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junho 14, 2005
A piscina torta
Feriados, nós no Algarve. A casa emprestada para baptismo de gente próxima, enfim, nós visitas em casa própria. De resto tudo igual, a mesma gente - talvez uns tantos mais - os miúdos, o sol e a piscina. A meio do almoço, coisa descontraída já se vê, alguém contou 21 crianças a banhos, e havia até quem ainda se admirasse da água turva calcule-se. Eu não, que eu já por ali andava do lado da catraiada, como de costume, fugindo de conversas sérias.
Organizo um torneio, coisa rápida que já há quem chame para a mesa, se bem que estas ali mesmo ao lado sobre a relva, emoldurando a piscina. Um por um, a cada contagem decrescente, tentaria a maior distância nadada debaixo de água. Uma prova de fôlego portanto. Partem os mais velhos, mais convictos, a abrir caminho. Lá para o meio da disputa o recorde cifrava-se numa piscina e pouco mais de um quarto de comprimento, o que perfazia uma distância de 12,5 metros. Urros e gritaria, o quase mais velho de todos a fazer peito, a fingir indiferença. Nova chamada que o almoço espera, e eu negociando com os crescidos que se prometa deixar ter fim a coisa que depois se prossegue logo para o almoço, que pois claro, numa festa de baptizado é assim mesmo que deve ser.
É agora o Diogo quem se perfila. O de sempre, cheio de valentia e insegurança, vaidade e timidez, a vontade de se mostrar mas o pânico da vergonha, e já lhe vejo o lábio mordido. Sabe que tem quase todas as mesas, que entretanto se foi amortecendo o tema de conversa, distraídas na competição. E se o conheço isso é mais que suficiente para se levar ao limite. E lá segue, quase uma piscina. E vira, e segue para trás agora. Passa a marca anterior, subirá agora certamente, a colher os louros que tanto procurou. Mas não, continua. Esbarra na zona baixa com as crianças mais novas, aí decerto para se levantar, a fazer disso pretexto. Mas não, continuo a vê-lo esbracejar, a contornear os corpitos debaixo de água e seguir, uma e outra vez. E por fim o toque na borda. Duas piscinas inteiras debaixo de água, o recorde fulminado, os adultos fazendo por não lhe dar de graça a sua admiração, e ele ofegante, mais de vaidade é certo.
Mas eu faço parte deles, sou adulto mas estou do lado deles ali. Sou eu quem lhes valida os feitos, quem lhes diz como encher o peito e sustê-lo assim, e para quem eles olham depois do esforço procurando a aprovação. E neste caso também sou pai, e por ali vou gritando e esbracejando com o feito, depois mais calmo, envergonhado até, já a voltar para perto do decoro dos crescidos. Porque é festa pois claro, mas não qualquer uma, é baptizado, alguma família longínqua, alguma gente que mal conheço até, e de respeitosa idade. Disso tomo noção por fim e a miudagem a destroçar, como prometido, que a sobremesa aguarda, e a festa deve continuar como deve ser. Em magote barulhento como sempre lá partem a caminho dos comes, e o Diogo comprazido, vejo-o mesmo maior do que costuma ser, ali no meio, banqueteado de tanta admiração.
Mas ficam dois na borda da piscina, esperando o meu aval, ou mais que isso, que assista. Manifestam calados o direito que mais do que nunca lhes assiste, que agora há lugar de destaque a tomar, afinal, amuados pelo prémio precipitado, ofendidos até. Reconheço-lhes isso. Negoceio a partida, primeiro com as mesas de gente mais velha, que são só mais eles que faltam, depois já com eles, estabelecendo a ordem de partida. Sai o primeiro. No fim um gesto de solidarização, que para a próxima será melhor, e que foi quase uma piscina inteira. Ele fazendo-se acabrunhado, misturando-se rapidamente no meio dos outros, entre doces e salada de frutas, requerendo a normalidade outra vez.
Falta então o outro. Esguio, curvado sobre a borda da piscina de braços estendidos sobre a cabeça, assim se mantém sem nada dizer, aguardando que o olhe, que lhe diga que arranque. É o Francisco. E algo me diz que ali já vai mais do que o torneio, mais do que apenas a vez a que tem direito. É manso o Francisco, nada dessas coisas das vaidades, mas desta vez anda ali irmão mais velho. E parte, braços e pernas, tudo ali são membros enormes, mas esguios, sem tanta pujança, e isso vê-se quase logo ali no salto. Mas vai para continuar, quase uma piscina e não vai parar, isso mostra-nos o ritmo. Mas quase perto do virar de direcção, deriva. A trajectória faz então uma curva acentuada e a mão toca-lhe já não na borda do fundo mas na borda do lado, bem perto do canto, e aqui irremediavelmente enganado nas direcções. Assim quando se vira já não arranca para fazer face ao comprimento da piscina, mas sim à sua largura, esta por metade do outro.
Prevejo-o ser surpreendido pelo encurtamento da distância, e receio claro a cabeçada na borda que ele não supõe ali estar já. Circundo a piscina, a rir de antecipar a coisa e travo o movimento dele, a mão na sua cabeça a tempo de evitar um galo. Ele interrompe-se esbaforido. Esbraceja surpreendido a recuperar do fôlego e ainda a estranhar de onde se vê. Eu sem me conter, a rir despregadamente, lá lhe vou adiantando explicação. Por trás de mim ouvem-se mais risos. Meio recuperado, e com a respiração ainda entrecortada lá vai dizendo, rindo-se de si mesmo: “Eu logo vi. Bem me parecia que isto me estava a correr bem demais”
O Diogo pode ter grandes pulmões, mas o irmão ganha-lhe aos pontos na elegância com que sai das embrulhadas e contrariedades que tanto produz - que às vezes, saber ser segundo, é melhor que ganhar. E fico a pensar que tanta asneirice, tanta trapalhada, tudo isso só pode ser para podermos apreciar aquele humor, que flui ainda mais depressa do que o irmão consegue nadar debaixo de água.
Publicado por Eufigénio Lagoa às junho 14, 2005 09:59 AM
Comentários
clap, clap, clap clap....aos três. Ao Diogo pela proeza, ao Francisco pelo saber viver e a ti ....da minha parte pela partilha e bela escrita que me emociona.
Publicado por: Luna em junho 14, 2005 10:14 AM
Brilhantes, os três, os dois mais pequenos sem dúvida herdando muito da tua elegância (e fôlego de ar fresco, também muito provavelmente) que vive no que escreves.
Publicado por: Andy em junho 14, 2005 10:20 AM
Caríssimos,
Por favor não exagerem. Olhem que eu sou mais como o Diogo, sem piscinas, sem tanto fôlego, mas de "morder o lábio".
Publicado por: Eufigénio em junho 14, 2005 10:51 AM
Três à piscina, piscina ao fundo.
Publicado por: bill em junho 14, 2005 11:08 AM
Eram 21 Bill, e a piscina aguentou-se ... se bem que uma boa parte (da água) tenha ido para a relva
Publicado por: Eufigénio em junho 14, 2005 11:10 AM
O Diogo é lindo pela sua força. O Francisco é lindo pelo humor. Mas a escrita límpida do pai deles ainda os torna mais bonitos aos olhos de quem lê.
Publicado por: maria árvore em junho 14, 2005 11:20 AM
21, partida do Rossio prá piscina.
Publicado por: bill em junho 14, 2005 11:25 AM
A piscina como sala de espectáculos e espaço para projecto cultural vivo.
Publicado por: bill em junho 14, 2005 11:40 AM
Maria A.
Mas tu hoje acordaste mesmo com o fito de me envergonhar? :)
Bill
Estou a ver que sentias mais falta de trovar que eu de postar (e o 21 acabava na Av.Berlim; o resto, a subir era a pé ou pendurado no varão do 25 até à curva da rotunda do bairro dos polícias ; isto se não trepasses o muro cá em baixo, que sempre era mais perto e saía mais barato)
Publicado por: Eufigénio em junho 14, 2005 11:44 AM
Na Av. de Berlim... era saltar o muro logo alim.
(mas eu ia a pé e pagava os sete e quinhentos)
Publicado por: bill em junho 14, 2005 11:58 AM
Eu também gostava de ser mais como o Francisco (mas sou mais como o Diogo, debaixo de água e tudo) e ter essa leveza.
Publicado por: susana em junho 14, 2005 12:08 PM
Olá Suzana,
Todos temos um pouco dessa leveza, a de baixo d'água do Diogo e a de fora d'água do Francisco. Aqueles dois é que nasceram com doses erradas. É por isso que os uso sempre em conjunto.
Publicado por: Eufigénio em junho 14, 2005 12:16 PM
Saltar o muro de Berlim?
Ainda há quem os queira de pé. E não só aqueles que morreram esta semana.
E o vento Sul, não te estragou um pouco as férias?
Publicado por: MB em junho 14, 2005 12:33 PM
olha como não me ensinas a fazer trakbaques...."roubei-te".
MB o vento sul é do baril para as carreirinhas!!!
Publicado por: Luna em junho 14, 2005 12:38 PM