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junho 26, 2005

O Paulo Gordo e um “Mini” cheio de pressa

Ora, o Paulo Gordo era uma espécie de rotor dos nossos tempos de ócio. Quando nada havia para fazer, era à volta dele que nos compúnhamos, ali esperando pela próxima situação que haveria de transformar com uma espontaneidade impressionante em mais um episódio hilariante. Andava de pernas abertas, braços para trás, pança orgulhosa e uma franja loura que afastava repetidamente com um sopro. Tanto ego, em condições normais, faria dele um personagem irritante no mínimo, sobretudo para mim que nunca fui de acatar excessos de protagonismo nos outros. Só que tudo em redor dele era tão inflamado de improviso e humor, que se consentia bem esses seus inchaços de personalidade, que aliás eram essenciais para a forma como desdobrava cada ocasião, por mais trivial que esta começasse por parecer.

O seu poder de argumentação, o tom sincero com que colocava a voz, e a forma imaginosa com que enviesava qualquer situação ou raciocínio que lhe aparecesse pela frente, permitiam-lhe enfiar enormes tangas em qualquer pessoa que tivesse o azar de se cruzar com ele, o que aliás era confeccionado sempre com ar imperturbável e circunspecto. Um telefone nas suas mãos por exemplo, era uma arma de engano letal para o pobre coitado que fosse apanhado do outro lado. Várias foram as tardes em que nos entretemos a ouvi-lo marcar quartos para o Sr. Paco Rabanne (era o que os putos mais usavam na altura) em tudo o que era hotel de Luxo em Lisboa. Do outro lado da linha nem vacilavam. De outras vezes eram números discados ao acaso que invariavelmente produziam uma audível alegria naquele que acabara de concluir do outro lado ter sido agraciado com umas férias no Japão, após ter respondido a meia dúzia de perguntas absolutamente idiotas que alguém com voz firme e profissional lhe tinha feito. E já ali os dois miúdos e a avó e mais alguém que era chamado lá dos fundos da casa, toda a gente para ouvir mais uma vez confirmar o prémio radiofónico. Maldades? Claro que sim, de outra forma onde estaria o mérito do seu desempenho.

À noite as coisas eram mais movimentadas, e nos dias de sorte até conseguíamos arranjar um carro, por simpatia ou distracção de algum pai. O dinheiro não abundava, mas havia sempre uma ponta de mangueira à mão. Normalmente essa função cabia ao mais novo do grupo, ele vítima de um sorteio encapotado que já antes coubera aos outros. Não era praxe, só que assim dava-se a oportunidade a alguém que desejava mostrar a sua integração de forma afincada, e que ainda não conhecia o desconforto de passar o resto da noite a mastigar aquela saliva mole de gasolina. E depois de abastecidos, mais nada, ficávamos assim a navegar de um lado para o outro, por entre ruas, a fazer o destino acontecer.

Foi assim que um dia fomos apanhados a percorrer em contra-mão uma rua de sentido proibido, lá para os lados de Alcântara, no Mini da mãe do Paulo Gordo. Seis putos dentro daquela latinha, e de súbito atravessa-se à nossa frente um polícia, a mão lá bem no alto, a pose imperial. Em condições normais ele teria arrepiado caminho como já antes fizera, mas ali, de marcha-atrás, e notando logo nós ali a mota que facilmente nos alcançaria, hesitámos. Depois já era tarde demais, já só o tempo de abrir janelas para fazer volutear aquele fumo comprometedor, e o Gordo já a avisar para nem lançarmos um pio. Oiço-lhe o “bô noite sôr guarda como está”, e a seguir já sem parar a argumentar qualquer coisa que mal distingo lá atrás no carro. Mas a coisa não ia bem, que embora quase não o ouvisse, ao polícia, notava-lhe uma certa exaltação, que era ele que devia falar e via-se ali irritadamente envolvido no rol de palavras do Paulo Gordo sem ainda poder trazer ao caso a contra-ordenação grave que o fizera parar-nos. E já eu a recear que acabássemos onde já não nos era estranho, numa esquadra qualquer, com o Gordo a fazer-se exaltar e a exclamar que o pai era isto e aquilo, e as coisas a ficarem ainda piores.

Mas volto à conversa. Vejo-o puxar da carteira e eis que apresenta um documento ao polícia, não a carta ou o BI, mas um cartão plastificado, vermelho e branco. O polícia estranhado com o que ouve, já mais amaciado, já vítima. E lá o ouço explicar, agora com conveniente tom apressado, que ali todos somos nadadores-salvadores e que, ai Jesus. a ser chamados de urgência, uma catástrofe, lá para os lados da Trafaria, parece que naufrágio dos grandes, e como é que o sôr Guarda ainda não tinha ouvido nada, e tudo sem pestanejar, a lançar aquela teia fina que impedia o seu interlocutor de pensar quase, adormecendo-lhe o discernimento. E o agente da autoridade a hesitar, ali de documento ainda na mão, esquecido, e tão preso dos argumentos já que nem se apercebia do riso que quase não conseguíamos disfarçar lá dentro. E o Gordo, com a sua técnica imparável, a não dar tempo ao opositor para sequer pensar, lá continuava, que aquilo era coisa muito grave, que não dava sequer para perder tempo com ninharias, um naufrágio sim, ao largo da Trafaria, era só o que sabia, e que se o honesto polícia teimasse em fazer cumprir a ordem que passasse já ali a multa e que a fizesse chegar ao cuidado do tesoureiro dos Bombeiros Sapadores de Almada, mas que ainda assim ele teimaria naquele rumo, o mais curto, mesmo que em contramão, que era de vidas humanas que se tratava ali. Mas ia logo adiantando que não percebia como colegas nesta coisa de salvar vidas, cada um no seu mister claro, se podiam atrapalhar tanto um ao outro.

Num ápice vimos o polícia montar na mota, ligar as sirenes, arrancar convicto, gesticulando com os curiosos que entretanto haviam parado, encostando trânsito, e assim nos levando até à rotunda que nos faria depois subir para a ponte. E nós lá seguíamos, atrás, o Paulo Gordo a tirar partido de tudo aquilo, a fazer a festa, a apitar, a acrescentar o tumulto, a saudar os transeuntes que com ar estupefacto viam aquele “Mini” cheio de malta lá dentro, na esteira da sirene. Mais à frente, já no lance de estrada que nos levaria à ponte, o zeloso agente encostou, fez-nos seguir com um gesto, e despediu-se com uma continência cúmplice de nós. E o Gordo a retribuir, com ar solene e a apitar por ali fora, a caminho da outra margem. No fim ainda me recordo de o ouvir a lançar pragas, que agora tínhamos de seguir até à outra margem, e mais as portagens, e até quase a Almada, só lá na Rotunda poderíamos voltar. E se não bastava ter-nos deixado seguir logo ali, na rua onde nos encontrou, pois, que havia gente que complicava tudo.

Outros tempos, tão longe já, já tão pouco guardados nos raros “Minis” que ainda por ai andam. Quanto ao Paulo Gordo, sei que entretanto se fez rico, em área séria de negócio ao que dizem.

Publicado por Eufigénio Lagoa às junho 26, 2005 02:37 PM

Comentários

não! não é só mais um!
bem vindo aos links.

Publicado por: jorge em junho 26, 2005 09:28 PM

Obrigado Jorge

Publicado por: Eufigénio em junho 26, 2005 10:29 PM

Olá Eufigénio!

Começaram as votações lá em casa, aparece!

Um abraço,

Bin

Publicado por: bin da fauna em junho 26, 2005 11:52 PM

Ehehehehehe... !

Publicado por: bill em junho 27, 2005 12:40 PM

Verdade, verdadinha, vocês nadavam bem nas ondulações divertidas da vida que criavam. Só podiam ser nadadores salvadores. :)

Só discordo do longe. Longe estará o que não nos fica na memória.
Ao ler isto recordei logo os inúmeros telefonemas que também fazia a reservar mesas em restaurante, para casa dos senhores de apelido Leitão para os informar da sua promoção a Porco e para os domícilios de Leão, avisando que dormiriam essa noite no Jardim Zoológico. Até conhecia também um Paulo Gordo, a quem carinhosamente chamava «Pote da Graxa».

Publicado por: maria árvore em junho 27, 2005 01:14 PM