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junho 28, 2005
Porque aqui trabalha-se
Madrugada. A arrancar para galgar os 400 km até ao norte.
Chegado, já quase hora de almoço. Uma vergonha as estradas, e o melhor é mesmo começarmos por ir comer que depois logo lhe mostro aquilo. Uma coisinha rápida que eu sei que já andou muito e nós temos é de trabalhar. Olhe que tem de provar esta galinha do campo de cabidela. E oh engenheiro e já viu estes trolhas da função pública que agora ainda refilam, ainda no outro dia passei a tarde inteira na repartição de finanças e as meninas a coçarem o grelo enquanto a fila ia até à porta. Tem de provar este verde que é daqui mesmo, uma delícia, vá, só mais um. E já viu o numero de funcionários públicos que a gente tem, mais de 600 mil parece, olhe que ainda no outro dia estive num cliente na Alemanha e aquilo não tem nada a ver, o almocinho é de sandes e já está, não é como aqui. Mas experimente aqui um pouco da minha barrosã que vai ver. Deixe lá as horas que um homem se não se alimenta não trabalha. E dizia eu que é uma vergonha, uns a gastar e nós é que temos de trabalhar, nem lhe conto o que se passa comigo, olhe que quase não vejo a família. Mas oh engenheiro agora vai uns palitinhos do céu vai ver o que é bom. Há tempo. E depois o desplante da greve, eu por mim acabava-se já aquilo tudo. Manel, traz ai a garrafa para o engenheiro, mas a da casa ein. Não, como não, insisto, você vai provar desta aguardentezinha e depois logo me diz. E esta coisa do IVA é só mesmo para quem não trabalha, olhe que eu nem sei como vou fazer e um homem aqui a dar o corpo, pois, que alguém tem de produzir. Só mais um com o cafézinho. Pronto, nem insisto, mas dê-me então licença só para molhar os beiços. E ia eu a dizer que aqueles filhos de uma mãe nem , ai as horas, já quase três, mais de duas horas aqui. A conta Manel rápido que aqui trabalha-se. Eu nem reparei. Ora essa, isto é comigo, vai a facturinha para a Empresa, para descontar o Iva eheheh. Mas tem a certeza que nem um licorzinho aqui da terra, nada mesmo, olha que você nem parece gente que labuta eheheh. Bem vamos lá andando oh engenheiro que você veio para trabalhar. Ali ao fundo é a câmara e olhe que se lá formos agora nem encontra ninguém. E aqui está, que me diz da entrada ein, até parece árabe. E faço questão de lhe mostrar isto tudo, vai ver que são 3.000m quadrados bem arranjadinhos. Você gostou das naves da oficina oh engenheiro, aquela coisa das vigas de madeira dá um ar porreiro não dá, ai que são quase quatro e meia e ainda tem de ir para baixo, o que vale é que já estamos a acabar a voltinha. Então que me diz, acha bem como vou pôr o equipamento. Eu sei, eu sei, falta tempo para discutir isso melhor, mas o engenheiro há-de cá voltar outra vez não é, para vermos melhor como vamos fazer ali com os chumbadores e a electricidade. Mas como assim, olhe que ainda vimos muita coisa hoje, e depois podemos falar pelo telefone. Mas esta merda irrita-me, um tipo passa um dia só a falar com os fornecedores, isto na Alemanha não seria assim, senão já lhe mostrava as máquinas todas. Mas o engenheiro tem de me prometer que volta, para nós irmos à da Mariazinha, a que lhe falei, vai ver que aí ainda se come melhor. E volte sempre, foi pena a gente não ter tido tempo para ver melhor o torno que recebi ontem queria que me desse uma opinião. Mas fica para a outra vez, quando cá voltar. Mas tem de ir não é oh engenheiro, e não vai uma cervejinha para o caminho, não vai mesmo. Não, pronto, vai assim em seco não é. Mas não se esqueça de me telefonar para a gente discutir isto tudo que hoje quase não deu para quase nada, o tempo sempre a voar, é assim com quem trabalha.
A voltar, a desfazer os outros 400 km. E a conversa do almoço distraidamente a voltar. Os alemães, pois, a diferença está na administração pública. E na postura. E por falar em postura, será que eles trabalham assim tanto como nós ?
Publicado por Eufigénio Lagoa às junho 28, 2005 10:40 PM
Comentários
Na Alemanha não há vinho verde.
Publicado por: cap em junho 28, 2005 10:52 PM
Nem merecem. Que isto é só para o tuga trabalhador, enfim, sem contar com os funcionários públicos, essa gente desse país estranho
Publicado por: Eufigénio em junho 28, 2005 10:56 PM
Posso garantir que na Alemanha por experiência própria que os almoços de negócios são de prato,aliás pude constatar isso pela primeira vez à 20 anos atrás,hoje os almoços de negócios são tal e qual os almoços de negócios portugueses,já não por experiência própria mas por pessoas que me são chegadas.Só há uma diferença,os hórarios são para cumprir.
Publicado por: re21 em junho 28, 2005 11:49 PM
e entre as refeições trabalha-se re21, ou apenas se fala dos outros (que como nós) não trabalham nada? ;)
Publicado por: Eufigénio em junho 28, 2005 11:52 PM
Eufigénio,é claro que se trabalha,e no duro,ás refeições fala-se do que no se está a trabalhar,pelo menos é essa a minha experiência.
Publicado por: re21 em junho 29, 2005 12:42 AM
A administração pública portuguesa tem maus gestores, tem mais chefes que assumem o poder como estatuto. Se não sabem gerir, como há-de a máquina funcionar?...
Ás vezes até funciona porque o desenrascanço nacional motiva alguns carolas que até gostam de trabalhar.
Agora este teu post gere muito bem as contradições daquele conhecedor profundo da gastronomia nacional.
Publicado por: maria arvore em junho 29, 2005 01:22 AM
Estou com o Cap, o culpado é mesmo o verde. Depois, linguas destravadas e toca a trabalhar!... Porque já se sabe, quem não é para comer (e beber) não é para trabalhar...
Publicado por: Andy em junho 29, 2005 08:48 AM
Vinho pela cor, pão pelo sabor.
Publicado por: bill em junho 29, 2005 10:07 AM