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junho 29, 2005

O "senhor da barriga cheia"

(Deixemos a marinar lá no fundo do blogue o exercício da fama, e mude-se o assunto que a minha modéstia já não suporta tanto)

obeso_N.jpg Lá estou eu a rever coisas passadas naquilo que os outros escrevem. Aqui junto as de ontem a hoje por culpa de um episódio que a Mi nos confidencia. Deixa estar assim, não a corrijas já Mi, vais ver que isso ainda vai ser de grande utilidade. E isto a propósito de …

A outra casa onde morávamos era pequena e a vontade da cozinha nem sempre muita, por isso, com alguma frequência, recorríamos à tasca em frente para remediar jantares. Acontece que nessa tasca servia um homem extraordinariamente gordo, um batelão com dois rodízios nos pés, quase já escondidos pelas franjas de gordura que lhe caíam dos tornozelos. A familiaridade foi-se introduzindo com tanta frequência que fazíamos do estabelecimento e o tratamento foi-se informalizando entre nós, pelo que os chamamentos saíam cada vez mais espontaneamente. Nem o Diogo escapou a esse ambiente de proximidade, e de cada vez que queria captar a atenção do obeso Oscar, olhava-lhe para a camisa esticada, cheia de nódoas e botões rebentados, e sem mais nada que lhe ocorresse, por falta do nome esquecido, solicitava-lhe algo tratando-o por “senhor gordo”. Os reparos não se faziam esperar que logo nós, persistentemente, o corrigíamos sobre o tratamento menos próprio, mas aparentemente sem efeito.

Certo é que um dia, por excepcional acaso, enquanto chamava a atenção do lento mas solícito Oscar com o habitual “Senhor gord …” se lembrou disso, a tempo de se interromper. Tendo presente as já amontoadas admoestações sobre o tipo de tratamento, mas não se recordando do nome dele, lá improvisou uma mais ‘educada’ interpelação, e disparou um “Senhor … de barriga cheia …”. Claro que o homem ficou inconsolável, que gordos há muitos, e nesse tratamento há até carinho na voz de uma criança, mas assim tratado, era demasiado sincero e retratista, quase lhe apontando uma qualquer enfermidade terá ele ajuizado. Mas enfim, salvou-se a meu ver o esforço da educação.

É grato ver os filhos a crescerem educados, e em cada um destes incidentes (mesmo que desajeitados) do seu crescimento vinca-se mais uma etapa e sobra-nos orgulho. Porém, há algo de útil que se perde nesses momentos. Que bem sabemos (deixemo-nos de falsas inocências) que a boca de uma criança pode ser uma eficaz arma de arremesso, e se convém tratar como inconvenientes as coisas que por vezes deles saem, mostrar até alguma lamentação, outras há que nos deixam sorrisos malandros que só a custo disfarçamos, ali tão sincera e directamente a ficar dito aquilo que tivemos de calar.

E isto vem a propósito de ainda agora, por exemplo, me apetecer ter dito ao meu chefe que aquela gravata que tão airosamente se suspende do seu colarinho imaculado, mais parece um ‘babygrow’ com lantejoulas brilhantes (que antes estivesse bolsado), e que isso assim dificilmente irá prender a atenção de alguém que não seja para o ofuscante penduricalho. Mas falta-me cá o Diogo, não o de hoje, que esse se vai fazendo educado, o outro, mais sincero, antes de eu o malbaratar com lições de educação.

Publicado por Eufigénio Lagoa às junho 29, 2005 07:15 PM

Comentários

Um dia, pós 25 de Abril, os meus pais receberam em casa uns Cabo-verdianos para jantar. A minha irmã, que na altura teria cerca de 4 anos, andava à procura de um deles que lhe tinha dado alguma atenção. Como não sabia o seu nome disse que era o castanho quase escuro. Chamar preto estava fora de questão!!!

Publicado por: Condessa às Avessas em junho 29, 2005 11:15 PM

:)

Publicado por: Mi em junho 30, 2005 12:34 AM