« E segue o resto ... | Entrada | »
junho 21, 2005
Blogues defuntos
Tem algo de doloroso o descobrir um blogue extinto. Ao contrário de outros cadáveres, um blogue não sofre de putrefacção - ou simplesmente se esfuma ou mantém a sua pele intacta para a posteridade. Essa virtude (virtualidade?) é o que torna possível conhecermos coisas que existiram antes de nós, (quase) exactamente como se elas ainda hoje permanecessem. Mas suplantar assim as leis da natureza pode ser doloroso para quem cá fica, nós, leitores, porque o desaparecimento já não é algo que se esbate na memória, e se atenua, mas sim algo que assim está continuamente a (des)acontecer. Toda a imagem pode estar, perene, mesmo ali, e contudo sabemos que o que vemos (lemos) é já matéria finda - não a tez que essa mantém-se, mas a sua capacidade de nos surpreender amanhã, essa que para mim é o blogue. Já antes o tinha dito, um blog não é só o que nele se posta, é também o seu autor, e é sobretudo aquilo que ainda nos há-de dar a ler. Tem passado, presente e futuro. E isso faz com que quando olhamos assim para um blog defunto o notemos inexplicavelmente desabitado e inacabado. Bem sei que racionalmente isto não é aceitável, nem dizível, mas quando caminhamos pelos seus post’s e depois pelos seus comentários, sentimos um silêncio mórbido. Quase podemos aperceber-nos da opinião viva que por lá terá havido, das discussões, da exaltação talvez, da compreensão cúmplice que se abriu dos dois lados, do estabelecimento de relações intangíveis entre eles, das inimizades, mas agora tudo ali soterrado, quase sinistro, já nada é além de texto. É bom isto dos blogs serem para além da sua extinção, memória do que foram, mas acentua o sentimento de perda. Afinal as palavras continuam ali, mas falta-lhes a ilusão, já não se lêem como se escreveram, ao som dos dias.
E isto vem a propósito de um blog que conheci hoje, na deriva de um link onde me perdi. Um post de que gostei muito, sobre isto da “Blogosfera ser um Bazar”, de Junho de 2003 (!!). Depois subi por ali fora, a ler cada vez mais entusiasmado, até que descobri que estava em cima da sua lápide, onde o autor se despediu, ainda antes de eu ter começado nestas lides. E senti-me ali de forma tão estranha, como se não houvesse razão para lá estar, apesar de ser texto, apesar de poder ser lido. Faltaria o sobressalto do post de amanhã, a chamar o barulho exaltado da controvérsia, ou talvez apenas o seu autor, intempestivo, a expurgar os humores do dia?
Eu não gostaria de ser assim. Para ser assim, se fosse blogue, para ser assim, se fosse eterno, quereria antes ser livro. Só livro, sem passado, nem presente nem futuro interrompido.
E assim já te percebo melhor Catarina. Porque há blogs, alguns, que não merecem um dia ser cadáver.
Publicado por Eufigénio Lagoa às junho 21, 2005 09:42 PM
Comentários
Acontece!
Nem todos resistem à barreira dos 3 meses. Boa parte deixa de blogar após o primeiro trimestre...
Publicado por: SB em junho 21, 2005 10:49 PM
O homem não morreu, Eufigénio. Apenas mudou de espaço. Se o leste até ao fim, sabes que está no Blasfémias, onde continua com a sua escrita inconfundível (embora à mistura com outra gente; aconselho-te só o Gabriel).
Publicado por: cap em junho 21, 2005 11:54 PM
Eu entendo, Eufigénio, mas pericaso o João Miranda continua aí para as curvas a debitar as suas coisas no Blasfémias. :DDD
Publicado por: catarina em junho 21, 2005 11:55 PM
Isso li eu sobre os meus pés, quando chegado lá acima, os tinha sobre a lápide. Mas o blog (texto+homem) finou-se. Não há como separá-los.
(lá vou eu ter de "descobrir" um outro blog)
Publicado por: Eufigénio em junho 21, 2005 11:58 PM
SB,
mas isso faz de mim já ancião !?
Publicado por: Eufigénio em junho 21, 2005 11:58 PM
Não se finou nada! Continua no seu melhor! :DDD
Publicado por: catarina em junho 22, 2005 12:10 AM