instante da expiação ocorre sempre de forma súbita e inesperada. O culposo é trazido até à praça pública, e as suas vergonhas são postas à vista de todos. Aos poucos vem fluindo a multidão que logo se apercebe e primeiro se abeira do justiceiro cortejo, e já depois acorre lesta, arquejante até. Segue altivo o homem que o leva pela ponta de uma corda, e vai sorrindo emproado às incitações da turba, é glória fazê-lo, e assim os trás exclamados, aos populares. Chegado ao palanque da penitência é lá no alto amarrado, não tão longe para que não lhe cheguem escarros e escárnios, que essa é a sua punição. Depois são lidas em voz alta, assim trazidas ao povo pelo dignitário da moral - homem eloquente que faz da palavra a razão, e que impante se mostra – uma por uma, as indignas prevaricações que cometeu. É aí que a turba mais se exalta, e já nada a acalma. Há sempre pedras por perto que são lançadas com nojo. Cada arremesso forja a fúria da lançadura seguinte. Aqui ou ali forma-se um redemoinho de gente, talvez incidente, que os há. Lá se a distingue, que é demência sempre, e alto grita o temerário que gesticula tais vitupérios. Mas já pela mole de gente enraivecida se vê calado. Há lá razão em escutar a quem não tem razão que lhe valha. E de novo, como a seara penteada pelo vento, logo a turba se inclina com mira no delinquente. O malvado criminoso que ao princípio ainda se arrojava de despique, pouco a pouco, sob tal metralha lancinante - e larga-se tudo, pedras, raiva, voz - às mãos da populaça se vai abandonando a tão penitente destino. Está mudo e quedo agora. Um ébrio ambiente se fermenta no silêncio que agora o sepulta. É o auge, e grita rouco o justiceiro, faz coro a grei, cada um, o povo todo, sentem em si a força de tantos e de tão justos tantos serem. Abaixo o transgressor, viva nós, viva a gente que a justiça está feita.
E tudo se acaba, que a pobre e pouca alma já nem estrebucha. Paulatinamente vão voltando os post’s que contam coisas do mundo, dos vizinhos, dos governos, do que se viu e ouviu. E segue o Blogue, que é só um blogue.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:39 PM | Comentários (29)
II - Para se ser inocente é preciso conseguir parecê-lo
(...)
Enquanto seguia caminho, ia matutando em toda a situação. Apesar da insistência do Agente B para que me dirigisse de imediato às instalações da Rua … tinha-lhe notado na voz um tom simpático, até estranhamente cúmplice, como se assim se quisesse desculpar da maçada do procedimento. Tinha até confidenciado ao telefone do que era acusado, e por quem era acusado. Primeiro fiquei naturalmente estupefacto, tudo aquilo me parecia um filme surrealista, mas depois, e por isso mesmo, encaixando tão vasto e implausível rol de queixas na geométrica realidade, isso até me trouxe confortado. Ao correr as razões, e antevendo quem as esgrimia, achei que todo aquele absurdo seria relativamente fácil de desmantelar, e que cedo retornaria com todo aquele mal entendido devidamente desembrulhado.
Mas havia sempre o lado formal por cima dos raciocínios, e as histórias mirambolantes de ouvir contar e imensos ‘ses’ que imaginativamente inventariava em cada semáforo que me parava. Para todo o efeito estava perante acusações graves, e ainda ressoava o conselho do meu pai, que sim senhor, claro que tudo isso era uma loucura que logo se veria que assim era, mas que com estas coisas nunca se brinca, que eu esperasse que ele ia telefonar ao seu advogado. Claro que recusei peremptoriamente tal ideia. Mas recordo que foi nessa altura, e por lhe notar no olhar, o dele mesmo, algumas dúvidas - não que as tivesse relativamente à minha absoluta inocência, mas que a gente sabe que se a rapariga chegara àquele ponto alguma coisa haveria de ter acontecido - foi exactamente aí que receei que pudesse estar metido numa embrulhada. Afinal aquilo não passaria nunca por ser uma conversa de sanar mal-entendidos à mesa do café. Se por um lado era evidente a falta de senso em toda a situação e nas insólitas acusações que sobre mim recaíam, por outro lado, aquilo que para mim era óbvio teria de ser demonstrado, ou pelo menos justificado.
E foi assim, por entre o pára-arranca dos semáforos, que uma macabra suposição foi se foi apoderando de mim: não bastaria ser inocente, teria de os convencer disso, e para isso, teria de o parecer. E isso foi, obviamente, a mais inoportuna coisa que eu podia ter pensado. Sempre fui um péssimo actor.
(...)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:15 AM | Comentários (5)
julho 27, 2005
Folgam os blogues, folga Lisboa
É curioso notar nestes dias da canícula, no quase-férias, que são os MegaHiperblogues aqueles que mais resistem ao abandono veraneante dos seus autores à debandada do veraneio. Afinal há mesmo quem leve isto a sério.
E Lisboa quase a entrar em férias. Ai se eu gosto desta Lisboa de mãos nos bolsos e dos fins de tarde bebericados na volta do trabalho.
(está melhor assim Catarina?e assim Mi?)
abençoadas comentadoras (e não ides de veraneio Hiperblogoamigas?)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:20 PM | Comentários (18)
Antevendo as férias
De Dubrovnic
... mar mar mar mar mar mar mar mar mar mar mar mar mar mar...
... mar mar mar mar mar mar mar mar mar mar mar mar mar mar mar ...
a Lisboa
E sim, claro que é possível ser feliz por antecipação
Muito Bom dia a todos que o meu já é, olaré
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:48 PM | Comentários (13)
I - Para se ser inocente é preciso conseguir parecer ...
Quando o Agente B me telefonou, ainda não tinha terminado as apresentações e já eu me ouvia ripostar com toda a veemência que a minha revolta me estimulava. Tratava-se certamente ainda do carro que me tinham rebocado na véspera, do passeio do S. Luís, e ao qual tinham descuidadamente rebentado com o escape. Estava furioso, e mais uma vez arrazoei que se eu civicamente paguei e calei a multa, a eles cabia-lhes ressarcir-me dos custos com o escape que tinham estragado. Talvez por saber que seriam nulos os resultados de tanta argumentação, insistia naquela terapêutica ininterrupta de o massacrar com o meu desagrado atropelado de palavras. Mas assim que me calei, por breves momentos, o tempo apenas de ganhar novo fôlego, logo me vi interrompido por ele, que com um tom exemplarmente paciente, e mantendo um impávido distanciamento de toda aquela verborreia que lhe tinha lançado, logo me foi esclarecendo que não se tratava de nenhuma infracção ao código da estrada, pois, que ali na Judiciária não tratavam disso.
Foi assim que um dia fui notificado para prestar declarações sob a acusação de supostamente ter cometido seis crimes.
(…)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:58 AM | Comentários (4)
julho 26, 2005
Uma história indolente, os seus imperturbáveis momentos, o autor mandrião e um hiato arredondado
Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:40 PM | Comentários (6)
julho 25, 2005
Soares
Simpatizo com a imagem quixotesca do velho cavaleiro que se põe a desempoeirar a sua armadura carregada da glória de outros tempos. Há sobre isso um conto muito bonito do Alexandre Herculano, passado lá para terras do Além-Tejo. Conta-nos ele, como tão bem sabe d’A morte do Lidador, este já herói reformado de grandes feitos, que num certo serão à lareira, depois de tanto se entediar com os tempos de calmitude que então se viviam, decidiu pôr termo a tanto fastio. A partida com meia dúzia de nobres, amigos que seguiam na sua trilha a caminho do Sul, em demanda da mouraria, e o relato de como mais uma vez (a última) se deu à liça, foi das coisas mais épicas que já li.
Que se acautele o Cavaco, que há homens que (quer se goste ou não) nunca perdem o jeito da nobre arte de batalhar.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:38 PM | Comentários (8)
A falta de um disco rígido e um passarinho
Passei toda a manhã a espicaçar gentes para que me arranjem o computador o mais rápido possível, a tentar-me ressuscitar. Entretanto fui relembrando e desmarcando as reuniões ‘inadiáveis’ e trabalhos ‘urgentes’ que hoje tinha agendados no computador que já não existe. Foi-se a máquina e os suportes de memória, foram-se os agendamentos. Mas assusto-me no meio de tudo isto. Afinal, desvinculo-me tão facilmente de todos esses compromissos, das coisas que ainda ontem eram imprescindíveis, que chego a temer que, não trazendo isso consequências, possa também eu não ser importante.
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Subitamente dou por mim na estação, os morfes esquecidos com o espanto, empastando-me a boca, e o comboio da manhã de segunda-feira que já parte e segue viagem, indiferente, sem mim. Lá vai o chiar, que se arrasta com a carga de tanto afazer, e ai que lá leva os meus. Depois nada, apenas o silêncio que lhe sobrevém, e que estranhamente não me encontra em desespero. Não fico, como julgava, como quase juraria, ansioso de seguir viagem, e nem me vejo rogar pragas pelo atraso que esta distracção me consentiu. Antes pelo contrário, ter ficado por aqui, com falta de ligação a tudo o que estava programado ser a minha vida hoje, traz-me sossego – e já só este bafo de ar parado como quem anuncia que o tempo que a vida nos dá pode ter vagares de chilreios de passarinho (e cai-me o nó da gravata, e ela voa ali na boca do bicharoco, será graveto para ninho; fico nu agora). Vou-me recostando, que aqui ninguém me vê, e está tudo tão calmo.
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Está tudo tão calmo? Alguém que anuncie o meu atraso, que por aqui me fiquei acidentado, alguém que explique que me perdi aqui, que é dano, que já nada tenho daquelas coisas fundamentais que tanto procuravam em mim – não. Nem isso, não avisem nada. Avisar do quê, se eu não sinto a falta, ninguém sentirá a falta de mim. Está calor. Calor? O calor sentido assim, sem ser um acessório de um dia ataviado de coisas por fazer afinal parece mais importante do que costuma ser. Agora, vou-me deixar ficar por aqui sentado e talvez me deixe ficar a experimentar sentir o calor. Assim mole, sem atrapalhar as ‘contas do dia’, é até bom. Talvez fume agora uma cigarrilha enquanto brinco com as curvas do ferro forjado que sigo com o olhar curvilíneo até ao fim do telheiro, … mas ai, as coisas importantes que eu deveria ser hoje. Mas, (já nem o oiço ao comboio), quais coisas?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:08 PM | Comentários (2)
O Carpe Diem informático
Que estupidez esta de não fazer ‘backups’. Talvez o único meio onde seria possível guardar 10 anos de vida e … claro, há coisas que não se guardam, porque haveria a informática de as querer tornar imperecíveis. De qualquer forma estava mesmo a precisar de começar tudo de novo. Quantas vezes afinal se pode começar o dia seguinte por perguntar o que vamos agora fazer?
É algo de interessante esta sensação de vazio. Olhar para trás e nada encontrar é também olhar para a frente pressupondo o que se quiser.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:14 AM | Comentários (4)
A emissão seguirá agora intermitentemente
E pronto, nada como um bom copo de água em cima do portátil para se acabar o vício. Providência ou asneira de miúdos tanto me faz, agora é só um golinho de blogues de vez em quando e já está.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:07 AM | Comentários (3)
Há dores coisas que não enganam
- Oh Mãe, o gato mordeu-me!
- Pronto, deixa lá querido. Sabes, os gatos são falsos.
- Não mãe, este é verdadeiro mesmo. Olhe aqui não vê?!
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:50 AM | Comentários (1)
julho 22, 2005
DESESPERO

Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:04 PM | Comentários (9)
Que puta de depressão!!

“Piódão é sem duvida uma das mais bonitas aldeias de Portugal”
...
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:01 PM
As listinhas de navegação
Há dias perguntava-me um amigo, como é que tu guardas os teus blogues preferidos?. Lá fui explicando como era isso fácil, e que apenas se baseava no grau de preferência que atribuía ao blogue e na estimativa da frequência de visitas que eu previa fazer ao mesmo. Repara, dizia-lhe eu para concretizar, se for um blogue que encontrei ocasionalmente e onde fiquei deliciado com um dos seus postes, nesse caso, porque é apenas um primeiro contacto que merece uma nova visita, coloco-o numa fase de reserva aqui na barrinha dos favoritos do IE. Se esse blogue que já me confirmou que é coisa para acompanhar (e isso pode dever-se a imensos factores para além da qualidade da escrita) então uso o blo.gs, que traz a vantagem de me avisar quando este tem um post novo. Nos casos dos blogues de que sou fã e que frequento diariamente, então vou aqui e coloco-o nos meus links. Depois, ainda há ainda alguns que acompanho mais de longe e aos quais acedo a partir daqui, ou daqui, ou mesmo através de algumas listinhas de que abuso de outros bloggers, como esta aqui por exemplo. É simples, como vês.
Não contente com a explicação, ou talvez só para me acicatar, perguntava ele, mas então explica-me lá, quando tu queres mesmo ir a um blogue que conheces como é que fazes? Não percebi verdadeiramente o alcance da sua pergunta mas ainda assim, pacientemente lá fui respondendo: então, basta-me ir aqui, ali, ali, acolá e ali depois ou então aqui, num destes sítios há-de estar.
Ele ficou atónito a olhar para mim. Provavelmente nunca deve ter pensado que fosse assim tão simples. Percebo isso, é que há gente que complica tudo.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:59 AM | Comentários (12)
julho 21, 2005
Miseráveis inquilinos é o que somos !
No limite, pode mesmo não ficar nada. Exagero meu – sempre fica o carbono (talvez um dia quando nos tivermos extinguido alguém possa aproveitar este lixo que deixámos). De um lado uns que ateiam, do outro quem não sabe apagar (*). O crime reparte-se. Por todos nós. E o que mais me ofende é que a casa não é nem era nossa.
(*) Não falo dos bombeiros. Ou também falo. E agora batam-me, com um raminho de oliveira, como (ai miséria), se quisessem apagar um fogo.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:12 PM | Comentários (11)
julho 20, 2005
Foi o bacalhau, estava salgado
Todos os dias me arrependo de não saber amar mais. Que eu amo, mas sofro sozinho esta inépcia de o mostrar. Como se nas coisas que se sentem houvesse o tempo para tratar disso depois. Não, não é um post romântico, falo de mim e de todos.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:35 PM | Comentários (28)
Nem todos sabemos olhar o inverso das coisas
(mais uma fabulosa foto do Benjamim, aqui no FotoBen)Será a outra metade das coisas, aquela que não vejo, o ‘sítio’ onde eu gostaria de estar?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:00 PM | Comentários (5)
É simples e gratuito (fica a sugestão)
(pelo interesse que pode suscitar em outros potenciais candidatos a bloggers decidi trazer este comentariozito para post)
Ontem recebi o meu primeiro comentário injurioso (estou todo vaidoso, finalmente sou um blogue-alvo). Quero saboreá-lo bem antes que ele se esconda lá para os confins do blogue, e por isso hoje voltei para o reler. É curioso que a atitude é agressiva e gratuita, mas há um cuidado enorme em não injuriar (já eu não tive tanta compostura, apesar do esforço, o que talvez se possa desculpar pela minha inexperiência em usar a vassoura). Ora isso requer uma atenção maior ao texto, o que aliás se confirma pelo rigor da sua construção e pelas expressões utilizadas. E fico assim a pensar: o que leva alguém que aparentemente não é uma criança sorrateira a divagar na net, nem um daqueles básicos ejaculadores de impropérios, para a altas horas da noite se dar ao trabalho de perder uns minutos a construir um comentário onde sugere que eu vá fazer outras coisas mais importantes que alisar egos, e ainda lançar lições oblíquas de moral? Depois de pensar melhor no assunto, fica aqui uma sugestão sincera: essa vontade assim de escrever disparates, o cuidado com que se trata as palavras, a quase obsessão por criticar alguém … é abrir um blogue!
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:40 AM | Comentários (8)
A asfixia do admirável
Enquanto fecho a noite revejo a volta que dei. Bela volta. Andei de bordo em bordo por sítios de que gosto, e que hoje pude saborear com mais calma. Confirmei que por lá se continuam a escrever coisas boas e bonitas. Em alguns nem resisti a comentar - há muito tempo que não comentava com tanto fervor e espontaneidade. Isso faz-me lembrar que é isso que aqui mais gosto, isso de ler. Há coisas muito boas aqui, porque aqui, em alguns sítios, se escreve bem. É por isso que gosto da blogosfera.
Antes era sempre assim, depois criei um blogue. E ter um blogue faz-me mais ‘surdo’. Tudo isso que por aí anda, e é tanto, tudo isso passa a ser vizinho do que aqui sou. Parto pelos sítios por onde sempre gostei de passar e leio-os com o fastio que trago do meu. A criatividade que por aí se escreve, o estilo, a pertinência, tudo isso se esbate no que agora sou aqui, no que hoje não sei escrever. Ter julgado alguma vez que ter um blogue me faria mais próximo daquilo que leio e gosto de ler foi um logro, que cultivei. Como se assim fizesse parte daquilo que admiro. Mas aquilo que admiro, por eu ser já parte, porque deixou de me transcender, deixou de ser aquilo que admiro, passou apenas a ser a outra parte daquilo que eu também sou. Não há espanto nisso, nem admiração, apenas um pouco mais do que aquilo que somos, e isso é quase nada, é apenas pouco mais do que nós.
Um dia ouvi alguém dizer que se tinha dois ouvidos e uma boca era porque deveria escutar mais do que falava. Aqui não vejo a analogia que possa haver, mas quase tenho a certeza de que é uma verdade que se aplica com propriedade. Ter um blogue não é desfrutar melhor da blogosfera e de tudo o que nela nos maravilha. Creio mesmo que é o contrário, é trazê-la confinada à dimensão do que aqui escrevemos, e do que isso (não) nos leva a ler . São coisas diferentes isto de escrever e ler. Acho até que pode ser antagónico.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:04 AM | Comentários (6)
julho 19, 2005
Que um bom ócio requer sempre algum cuidado de programação
O domingo é indubitavelmente o melhor dia para a prática de um dos desportos que mais me entusiasma, o belo do ócio. Porventura, os menos experimentados, cairão facilmente no erro de considerar que esta é uma actividade apática e sem qualquer arte ou esforço por parte do seu promotor, e quase posso até presumir ouvi-los dizer que o ócio será todo igual, que mais não é que “deixar andar” o tempo. Nada de mais errado, só possível se ajuizado por alguém que se deixou enrodilhar num permanente e frenético estado ocupacional, que nos torna uns desmesurados dependentes funcionais, e que nos enche de evitável actividade interrogativa. E manda nisso a compostura que nos envergonhemos dos momentos em que por falta de compromissos não nos conseguimos sentir extenuados, atrasados e preocupados com tudo. Desses, receio que nunca venham a poder sentir o prazer supremo de nada fazer, e nisso deixarem de usufruir da forma mais grata e genuína de usar o tempo.
Já para aqueles que por distracção ou convicção encontram em momentos da sua vida algumas réstias de tempo para gastar - ai abençoados seres - importa talvez discorrer um pouco mais sobre isto do ócio. Não, não basta espojarmo-nos em cima do sofá e entretermo-nos a entreabrir e a fechar os olhos, abusando do tempor com brincadeiras que tentamos com as nuances do vermelho que o sol nos pinta nas pálpebras. Lamento decepcionar alguém, mas até o ócio, se se pretender que seja devidamente saboreado,requer cuidados disciplinados e uma treinada imaginação. Tudo tem de ser preparado com uma acérrima obstinação, ou caso contrário arriscaremos a ver esse tempo que queremos reinventar só para nós, mesmo que seja para o maltratar, ser interrompido por um contratempo menor, desses que nascem das coisas que alguém nos faz crer que temos de fazer hoje quando poderíamos bem fazê-las amanhã.
Enfim, o ócio não é uma simples disciplina da ronha, da qual julgamos poder usufruir gratuitamente. Para tirar pleno partido desta actividade de remanso é necessário uma férrea preparação prévia, acautelando para que nada lhe falte ou que venha intrometer-se. Pois já se sabe, assim que nos virmos reclamados de alguma actividade, dificilmente conseguiremos retornar ao estado hibernético que tão difícil é cultivar. Mas, ainda que possa parecer um paradozo, tenha presente contudo que para usufruir desta ancestral arte de lazer é preciso que a saibamos preencher com inúmeros compromissos. Não se assuste o indolente leitor, que esses compromissos, enquanto tal, ainda estão longe de cumprir. Na verdade eles apenas se formulam por nós justamente por sabermos de antemão não os querer cumprir, mas que, para deleite completo, simularemos que são encargo a que não nos poderemos escapar. Eis na prática algumas recomendações preciosas que aqui deixo com o intuito de fazer compreender melhor este tipo de planificação:
1. Nunca se levante cedo. Quando não resistir mais a este padrão mais comum do ócio procure conservar a névoa do sono até ao mais tarde possível – Não se esqueça que um quadro intelectual amorfo contribuirá e muito para os momentos que de seguida usufruirá
2. Respeite sempre a fase do ócio do roupão, e se possível conserve umas peúgas nos pés e o cabelo despenteado – o corrente erro da higiene matinal e do vestir, não só induz uma actividade exagerada e nociva como ainda o deixará vítima e sem argumentos para qualquer sugestão descarada que alguém se proponha fazer
3. Nunca almoce antes das 15h nem ingira alimentos pesados que impliquem actividade digestiva – esse efeito pode trazer-lhe um sintoma de vitalidade que poderá no limite sugerir a apetência pelo exercício físico
4. Por altura do almoço, se não conseguir convencer ninguém a preparar-lhe uma boa feijoada sugiro que não se predisponha a ir além de uma farinha cérelac – este produto lácteo contem glícidos que o fartarão de forma assaz razoável, e requer além disso poucos cuidados de preparação, resultando num acessível e interessante efeito de fastio
5. Inventarie as vezes que for possível os stocks do seu frigorífico e da sua despensa até conseguir elaborar uma lista extensa de coisas urgentes que deve adquirir urgentemente. Arrisque mesmo sugerir uma ida ao hipermercado – é fundamental assumir compromissos que depois não irá cumprir e isso terá ainda maior impacto quanto o grau de urgência dos mesmos
6. Comprometa-se sempre, consigo, com os seus familiares e com terceiros - se as coisas que escrupulosamente garantirá que não irá fazer não tiverem qualquer impacto, nunca poderá tirar partido do verdadeiro prazer que é poder adiar, cancelar, prorrogar ou ignorar esses contratempos enquanto se espreguiça no sofá da sala
7. Seja generoso. Diga sempre que sim a todos os pedidos de ajuda, propostas de visitas, ajudas na bricolagem, passeios com as crianças, tratar dos gatos e indiscriminadamente a qualquer outro tipo de combinação - não basta não cumprir, para aspirar ao ócio pleno é preciso que isso seja feito a troco de verdadeiras consequências para os outros. Só assim valorizará o descanso a que tnto aspira, dando-lhe valor de troca
8. Compre antecipadamente uma playstation e deixe que os seus filhos aluguem dois ou três DVD’s – irá comprovar que o burburinho que ressoa da sala da televisão não só provoca um excitante embalo como pode mesmo constituir um pólo de atenção para a mãe deles, desviando assim a atenção de si
9. Marque sempre horas para todas as coisas com que se comprometeu – e desfrute dos momentos únicos em que primeiro experimenta o incómodo de ter de fazer algo, depois a fase explosiva de sentir que se atrasou sem qualquer motivo aparente e finalmente desfrute do exaltante momento que é poder assumir que não quer saber dos compromissos para nada. Irá notar também que este gesto de indiferença trará um maior aconchego ao seu descanso
10. Saiba resistir aos apelos dos que o rodeiam para que faça algo que já tinha prometido - se necessário ligue o televisor suficientemente alto para que pareça estar interessado e suficientemente baixo para que possa dormitar o aconselhável
11. Se ainda não chegar diga que não tem nada para vestir ou arranje um compromisso atrasado que sabe que depois não cumprirá – guerreie por estes saborosos momentos de ócio que arranjou para si. O pior que lhe pode acontecer é que a família lhe saia porta fora, o que, tendo em conta o lazer pretendido, nem é mau
12. E não se esqueça, não fazer nada só por si não traz prazer, o deleite máximo vem do facto de nada fazer quando tem imensas coisas para fazer. Mantenha ao longo do dia um elevado nível de compromissos, mas evite que isso o faça sair do meio das almofadas.
Posto este rol de bons conselhos, deixarei para mais tarde, sobretudo pensando nos mais activos neófitos, alguns exemplos que poderão seguir.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:21 PM | Comentários (10)
Ora eles, olha quem

Neste preciso momento, que mais não é aliás não do que um breve trecho do que têm sido os últimos dias, em que me arrasto por entre compromissos profissionais, que sei de antemão que não conseguirei cumprir (com todos) … venho aqui, só para espojar-me um bocadinho e dizer que: Mantenho, já fiz o meu pacto comigo há muito tempo, sei quais as doses que pretendo de cada parte da minha vida, não me deixo enganar outra vez, não se enganem !
E pronto, já estou bem melhor, vou voltar, com licença
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:20 PM | Comentários (9)
julho 18, 2005
À atenção dos Olivalenses

Para a malta da minha criação que por aqui vai passando (sim, já perdi as ilusões deste anonimato – como se intimamente alguma vez o quisesse ter conservado … bahhh), aconselho uma visita a este excelente blogue sobre Lisboa - Olissipo (onde roubei este painel de azulejos). É que hoje a “sopa do dia” é a história desta nossa nação da infância – os Olivais! Comecem daqui até aqui, onde acabarão por descobrir que o seu autor é também ele um ilustre Olivalense.
Só não concordo com tanto afecto pelo Olivais Shopping, essa coisa enorme da modernidade que arrancou à bruta as hortas e as silvas que por lá formavam esse oceano de memórias da nossa infância. Mas a verdade é que também já não há onde ir na outra margem. Enfim, ganham as mães, agora avós, ganham os nossos filhos quando as visitam, e a gente acaba por resignar-se com umas compritas e uns jantares rápidos que a vida não anda para grandes nostalgias.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 07:55 PM | Comentários (3)
julho 15, 2005
Eu bem me parecia que o miúdo não devia andar a ler coisas destas
Eu a acabar de editar o post de baixo e fico a saber pelo noticiário que o PAPA considera que este Harry Potter é uma conspiração contra o cristianismo. Fabuloso!!
Afinal, até é capaz de valer a pena ler as tropelias do puto maravilha só para o ver a lançar feitiços conspiradores contra este catolicismo retrógrado, e a batucar com a varinha mágica na moleirinha paranóica de Sua Santidade. [Diogo, venha daí o xadrez desta vez, enquanto o Francisco e a Mãe dão cabo do que resta das suas frágeis convicções católicas.]
Adenda para esclarecimento póstumo e o devido pedido de desculpas ao Bento XVI:
Portanto … hummm … trazido isso a público … hummm … agora, dois anos depois … hummm… precisamente na véspera do lançamento mundial do 6º volume desta saga …. Hummm …. Raios partam os lobbies da imprensa mais aqueles bannerzinhos enganadores que eles põe a correr ao fundo como quem não quer a coisa !!!! Estou mais farto disto! Eu que nem vejo TV … pois têm logo que me chamar lá de dentro para ver estas coisas bombásticas. E logo eu que por regra nem vou a reboque das notícias.
Moral da história: para vender mais uns exemplares de uma história de um puto cuja mãe literária já não sabe o que há-de fazer ao dinheiro, levam a que este honesto e humilde blogue se preste a proferir falsas declarações.
Caro Bento …, caso passe por aqui, rogo-lhe que aceite as minhas sinceras desculpas … e compreenda que a culpa é do Balsemão e do Pais do Amaral (mas já agora, essa do "degradar" também é um bocado forte ein?)
E repito: Raios partam esta comunicação privada social !!!
Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:29 PM | Comentários (27)
'Arre' Potter, outra vez ?
Diz-nos a Riquita aqui que amanhã chega ao mundo mais um Harry Potter (o sexto?!). Ficais portanto a saber que já há leitura para o verão. Já eu terei de ir para outras paragens literárias, que não essas.
E agora perguntam todos ao mesmo tempo, “mas se não te interessa porquê o destaque?”. Ao que prontamente responderei que não é por interesse meu, nem para cumprir serviço público, é apenas uma forma tortu(r)osa de me ir preparando para as hibernações cá em casa. Já estou a antever a parte do "Franciiiiisco, para a mesa!", "Franciiiiiiiiiisco, não digo mais nenhuma vez !!!" ou ainda o "Então tu estás cá e não dizes nada?!".
E com mais um pouco dessa ‘sorte’ há-de juntar-se-lhe a mãe, e lá voltarão os serões durante algumas semanas a reduzir-se ao dominó entre mim e o Diogo.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 08:40 PM | Comentários (4)
(re)primadesblog
Quando aqui editei o primeiro post, já no longínquo mês de Outubro, (este é um calendário apressado, várias vezes mais rápido que o nosso ritmo biológico) experimentei duas estranhas sensações. A primeira, mais repentista, e ainda para mim indescritível, foi uma mistura entre o desconforto de me saber poder ser lido por quem o quisesse e a sedução, um contraditório desejo, de o fazer e de também eu me poder ler – esse estranho impulso que ainda hoje me faz carregar esfomeadamente no “submit”. A segunda eclodiu mais tarde, com relevos “sociais”. Foi como se tivesse acabado de chegar a uma “festa” cheia de gente que não conhecia, e onde receava que alguém me perguntasse a que se devia esta minha intrusão. Um dias mais tarde veio de lá um dos convivas, saído subitamente do meio daquele turbilhão de gente quando me viu para ali especado, e com ar afável e tranquilo agarrou-me por um braço, como se fosse um velho amigo a quem ia apresentando aos outros convivas e mostrando onde estavam as bebidas, do que se falava, e do que poderia encontrar em cada canto.
Há pessoas assim. São os cicerones da blogosfera. Não porque se destaquem dos demais, talvez até mais pelo oposto, são calmos, circunspectos, disponíveis, e ao invés de se atrofiarem no seu blogue, tornam-se experimentados caminhantes deste universo tão amplo, e assim capazes de verem o que (quem) está para além dele. No dia em que os deixarmos de ter por cá, tenho a profunda convicção de que esta inchada blogosfera se desmoronará com um dominó de bytes, reduzindo-se a texto e egos. Não que seja necessário aqui recriar um mundo de afectos, mas a verdade é que para além do que aqui nos liga ao nosso próprio mundo, aquele que aqui queremos acrescentar, é necessário também que algo nos ligue aqui. E isso não é algo a que ancoremos apenas com as palavras que aqui cuidadosamente pousamos. Aqui não há letra morta, há acima de tudo quem escreve e lê, e essa interacção não é fictícia, é real, é relacional, e não se esgota na forma das letras.
Sem alguém que seja capaz de tricotar essas pontes, a blogosfera resumir-se-á a trechos de livros, na maioria das vezes escritos por autores sem mérito. Mas disso não devemos recear. Essas pessoas que lidam com isso, quase desapercebidamente, diz-se que são eternos, alguns já atingiram mesmo o seu terceiro milénio de vida.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:28 PM | Comentários (22)
Pensamento (ainda um bocadinho) matinal
Quem gosta posta
e quem posta arrisca-se …

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:25 AM | Comentários (5)
julho 14, 2005
WEBCEDÁRIO

Foi assim, já tão atrasado, que hoje me deparei com o anúncio do termo (por período indeterminado) do “Webcedário”. Só se compreende isto pelo facto de não ser um leitor assíduo. Não o era. Na verdade, como quem espera que caia gota-a-gota antes de beber um gole de água da cava da mão, também eu preferia matar a sede deste blogue fazendo correr o cursor pela meia dúzia de letras que por lá entretanto tinham ganho vida. Que delícia, que prazer isso me dava.
Fico triste por saber que se conclui aqui um dos melhores projectos da blogosfera que conheço. (Faço questão de falar de um projecto porque neste blogue encontrei uma intenção - a arte de brincar com as letras, dar-lhes vida, rodeá-las de imaginação e fazer com que as suas perninhas e os seus desabafos nos destapassem risos, com um humor impar). Receava que um dia isto pudesse acontecer, afinal, o abecedário é bem limitado. Mas ao mesmo tempo esperava que não. Depois de constatar post após post o que era possível criar com cada uma delas, fui-me convencendo de que não haveria limites para tanta imaginação e humor.
Deixo dois desejos, que voltem depressa, e que se transformem em livro (*). Num país sorumbático que trata o ensino como uma obrigação ao invés de o basear no prazer e na criatividade que deve ser o processo de aprendizagem, fazem tanta falta "coisas" assim. Que possam chegar a todos, sobretudo às crianças, elas que têm o direito de descobrir que aprender é acima de tudo um desafio à imaginação, à nossa capacidade de inventar, e que isso pode ser melhor ainda se o soubermos fazer com humor e prazer.
Só me resta agradecer pelos momentos de criatividade e humor com que me deliciaram nestes últimos meses. E mantenho que deveriam pensar sinceramente neste desafio de se editarem. Porque a vida já é demasiado séria e chata para que desperdicemos 'coisas' destas.
(*) Distraído como sou, posso admitir que esteja para aqui a sugerir o que já é uma realidade. Caso assim seja, isto é, se estas letrinhas já tiverem ido à estampa, muito agradecia que algum leitor mais avisado me informasse disso.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:40 AM | Comentários (9)
julho 13, 2005
Vai, não vás, vai, não vás
E penso, estará ele lá bem? São 15 dias, ao relento, é muito tempo, e sem telefones, e tão novo ainda. E se por acaso algo correr mal, sei lá, um grupo de miúdos sem mais nada que fazer senão para embirrar com alguém. Ou as botas (irra, eu já deveria saber que nunca se devem usar botas novas para grandes caminhadas), e se lhe fazem umas bolhas enormes, e ele sem outras, a arrastar-se dorido todos os dias nas explorações de costa-a-costa. Ou até coisas mais simples, como as saudades dos livros que costuma amontoar na mesinha de cabeceira antes de adormecer, ou do quarto, ou de nós. Pensar que algo que corra mal terá de ser suportado por ele durante duas semanas, sem um aconchego sequer, isso transtorna-me. Como vai ele depois passar cada um dos dias que ainda faltam? E eu, onde estarei eu para o consolar e lhe dar ânimo, e explicar-lhe(me) que nem tudo o que sobre ele sucede eu posso controlar. Mas posso, se for preciso meto-me no avião e trago-o de volta, ai isso trago. Não, isso não creio que deva fazer, e também não saberia se ele precisaria que o fizesse, ou se quereria. Oh, provavelmente irá andar tão encantado nas explorações e na montagem dos acampamentos que nem se lembrará de nós. Claro!, desde quando é que um miúdo se entristece ao ver-se assim numa ilha selvagem. Claro que vai tudo correr bem. Eu devia era andar orgulhoso de o ver partir assim, já rapazola autónomo. Mas, … mesmo assim, … nada me livra desta angústia.
Agora que os vou ‘libertando’, começo a perceber que deixá-los crescer é também saber suportar esta angústia. Que ser pai é também ser capaz de esconder em nós este afogo com aquilo que não podemos fazer por eles. Provavelmente irá ser sempre assim, até que eles se tornem homens. Ou talvez mesmo para além disso, talvez para sempre, mesmo quando já homens, quando nem sempre eu lhes puder valer.
( Não sei porquê prevejo que hoje vai ser servida alguma ironia ao jantar. Já estou a ouvir um “com que então eu é que sou mãe galinha, ein?”)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 07:42 PM | Comentários (12)
Destacarei
Não são muitos os fotoblogues que visito, e poucos são os que fazem parte da minha rotina diária, mas este será seguramente um deles. Para além da evidente qualidade fotográfica, surpreendente às vezes, pelos olhos do Benjamim há uma visão tão nítida da realidade, e capturada de forma tão espontânea e natural, que olhar para o seu trabalho é quase como abeirar-me da janela para dar uma espiada lá fora, no preciso instante em que ele parou o mundo.
Ele apresenta assim o seu projecto: “Desde o início do mês de Abril de 2005 que estou a fazer uma foto por dia. Em jeito de desafio pessoal, e em parte por culpa do meu amigo José Nunes, resolvi tentar colocar on-line diariamente uma foto que me pareça digna de ser apresentada, a quem se lembrar de me visitar, em http://fotoben.blogspot.com/”
Eu lembro-me, todos os dias.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:08 PM | Comentários (3)
Coisas importantes que me acontecem na trilha de mais um dia
Nove da manhã, caminho para o trabalho. Vou só, absorto e preocupado com o que me espera hoje. O portátil pesa-me e o sol já está desagradavelmente forte. Subitamente estaca uma carrinha uns metros à minha frente. Reconheço-a e alcanço-a em três passadas. Debruço-me sobre o vidro que se abre. Um sorriso, enorme, e todo meu, só para me desejar um bom dia. Depois parte. Ali parado, debaixo das quatro acácias, (curioso, nunca tinha notado a sombra sossegada que fazem) ainda revejo a sua encantadora atrapalhação, como se fosse isso e não todas as outras coisas que fosse necessário justificar. Para onde seguia eu? Ah, vamos então. Logo te encontro.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:12 AM | Comentários (4)
julho 12, 2005
Que aconteceu com o Malapata ???
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:11 PM | Comentários (13)
Há coisas que não se dividem por dois
Primeiro um estava no Algarve, com a tia. Depois voltou. Mas quando voltou já tinha partido o outro para o acampamento de escuteiros nos Açores. Pensava eu que assim fosse menos espinhoso, uma espécie de só meia saudade. Esqueci que pelos olhos de um também falam as saudades do outro.
Agora somos quatro os que estão por fora. O escuteiro e cada um de nós, os outros três, que enquanto estamos já quase só estamos para o lugar dele, ali vazio, na mesa.
(que mania esta coisa de querermos acreditar que também há aritmética nos filhos)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:02 PM | Comentários (6)
Os complexos segredos da escrita
Raramente tenho algo para dizer. Para agravo meu prometi-me que nunca andaria por aqui a ecoar notícias, isto é, ou sai cá de dentro ou não sai (quase como o neo-realismo do post anterior). Ora, como sabereis nem sempre é fácil trazer algo para aqui só porque se quer. É um exercício que exige um certo método. É preciso deixar embalar os dedos até criar um ritmo de transe. Depois, no final, logo se atenta aos pormenores, mas antes é preciso que saia. Tentarei explicar melhor.
Começo normalmente por aqui, do lado esquerdo do topo da página. Agora deixo que os dedos vão pairando sobre as teclas - essa é a parte mais penosa, ainda se tivesse uns dedos delgados, mas assim, com estes trambolhos espalmados acabo por pisar nas outras teclas, e isso atrapalha-me, interrompe-me - até que o cursor se vá encostando cada vez mais à direita. É importante que tudo saia num ritmo frenético, que nos impeça de pensar, ou melhor, que quase consigamos escrever aquilo que pensamos. Quando já saíram caracteres suficientes para que a linha se quebre e retorne por baixo de novo encostada na esquerda, normalmente paro. Às vezes preciso de um pouco mais, pois é evidente que não posso interromper algo, que mesmo sem nada ser, ainda está a meio de ser alguma coisa. Como agora por exemplo, que já lá vão algumas linhas. Quando assim é, costumo usar o ponto final parágrafo,
que ajuda a arrumar o texto, torna-o mais afirmativo e normalmente não fica mal, pois forma um bloco de quatro ou cinco linhas que não assustará os leitores mais indolentes, que assim saberão que podem passar por cima sem que percam o sentido das coisas, isto claro quando as coisas que assim saem, como agora, não têm nenhum sentido, e mesmo quando não se usa o ponto final parágrafo deve procurar-se usar os pontos para que os leitores, coitados, possam recuperar o seu ritmo natural de respiração, pois que isto do estilo “saramaguiano” não é para todos, os leitores, digo, e ponto, aqui, aqui já convém pôr um ponto. Dizia eu portanto que primeiro que tudo há que procurar chegar ao primeiro parágrafo. Ajuda-nos a ganhar novas ideias, a voltar ao ponto onde estávamos, e além disso torna-se um bom indicador para as porções de texto que o estimado leitor pode saltar.
E pronto, depois lá sigo embalado com a ideia que entretanto surgiu. É evidente que nem sempre isso acontece. Quando assim é e nos vemos enganados pela falta de inspiração sugiro frases curtas. Usar pontos em todo o lado. Quase em vez de vírgulas. Reparem que isso faz parecer que tudo se escreve mais introspectivamente. E quando o leitor dá por ele já não sabe onde íamos. É bom truque e deixa tudo com um ar mais afirmativo. Mas se ainda assim se achar que a coisa está demasiado vazia é melhor apagar tudo e começar de novo. Tantas vezes quantas forem necessárias. Mas claro que há alturas em que não há tempo para novas tentativas. Quando assim é, passo o corrector ortográfico por cima disto e pimba, lá vai post.
Ah, muito importante! convém acabar sempre com um parágrafo curto e conclusivo. É ele que dá razão de ser ao texto, mesmo quando o texto não tem razão de ser (o trocadilho também vai sempre bem e ajuda a realçar algo, mesmo que nada haja para realçar).
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:26 PM | Comentários (11)
julho 11, 2005
O arroto (um post menos próprio para os leitores mais impressionáveis)
Algures na madrugada acordamos os dois ao mesmo tempo, sobressaltados. Os nossos olhos entreabrem-se ainda moles um para o outro a procurar uma explicação. “Que foi isto?”, pergunto-lhe ainda estremunhado. Mas já ela se vira para o outro lado, balbuciando um “assustaste-me”. Assustei-a? Ainda insisto junto dela, mas já dorme. Que tenho eu a ver com tal atroada afinal? Começo a inquietar-me. Quando me apresto a levantar para ver se tudo está bem lá dentro, um desconforto enorme retém-me. Um rasto ardente queima-me a garganta. Aquela acidez … as malditas sardinhas!
Já só me resta esperar que a nebulosidade do sono apague, ou pelo menos desfoque, o estrondo que aquilo foi. Que vergonha! Sempre me avisaram para ter cuidado com o que sai da boca na hora do dormir, só não pensei que fosse tão audível.
[Para os leitores que porventura censurem a exposição desta tanta intimidade assim a cru (cru? é isso mesmo), eu, eu … este é um blogue neo-realista, pronto]
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:46 PM | Comentários (12)
julho 09, 2005
A posta do Bill
(assim mesmo enxovalhada)

Percebes e muito !
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:57 AM | Comentários (8)
E para breve, um inédito
que se aguarda a todo o momento
... do Bill, o trovador

(manda lá isso pá, tu não me deixes ficar mal)
Adenda: 'tão?
Adenda a seguir à outra adenda e que não sei como se chama: Maricas!!
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:19 AM | Comentários (5)
julho 08, 2005
Falso alarme
Palavra de honra que hoje me apetecia imenso ficar noite fora a escrever, escrever … mas nem sempre a vontade acompanha a arte. Ou nunca vos aconteceu ouvirem-se dizer “ desculpa, não sei o que tenho hoje” ?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:52 PM | Comentários (6)
Isto é já imparável - amanhã a “Times”!
Ainda hesitei, por modéstia, em trazer até aqui mais este reconhecimento. Mas essa é fraqueza que não tenho, e isso nem seria honesto para convosco que aqui me acompanhais desde os tempos em que este era um blogue anónimo. Decidi assim partilhar convosco mais este indesmentível sinal de notoriedade, que já não apenas uma citação de rodapé numa revista de distribuição gratuita. Agora é nos “media” a sério que tudo se passa já.
Olhem lá aqui para mim n’O Comércio do Porto! Ai o prazer da fama logo na terra que me viu nascer. Haverá al go que possa realizar mais um homem que poder voltar um dia assim gigante até junto das suas raízes, e talvez até por lá abrir uma Fundação, sei lá, um dia destes!
Mas ao ler ali a referência em baixo (que cuidadosamente sublinhei a vermelho) fico já apoquentado, a pensar na próxima fase, a que incontornavelmente levará esta justa fama até à sua coroada internacionalização. E se um dia que me veja citado na “Times”, e eles lá com aquela mania de trocarem tudo de trás para a frente, será que me vão referenciar com um “Just another blog”? E saberá alguém assim dar com o caminho até aqui, ou será que ficarei por causa de um absurdo linguístico reduzido ao anonimato, e já tão perto do estrelato mundial?
E numa palavra mais séria: Relevo a gentileza do Miguel Bardot que me avisou da referência, e agradeço o link e a chamada de atenção para a citação de um post, que infelizmente, e apesar de escrito com o humor espontâneo que colhemos das crianças, revela muito do que se vai passando com as nossas artes e ofícios, para ficarmos só por aí.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 07:26 PM | Comentários (13)
E se amanhã um indivíduo de tez clara me desse um murro
(Nestas alturas) é tão básico meter de um lado os muçulmanos e do outro os europeus e americanos. Como se a maioria dos muçulmanos fossem terroristas, como se nos ocidentais só houvessem anjinhos. Como se além destes não houvesse mais mundo, também infecto de terroristas e de vítimas. Como se o nojo dos atentados, a cobardia, a desumanidade, fosse traço exclusivo de uma etnia, uma raça ou uma religião.
Já sei que poderei ser confrontado com argumentos documentados, e testemunhos, e até imagens para me tentar ver a contradição. Obviamente, reconheço que o que junta um grupo de pessoas abjectas, há-de ser a parte comum da sua natureza malévola e das suas miseráveis convicções. O que recusarei sempre é tomar a parte pelo todo.
Esse é o princípio do ódio, da cegueira, e depois das guerras rácicas. Esse é o princípio do extermínio, que pelos vistos essa gente repugnante tão bem conhece. Será nisso que investem. Não é no destruir o mundo que disso não são capazes, é sim fazer com que o mundo se destrua a si próprio ruindo pelas bases que hoje o sustentam. É deixar as sementes das intifadas e das cruzadas espalhadas por todo o lado, pelos países, nas cidades, nos bairros e nas ruas, no homem da tabacaria e no vizinho do lado.
E de cada vez que as bestas investem vejo sinais preocupantes do seu sucesso. Vejo discursos que se inflamam em redor de acusações generalizadas, que anseiam desesperadamente por encontrar um culpado. E esta é por isso a primeira guerra que teremos de ganhar contra o terrorismo. Podemos não saber quem são, mas nunca podemos presumir que são quem não são, só porque precisamos de ter uma cara como alvo do nosso ódio. É nestas diferenças que se tem de mostrar a força da nossa humanidade.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:24 PM | Comentários (8)
Segue listinha
… sobre as coisas que me irritam logo pela manhã:
=> Acabar-se o gás a meio do banho
=> Saber o Porto coberto de cinzas
=> Os FDP dos terroristas invisíveis
=> A manipulação de notícias por um jornalismo subversivo
=> As guerrinhas que se travam por mail C/c ao resto da Empresa
=> Ah, e ter de usar gravata num dia de verão
E assim de repente não me lembro de mais nada
Um resto de bom dia
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:03 AM | Comentários (2)
julho 07, 2005
Os meus momentos semanais à porta da tabacaria com A. Lobo Antunes
A “Visão” é a única revista semanal que compro com alguma regularidade. Bons trabalhos, diversidade, o distanciamento que convém, e a vantagem de abordar assuntos que normalmente não tenho paciência para consumir a quente durante a semana. É quase um resumo ponderado dos acontecimentos mais significativos, mas é também um mix de leituras que me agradam, embora nos últimos tempos, tenham sido mais as “leituras agradáveis” que o resto, certamente por efeito da “silly season”.
Normalmente leio-a espaçadamente. A fórmula mais corrente é ir deixando-a distraidamente pelos mais diversos cantos da casa, de onde a resgato de tempos a tempos para mais uma nova leitura. Ao fim de algum tempo ela já cumpriu o seu percurso errático pelas assoalhadas todas, acabando invariavelmente no cesto verde alface da casa de banho. Esse ciclo, mais dia menos dia, cumpre-se numa semana, o tempo que é devido para renovar o stock.
Mas há um caso no seu conteúdo que foge a esta regra esparsa. Com esse, a minha voracidade é tal que ainda antes de pagar já me levo maquinalmente por entre as páginas: contracapa, correio do leitor, duas ou três páginas folheadas rapidamente et voilá. Depois estendo a mão para o troco no primeiro parágrafo, o segundo e o terceiro leio-os já sobre a soleira da tabacaria até ser empurrado por alguém que reclama passagem, e assim sigo, sem levantar os olhos, devorando o resto logo ali, do lado de fora, ao abrigo do toldo.
Bem que tento guardá-lo para mais tarde, e quase sempre me acabo a lamentar de ter perdido a oportunidade de o desfrutar no remanso da minha casa, mas acho que nunca conseguirei evitar devorar assim as suas Crónica’s. E mantenho, a “Visão” é uma boa revista, com bons trabalhos, diversidade, e o distanciamento que convém. Possivelmente, se não tivesse estas pérolas do António Lobo Antunes talvez mesmo assim a comprasse. Sim, talvez.
[ É curioso. Tinha-me ocorrido transcrever para aqui parte do que ALA nos conta esta semana. Corri o texto e não consegui seleccionar uma parte. Como se as memórias que tão deliciosamente nos conta não se quisessem desagregar, como se assim, extraídas do resto, deixassem de fazer sentido. ]
Publicado por Eufigénio Lagoa às 07:35 PM | Comentários (3)
"Petição contra a Extinção do Ballet Gulbenkian"
Normalmente não gosto de tomar partido e de me manifestar fervoroso na defesa de situações em que não conheço os dois lados da razão (pois, eu acho que a razão se distribui sempre pelos dois lados embora em partes não iguais, deve ser por isso que tantas vezes sou chamado de complacente, indeciso e contemporizador). Nesta questão do Ballet Gulbenkian prefiro adoptar a mesma postura. Certo é que tudo isto me deixa um profundo sentimento de perda (quem diria, eu que amaldiçoava as temporadas da Gulbenkian em miúdo), talvez irreparável no panorama cultural português (há mais assim? Irá haver?), e quando leio os termos desta petição fica algo a fazer comichão aqui dentro. Por isso aqui a transcrevo, deixando caminho para quem quiser assiná-la. E segue
"Como público da dança e como portugueses, os abaixo-assinados vêm por este meio manifestar o seu total repúdio pela abrupta extinção do Ballet Gulbenkian – que se sente, na realidade, como um assassínio. É pouco, designar por “extinção” a morte repentina de um agrupamento em pleno vigor, com quarenta anos de história incomparável e seis estreias absolutas previstas para a temporada assim abortada. O nível do Ballet Gulbenkian, sem dúvida uma das melhores companhias de dança moderna da Europa, senão do mundo, nunca teve paralelo no nosso país, e os seus bailarinos e projectos continuavam a crescer e a evoluir. A cada ano de quatro décadas formou públicos e profissionais da dança, marcou percursos, renovou visões, elevou a vivência artística de um público limitado em opções e artisticamente subnutrido. Será que, numa conjuntura como a que vivemos hoje, podemos dar-nos ao luxo de perder tamanha jóia? Com uma vida artística instável e irregular, será justo roubar ao público nacional uma companhia de superação, de sublimação, da melhor arte que nos é dada a apreciar neste país culturalmente catatónico há demasiadas décadas? Será justo para com a memória de Calouste Gulbenkian desbaratar assim tão valioso labor de quarenta anos? Será civilização, cosmopolitanismo, modernidade, destruir o grande agrupamento de dança moderna de um país, sobretudo de um país como o nosso, tão faminto de referências e de uma vida cultural activa e regular?
Não é justo, excelentíssimos senhores. É, na nossa opinião, um crime cultural contra o país. Temos noção de que o BG não é uma instituição pública. Sabemos que a Fundação Calouste Gulbenkian é soberana nesta decisão. Mas quarenta anos de vida – e que vida – tornaram o BG património nacional. E o património nacional, manda a lei, a ética e o bom senso, deve ser defendido. Esta extinção não faz justiça ao Ballet Gulbenkian nem ao seu público. Não faz justiça a Portugal. Nem faz justiça à Fundação Calouste Gulbenkian, grande farol de um país culturalmente tacteante. Pedimos, por isso, que reconsiderem a vossa decisão. Sob pena de ficarem para a história – da FCG e de Portugal – como os carrascos de um membro insubstituível do panorama artístico nacional.”
(é só clicar aqui)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:20 PM | Comentários (3)
Mas ciúmes de quê?
Ela sabe o que penso, o que me irrita, o que quero, o que não quero mas acontece, o que me absorve, o que me desanima, o que me satisfaz e desespera, sabe até o que eu quero de mim e o que eu quero para nós. Ela sabe do que falo, e do que calo. Mas não sabe o que eu sou quando nada disso é importante, quando escrevo apenas. Pelo menos acho que não sabe. E se calhar também não sabe que nada do que aqui possa escrever, sem a olhar, sem a poder tocar, poderá alguma vez ser o que falta. Mas mesmo assim, dessa ilusão, são por vezes ciúmes que sinto.
E eu sei - repito-o as vezes que for preciso - que o que escrevo não é o que sou. E até sei que querer parecê-lo é apenas uma traição permitida que a escrita me deixa usar. A escrita é mentirosa. É uma mentira bonita que condescendemos em ler e que nos pode envolver, e levar-nos com ela nessa fantasia que construímos, porque tudo isto nada mais é do que uma construção. Mas também pode ser uma mentira perversa, que apenas pretende falsificar a realidade, a realidade do que nós somos. Saibamos usá-la e podemos ser tudo, podemos ser corajosos, bons, calmos, complacentes, justos, podemos ser tudo o que queremos escrever, podemos até ser amantes. Mas não somos.
Alguém nega que gostaria de vestir a prosa do Eça numa conversa ao serão, por entre copos e amigos? Alguém acha que quando queremos justificar-nos das coisas que lamentamos, das nossas contradições, não era ao Fernando Pessoa que roubaríamos uma estrofe, e depois talvez juntar um beijo e dizer, “desculpa, eu sou assim”? E partir para férias com o espírito arrumado pelo Hemingway, agarrado ali à pressa na altura em que se agarra na mala e fecha a casa? Mas nós não somos isso, não somos o que alguém escreveu, nem sequer somos o que escrevemos. Somos apenas o que já fomos, mesmo quando escrevemos. Porque nisto de ser está muito mais do que o simples dizer, ou escrever, ou até pensar. Que ‘ser’ não é só isto, ser é algo que nos acontece não o que nós façamos acontecer, e ser é só uma vez, de cada vez, e é irrepetível, e não tem sortes de ‘reprise’ e não, não é assim tão fácil.
Aqui no papel tudo é diferente. Lemos, revemos, alteramos, mudamos as nossas reacções como quem troca a ordem de um parágrafo, apagamos os nossos gestos como se fosse um capítulo a mais, escrevemos até o que queremos que aconteça, antecipamos até o que queremos ser quando acontecer o que quisermos que aconteça. É feitiço esta parte que escrevo que é muito melhor que eu. Eu sou míope, ansioso, egotista, inseguro e irascível, sou esgotado, quase sempre, e formal, ausente, exigente, orgulhoso e surdo, sou muitas das coisas que não quero ser e que aqui não tenho de ser. Este sim, sou eu.
Não me regala parecer melhor do que sou, se não o sou. Que eu sou mais do que vírgulas, ou palavras circunspectas, ou parágrafos que se apagam e voltam a escrever. Eu sou o que apenas é quando as coisas acontecem, não depois nem antes, sou muito mais para além daquilo que visto escrevendo. Este encantamento de que me visto com palavras não me pode trazer ciúmes. Isso significaria que estava preso do que apenas escrevo.
Sou por exemplo, agora, esta necessidade de aqui dizer: Não sou nem metade do que aqui pareço, mas sou muito mais do que a outra metade que aqui não fica escrita.
(não levem isto muito a sério, mas estava a precisar de ajustar contas aqui com o tipo da caneta)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:15 PM | Comentários (3)
Era só para mandar saudades
- Allô meu querido, está a divertir-se?
- {qshhrsshhh»«iahh&%$"nãoéatuavez&%/pimba#}
- Diogo?
- Sim? Ah olá pai. Estava a brincar com as primas.
- Oh pai, já viu que eu já subi para um ‘Bom’ a Português?
- Pois, bom esforço, mas é preciso continuar.
- Olha, tens lido como tinhas prometido?
- Tenho, tenho, já vou na página 36 de um livro grande do JM
- Boa, e que livro estás a ler?
- Hummm, não me lembro do nome, acho que é do luki luca
- De quem? Mas isso é banda desenhada !!
- Pois é, mas tem legendas. É bem giro.
- Mas Diogo …
- Oh Pai, a tia está a chamar, posso ir?
- Mas …
[Clic]
(Era só para dizer que já estava cheio de saudades, mas esta estúpida mania das recomendações e deveres, como se ele tivesse de pagar a alegria que está a ter, tirou-me o tempo para o dizer)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:18 PM | Comentários (3)
julho 06, 2005
O 'bicho' é uma merda … eu? Sou vício
Hoje, quando vejo o Cap a escorraçar a vontade de fumar (antes nada tivesses referido homem). Hoje, quando vejo na Eufigénia a mesma vontade inquebrantável do primeiro dia em que nos comprometemos os dois. Hoje, quando ainda me lembro do que prometi aos meus filhos olhos nos olhos, esbanjando tudo o que era código de preserverança. Hoje, quando recordo a forma confiante como assumi tudo aqui também, de onde recebi tantos incentivos. Hoje … 1 mês e 9 dias depois …
… venho aqui ‘entregar’ o que resta da minha franzina vontade, sem evasivas. Só me sobra mesmo a sinceridade com que o digo, e a punição de o poder dizer.
Mas amanhã … (... ? ...desconfio que nesta altura já não tenho ninguém a ler-me) … melhor assim.
[ Não posso é ouvir uma coisa assim e assobiar para o lado. Dá-lhe com força Cap!! ]
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:59 PM | Comentários (26)
Ainda o envelhecer
E os olhos,
porque são eles a única coisa de nós que fica mais bonita no envelhecer?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:34 PM | Comentários (12)
Envelhecer
A questão está em constatar que nem todas as ‘coisas’ ao meu lado envelhecem na mesma medida que eu. Algumas mais súbitas, esboroam-se, e deixam-me a nostalgia de as ver assim partir. Outras, mais lentas e mais sólidas, fixam-se na margem, e sou eu que escorro com a corrente, sou eu que me vejo partir.
D’umas fica a pena delas, d’outras a pena de mim. Poucas seguem comigo. E nisso me dou(*) ao envelhecer.
(*) dou-me às 'coisas', quando lhes deixo a parte de mim que lá ficou, ou dou-me ao envelhecer, quando sigo com o que de mim ainda sobrou? - até a ausência de uma vírgula pode mudar o sentido do (es)coar da vida
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:25 AM | Comentários (4)
julho 05, 2005
Ora deixa cá pôr isto na ordem
Bill, confesso que ontem me fez alguma confusão verificar que sabes de coisas da vida dos miúdos que eu já nem me lembrava (mas olha que foi boa ideia essa da jantarada, ainda bem que viste que nós estavamos sem miúdos), e que já tinha até esquecido que o tivesse escrito. A partir de agora estás proibido de ler post’s relacionados com as minhas “caseirices”. Ou continuamos a falar, dando a cada um a vantagem de ir contando a sua vida, na medida em que o quer fazer, ou se vens daí já sem qualquer capacidade de ser surpreendido, o melhor é falarmos por MSN em vez de andarmos a comer bifes na Portugália (embora aquele molhito continue magnífico ein), ora pois.
E I., claro que não vou contar isso aqui. Não preciso do blogue para me garantir que as coisas que se passam na minha vida possam na realidade ter acontecido (por falar nisso, olha, já escrevi aquilo que falámos ali em baixo, depois vê e diz-me o que achas). Além disso isto não é uma espécie de boletim informativo matinal, tipo “a agência noticiosa para o acompanhamento das vicissitudes do Eufigénio informa que pelas 9.12h este teve um pequeno desacato com o Sr. João do café onde todos os dias bebe a bica pingada, mas que à data a situação já se encontra normalizada”. E em nota de rodapé (diz-se "banner" não é?): “veja como ele resolveu a questão da inscrição do filho na escola mesmo sem fotografias para o cartão escolar, veja inédito às 12.15h”.
E Eufigénio, já agora para ti também. Deixa lá de te armares ao pingarelho a fingir que contas episódios dramáticos da minha saúde física. A minha vida, mesmo que um pouco escangalhada é só minha, e o facto de um tipo se sentir mal não quer dizer que tenhas o direito de transformares isso numa experiência espiritual que venhas para aqui contar com ar alucinado só para apoquentares a minha família, percebido? Doravante este blogue terá censura. Queres escrever, a armar ao interessante, inventa, ou temos um problema de défice criativo?
Raios partam este blogue que me anda a espalhar por todo o lado.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:19 AM | Comentários (12)
julho 04, 2005
É óbvio
… que não é aqui que devem ficar escritas as coisas que agora tenho para dizer.
É óbvio que por agora não me apetece continuar por aqui.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:10 PM | Comentários (9)
Eu sei
... que há qualquer coisa que (me) assusta nas coisas que aparecem assim escritas, ininteligíveis, despojadas da noção do que são, quase absurdas.
E lamenta-se a ausência do estilo, da melodia dos tons, da construção linguística, e de todas as outras nuances que lhe faltam para se tornar apetecível, compreensível, consumível. Haverá uma enorme solidão quando se escreve o que mais ninguém saberá ler, desperdício dir-se-á, como se o latente, o que não chegamos a dizer, por assim ser, não fosse afinal o que nos falta perceber.
Escrita corajosa, digo eu, que nada mais lhe valerá para além disso, o de se fazer de nós, o de se escrever para nós.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:45 PM | Comentários (9)
Mais uns tempos
Sexta-feira, aconteceu comigo, mas voltei, trazido do fundo. Desde aí sou duas partes, e cada uma pertence a uma delas, às duas mulheres da minha vida. A parte que faltou levar, assim se suspenderá por mais uns tempos, nas mãos da mulher de cabelos negros e voz doce que me entorpece os sentidos. A outra parte de mim, a que ainda ficou, a mesma afinal, é toda de quem a roubou das mãos dela, dessa outra mulher que faz de mim quem sou, porque ainda sou, arrancado uma, e mais uma vez, quando quase nada já era tudo.
Vim do negrume onde tudo em nós se amolece, mas voltei, trazido por ela, e sei que já só voltarei para lá quando não for capaz de lhe dizer nessa outra vez, que afinal, a outra me levou de vez com ela. E um dia hei-de quebrar este azedume, que me vem do cheiro do fim, do perfume da outra, para lhe poder dizer que até lá, serei dela.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:08 PM | Comentários (5)
julho 01, 2005
É no que dá o vício das teclas
Hoje convoquei-me para as palavras. Sei que elas primeiro, virgens e ásperas, se amontoarão num caos que me quer imitar no que sou por dentro, que eu sou assim, a desordem das coisas que penso, e o que penso não se sabe escrever, e eu não sei pensar como escrevo. Ninguém sabe, embora alguns saibam escrever como se estivessem a pensar. Mas não escrevem o que estão a pensar, apenas são capazes de escrever como se estivessem a pensar mas sem estar, para poderem escrever o que realmente querem parecer pensar. E eu agora também tentei, queria aproveitar a frase bonita que pensei, embora não a tenha verdadeiramente pensado, porque a escrevi e faz sentido e é elegante, por isso não a pude pensar assim, mas escrevi que “por isso hoje convoquei-me para as palavras” como se o tivesse pensado. E vou continuar a tentar, mesmo que isso resulte numa fila de letras atropeladas do tamanho de páginas, que é assim que penso, e sei que assim escrevendo o que penso nada resultará para além da vontade ilusória de que o que escrevo é o que penso, e para quê isso se o que penso assim escrito é tão pior que o que escrevo se nem pensasse que escrevia. Que eu também tento escrever assim, como se não estivesse a escrever o que penso que penso que escrevo, mas também isso nada é, porque se penso o que escrevo é mais que isto, embora o que aí escreva não seja o que penso. Mas tentarei, continuarei a tentar escrever o que penso sem pensar no que escrevo, e logo depois irei intercalar tudo isso com vírgulas e acentos e irei disfarçar com interjeições, as que forem precisas até que os cantos das coisas que penso e que quero dizer fiquem aplainados de certezas, como se aquilo que escrevo fosse o que realmente penso, embora o que penso, se fosse escrito, nunca pudesse ser assim, tão pensado. E continuarei a tentar, até que as linhas amontoadas das coisas todas que penso de uma vez só pareçam pensadas uma de cada vez, e ordeno-as para que ganhem alguma ordem, já nem digo melodia, mas que apenas se amaciem, que se encostem umas nas outras, que façam sentido, mesmo que assim o sentido que façam já não seja o sentido que penso, porque o que penso não é ordenado de uma coisa de cada vez. E muitas vezes o que penso nem faz sentido, e ninguém escreve coisas que não façam sentido mesmo que sejam o que pensa, porque mesmo que o quisesse nunca saberia escrever com a mesma falta de sentido das coisas que pensa sem sentido. Mas tentarei na mesma, mesmo que isso nada diga de mim, nada diga de nada, e possa ser apenas uma expressão que diga que “hoje convoquei-me para as palavras”, que nada mais a si tenha atrelada, e eu desenrole outras tantas e mais, e mais, até que desesperado desista por saber que afinal, hoje não me convoquei para nada. Pudesse eu, soubesse eu, e elas acorreriam. Mas aí já não precisaria de me convocar eu, e escusaria de encher tanto texto a justificar que apenas o escrevi porque gostei da primeira frase, bonita, e achei que ficaria bem aqui, apesar de ser mentirosa, e quase certo nem ser minha, coisa que li e esqueci, decididamente, e agora iludo-me a pensar que é minha, mas não é. As minhas palavras, as que penso, não vêm assim, nem tão pouco chamam por mim.
Oops, caro leitor, chegou até aqui? As minhas sinceras desculpas, distraí-me e fui andando, e sem dar por isso empurrei-o para o caos das coisas que penso, quando penso que posso escrever o que penso. Não ligue sim? As minhas desculpas, as minhas sinceras desculpas.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:31 PM | Comentários (12)
Sem mais, transcrevo mail chegado
Alertar para as diferenças nunca fez mal a ninguém,
...E se a nossa realidade fosse diferente?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 08:23 PM | Comentários (5)