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junho 30, 2005

O que admiramos, poderá ser maior que nós?

A verdade é que quanto mais nos assenhoreamos de algo que admiramos, material ou imaterial, mais contraídos vamos tornando os seus contornos. A nossa saciedade pelo que desejamos pode tornar-se uma rotina voraz, que reduzirá o objecto do nosso anseio a uma fastidiosa forma de admiração. Aos poucos, de tanto o desejarmos, de tanto o procurarmos, de tanto o anteciparmos, deixamos de poder ser por ele surpreendidos, não porque a sua natureza se tenha alterado, mas porque nisso nós já não somos capazes de nos surpreender. A verdade é que aos poucos, tudo o que incessantemente admiramos, deixará cada vez mais de ser o que é, para se definhar no que nós viciosamente procuramos nele. E aquilo que estava para além de nós é reduzido à parte de nós que cada vez menos é capaz de o admirar.

Isto é transponível para a Blogosfera. Hoje, largos meses depois de me ter devotado a este inesgotável mar de ideias, de arte e de informação, concluo que as minhas voltas se resumem a meia dúzia de sítios. E isso ocorre não porque os outros não sejam igualmente bons, ou até melhores, ou porque não vá descobrindo alguns que mereceriam fazer parte desta minha rotina diária, mas simplesmente porque nesta imensidão já só consigo encaixar o que cabe no meu ‘tamanho’. E aqui a intangibilidade da blogosfera faz-se rotina, e a surpresa atrofia-se na palma da minha mão. Se continuo por cá é porque a sei tudo isso, mas quando ando por cá, ela é já só a parte minúscula que eu consigo admirar, não é já toda, não é a que eu admiro e que me faz andar por aqui.

E já agora, nos afectos, por vezes, pode acontecer o mesmo. O que amamos pode deixar (absurdamente) de ser o que amamos para ser apenas a parte de nós que é capaz de amar.

Publicado por Eufigénio Lagoa às junho 30, 2005 12:53 PM

Comentários

Concordo e penso que isso tem um pouco a ver com os limites do que podemos suportar, um desconhecido e uma procura constante, um sempre novo, não nos dá tempo de o saborearmos, não nos dá tempo para que nos diga verdadeiramente alguma coisa, acaba por se tornar tudo igual.
Depois de se olhar longe para se poder ver de perto, passa-se a olhar ao perto para se poder ver mais longe. São as nossas escolhas; precisamos de uma certa segurança e um certo apoio.
Acho que o que dizes é aplicável para quase tudo.

Publicado por: vanus em junho 30, 2005 01:19 PM

Sim Vanus, é isso, é verdade essa nossa necessidade de focagem. Mas mantenho, é uma pena que isso se possa constituir numa espécie de rotina de admiração e que esta em si mesma, em determinada altura, seja mais do que o que de facto admiramos - lá se vai a capacidade para "saborearmos" (como dizes).

O que efectivamente nos faz estar ali (o estar já mais importante que o ali), gostar de alguém (o gostar já mais importante que esse alguém), tudo se transformando para dentro de nós, cada vez menos do lado de fora.

Publicado por: Eufigénio em junho 30, 2005 01:27 PM

Só assim percebemos o que é verdadeiramente importante para nós. Não importa se é melhor ou pior. Tem de ser, apenas, aquilo que nos faz sentir bem, aquilo com que nos identificamos. Compra hoje um carro de gama média com que sonhes há muito tempo. Por bom que continue a ser daqui a dois anos, não terá o mesmo valor que até ao final desta semana. Faz parte da essência das coisas. Perecem. Tal como o seu valor.

Mas porquê o "apenas"? O do último parágrafo... Porque será assim tão mau quando algo deixa de ser um mero objecto (de amor), para passar a constituir a totatilade, aquilo que nos faz amar, o critério que nos possibilita que tal aconteça. Quando algo é a "a parte de nós que é capaz de amar", não é já algo a que nos dirigimos, mas é já parte de nós. Acredito que a magia seja essa. Também não me custa a acreditar que tenha percebido mal, pá...
(desculpa o tamanho, pá...)

Publicado por: alchemist em junho 30, 2005 01:46 PM

De acordo. E se não quero, aqui, falar dos afectos (esses vão mais longe, têm mais que se lhes diga) deixa-me comentar a transposição «ao contrário»: aconteceu-me algo semelhante, sem dúvida, cá pela blogosfera, e em pouquíssimo tempo os dedos das duas mãos chegam para contar os «poisos» habituais. E, como sabes, sou até «apenas» um leitor/comentador, não tenho blog (será por isso?) Mas (parece) as surpresas ou são poucas ou desinteressantes, dá a sensação que só «aqueles» te podem despertar alguma coisa...

Sim, cá dentro (estou «focado»?!) Mas não é isso que conta?... Apreciar o que se gosta pode permanecer admiração mas também manter(-nos) a capacidade de saborear. Ficas é mais «esquisito»... E escolhes. E é natural, acho eu, essa escolha ser egoísta. E daí a começar a antecipar já não o que VAIS ver mas o que QUERES ver é um passinho. Mas, quando se gosta...

(desculpa, alonguei-me e estou um tanto confuso - há dias assim...- pode ser até que isto ajude!)

Publicado por: Andy em junho 30, 2005 02:05 PM

(É. O alchemist utiliza uma expressão que resume o que eu tentava tão confusamente dizer - essa «magia» quando acontece, é que vale a pena e faz a diferença. É isso mesmo! Cá, dentro de nós...)

Publicado por: Andy em junho 30, 2005 02:09 PM

MAs que belas postas os dois por aqui deixaram. Nem sei por onde lhes pegue.

Achemist,
no que toca aos afectos a minha experiência diz-me o contrário, eles cultivam-se, deixemos a parte idílica de fora. No resto concordo contigo, isso de tornar nosso o que admiramos/gostamos mas, é aí também que te contradigo. Ou trazê-lo para nós deixamos de fora o todo que admiramos, barrilamo-lo com as nossas fronteiras e deixamos de poder descobrir para além do que já se "consolidou" em nós. É a esse "desperdício" que me refiro.

Andy,
Mas, e as terras por onde não andas, podes garantir que não te iriam supreender, cativar? prendemo-nos ao bastante. Também nos afectos, isso de querer apenas (insisto no termo) a parte que já descobrimos não os minimiza, aos afectos, às partes por descobrir? E escolhes já?

(tamanhos desses (comentários) mandem sempre)

Publicado por: Eufigénio em junho 30, 2005 02:43 PM

Mantenho o «quando se gosta». Agora, tu próprio disseste, «já só consigo encaixar o que cabe no meu tamanho». Mas, afinal, há espaço para mais? Claro que sim, mas também há uma dose de satisfação adquirida. Que (em certos aspectos) te completa, faz a tal «magia». E, se assim é, porquê pôr tudo isso em causa? Nem por falta de coragem, nem por egoísmo, mas porque é bom.

Se esse «bastante» pode ser (é!) tudo, isso não poderá ser (tem de ser!) a felicidade? Sem nenhum «apenas»?

(sim, agora já falo dos afectos - e da vida!)

Publicado por: Andy em junho 30, 2005 03:00 PM

Andy,
Pode um afecto sustentar-se no «bastante»? A nossa admiração não existe porque sabemos que hoje encontrámos o "mais" do que já procurámos? E se deixarmos de procurar mais do que temos, essa «satisfação adquirida», e se deixarmos de procurar em quem amamos já não só aquilo que já temos dentro de nós, mas a parte que ainda não conhecemos? continuará isso a ser «magia» ?

Publicado por: Eufigénio em junho 30, 2005 03:10 PM

e ... Que felicidade pode existir(subsistir) quando não a pomos em causa?

Publicado por: Eufigénio em junho 30, 2005 03:11 PM

Se calhar sou eu que parto do príncipio (porque nele acredito) que tenho o TODO de quem amo, e que é assim que a conheço - inteiramente. E por isso sou feliz.

Porque acredito na felicidade absoluta (neste campo dos sentimentos e afectividades, atenção). E porque acredito também que não é necessário (nem sequer possível) pôr tal felicidade em causa. Porque desde sempre e para sempre existirá.

Estarei errado, talvez. Mas é bom. Será uma (auto)mutilação, consciente ou não, dessa capacidade de (querer) ver mais. Ou, se quiseres, substituição dessa capacidade pela de procurar e encontrar no teu TUDO, no teu mundo completo, algo de novo todos os dias (ilusão?!) que recria em ti a chama eterna do amor. A toda a hora. Essa é a «magia».

Caminho de felicidade, ou delírio juvenil? Eu acredito nisto, de coração, e assim levo a minha vida (e o meu amor).

Publicado por: Andy em junho 30, 2005 03:21 PM

Desvendaste os dois caminhos Andy, agora sim, sumarizamos!

Na margem fica o terceiro: nunca procurar, nunca encontrar, e poder ser feliz também (a ilusão não se procura, inventa-se)

Publicado por: Eufigénio em junho 30, 2005 03:25 PM

A paixão pode ser redutora?
Claro que é tomar a parte pelo todo mas esses momentos dão um intenso prazer.

Depois, felizmente (acho) procuramos alargar esse conhecimento (nos afectos e na blogoesfera). Pode resistir ou desabar. Nada é eterno. Mas de certeza que nesse processo aprendemos algo e não nos fechámos sobre nós.

O que quero dizer é que é bom ir sempre mais além na descoberta do mundo- afectivo e blogoesférico - mas a confiança para navegar nesses mares advém da segurança que se cria nos estados de paixão.

Publicado por: maria árvore em junho 30, 2005 04:13 PM

blogues stop tempo curto stop limitar ao essencial stop

afectos stop transforma-se o amador na cousa amada stop dois fundem-se num só stop há mais?

Publicado por: cap em junho 30, 2005 07:25 PM

Apesar de jovem e apaixonado, Eufigénio, consigo distinguir um toque subtil dos meus lábios, de um beijo arrebatador. E acredita que, na maior parte dos casos, o primeiro sabe melhor.

É como os afectos. Por fazeres parte de nós, não quer dizer que os asfixiemos em nós. Pelo contrário: em nós, recolhamos deles o que neles nos atrai, para que apaixonem e toqem e arrebatam os que se cruzarem connosco e com os nossos afectos.

Publicado por: alchemist em junho 30, 2005 08:30 PM

Maria Árvore, Cap, Alchemist

Estou maravilhado com os vossos comentários. Poderia aqui tentar justificar que não era o contrário aquilo que eu queria dizer, mas isso poderia parecer significar que estaria em desacordo convosco. Não estou.

Mas mantenho, há sempre a hipótese de o amador (copyright Cap) se viciar no amar, mais do que no que ama. E isso não quer dizer necessariamente que não saiba amar e que não ame quem de facto ama. Mas apenas que isso se pode transformar num exercício individual, e que se assim for, no limite, não poderemos falar de amor, mas apenas do rodopiar à volta das emoções de uma pessoa apenas

Publicado por: Eufigénio em junho 30, 2005 11:53 PM

Chamem-me Narciso / Narciso é um belo nome... ;)

Publicado por: cap em julho 1, 2005 12:46 AM

Cuidado não te afogues oh Narciso :)

Publicado por: Eufigénio em julho 1, 2005 12:48 AM

Agora a sério Cap. Como sempre resumes ao simples o que aqui complico. Mas isso daria para outra posta. O amarmos para termos retorno, pela simples razão de que vermos isso pelos outros nos ajuda a amarmo-nos. Faz sentido?

Publicado por: Eufigénio em julho 1, 2005 12:56 AM

A sério, fazer sentido, faz! Mas que dizes do amor platónico então? ;)

Publicado por: cap em julho 1, 2005 02:17 AM

Isso é ainda outra posta, isso do amar sem tocar, que saber ter o suspense pode ser uma arte, mas o temer acontecer, ai, isso não é amar, quando alguém se receia ser de menos para quem ama, isso não é amar (mas que digo eu, que nós falávamos agora era do sr. Narciso acho eu:) )

Publicado por: Eufigénio em julho 1, 2005 07:17 PM