« maio 2005 | Entrada | julho 2005 »
junho 30, 2005
Além-palavras
E por vezes fico assim, a constatar quantos estão on-line, e a fantasiar quem são. Dou-vos nomes até, invento-vos caras, depois tento perceber-vos o balanço e lá sigo a acompanhar-vos pelo último post, sílaba a sílaba. Há alturas em que tenho mesmo a sensação que ambos trilhamos o mesmo parágrafo, e quase consigo seguir-vos as pausas na acentuação das frases.
É normalmente assim, acompanhado, que releio os textos, já não me agrada fazê-lo sozinho. Se encontro um erro lá me lanço a corrigi-lo. Não é perfeccionismo, é apenas porque gosto de pensar que assim me posso revelar. Gosto de me sentir anfitrião invisível das palavras que lêem. E depois fico algum tempo por aqui, F5, F5 … às vezes falam, e aí confirmo quem são. Outras vezes não, falo só eu.
Não sei o que é, mas isto é mais que texto - se fosse só isso não teria coragem, que eu não sei escrever para tanto, nem tão pouco sei tirar prazer do escrever apenas. E não falo só do que daí se entrevê. Sei que é mais que texto visto daí, mas não sei o quê. Falo também do que daqui me deixa pressentir-vos, sei que é mais do que saber-vos a ler, mas também não sei o quê.
Olá. Sim, tu.
[ Pelos comentários que leio admito que possa parecer, mas juro que o intuito deste post não era fazer o recenseamento dos leitores ... bem, mas já agora ]
Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:31 PM | Comentários (34)
O que admiramos, poderá ser maior que nós?
A verdade é que quanto mais nos assenhoreamos de algo que admiramos, material ou imaterial, mais contraídos vamos tornando os seus contornos. A nossa saciedade pelo que desejamos pode tornar-se uma rotina voraz, que reduzirá o objecto do nosso anseio a uma fastidiosa forma de admiração. Aos poucos, de tanto o desejarmos, de tanto o procurarmos, de tanto o anteciparmos, deixamos de poder ser por ele surpreendidos, não porque a sua natureza se tenha alterado, mas porque nisso nós já não somos capazes de nos surpreender. A verdade é que aos poucos, tudo o que incessantemente admiramos, deixará cada vez mais de ser o que é, para se definhar no que nós viciosamente procuramos nele. E aquilo que estava para além de nós é reduzido à parte de nós que cada vez menos é capaz de o admirar.
Isto é transponível para a Blogosfera. Hoje, largos meses depois de me ter devotado a este inesgotável mar de ideias, de arte e de informação, concluo que as minhas voltas se resumem a meia dúzia de sítios. E isso ocorre não porque os outros não sejam igualmente bons, ou até melhores, ou porque não vá descobrindo alguns que mereceriam fazer parte desta minha rotina diária, mas simplesmente porque nesta imensidão já só consigo encaixar o que cabe no meu ‘tamanho’. E aqui a intangibilidade da blogosfera faz-se rotina, e a surpresa atrofia-se na palma da minha mão. Se continuo por cá é porque a sei tudo isso, mas quando ando por cá, ela é já só a parte minúscula que eu consigo admirar, não é já toda, não é a que eu admiro e que me faz andar por aqui.
E já agora, nos afectos, por vezes, pode acontecer o mesmo. O que amamos pode deixar (absurdamente) de ser o que amamos para ser apenas a parte de nós que é capaz de amar.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:53 PM | Comentários (20)
Porque rangem mais as portas e se fundem as lâmpadas quando os miúdos estão de férias
Finalmente vamos ter uma semana como convém. Ai abençoada família, e vivam os primos, e as tias, e os cunhados, e todos os que nos levam tanto reboliço, os dois à uma. Voltaremos a ter dias enormes só para nós, para fazer o que nos der na veneta, sem cozinha a horas certas, sem banhos e esfregonas, sem oh mãe e pai olhe ele, que isto sim é que são verdadeiras férias. Vai sobrar para tudo nestes 3 ou 4 dias.
Mas o pior serão os outros dias, os que ainda faltarão depois, quando os putos não estiverem ‘mesmo’. E a casa parada, os livros sem desembrulharem o enredo, a comida insonsa, as chatas das portas que agora deram para ranger, o esquentador que agora se apaga por tudo e por nada, aqueles tipos lá fora a fazerem um chinfrim que hoje parece mais alto que sempre, assim, todas as coisinhas e questiúnculas do mundo ali bem juntinhas, a virem uma de cada vez, a encherem tempo que já é demais. E os putos sem chegarem, para virem com tudo, que é tanto o que são que não sobram buracos no dia para estas mesquinhices.
E com tanta tecnologia, e essas coisas todas do virtual, com tudo isso, e ainda ninguém arranjou solução para eles estarem e não estarem? Clic, agora sim, clic, agora quero descansar, clic, agora tenho saudades, clic, agora não que vamos namorar. Clic, clic, clic, ai que já os perdi. Talvez não seja boa ideia, talvez seja melhor deixar estar tudo assim, a vozearia, as fitas, as risadas, o oh pai oh mãe, e nós apenas a desejar poder folgar, assim, a querer e não querer. É óptimo ficarmos só os dois, mas só para feriado dos outros dias - esses dias de algazarra que nos enchem tanto a vida, e que nos fazem querer as vezes em que ficamos só os dois.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:01 AM | Comentários (6)
junho 29, 2005
O "senhor da barriga cheia"
(Deixemos a marinar lá no fundo do blogue o exercício da fama, e mude-se o assunto que a minha modéstia já não suporta tanto)
Lá estou eu a rever coisas passadas naquilo que os outros escrevem. Aqui junto as de ontem a hoje por culpa de um episódio que a Mi nos confidencia. Deixa estar assim, não a corrijas já Mi, vais ver que isso ainda vai ser de grande utilidade. E isto a propósito de …
A outra casa onde morávamos era pequena e a vontade da cozinha nem sempre muita, por isso, com alguma frequência, recorríamos à tasca em frente para remediar jantares. Acontece que nessa tasca servia um homem extraordinariamente gordo, um batelão com dois rodízios nos pés, quase já escondidos pelas franjas de gordura que lhe caíam dos tornozelos. A familiaridade foi-se introduzindo com tanta frequência que fazíamos do estabelecimento e o tratamento foi-se informalizando entre nós, pelo que os chamamentos saíam cada vez mais espontaneamente. Nem o Diogo escapou a esse ambiente de proximidade, e de cada vez que queria captar a atenção do obeso Oscar, olhava-lhe para a camisa esticada, cheia de nódoas e botões rebentados, e sem mais nada que lhe ocorresse, por falta do nome esquecido, solicitava-lhe algo tratando-o por “senhor gordo”. Os reparos não se faziam esperar que logo nós, persistentemente, o corrigíamos sobre o tratamento menos próprio, mas aparentemente sem efeito.
Certo é que um dia, por excepcional acaso, enquanto chamava a atenção do lento mas solícito Oscar com o habitual “Senhor gord …” se lembrou disso, a tempo de se interromper. Tendo presente as já amontoadas admoestações sobre o tipo de tratamento, mas não se recordando do nome dele, lá improvisou uma mais ‘educada’ interpelação, e disparou um “Senhor … de barriga cheia …”. Claro que o homem ficou inconsolável, que gordos há muitos, e nesse tratamento há até carinho na voz de uma criança, mas assim tratado, era demasiado sincero e retratista, quase lhe apontando uma qualquer enfermidade terá ele ajuizado. Mas enfim, salvou-se a meu ver o esforço da educação.
É grato ver os filhos a crescerem educados, e em cada um destes incidentes (mesmo que desajeitados) do seu crescimento vinca-se mais uma etapa e sobra-nos orgulho. Porém, há algo de útil que se perde nesses momentos. Que bem sabemos (deixemo-nos de falsas inocências) que a boca de uma criança pode ser uma eficaz arma de arremesso, e se convém tratar como inconvenientes as coisas que por vezes deles saem, mostrar até alguma lamentação, outras há que nos deixam sorrisos malandros que só a custo disfarçamos, ali tão sincera e directamente a ficar dito aquilo que tivemos de calar.
E isto vem a propósito de ainda agora, por exemplo, me apetecer ter dito ao meu chefe que aquela gravata que tão airosamente se suspende do seu colarinho imaculado, mais parece um ‘babygrow’ com lantejoulas brilhantes (que antes estivesse bolsado), e que isso assim dificilmente irá prender a atenção de alguém que não seja para o ofuscante penduricalho. Mas falta-me cá o Diogo, não o de hoje, que esse se vai fazendo educado, o outro, mais sincero, antes de eu o malbaratar com lições de educação.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 07:15 PM | Comentários (2)
Estou sem palavras
A comoção é tão grande, e tanto (tudo!!) a acontecer num só dia, que eu ... eu ...

... isto é demais para mim !!!
Acham mesmo que este blogue é assim tão bom? não estão a exagerar pois não? quer dizer eu acho, e modéstia à parte até tenho um certo jeito, mas acham que chega para o estrelato? assim dar entrevistas e ser convidado paras festas e isso? ai, estou tão confuso!!
Já lá vou fãs meus, já lá vou ... estou tão comovido que nem sei o que possa fazer, talvez ... sei lá... talvez trabalhar, que isto ainda não dá sustento ... mas há-de vir o dia... Eu sabia, eu sabia mãe, vê como não tinha com que se preocupar?
(Pssttt Maria Árvore, aquilo não paga alojamento pois não? senão será preciso fazer uma cotização, acho chato isso)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:31 PM | Comentários (11)
Um papel para cumprir
De repente um tipo vê-se DESTAKado no jornal de maior circulação gratuita e… está bem, escusam de dizer que aquilo é apenas uma referência nos fundos da última página, pois seja lá onde for ocupa toda a secção sobre a “blogosfera”, ah pois ocupa, que eu não vi lá mais nenhum blogue referenciado.
E permitam-me a este propósito umas breves palavrinhas:
É nestas alturas – e eu que esmorecia com a falta de sentido e de importância deste blogue - que nos damos conta da relevância que temos nos “media” portugueses. Sinto-me subitamente conduzido num papel de uma enorme responsabilidade agora que tomo consciência que aquilo que escrevo tem um impacto incontestável na consciência, na pulsação, da população portuguesa. Eu já a vê-los todos os dias a sair do comboio de jornal “destak” debaixo do braço e a correr até à beira de um PC para clic, clic, deixa lá ver o que o Eufigénio escreveu hoje, quiçá (não posso esquecer-me agora de usar mais vezes esta expressão) para tomarem para pensamento do dia as minhas modestas palavras.
Naturalmente terei de ter mais cuidado com a ortugrafia, o lettering e essas coisas, e acho que irei mesmo abrir uma rubrica periódica sobre política – confesso que nesta minha nova condição de opinion maker aspiro a poder contribuir (é meu dever até) para a fomentação de um novo espírito de iniciativa e um sentir positivo que conduza mormente (outra palavra a guardar para depois) à retoma económica deste país. Enfim, sei também que as leviandades não são mais permitidas, por isso acabaram-se as bonecadas e as bacoradas que dantes, no anonimato, por vezes (confesso) tinha gosto em editar. Por mais nostalgia que me possa invadir, não me posso esquecer que aqui já não se escreve, edita-se - faço notar a enorme diferença entre esse pulsar do escritor, e o gesto maturado, consciente do impacto que terá, de ser já uma referencia jornalística, e atrevo-me a dizer, até política.
E agora vou mas é dar um jeito nisto, rever alguns textos, antes que se abram as portas dos comboios da manhã e comecem a chegar os milhares de leitores que a todo o momento se aguardam. A minha última palavrinha vai para quem me acompanhou nesta minha escalada da fama, os estimados comentadores: claro que me podem continuar a tratar por tu, talvez vos peça apenas é mais moderação e cuidado ortográfico com os comentários e, já agora, se por acaso virem algum comentário de um político distinto da nossa praça, por favor, não interfiram no nossa troca titânica de opiniões, essas situações serão doravante o sal desta blogue. É com pesar que posso admitir que esta nova condição de blogue de grande tiragem vos possa inibir de continuar a comentar, exposição a mais talvez, mas se assim for quero que saibais que nunca esquecerei as minhas origens, e o papel motivador que tiveram para mim as vossas palavras, enquanto neófito destas coisas, nem sempre certo de ter um destino tão notável para cumprir. Um grande obrigado velhos leitores, e agora deixai passar a audiência deste blogue por favor.
E agora, pela última vez, experimentarei destravar aqui uma exclamação mais fútil e menos resguardada, em jeito de encerramento dos tempos pueris deste blogue, e apenas para dizer: Eu sabia caneco, eu sabia que um dia iria ser famoso, eu sabia. Hoje aqui, amanhã talvez a TV !!
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:18 AM | Comentários (36)
junho 28, 2005
Porque aqui trabalha-se
Madrugada. A arrancar para galgar os 400 km até ao norte.
Chegado, já quase hora de almoço. Uma vergonha as estradas, e o melhor é mesmo começarmos por ir comer que depois logo lhe mostro aquilo. Uma coisinha rápida que eu sei que já andou muito e nós temos é de trabalhar. Olhe que tem de provar esta galinha do campo de cabidela. E oh engenheiro e já viu estes trolhas da função pública que agora ainda refilam, ainda no outro dia passei a tarde inteira na repartição de finanças e as meninas a coçarem o grelo enquanto a fila ia até à porta. Tem de provar este verde que é daqui mesmo, uma delícia, vá, só mais um. E já viu o numero de funcionários públicos que a gente tem, mais de 600 mil parece, olhe que ainda no outro dia estive num cliente na Alemanha e aquilo não tem nada a ver, o almocinho é de sandes e já está, não é como aqui. Mas experimente aqui um pouco da minha barrosã que vai ver. Deixe lá as horas que um homem se não se alimenta não trabalha. E dizia eu que é uma vergonha, uns a gastar e nós é que temos de trabalhar, nem lhe conto o que se passa comigo, olhe que quase não vejo a família. Mas oh engenheiro agora vai uns palitinhos do céu vai ver o que é bom. Há tempo. E depois o desplante da greve, eu por mim acabava-se já aquilo tudo. Manel, traz ai a garrafa para o engenheiro, mas a da casa ein. Não, como não, insisto, você vai provar desta aguardentezinha e depois logo me diz. E esta coisa do IVA é só mesmo para quem não trabalha, olhe que eu nem sei como vou fazer e um homem aqui a dar o corpo, pois, que alguém tem de produzir. Só mais um com o cafézinho. Pronto, nem insisto, mas dê-me então licença só para molhar os beiços. E ia eu a dizer que aqueles filhos de uma mãe nem , ai as horas, já quase três, mais de duas horas aqui. A conta Manel rápido que aqui trabalha-se. Eu nem reparei. Ora essa, isto é comigo, vai a facturinha para a Empresa, para descontar o Iva eheheh. Mas tem a certeza que nem um licorzinho aqui da terra, nada mesmo, olha que você nem parece gente que labuta eheheh. Bem vamos lá andando oh engenheiro que você veio para trabalhar. Ali ao fundo é a câmara e olhe que se lá formos agora nem encontra ninguém. E aqui está, que me diz da entrada ein, até parece árabe. E faço questão de lhe mostrar isto tudo, vai ver que são 3.000m quadrados bem arranjadinhos. Você gostou das naves da oficina oh engenheiro, aquela coisa das vigas de madeira dá um ar porreiro não dá, ai que são quase quatro e meia e ainda tem de ir para baixo, o que vale é que já estamos a acabar a voltinha. Então que me diz, acha bem como vou pôr o equipamento. Eu sei, eu sei, falta tempo para discutir isso melhor, mas o engenheiro há-de cá voltar outra vez não é, para vermos melhor como vamos fazer ali com os chumbadores e a electricidade. Mas como assim, olhe que ainda vimos muita coisa hoje, e depois podemos falar pelo telefone. Mas esta merda irrita-me, um tipo passa um dia só a falar com os fornecedores, isto na Alemanha não seria assim, senão já lhe mostrava as máquinas todas. Mas o engenheiro tem de me prometer que volta, para nós irmos à da Mariazinha, a que lhe falei, vai ver que aí ainda se come melhor. E volte sempre, foi pena a gente não ter tido tempo para ver melhor o torno que recebi ontem queria que me desse uma opinião. Mas fica para a outra vez, quando cá voltar. Mas tem de ir não é oh engenheiro, e não vai uma cervejinha para o caminho, não vai mesmo. Não, pronto, vai assim em seco não é. Mas não se esqueça de me telefonar para a gente discutir isto tudo que hoje quase não deu para quase nada, o tempo sempre a voar, é assim com quem trabalha.
A voltar, a desfazer os outros 400 km. E a conversa do almoço distraidamente a voltar. Os alemães, pois, a diferença está na administração pública. E na postura. E por falar em postura, será que eles trabalham assim tanto como nós ?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:40 PM | Comentários (8)
Bem-vindo à saison
- vem mesmo a calhar para dar uma ajudinha ao estado em que ando
E tu deixa-te de assustar gente inocente
- que eu já carreguei no botão e aquilo não dá nada
Ah, e boa viagem para ti
- cá ando a apressar o toldo e a engordar os caracóis com orégãos.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:11 PM | Comentários (2)
junho 27, 2005
Sobre mim, e tudo à minha volta, hoje
. . .
. .
. . .
.
Ah, e comida para os gatos, talvez comprá-la, da parte da tarde
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:53 AM | Comentários (4)
junho 26, 2005
O Paulo Gordo e um “Mini” cheio de pressa
Ora, o Paulo Gordo era uma espécie de rotor dos nossos tempos de ócio. Quando nada havia para fazer, era à volta dele que nos compúnhamos, ali esperando pela próxima situação que haveria de transformar com uma espontaneidade impressionante em mais um episódio hilariante. Andava de pernas abertas, braços para trás, pança orgulhosa e uma franja loura que afastava repetidamente com um sopro. Tanto ego, em condições normais, faria dele um personagem irritante no mínimo, sobretudo para mim que nunca fui de acatar excessos de protagonismo nos outros. Só que tudo em redor dele era tão inflamado de improviso e humor, que se consentia bem esses seus inchaços de personalidade, que aliás eram essenciais para a forma como desdobrava cada ocasião, por mais trivial que esta começasse por parecer.
O seu poder de argumentação, o tom sincero com que colocava a voz, e a forma imaginosa com que enviesava qualquer situação ou raciocínio que lhe aparecesse pela frente, permitiam-lhe enfiar enormes tangas em qualquer pessoa que tivesse o azar de se cruzar com ele, o que aliás era confeccionado sempre com ar imperturbável e circunspecto. Um telefone nas suas mãos por exemplo, era uma arma de engano letal para o pobre coitado que fosse apanhado do outro lado. Várias foram as tardes em que nos entretemos a ouvi-lo marcar quartos para o Sr. Paco Rabanne (era o que os putos mais usavam na altura) em tudo o que era hotel de Luxo em Lisboa. Do outro lado da linha nem vacilavam. De outras vezes eram números discados ao acaso que invariavelmente produziam uma audível alegria naquele que acabara de concluir do outro lado ter sido agraciado com umas férias no Japão, após ter respondido a meia dúzia de perguntas absolutamente idiotas que alguém com voz firme e profissional lhe tinha feito. E já ali os dois miúdos e a avó e mais alguém que era chamado lá dos fundos da casa, toda a gente para ouvir mais uma vez confirmar o prémio radiofónico. Maldades? Claro que sim, de outra forma onde estaria o mérito do seu desempenho.
À noite as coisas eram mais movimentadas, e nos dias de sorte até conseguíamos arranjar um carro, por simpatia ou distracção de algum pai. O dinheiro não abundava, mas havia sempre uma ponta de mangueira à mão. Normalmente essa função cabia ao mais novo do grupo, ele vítima de um sorteio encapotado que já antes coubera aos outros. Não era praxe, só que assim dava-se a oportunidade a alguém que desejava mostrar a sua integração de forma afincada, e que ainda não conhecia o desconforto de passar o resto da noite a mastigar aquela saliva mole de gasolina. E depois de abastecidos, mais nada, ficávamos assim a navegar de um lado para o outro, por entre ruas, a fazer o destino acontecer.
Foi assim que um dia fomos apanhados a percorrer em contra-mão uma rua de sentido proibido, lá para os lados de Alcântara, no Mini da mãe do Paulo Gordo. Seis putos dentro daquela latinha, e de súbito atravessa-se à nossa frente um polícia, a mão lá bem no alto, a pose imperial. Em condições normais ele teria arrepiado caminho como já antes fizera, mas ali, de marcha-atrás, e notando logo nós ali a mota que facilmente nos alcançaria, hesitámos. Depois já era tarde demais, já só o tempo de abrir janelas para fazer volutear aquele fumo comprometedor, e o Gordo já a avisar para nem lançarmos um pio. Oiço-lhe o “bô noite sôr guarda como está”, e a seguir já sem parar a argumentar qualquer coisa que mal distingo lá atrás no carro. Mas a coisa não ia bem, que embora quase não o ouvisse, ao polícia, notava-lhe uma certa exaltação, que era ele que devia falar e via-se ali irritadamente envolvido no rol de palavras do Paulo Gordo sem ainda poder trazer ao caso a contra-ordenação grave que o fizera parar-nos. E já eu a recear que acabássemos onde já não nos era estranho, numa esquadra qualquer, com o Gordo a fazer-se exaltar e a exclamar que o pai era isto e aquilo, e as coisas a ficarem ainda piores.
Mas volto à conversa. Vejo-o puxar da carteira e eis que apresenta um documento ao polícia, não a carta ou o BI, mas um cartão plastificado, vermelho e branco. O polícia estranhado com o que ouve, já mais amaciado, já vítima. E lá o ouço explicar, agora com conveniente tom apressado, que ali todos somos nadadores-salvadores e que, ai Jesus. a ser chamados de urgência, uma catástrofe, lá para os lados da Trafaria, parece que naufrágio dos grandes, e como é que o sôr Guarda ainda não tinha ouvido nada, e tudo sem pestanejar, a lançar aquela teia fina que impedia o seu interlocutor de pensar quase, adormecendo-lhe o discernimento. E o agente da autoridade a hesitar, ali de documento ainda na mão, esquecido, e tão preso dos argumentos já que nem se apercebia do riso que quase não conseguíamos disfarçar lá dentro. E o Gordo, com a sua técnica imparável, a não dar tempo ao opositor para sequer pensar, lá continuava, que aquilo era coisa muito grave, que não dava sequer para perder tempo com ninharias, um naufrágio sim, ao largo da Trafaria, era só o que sabia, e que se o honesto polícia teimasse em fazer cumprir a ordem que passasse já ali a multa e que a fizesse chegar ao cuidado do tesoureiro dos Bombeiros Sapadores de Almada, mas que ainda assim ele teimaria naquele rumo, o mais curto, mesmo que em contramão, que era de vidas humanas que se tratava ali. Mas ia logo adiantando que não percebia como colegas nesta coisa de salvar vidas, cada um no seu mister claro, se podiam atrapalhar tanto um ao outro.
Num ápice vimos o polícia montar na mota, ligar as sirenes, arrancar convicto, gesticulando com os curiosos que entretanto haviam parado, encostando trânsito, e assim nos levando até à rotunda que nos faria depois subir para a ponte. E nós lá seguíamos, atrás, o Paulo Gordo a tirar partido de tudo aquilo, a fazer a festa, a apitar, a acrescentar o tumulto, a saudar os transeuntes que com ar estupefacto viam aquele “Mini” cheio de malta lá dentro, na esteira da sirene. Mais à frente, já no lance de estrada que nos levaria à ponte, o zeloso agente encostou, fez-nos seguir com um gesto, e despediu-se com uma continência cúmplice de nós. E o Gordo a retribuir, com ar solene e a apitar por ali fora, a caminho da outra margem. No fim ainda me recordo de o ouvir a lançar pragas, que agora tínhamos de seguir até à outra margem, e mais as portagens, e até quase a Almada, só lá na Rotunda poderíamos voltar. E se não bastava ter-nos deixado seguir logo ali, na rua onde nos encontrou, pois, que havia gente que complicava tudo.
…
Outros tempos, tão longe já, já tão pouco guardados nos raros “Minis” que ainda por ai andam. Quanto ao Paulo Gordo, sei que entretanto se fez rico, em área séria de negócio ao que dizem.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:37 PM | Comentários (5)
junho 25, 2005
Que se lixe o toldo
Aqui a apresentar o excelente resultado de todas as vossas preciosas sugestões (espero não ter falhado nenhuma). Fica de facto uma bela assoalhada. E têm toda a razão, se é só para estender corda e toldo, antes na praia. Estou tão encantado com o efeito que acho mesmo que também vou forrar a parede com mosaico e talvez mesmo pôr umas janelas em alumínio.(E só não vou fazer um também um pombal como sugerido porque não sei desenhar pombos).
Os meus sinceros agradecimentos
Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:46 PM | Comentários (12)
A largar ecos na canícula
Assim, num sábado encalorado, pela hora de almoço, é nestas alturas que mais gosto de postar. Não fico preso à ideia de que alguém me irá ler, deixo as vírgulas onde estão e lá vão pinhões, directamente da ponta dos dedos, e ficar assim a ouvir o eco, que é assim mesmo, coisa gutural, nada de récitas ou prosazinhas cuidadas, só ah’s e allô’s, que ninguém nos lê, barulhos largados e nunca mais nada
... bem e agora tenho que ir, que está um sábado encalorado e já é hora de almoço. Era só o que faltava ficar por aqui a desperdiçar em post’s o que tenho lá fora.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:16 PM | Comentários (5)
Falsificações? Vão mas é brincar com as memórias d'outro
Hoje vi um “mini”, e foi quase instantâneo, saltou-me logo uma história velha que já aqui andava escondida há algum tempo, e dei por mim a rever caras de que já quase não me lembrava. É sempre assim quando vejo um “Mini” velhinho. De repente vieram-me as deliciosas histórias do Paulo Gordo ao volante do Mini da mãe dele … mas isso terá de ficar para mais logo, que agora tenho compromissos com os miúdos.
Agora era mais só para dizer que, enfim, não tenho nada contra a marca que os vende, mas não simpatizo particularmente com essas tentativas revivalistas de formas abauladas e com um arzinho “tunning” que sinceramente fica a léguas das linhas dos originais. Além disso acho que fixaram um preço demasiado elevado. Um “Mini” era um carro do povo, era possivelmente o primeiro carro que se conseguiria comprar, não este, não o carro armado ao desportivo para um target endinheirado a dar ao de “olha para aqui”. Eu nunca compraria um desses novos “minis”, mas não era só por isto. O que acho mais absurdo é como alguém se atreve a fazer uma “release” destes carros sabendo que por mais que tente, por mais motor que ali ponha, nunca conseguirá substituir a caixinha de memórias que todos os “minis”, os velhos, mesmo já velhos, ainda preservam de nós. Quando vejo um desses “Minis” novos irrito-me. É como se alguém ousasse querer substituir as minhas memórias antigas por uma versão insípida de 2003/2004 cheia de Gigabytes disponíveis para gravar com sorrisos de dentes branqueados, e eu também já a sentir-me empurrado. Por isso, quando encontro um dos velhinhos “minis” entusiasmo-me, pois claro, quase vénias para ele ali no passeio. Afinal elas ainda andam por aí, as nossas memórias, afinal ainda rolam as nossas histórias da juventude. Fora os falsificadores de carroçarias, fora os “tunnings” das nossas memórias.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:44 AM | Comentários (5)
junho 23, 2005
Se um tipo tem um blog também há-de conseguir pôr um toldo
Caro leitor
Dirijo-me a si para pôr a seguinte questão prática. Quero colocar um toldo no meu pátio. (favor agora ver o desenho com o alçado)
De um lado tenho um muro com cerca de 2.10m de altura, só que do lado da fachada da casa, por culpa da porta e de algum desnível, já a cota é bem mais alta. Ligar as duas alturas (a vermelho) é naturalmente possível só que isso daria um “tecto” muito alto o que torna o espaço deselegante e pouco eficiente. Como não posso baixar a cota do lado da fachada (porque não ficaria agradável para quem se confrontasse ao sair de casa com um toldo pela frente) pensei no seguinte: Em vez de lançar 4 cabos de aço aos quais se amarrariam as telas, substituía-os por cabo de escota (corda se quisermos), e isto porque o cabo de aço tem de trabalhar bem tendido à tracção o que segundo a minha ideia (a azul) não aconteceria. Depois colocaria ao atravessado, a um terço do comprimento dos cabos, um varão de inox amarrado a cada um deles. Assim, o varão criaria uma carga que faria com que os cabos tivessem duas inclinações diferentes. Junto à porta faria uma pala inclinada onde ficaria uma secção de toldo separada da outra. Do lado do muro ficaria uma outra secção cuja inclinação (horizontalidade) eu controlaria através de uma maior tensão ou alívio do cabo. E este paleio todo porquê? Claro que lá em casa já disse que de certeza que era boa ideia e tal, mas a verdade é que apesar de achar que a ideia pode funcionar, tenho receio de estar a menosprezar alguma coisa. E aquilo é uma área de 4,5m por 4,5m pelo que, como devem calcular, não me apetecia estar a deitar uma não irrelevante verba (e orgulho) para o lixo só por culpa de uma ideia mal engendrada.
Por isso fico aqui a aguardar os v. comentários ou ideias, que agradecia fossem tão céleres quanto possível … que isto está um calor do caraças !
(Com tanta internet quem sabe se alguem não ouvirá este apelo?)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 07:56 PM | Comentários (23)
Acho que estou a levar a coisa demasiado a sério
Tenho um gabinete individual com janelas interiores para um “open space”, tipo esquadra de filme americano. Ao princípio incomodava-me um pouco que de lá fosse assim permitido observar tudo o que aqui se passava. Mas agora incomoda-me francamente mais ver o que se passa do lado de lá. E apesar de tudo trabalha-se bem, eu é que devo estar a ficar um chefe insuportável.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:45 PM | Comentários (9)
… é só fazer as contas
Aborrece-me que se pense que um tipo por andar a matraquear tanto por aqui abdicará inevitavelmente de boa parte das outras coisas da vida: o trabalho, os momentos de família, as voltinhas do arejar, enfim, as várias peças do dia-a-dia. (Para ser sincero, ainda ninguém me fez constar isso nem insinuou, mas se eu penso isso sobre outros bloguistas acho que é legítimo que pensem isso sobre mim).
Ora aqui vai o meu exercício justificativo. Em média (a divina estatística pois claro) o povo português desliga-se 3 a 4 horas por dia em frente à televisão. Ora eu não vejo televisão, guarde-se portanto estas horas para a conclusão final se fizerem favor. Depois tem-se que o tempo médio de sono dos homens é de cerca de 7 a 8 horas, mesmo que ocupem parte dele em outras actividades. Ora, eu durmo 4 horas, outras actividades não incluídas. Assim, resulta daqui que tenho de sobra num dia normal cerca de 7 horas para lucubrar no que quiser (designadamente descobrir o significado de expressões como esta do “lucubrar”). É muito tempo, é meio dia útil, e dá para fazer imensas coisas, por exemplo, escrever. Mesmo que se tire a parte do mudar a areia aos gatos, ou de dedilhar uma viola que nem sei afinar, ou de estender as fotos de família todas no chão para as voltar a pôr na caixinha que nunca mais se vê álbum, ainda assim, bastará trocar o que sobra por caracteres para perceber a imensidão de post’s que se podem arranjar. Com tanta família e trabalho, escrever é folga apenas, enquanto abrando do que gosto que me ocupe.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:28 PM | Comentários (6)
Artigo de Opinião (fundamentado estatisticamente)
Portugal é um dos países mais seguros do mundo. Tem por habitantes gente crédula, pacífica, triste e autopunitiva, sendo estas duas últimas características relevadas pelo 23º e o 5º lugares que ocupam no ranking mundial, respectivamente. Essas singularidades do seu comportamento colectivo são alimentadas geralmente através de casos atípicos explorados até à exaustão pela sua comunicação social, os quais seguem entusiasticamente durante os períodos que sacrificam ao descanso e ao convívio em família. Em função do impacto dessas notícias são então desenvolvidos artigos de fundo, convidados eminentes fazedores de opinião, e realizados directos televisivos onde são entrevistados lamurientos cidadãos anónimos. Para reforçar a credibilidade dos pérfidos acontecimentos que o caudal jornalístico descreve excitadamente, recorre-se com frequência às estatísticas, e isto também pode ser provado estatisticamente. As estatísticas são uma realidade que alimenta a própria realidade neste país, dos mais seguros do mundo, que de repente toda a gente quer achar que já não é. Portugal é também o país mais virtual do mundo, apesar de ainda ter uma baixa taxa de penetração da Internet
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:45 AM | Comentários (5)
junho 22, 2005
Se o calor não for suficiente
… para vos fazer sentir que o verão chegou, leiam isto.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:00 PM | Comentários (8)
Não estou para ninguém
Alguém tem uma área de 6m x 6m que me possa dispensar por uns tempos. Eu levava esta casinha às costas e pimba, ficava por lá a dar voltas à neura . Só há (a falta de) um pormenor que eu critico, falta-lhe o saco de boxe.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:13 PM | Comentários (6)
Butuxiaminobenzoilodietilaminoetanol
Trinta e seis letras de um composto qualquer escrito nas costas de um frasquinho de gotas. Na altura ganhei 7$50 numa aposta com o meu pai em que deveria decorar esta palavra em meia-hora. Foi tal o empenho e depois o orgulho que nunca mais a esqueci. Anos mais tarde acabei por me esbanjar no Técnico a empinar leis de Electromagnetismo e a resolver Lagrangeanos e assim esgotar essa capacidade mnésica que um dia julguei que me tornaria rico.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:52 AM | Comentários (11)
Mobil luminoso que pirilampa fénix's embora haja quem lhes chame térmitas para celebrar o verão e ver se dá algumas massas (que parece que) se pusermos um copo em cima dos bichos e que se não derem moedinha também podem ser tidos como bons petiscos
Obrigado a todos pela colaboração.
Que tenham um belo Verão.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:48 AM | Comentários (10)
Afinal são mais que as mães. Precisa-se de título depressa.
Se não sei como lhes chamar como as posso exterminar?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:13 AM | Comentários (4)
Acabadinha de tirar. Nem me sai nada.
Alguém quererá fazer o favor de lhe dar um título?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:34 AM | Comentários (13)
junho 21, 2005
Blogues defuntos
Tem algo de doloroso o descobrir um blogue extinto. Ao contrário de outros cadáveres, um blogue não sofre de putrefacção - ou simplesmente se esfuma ou mantém a sua pele intacta para a posteridade. Essa virtude (virtualidade?) é o que torna possível conhecermos coisas que existiram antes de nós, (quase) exactamente como se elas ainda hoje permanecessem. Mas suplantar assim as leis da natureza pode ser doloroso para quem cá fica, nós, leitores, porque o desaparecimento já não é algo que se esbate na memória, e se atenua, mas sim algo que assim está continuamente a (des)acontecer. Toda a imagem pode estar, perene, mesmo ali, e contudo sabemos que o que vemos (lemos) é já matéria finda - não a tez que essa mantém-se, mas a sua capacidade de nos surpreender amanhã, essa que para mim é o blogue. Já antes o tinha dito, um blog não é só o que nele se posta, é também o seu autor, e é sobretudo aquilo que ainda nos há-de dar a ler. Tem passado, presente e futuro. E isso faz com que quando olhamos assim para um blog defunto o notemos inexplicavelmente desabitado e inacabado. Bem sei que racionalmente isto não é aceitável, nem dizível, mas quando caminhamos pelos seus post’s e depois pelos seus comentários, sentimos um silêncio mórbido. Quase podemos aperceber-nos da opinião viva que por lá terá havido, das discussões, da exaltação talvez, da compreensão cúmplice que se abriu dos dois lados, do estabelecimento de relações intangíveis entre eles, das inimizades, mas agora tudo ali soterrado, quase sinistro, já nada é além de texto. É bom isto dos blogs serem para além da sua extinção, memória do que foram, mas acentua o sentimento de perda. Afinal as palavras continuam ali, mas falta-lhes a ilusão, já não se lêem como se escreveram, ao som dos dias.
E isto vem a propósito de um blog que conheci hoje, na deriva de um link onde me perdi. Um post de que gostei muito, sobre isto da “Blogosfera ser um Bazar”, de Junho de 2003 (!!). Depois subi por ali fora, a ler cada vez mais entusiasmado, até que descobri que estava em cima da sua lápide, onde o autor se despediu, ainda antes de eu ter começado nestas lides. E senti-me ali de forma tão estranha, como se não houvesse razão para lá estar, apesar de ser texto, apesar de poder ser lido. Faltaria o sobressalto do post de amanhã, a chamar o barulho exaltado da controvérsia, ou talvez apenas o seu autor, intempestivo, a expurgar os humores do dia?
Eu não gostaria de ser assim. Para ser assim, se fosse blogue, para ser assim, se fosse eterno, quereria antes ser livro. Só livro, sem passado, nem presente nem futuro interrompido.
E assim já te percebo melhor Catarina. Porque há blogs, alguns, que não merecem um dia ser cadáver.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:42 PM | Comentários (6)
E segue o resto ...
Sinto-me tão desperdiçado aqui.
Devíamos poder visitar-nos um ao outro,
Tu chamavas e eu aparecia aí, agora
A chegar assim do ar, sem ninguém saber
E trocava-me pelo teu corpo,
Só enquanto ganhavas fôlego.
Depois tu voltavas
A tempo de nos vermos em casa,
E eu vestia-me de novo de mim
Para poder ficar ao pé de ti.
[ Por SMS já não dava :) ]
Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:27 PM | Comentários (31)
Acedilhamentos excessivos - à vossa atencão
Não sou mesmo nada de ligar a isso. Aliás, ando sempre a alisar as ondinhas vermelhas que o Word vai lavrando pelos meus textos fora. Mas voçês não me levem a mal se desta vez chamar a atenção para um pequeno lapso ortográfico que noto cada vez mais recorrentemente na blogosfera. Não é o tratamento do “voçês” em si - embora a minha mãe me tenha enfiado na cabeça que não é bonito dizer voçês, mas isso foi no tempo em que ainda se podia tratar alguém por “senhor” sem correr o risco de passarmos por marciano ou tótó. Portanto, que seja “voçês”.
Já o que aqui quero trazer a voçês é a parte ortográfica da questão, embora como já disse nem perceba nada disso e nem sequer seja um fundamentalista linguístico. Mas voçês desta vez terão de desculpar-me a petulância da coisa, o pormenorzinho irritante, o excessivo estertor com que exponho tanto, afinal tão pouco, mas, ali, aquela cedilhazinha no voçês, aquilo não é preciso, não faz mesmo falta. E é que vejo tantos de voçês a usarem o rabinho por baixo do “c” que receio ser epidemia que possa chegar até este Blog.
Como é óbvio espero reciprocidade, e claro que vos dou o direito de doravante me chamarem a atencão para alguma cedilha que também aqui se exceda, o que desde já agradeco.
Bom almoco
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:30 PM | Comentários (10)
(des)Educar (n)a contradição (pode estragar o jantar dos outros)
E a questão filhos, é que nada disto é importante. Nada será tão importante quanto o que vocês no fim acharem. Nem mesmo o que eu digo, mesmo que eu o diga … Oops
Há pedagogia nisto? É tentar fazer os filhos maiores que nós, ou é apenas o embuste dos tempos modernos a criar selvagens entorpecidos? Quanto a mim andam aí muitas falsificações de Montessori (*) e demasiadas crianças com iniciativa “a mais” a bater o pé irritantemente.
(*) Não era esta senhora que dizia que o erro é que os preparamos para a guerra ao invés de os prepararmos para a paz? Mas pior, (digo eu), é não os prepararmos para ser nada para além deles, só eles, eles, eles, eles
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:16 AM | Comentários (11)
junho 20, 2005
Dois gatos e um destino
Tenho dois gatos em cima do aparelho de ar condicionado do restaurante do r/c, a rodar a cabeça de cada vez que passa um carro. Chamo-os mas eles não me ligam nenhuma e está a ficar frio. Acho que vou fechar a porta da varanda antes da família voltar. Depois logo se vê se alguém está a comer gato por lebre.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:13 PM | Comentários (7)
Dúvida bloguista (ainda a privação do tabaco)
Quando um tipo começa a ver o blog linkado noutros lados (ufa, há alguns que ainda nem conhecia) mas não vê nenhum post linkado, isto quer dizer que é um blog que se está a institucionalizar sem grande mérito não é? isto deve querer dizer que é mais abrir caminho do que querer chegar a algum lado não é? que a capa convence mas logo se desfolheia mais tarde é isso? Como? não se pode dizer estas coisas? Ah
Agora num registo mais sério. Sou demasiado preguiçoso (para não me qualificar de petulante que era o que merecia) para deixar comentários nos sítios que me linkam, mas agora, fazendo jus à educação que a minha mãezinha me deu, não queria deixar passar a oportunidade para agradecer a todos os que desta forma destacam esta tasca e generosamente abrem no seu blog caminho para aqui se chegar.
Obrigado
Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:25 PM | Comentários (8)
Hoje vai haver festa
Ao fim da tarde, lá no Weblog a ver os post’s de receitas a pingarem um-a-um:
Paté de Sardinha
Fígado de coentrada
Moelas
Orelha de porco (...)
Batido de chocolate (?)
Batido de coco com rum (??)
Batido de pêssego (…)
Bloody Mary (??)
Caipirinha (??!)
Margarita (?!!)
Cuba livre (!!!)
Mojito Cubano (!!!!)
Eu sabia ! Eu sabia que este excelente “Culinária daqui e d’ali” estava cá para nos reservar algumas surpresas. Agora é que vai mesmo linkadela que essa parte “d'ali” já dá outro ânimo sim senhor. Venham mais post’s, venham mais post’s!
E agora vou mas é para casa ... (ai que calor) ... compromissos importantes hoje.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:48 PM
A culpa é do frigorífico azul
No sábado de manhã “quase” fomos comprar um frigorífico. O que eu quero dizer é que fomos mesmo comprar um frigorífico, (saltitámos de loja em loja, comparámos preços, surripiámos folhetos, estudámos características ao ponto de já darmos conselhos aos clientes mais indecisos que ali encontrávamos ombro-com-ombro: “é mais caro mas olhe que há vantagens energéticas com os da classe A” ou ainda “cuidado que há quem se queixe que os «No Frost» secam muito os alimentos”, e até opinativos, já não só conselhos: “Nós será sempre AEG ou Bosch, que todos os outros já se sabe …” ) mas, no fim não o comprámos. O que queríamos só havia em azul, em azul não o queríamos, e não queríamos levar nenhum outro. E acabámos por vir embora nesse “quase” já pelo fim da manhã. Entretanto, chegados a casa, constatámos que o frigorífico velho e pequeno, esse que seria substituído a pretexto de não fechar bem a porta, afinal, por culpa do encosto que tivera da bilha de gás durante 3 dias, voltava a fechar-se com razoável calafetagem. E confirmávamos já isso entre nós. E logo um a sugerir menos pressa então, que já não era essencial. O outro concordando, que talvez esperar pelo próximo modelo que disseram lá na loja que chegaria um destes dias. E a coisa a ficar assim tratada, já hora de almoço, portanto.
Ora lá está - nada como passar pela estopada de nos arrastarmos num sábado de manhã por uma “grande superfície”, para ganhar a clarividência de resolver ali em 10 segundos aquilo que já levava meses de desleixo para ser feito. Quem sabe, talvez um dia aquela porta se avarie outra vez, e já hajam frigoríficos com outras cores.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:06 PM | Comentários (3)
A Bricolagem – 1 – Aplicar um painel de Azulejos no seu jardim
A colocação de azulejos é aparentemente uma operação simples. Desengane-se. Antes de lhe passar pela cabeça fingir-se de ladrilhador, sugerimos que contrate os serviços de um profissional. Caso ainda assim mantenha interesse em estragar um fim-de-semana, então deixaremos aqui indicações preciosas que deve seguir à risca. Não se esqueça no final das operações de reaver de novo a família, reclamando-a de casa da sua sogra.
MATERAIS E “FARRAMENTA”
A primeira operação de qualquer processo de bricolagem é rodear-se dos instrumentos necessários. Em ofícios como este, onde a secagem rápida do cimento pode provocar alguma ansiedade, é mesmo conveniente não esquecer este passo, pois correrá o risco de ter de recomeçar tudo de novo.
Dos materiais, deverá optar entre a cola, o cimento-cola ou a argamassa. Cada um deste tipo de materiais tem aplicação mais própria conforme o tipo de superfície sobre a qual os irá aplicar. Como desconhecemos quais são em cada caso, sugerimos que os procure no goggle ou tente surripiar um panfleto do Aki.
Quanto aos utensílios, bastará munir-se de um recipiente e de uma espátula, que do restante logo se lembrará na altura em que estes lhe fizerem mais falta e provavelmente não os puder ir buscar por estar ocupado em suster os azulejos com as duas mãos e a cabeça, enquanto grita lá para dentro por ajuda e justifica à vizinha do segundo andar porque anda sem boné no meio da canícula.
Ainda sobre os utensílios tenha presente as seguintes indicações: normalmente os “taperwares” não são boa ideia para serem usados como recipiente. Irá mesmo constatar que até aqueles que têm um ar mais envelhecido e se encontram já foscos e abaulados eram afinal indispensáveis para o lanche que um dos miúdos costuma levar para a escola. O mesmo sugerimos com a espátula. Se não a tiver vá comprá-la, mas nunca em caso algum tente improvisar com aquelas coisas compridas e achatadas que nunca foram usadas mas que fazem parte de um kit de utensílios que costuma estar ao lado do fogão com a escumadeira. Caso a sua cozinha ainda esteja apetrechada com prendas de casamento, então sugerimos mesmo que nem lhe passe pela cabeça aí encontrar utensílios de substituição, por mais velhos e inúteis que estes lhe possam parecer.
PREPARAÇÃO DA SUPERFÍCIE E “JIGS”
Deverá procurar arranhar a parede por forma a que esta possa garantir uma maior aderência da massa que irá aplicar. Caso a mesma se apresente endurecida, sugerimos mesmo um martelo de cabeça de bico, picotando-a até que o vizinho lhe chame de filho da …. Alternativamente sugerimos-lhe que use a mesma técnica, mas apenas durante o período da tarde.
Seguidamente deverá procurar fixar duas ripas de madeira (ver figura 1) por forma a ganhar duas linhas de apoio para a colocação de azulejos que, se Deus quiser, ainda conseguirá acabar antes de o Sol se esconder. A esta estrutura fica bem chamar de “jigs”. Repare na acentuação profissional com que pode pedir a alguém “ passa-me aí o jig e a farramenta fazxavor”. Estes pequenos pormenores são importantes e nada desprezíveis para aumentar os níveis de respeito dos outros, e por simpatia, a sua auto-estima, esta fundamental para um trabalho bem sucedido.
Para a colocação destas ripas, sugerimos o método clássico de “tentativa e erro” até que consiga fixar uma das ripas em plano horizontal e a outra ortogonalmente com esta. Deve repetir a operação de furação e aparafusamento tantas vezes quanto for necessário ou até achar que a parede se encontra com buracos de bucha suficientes. Alternativamente poderá sempre usar um nível de bolha e um esquadro. Mesmo que estes já não se justifiquem para o nivelamento destas duas linhas de referência, qualquer um deles é de enorme utilidade para dar com ele na cabeça. A sevícia é até mesmo recomendável entre as diversas operações da bricolagem, posto que liberta os níveis de ansiedade e nervosismo que entretanto possa ter acumulado.
O resultado antes da colocação dos azulejos deverá ser algo de parecido com o que a figura mostra. Ignorar o ibisco e os furos a mais que se possam notar na parede. Para não atrapalhar fazer de conta que ainda não tínhamos começado a colocação de azulejos.
Nota: caso alguém lhe pergunte, após esta fase mais complicada, para que precisa de um Black & Decker para pôr azulejos, procure responder com a cordialidade devida.
PREPARAÇÃO DA MASSA
Esta parte é fácil, se não tiver gatos em casa - caso contrário deverá de imediato limpar as pegadas brancas por todo o soalho da casa o quanto antes. Normalmente deve misturar-se na proporção de 3 para 1 de água. De seguida juntar um kilo de farinha e duas gemas de ovos - perdão, alguém me pôs aqui o Pantagruel à frente sem eu ter reparado, fiquemos então pela parte da dosagem. Lembre-se, após misturar o cimento com a água disporá de cerca de 10 minutos apenas até à sua aplicação. Se isso não o deixar suficientemente nervoso sugerimos que tente acudir a uma criança que grita de lá de dentro que já não há papel higiénico. Misture isso com a campainha. Enquanto procura disfarçar os berros que vêm de lá de dentro, procure explicar ao fotógrafo que não está interessado em fotografias da primeira comunhão e que isso nem por isso faz de si mau pai.
Quando voltar, notará que o cimento já adquiriu uma consistência pastosa e que já só dispõe de cerca de 2 minutos. Não se enerve demasiado. Depois de limpar o chão do pátio com o cimento que se derramou porque entretanto alguém deu uma pancada no martelo que caiu dentro do taperware ponha mãos à obra. Até porque já só tem um minuto e meio.
A COLOCAÇÃO
Se por acaso não for uma pessoa paciente e com jeito de mãos, sugerimos que conclua a obra por aqui. Não se preocupe com a estranheza que isso possa provocar, diga que o cimento se acabou e que lá na loja lhe disseram que agora é proibido tirá-lo das cimenteiras que são árvores que estão quase em extinção. Arranje a desculpa que quiser, mas não prossiga a menos que tenha uma enorme confiança no amor que lhe tem quem o rodeia.
Se por acaso não estiver a ler isto e tiver cometido a imprudência de continuar, então deverá seguir as seguintes instruções (eu sei, eu sei que o caldo já está entornado, mas sempre fica a saber como é que deveria não ter feito). Primeiro espalhar o cimento horizontalmente até perfazer o espaço da primeira fiada de azulejos. Para isso deverá usar uma colher de pedreiro ou por falta desta a tal coisa comprida que estava no kit de cozinha ao lado do fogão. Seja decidido quando atirar a massa à parede, não hesite, quanto mais obstinado for nisso mais ela se agarrará à parede sem escorregar. Não foi? Tente outra vez, não ligue à borra de cimento que lhe caiu nos sapatos, e não, não use a camisola, ai, deixe estar, e não não, para que foi agarrar o cabelo com as mãos cheias de cimento. Isso, faça um carreirinha como quem está a fazer uma pista de caricas na areia da praia, e pronto, está quase. Oops, talvez demasiado duro já, retire tudo, e claro que pode, nesta fase já pode usar a T-Shirt. Reinicie o processo desde a operação anterior (não se esqueça três para um de água).
Depois de ter a estúpida da massa já meio fixa na parede e antes que ela comece a escorregar de novo, deverá abrir umas estrias. (Não ligue à figura, aquilo foi antes desta fase, e alem disso se estava a tirar a fotografia não podia estar a fazer estrias não é? ai ai). Para esta operação recomendamos uma espátula denteada. Não tem? Como não tem, toda a gente tem uma espátula denteada! E só agora é que dizem, não é? Um garfo, um garfo grande também dá. Não se esqueça de prometer no final que irá comprar o kit de cozinha inteiro exactamente igual ao que tinha (para que serve um garfo grande afinal?).
Depois de ter a massa tem-te que não caias, e ter feito as estrias horizontais, inicie então a colocação dos azulejos. Nesta fase seria importante que tivesse o painel todo montado para saber qual a sequência de azulejos com que deve trabalhar, mas esquecemo-nos de referir isso na operação de preparação, portanto despache-se. Depois de ter batido o recorde de tempo em fazer puzzles, coloque então os azulejos, um por um, a menos que seja canhoto. Se for o caso deverá repetir a operação dos “Jigs” outra vez não esquecendo de deixar a ripa vertical do seu lado direito.
A colocação dos azulejos é uma operação repetitiva (*) que se deve fazer com rigor e com o menor tempo de paragem. É também o momento ideal para desistir caso ainda não tenha tomado essa decisão anteriormente. Se ainda assim ousar continuar deverá ter o cuidado de após cada fiada de azulejos tentar nivelá-los para que estes assentem todos de forma uniforme. Para isso deverá bater levemente sobre uma ripa de madeira.
Levemente !!!! Eu disse levemente !!!! Bem, ignore os contratempos menores e continue a repetir esta operação até concluir a última fiada de azulejos.
(*) Nunca se suspenda para tirar fotografias no meio desta operação. Rapidamente irá concluir que enquanto o faz o cimento endureceu irremediavelmente.
ADMIRE A OBRA E RELAXE
Uma das boas qualidades da bricolagem é o relaxe que pode trazer. Não deverá assim, depois da obra concluída deixar de aproveitar esses momentos gratificantes. Rodeie-se de pessoas pouco sinceras ou pouco observadoras – filhos pequenos também servem - e desfrute dos elogios merecidos.
Caso ainda se sinta pouco relaxado poderá sempre tentar um outro complemento, e que se aplica particularmente ao caso de bricolagem que aqui hoje foi tratado. Para isso precisará do numero de telefone da loja que lhe vendeu o painel. Comece com uma voz suave para se assegurar que prendeu a atenção de quem está do outro lado da linha. Depois vá calmamente subindo o tom. Deverá gradualmente expor a sua reclamação começando por explicar que acha inadmissível que não tenham junto azulejos de substituição pois que se estava logo a ver que alguns se iriam partir. Insista que o problema de serem azulejos feitos à mão nada tem a ver consigo, nem o problema de falta de verbas para investimento para comprar uma maquineta. Aproveite para acrescentar que nem percebe como é que ainda teve de pagar mais por isso, já que os azulejos saíram mais toscos. Acuse-os de não terem fornecido um manual de instruções para evitar que o desprevenido cliente acabasse por partir um dos azulejos, pelos vistos, insubstituível. Sublinhe esta parte. Vá entremeando toda a sua argumentação com um “seus ladrões”, exclamação esta que se encontra demonstrado surtir um dos melhores efeitos no processo de relaxamento. No final não se esqueça de se despedir. Todos os bricoleurs devem ser pessoas calmas e educadas.
Agora já mais relaxado, e depois de arrumar a “farramenta”, não se esqueça que terá de ir buscar a família que entretanto se exilou em casa da sua sogra. Antes corte a franja que ficou endurecida com cimento, raspe as unhas com uma espátula, e compre uma flor.
BOM TRABALHO
Publicado por Eufigénio Lagoa às 08:35 AM | Comentários (29)
A Bricolagem – prólogo
De bricolagem já fiz de tudo, não por jeito, mas por falta de temor e um enorme fascínio por ferramentas. Nisso já por aqui me bajulei vezes sem conta. O último obstáculo, aquilo em que ainda não me tinha arriscado, eram as massas, cimentos e afins, coisas de espátula que escorrem pelas paredes abaixo até pingarem no soalho e arderam nas mãos. Mas a minha experiência recente por terras do Algarve, já aqui vangloriada com a recuperação de soalhos, colocação de rodapés e outros preparos de casa, razoavelmente bem sucedida até, levou-me a arriscar de novo agora com mais margem de confiança neste ofício.
Então ontem decidi a lançar-me ao painel de azulejos de Óbidos que já por aqui andava encaixotado fazia meses. Foi tal o sucesso, o efeito e o orgulho, que não resisto, mesmo sabendo que poderei ser alvo de leitores mais dextros e informados, a publicar a minha primeira nota de bricolagem.
Sei bem que este blog é de coisas assim mais com filhos e jaculâncias de humores e rumores da alma, e que coisa tão prosaica pode enfastiar o pequeno leque de leitores que por uma qualquer razão estranha já angariou. Mas, francamente, se constatamos que há quem use metade do espaço virtual para publicar receitas de culinária, porque não haveria eu de lançar esta rubrica de bricolagem? E fica assim inaugurada a mesma, que vai já a seguir, é só ter tempo de apanhar a Farramenta (*) que já vão ver.
(*) Assim mesmo, ferramenta, no singular, não há aqui lapso. Qualquer indivíduo que lide com este honesto ofício sabe que “farramenta” não tem plural. Se aqui insisto neste pormenor é porque considero que numa actividade de vasto léxico é importante conhecer e saber aplicar os termos de forma adequada para desde logo lograr alguma credibilidade.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:15 AM | Comentários (5)
junho 19, 2005
Ora deixa cá ver
Sempre tive curiosidade em saber como era a sensação ao colocar um post às 9h da manhã de domingo (mas as oportunidades não têm sido muitas) e hoje não transigi mais.
É interessante isto de aqui escrever o que nos der na telha e saber que ninguém nos lê. É quase como ir ao meio do rio berrar as maiores barbaridades deste mundo, e gritar, gritar até nos doer a voz. Faz um homem sentir-se mais lavado e aclara a voz. É óptimo.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:00 AM | Comentários (10)
junho 18, 2005
Um arraial é assim mesmo pois claro
- Já combinámos tudo. Eu vou ter de fazer um bolo e um doce para levar e vou ajudar na parte da comida com mais duas mães. Ah, e o Francisco vai vender bolos com os amigos para juntarem dinheiro para a ida aos Açores.
- Ai é? Então e eu?
- Tu? Tu o quê?
- Eu. O que vou fazer?
- Tu? Tu nada. Tu vais connosco.
Já me tinha esquecido do encanto dos arraiais. Os homens são público, pois claro. Afinal alguém vai ter de comprar rifas.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:30 PM | Comentários (10)
Um blogue também pode ser isto – uma alarmante ficção do que somos
Em conversa de comentários trocados, a propósito de mais uma minha contrição pública, esta aqui no post debaixo, dizia eu que:
“Pois Karla, isto dos blogues tem destas coisas. Um gajo mete um post e vai logo mais aliviadinho para casa. E se alguém disser alguma coisa eu é logo: "E já leste o post que eu pus hoje? já? Pois, tu nem lês o Blogue e depois chegas aqui a dizer que eu sou isto e aquilo, olha que eu sou muito boa pessoa, e quando faço merda escrevo logo um post a seguir para me retratar"
Agora a continuar, já com a ironia posta de lado, e a pensar mais nisto, que esta coisa de ter um blog pode trazer-nos a ilusão fácil de fantasiarmos quem somos e, numa determinada perspectiva, que editar um post pode até ser uma desonesta tentativa de dar por feito, ou dito, ou até mesmo reparado, o que de facto não chegámos a fazer.
E nesta aparência fantasia que aqui pouco a pouco construímos com palavras até prevejo o risco de a nossa realidade se poder transformar numa almiscarada manta de retalhos de coisas que não chegaram verdadeiramente a acontecer, e nós, cada vez mais, numa construção ficção do que somos.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:29 AM | Comentários (15)
junho 17, 2005
Este post é só para ser lido por energúmenos
(umas 500 vezes pelo menos)
Há alturas em que um pai se sente um energúmeno. Quando? Sei lá, posso sempre tentar criar uma situação para exemplificar. Ora suponhamos que há um tio baril que convida um miúdo para ir passar o fim-de-semana ao Algarve com primas e piscinas e sol e não-pais, aquelas coisas todas porque os putos se pelam. Entretanto o paizinho chega a casa ontem, já noite dentro, preocupado com imensas coisas pois claro, como por exemplo o tentar disfarçar o cheiro do charuto que fumou porque alem de energúmeno tem uma noção pantanosa do que é um compromisso seu e julga que se os outros não descobrirem que ele se foi abaixo então é como se nem tivesse pegado no isqueiro e, já nem se lembra da coisa como se depreenderá. E vai daí o fedelho arranca no dia seguinte para a escola mas sem a mochila que deveria ter sido feita para ele levar quando o tio - o tal que é um baril - o apanhasse na escola. E o pai – o tal que é um energúmeno - lembra-se disso às 14h47 fica em pânico e liga logo para a mãe do coitado do miúdo, que as mães têm sempre solução para tudo e além disso descarta logo as culpas que pois claro avisou mais do que a tempo. A verdade é que a coisa lá se resolve, porque o tio que ainda é mais baril do que parecia antes concorda em passar pela casa do Diogo, onde também mora o pai que é um energúmeno, e a mãe que se chega à frente sempre que o pai que é um energúmeno acha que está muito cansado para se lembrar destas coisas que dão imenso trabalho, e onde afinal até está a empregada que entretanto fez a mochila. No meio disto tudo, salva-se o tio, a mãe do Diogo e o Diogo propriamente dito que afinal sempre vai para o Algarve.
E agora pergunta-se, “mas então, se a coisa até se resolveu, porque é que o pai continua a ser um energúmeno”, e já todos a pensarem que o exemplo não é bem escolhido não é? Porque meus amigos, porque, o pai que é um absoluto energúmeno, não só não se lembrou da coisa, como nada fez para a resolver. Eu sei, eu sei, isso não muda nada. Só que a moral da história aparece sempre só no fim, há que ter paciência. Porque o pai que enfim é o energúmeno que aqui neste exemplo se pretende demonstrar, não só não mostrou qualquer discernimento como em vez de ajudar a resolver a situação deu consigo logo a pensar que “se o miúdo nem sequer sabe da combinação, então nem sequer pode sentir pena disso = problema resolvido”. Não sei se o exemplo foi claro. Foi?
Nota: não fique preocupado, o título do post só se aplica aos que o lerem 500 vezes, o que admito só seja o meu caso
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:50 PM | Comentários (31)
junho 16, 2005
Lassidão
Tenho a vontade morta, e o pensamento, o pensamento também. Já estou assim há uns minutos, e é assim que quero estar, sem desejos, sem nada à volta, desaparecido, deles, das coisas que tenho para fazer, de mim até, dos meus rumores. Ou nem quero, que querer já é estar. Talvez ficar apenas a escorrer minutos, disfarçado de interrupção, onde nada é importante, onde o importante é já só o nada.
Deveria agora esconder-me e deixar-me assim a pairar, em rota afastada do mundo, mais longe até. Tudo o mais que faça, que tenha para fazer, será mero desperdício, e ninguém vê isso. Auditorias, relatórios e planos de investimento, investidas ao supermercado, reuniões na escola dos miúdos e programas ocupacionais de férias, efemérides, estátuas e louvores, jardins, regas ao fim da tarde e montanhas, arrelias, desencontros e amuos, nada disso deveria estar a acontecer agora. Nada deveria estar a acontecer. Eu não deveria estar a acontecer agora.
Ou, pelo menos, eu agora não deveria ser eu. Depois voltaria, com outro ânimo, como quem retorna de férias, devagarinho, a tactear as coisas que entretanto aconteceram. Tenho a certeza que isso não incomodaria o mundo, talvez fosse no máximo um pequeno risquinho de absurdo no que deveria ser. Mas quem daria por isso. E eu voltaria tão depressa …
Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:45 PM | Comentários (10)
Destacarei
Agora, quando aqui o referencio, vai no “Problema 680”. Desde o primeiro dia em que o visitei que vai avançando uma por uma nas suas equações da vida, num blog meio fugido da azáfama, quase silencioso, recheado de um humor ameno que pode bem enganar o mais desprevenido leitor.
Lá, tudo em nós pode ser desmontado em “EneProblemas”. E tal como na vida, poderemos ficar-nos pela ironia suave, hilariante às vezes, com que desenha os pequenos pormenores do dia-a-dia, e não ir além. Mas tal como na vida, se quisermos, também poderemos imergir até mais fundo, em pequenos percursos exclamativos, como aqui por exemplo: “O meu coração quer poesia, quer fazer de conta. O resto é supermercado” que por lá vai deixando dissimulados.
... Como se entre episódios caricatos e cáusticas constatações do quotidiano quisesse esconder esse intuito, quase necessidade, de interrogar e “desarmar” a vida.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:42 PM | Comentários (6)
Esta noite nasceu uma Flor !!!
Nem tudo em nós é egoísta. Saber que alguém está neste momento a sentir a maior felicidade do mundo, quase revivê-la nele, também pode trazer-nos uma enorme alegria.
Que sejas bem vinda Flor, que nós prometemos que entretanto arrumamos esta trapalhada toda, tu vais ver.
[A outra parte boa é que acabou esta missão de sobresselente de apuros, que já nem dormia bem com medo que o telefone tocasse e eu não ouvisse. A menos boa é que cada vez há menos gajos para jogar bilhar (Bill, tu aguenta-te assim pá)]
Vá e agora manda lá daí a charutada oh Prudêncio!
Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:45 AM | Comentários (1)
junho 15, 2005
Como é que eu posso explicar …
… linko os sítios por onde gosto de andar com mais frequência, não linko quem me linka por mera reciprocidade. Acho mesmo, apesar da delicadeza dos mails que me têm sido dirigidos que é um absurdo alguém dizer que “gosto do seu blog, proponho-me linká-lo, se entender linkar-me também”. Como é que eu posso explicar … gosta linka, se não o quiser não linka. Eu faço o mesmo, e fica-se assim, é simples e é honesto. Como é que eu posso explicar … Isto para mim não é um jogo de multidões, é apenas um sítio que gosto ter e onde gosto de estar. Não está no mercado, e nem penso cotá-lo na bolsa. E a inversa também é verdade, não espero que me linkem por eu ter linkado alguém. Como é que eu posso explicar … aprecio que me linkem apenas porque nesse gesto está implícito o agrado em vir até aqui, e só isso considero relevante. Como é que eu posso explicar … não gosto de listas, nem de pavilhões multiusos, gosto de casinhas, conversas amenas, ler um bom texto, rever-me nas histórias dos outros, ouvir uma opinião, e também gosto de escrever, apenas isso. Como é que eu posso explicar … essas pequenas coisas, independentemente do tamanho, merecem-me o maior respeito, que a estima não se consegue com produções série e o reconhecimento não é um alvo estatístico. Como é que eu posso explicar ... ficamos assim talvez.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:52 PM | Comentários (20)
O estandarte porta-francisco
Ontem, por entre a reunião de pais dos escuteiros, pergunta-nos inusitadamente a chefe Susana:
- Então, e o Francisco já descansou?
Entreolhámo-nos os dois. Coube-me a mim solicitar explicações que por detrás havia ali insinuação a mais:
- Como assim?
E ela já antevendo reacções, procurando acentuar por isso um ar sério:
- É que na última missa adormeceu tão profundamente que o padre Manuel teve de a interromper porque ele tinha o estandarte a inclinar-se para cima do altar!
E tanta reprovação aqui, e tão miserável falta de humor. Uma cena que mesmo só pensada nos faz ir às lágrimas e ela ainda a sublinhar com o tom o desconcerto da situação. E quanto mais nos olhava, mais a cena se nos tornava hilariante. E pelo meio eu já a pensar que se o miúdo nem para porta-moedas se confia como poderia alguém ter tido a ideia peregrina de o querer como porta-estandarte durante mais de uma hora.
Mas cerro os lábios, estoicamente, e à falta da pretendida promessa de uma repreensão, lá saiu a escusa que se arranjou:
- Pois coitado, tem andado em torneio de rugby sabe?! Qu’aquilo mói bastante. E mais a escola … esta fase sabe, dos testes …
E ela anuindo, antecipando-se, que já sabia, e confirmando:
- Pois, foi o que ele me disse.
Tal pai, tal filho. Mais pelas desculpas, que no resto … bem, eu nunca consegui dormir em pé.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:15 AM | Comentários (8)
junho 14, 2005
Até isso? Até aqui lhe vejo o rasto ignóbil
Tremuras - dedos velhos, isso aguenta-se, que daí até vêm invenções pictóricas. As irritações, e talvez alguns amigos mais longe - paciência, que os verdadeiros hão-de voltar, quem sabe nem cheguem a ir. E as insónias também - mas que tem isso, se já mal se dormia não haverá diferença em dormir o mesmo tão pouco, talvez mais espaçadamente. Já a desconcentração até é boa, ficamos com mais tempo para nós - que as coisas se atrasem que outras virão, sempre foi assim. Tudo isso são fases, a encarar uma por uma, esse o truque, que o melhor há-de chegar depois.
Mas a rotina gastro-intestinal? Que cobardia é esta, este ferir onde já somos só nós? Com que direito se ataca assim a intimidade de um homem, a vida das suas entranhas? Esse sublime momento biológico que se amestrou tão escrupulosamente durante uma vida inteira? A única coisa que é verdadeiramente só sua? Sim, que nada mais há assim tão nosso como este sagrado prazer onde até um jornal de quinze dias nos pode levar ao deleite?
Mas porque ninguém me avisou que até aqui, a besta alarve me turvaria os dias? Com teimosia, tudo se aguenta, mas isto é demais! Isto sim é atacar-nos até já nada termos de verdadeiramente nosso. Isto é demais !!!
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:24 PM | Comentários (7)
A dar seguimento a reparo familiar sobre o fim-de-semana
“E ainda não falaste da tua bela obra de arte. Ele é toldos, ele é luzes, ele é rodapés … Ah grande Zé da Mexilhoeira (*) ”
Que por modéstia aqui tinha esquecido. Enfim, com tanto de filhos e tanto de jeito sou obviamente um homem de sorte.
(*) Zé – diminutivo de Eufizénio carinhosamente utilizado no meu círculo familiar
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:24 PM | Comentários (6)
Outra vez o Bicho
De resto, só queria poder escrever, nada mais, e entorpecer-me por entre as palavras, esconder-me atrás de uma vírgula, até que o bicho já tivesse saído de mim e eu fosse capaz de fazer algo mais do que este estar quase, sempre quase, só ainda quase.
Ser texto, até Setembro talvez. E ficar assim a inventar histórias para domá-lo, e lê-las, e relê-las a essas coisas que o assustam cá dentro, coisas escritas de mim, coisas que também são dele. Coisas que teimam escrever vezes sem conta o gritar-lhe que ele há-de partir. A escrita aqui a vestir-se de vontade, e eu texto apenas.
Até já poder olhar para o que vem como um tempo que sobra, já não horas que se engolem apressadamente a querer levar o monstro na enxurrada das coisas desperdiçadas. Até poder voltar a ter todas as outras coisas que o tempo nos traz, essas tantas que agora são escorraçadas por uma luta de vontades, um jogo estúpido e infame, que vai mordendo, que nos vai tirando ânimo, e para o qual já só me resta continuar a fugir, assim, em palavras.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:48 PM | Comentários (13)
A piscina torta
Feriados, nós no Algarve. A casa emprestada para baptismo de gente próxima, enfim, nós visitas em casa própria. De resto tudo igual, a mesma gente - talvez uns tantos mais - os miúdos, o sol e a piscina. A meio do almoço, coisa descontraída já se vê, alguém contou 21 crianças a banhos, e havia até quem ainda se admirasse da água turva calcule-se. Eu não, que eu já por ali andava do lado da catraiada, como de costume, fugindo de conversas sérias.
Organizo um torneio, coisa rápida que já há quem chame para a mesa, se bem que estas ali mesmo ao lado sobre a relva, emoldurando a piscina. Um por um, a cada contagem decrescente, tentaria a maior distância nadada debaixo de água. Uma prova de fôlego portanto. Partem os mais velhos, mais convictos, a abrir caminho. Lá para o meio da disputa o recorde cifrava-se numa piscina e pouco mais de um quarto de comprimento, o que perfazia uma distância de 12,5 metros. Urros e gritaria, o quase mais velho de todos a fazer peito, a fingir indiferença. Nova chamada que o almoço espera, e eu negociando com os crescidos que se prometa deixar ter fim a coisa que depois se prossegue logo para o almoço, que pois claro, numa festa de baptizado é assim mesmo que deve ser.
É agora o Diogo quem se perfila. O de sempre, cheio de valentia e insegurança, vaidade e timidez, a vontade de se mostrar mas o pânico da vergonha, e já lhe vejo o lábio mordido. Sabe que tem quase todas as mesas, que entretanto se foi amortecendo o tema de conversa, distraídas na competição. E se o conheço isso é mais que suficiente para se levar ao limite. E lá segue, quase uma piscina. E vira, e segue para trás agora. Passa a marca anterior, subirá agora certamente, a colher os louros que tanto procurou. Mas não, continua. Esbarra na zona baixa com as crianças mais novas, aí decerto para se levantar, a fazer disso pretexto. Mas não, continuo a vê-lo esbracejar, a contornear os corpitos debaixo de água e seguir, uma e outra vez. E por fim o toque na borda. Duas piscinas inteiras debaixo de água, o recorde fulminado, os adultos fazendo por não lhe dar de graça a sua admiração, e ele ofegante, mais de vaidade é certo.
Mas eu faço parte deles, sou adulto mas estou do lado deles ali. Sou eu quem lhes valida os feitos, quem lhes diz como encher o peito e sustê-lo assim, e para quem eles olham depois do esforço procurando a aprovação. E neste caso também sou pai, e por ali vou gritando e esbracejando com o feito, depois mais calmo, envergonhado até, já a voltar para perto do decoro dos crescidos. Porque é festa pois claro, mas não qualquer uma, é baptizado, alguma família longínqua, alguma gente que mal conheço até, e de respeitosa idade. Disso tomo noção por fim e a miudagem a destroçar, como prometido, que a sobremesa aguarda, e a festa deve continuar como deve ser. Em magote barulhento como sempre lá partem a caminho dos comes, e o Diogo comprazido, vejo-o mesmo maior do que costuma ser, ali no meio, banqueteado de tanta admiração.
Mas ficam dois na borda da piscina, esperando o meu aval, ou mais que isso, que assista. Manifestam calados o direito que mais do que nunca lhes assiste, que agora há lugar de destaque a tomar, afinal, amuados pelo prémio precipitado, ofendidos até. Reconheço-lhes isso. Negoceio a partida, primeiro com as mesas de gente mais velha, que são só mais eles que faltam, depois já com eles, estabelecendo a ordem de partida. Sai o primeiro. No fim um gesto de solidarização, que para a próxima será melhor, e que foi quase uma piscina inteira. Ele fazendo-se acabrunhado, misturando-se rapidamente no meio dos outros, entre doces e salada de frutas, requerendo a normalidade outra vez.
Falta então o outro. Esguio, curvado sobre a borda da piscina de braços estendidos sobre a cabeça, assim se mantém sem nada dizer, aguardando que o olhe, que lhe diga que arranque. É o Francisco. E algo me diz que ali já vai mais do que o torneio, mais do que apenas a vez a que tem direito. É manso o Francisco, nada dessas coisas das vaidades, mas desta vez anda ali irmão mais velho. E parte, braços e pernas, tudo ali são membros enormes, mas esguios, sem tanta pujança, e isso vê-se quase logo ali no salto. Mas vai para continuar, quase uma piscina e não vai parar, isso mostra-nos o ritmo. Mas quase perto do virar de direcção, deriva. A trajectória faz então uma curva acentuada e a mão toca-lhe já não na borda do fundo mas na borda do lado, bem perto do canto, e aqui irremediavelmente enganado nas direcções. Assim quando se vira já não arranca para fazer face ao comprimento da piscina, mas sim à sua largura, esta por metade do outro.
Prevejo-o ser surpreendido pelo encurtamento da distância, e receio claro a cabeçada na borda que ele não supõe ali estar já. Circundo a piscina, a rir de antecipar a coisa e travo o movimento dele, a mão na sua cabeça a tempo de evitar um galo. Ele interrompe-se esbaforido. Esbraceja surpreendido a recuperar do fôlego e ainda a estranhar de onde se vê. Eu sem me conter, a rir despregadamente, lá lhe vou adiantando explicação. Por trás de mim ouvem-se mais risos. Meio recuperado, e com a respiração ainda entrecortada lá vai dizendo, rindo-se de si mesmo: “Eu logo vi. Bem me parecia que isto me estava a correr bem demais”
O Diogo pode ter grandes pulmões, mas o irmão ganha-lhe aos pontos na elegância com que sai das embrulhadas e contrariedades que tanto produz - que às vezes, saber ser segundo, é melhor que ganhar. E fico a pensar que tanta asneirice, tanta trapalhada, tudo isso só pode ser para podermos apreciar aquele humor, que flui ainda mais depressa do que o irmão consegue nadar debaixo de água.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:59 AM | Comentários (14)
Explicação aqui guardada para o dia em que os meus filhos me perguntarem o que era um político a sério
Há algo de enorme em viver metade de uma vida
A combater pelo mundo que se anseia,
E na outra metade, com a amargura
De combater contra o mundo por aquilo que se anseia
Cunhal não era um democrata. Vinha de antes disso.
Foi ele que viveu torturado por aqueles que combatia
E depois enclausurado na sua própria utopia.
E quem assim resiste uma vida inteira
Já não é pelo que pensa que deve ser ajuizado, mas pelo homem que é.
E Cunhal é. Um homem gigante. Daqueles poucos que podem ser políticos
Há absurdos nessoutra ideologia, essa dele?
Não são todas elas isso, um absurdo? Utopias ?
Mas tê-las assim, para além da dor, da raiva, do que se resiste
É saber tê-las, é saber ser homem, é ter o crer mais forte que nós
Há absurdos nisto? Fazer da vida a nossa luta, e poder dizê-lo? E quantos assim?
Isso é ser mais que nós, é ser verdadeiro, é quase ser causa. Talvez aí o lapso.
E arrepia a incongruência, num homem que se aplaude de pé.
Que deixe ele um pouco de si, esse para além de si
Em cada um dos portugueses de amanhã.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:42 AM | Comentários (24)
“Boa noite. Eu vou com as aves"
No dia em que partiu o Eugénio de Andrade
Chegámos sem trânsito.
Em Lisboa chove,
e morreu Álvaro Cunhal.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:14 AM | Comentários (5)
junho 09, 2005
Fui de Férias
... não sei quando se porque como o que voltarei
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:23 PM | Comentários (18)
junho 08, 2005
O Bicho
Quase desfalecido,
finalmente sussurra-me algo. Arrebito. Mas não são tréguas, é apenas bom conselho
… que até ele chocado de assim me ver, assim me ler.
Acato.
[... até porque, neste momento estou cansado de palavras, e os seus significados não são fumáveis]
Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:20 PM | Comentários (11)
Eu também gosto de mar, por exemplo …
… e deve ser por isso que estou sem paciência para ler blogues. E o meu só enquanto durar a fisiopsicoverboterapia, que depois temo que nem isto. Agora é fugir para aqui e descarregar que quem quiser que venha - mas depois vai ser descarregar e fugir daqui que quem quiser que fique.
(e logo eu que até nasci simpático)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:27 PM | Comentários (11)
"Ah, que ninguém me estranhe as reacções!
Ninguém ligue a tantas contradições!
Ninguém me diga: “força com isso aí!”
Que a minha vida é já café que não me despertou..
É um intervalo que não se prolongou.
É um almoço que não se acabou.
Não sei o que me faltou,
Nem sei porque me faltou,
- Só sei que me faz falta a porra de um cigarro aqui !!!"
Eufigénio Lagoa, Ai saudoso fumo negro
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:41 PM | Comentários (10)
"Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga:"Vem por aqui!"
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou.
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
-Sei que não vou por aí!"
José Régio, Cântico Negro
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:42 AM | Comentários (2)
junho 07, 2005
Caseirices
Hoje já sei como vou levantar a moral ao fim do dia.
[E tanto post que deles sai ... é quase como ter dois blogues dentro da minha vida :) ]
Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:09 PM | Comentários (4)
Diferenças
Quem foi o melhor lá no jogo da festa do A.?
Um logo
- Fui eu!
E o outro sem deixar pousar
- Não foste nada.
- Então quem foi? Foste tu?
- Não, eu também fui dos piores. Foi o M.
Filhos do mesmo e egos tão diferentes
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:30 PM | Comentários (5)
O Bicho
E um dia hei-de notá-lo distraído, cansado de se fazer fera - nós dois já esgotados
… e a desenlear-se de mim, a deixar-me folgar no que eu quero voltar a ser
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:13 AM | Comentários (8)
junho 06, 2005
O Bicho
Mas deixarei que até isso me leve, que já quase nada fique
… e então adormecê-lo, neste langor que me deixou
Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:01 PM | Comentários (4)
O Bicho
Comeu-me as letras primeiro, depois a vontade, a fome, até o estar apenas
... deixou-me fúria que para nada serve
Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:45 PM | Comentários (7)
Olha, já é segunda-feira?
Eufigénia, deixei-te a carrinha sem gasóleo, é verdade, esqueci-me. Mas mesmo que a quisesse abastecer não podia, tu ficaste com a minha carteira na tua mala, lembras-te? E porque só te digo isto agora, e logo aqui, neste estendal? Porque estou sem telemóvel - esqueci-me dele em casa. Eu sei, aqui tão perto, ia lá, mas … também não encontro o raio da chave de casa.
O que fazes ao almoço? Olha se pudesses vinhas ter comigo, e se não fosse abuso pagavas-me o almoço. Ou até pagava eu, se me trouxesses a carteira. E depois deixavas-me ali em casa, só para me abrires a porta. Eu assim já trazia o telemóvel, agarrava nas minhas chaves e, no fim, atestava a carrinha. Que dizes?
Talvez a gente pudesse assim acabar de vez com o fim-de-semana, que isto de entrar de pijama pela segunda-feira adentro não está com nada.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:58 AM | Comentários (7)
A ira nas coisas que já não se querem escritas
Assim, do lado das nuvens, quase parece que os seus contornos brincam, e quase sinto que ainda as posso tocar. Mas quando tento chegar mais perto, tudo se torna mais difuso, e perco de novo a cintura por onde a enlaçaria, àquela memória. Isso repete-se uma, duas, três vezes. De cada vez, como se a desgastasse, vejo-a mais névoa, sinto-a mais longe, quase partir. Está ainda ali, mas já tão ténue. Mas escrevo, escrevo - deixar-me ir, assim folgado, talvez que fique cativa entre duas linhas. E cada vez menos, já só vultos. Os sons, as vozes, já não se fazem ouvir, e as palavras quase foram. Ainda tento de novo, ainda enquanto entrevejo esbatidas algumas imagens, e quase fúria esta escrita, a querer desesperada agarrá-la assim. Mas depois nada, tudo foi de vez.
Eu sei quase sempre quando as memórias antigas vêm para se dar uma última vez. Fugazes, uma pequena faísca lá ao fundo, por entre uma conversa, uma imagem, qualquer coisa que as traga. E fugazes assim partem de novo, sem que se deixem tocar-se mais que isso. Depois não voltarão mais. Fica espaço, e nisso algo do que já fui partirá, que depois algo se irá escrever por cima, dessa parte, do que já fui. E eu já outro. Será por isso que tantas vezes acho que não é depois das coisas acontecerem que as deixamos verdadeiramente de ter, é lá mais longe, como aqui, quando elas nos visitam pela última vez, já memórias, e quando já nada podemos fazer senão dar-lhes caminho. É aqui que as deixamos de ter definitivamente. É aqui que mudamos. E renovação é isso, esquecer, deixar partir.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:20 AM | Comentários (8)
junho 05, 2005
Brincando com o PaintBrush
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:50 PM | Comentários (2)
Ahh ...
... estás aqui !!
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:33 PM | Comentários (3)
junho 04, 2005
Pintura de autor desconhecido(ou como o tempo finge que pula e empapa quando um homem se põe a pensar - deixar de fumar)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:07 AM | Comentários (6)
Mas está bem, assim também está bem
Qualquer dia acho que vou subcontratar alguém só para me fazer a manutenção dos links. Ora hoje deslinko, ora amanhã relinko - vcs têm de estar sempre a fechar e a reabrir blogs? Mas no meio deste mau feitio não me custa confessar que me dá um certo gozo essa parte do reabrir, sobretudo se é para voltar com essa força toda. Dá-le aí mulher !!
E as melhoras da tua rotolototorititi (é assim que se diz?). Bem vinda ao clube. Já agora aproveito para actualizar com notícias frescas: acabei de receber hoje a prescrição para 20 sessões de fisioterapia. (Não há azar, há quem tenha para mais. E alem disso eu já estou por tudo)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:44 AM | Comentários (1)
junho 03, 2005
A privação do fumo pode dar azia
Se um homem anda com os nervos à flor da pele, e se um blog não é mais do que a pele do homem, o blog fica assim tipo florzinha de estufa, certo?
E vai daí até podia acontecer que, (coisa nunca vista), um gajo mostrasse uma lamentável arrogância ao querer sugerir, (calcule-se), o tipo de comentários que considera lícito fazer-se aqui no blog florzinha de estufa, e os que … não. E (para agravar ainda mais) entender justificar que comentar um post só tem sentido se for para comentar um post. E (insistir ainda) que é um desconsolo (que nestas coisas somos todos muito orgulhosos) um tipo ir todo lampeiro abrir um comentário e descobrir que nada tem a ver com o que andou a escrever com tanto apego. E a sugerir (palavra vil aqui) que para coisas mais privadas talvez o mail, talvez. E depois ainda (que absurdo pedantismo) ter a ousadia de informar que se reserva o direito de quebrar a retribuição de resposta a que se impôs desde o início deste blog florzinha de estufa
Enfim, ao ler alarvidades destas, e outras assim coiso e tal - dada a minha sofrida condição - ninguém ia levar a mal pois não? Toda a gente sabe que em condições normais eu não cometeria tal descortesia não é?
Bom, mas mesmo assim não arrisco. Mais uma pastilha de “Nicotinell” e já está.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:36 PM | Comentários (22)
Água Saudades em pó
Sabes, isto mudou imenso. Os polícias agora são mais novos e menos broncos - apesar de continuarmos a ouvir histórias mirabolantes, estou em crer que se vissem alguém morrer na sua frente eram bem capazes de acreditar, desta vez. E depois apareceu a Internet, e atrás dela uma coisa que se chama blogosfera em que acho que te irias dar muito bem. Foi justamente por aí que ontem, num comentário, me lembrei de ti.
E isto a propósito daquela tua ideia de vendermos água em pó. Continuo a achar que a ideia era boa. Até já pensei num slogan:
| "Auguinha" - a água em pó |
| ... só precisa misturar água |
Quanto à parte logística, proponho que hajam dois tipos de embalagens. A familiar, para se vender nos hipermercados e a individual, tipo saquinho de preservativo, que seria a mais indicada para servir os copos com água nos cafés.
Depois diz-me o que achas. E não te atrevas a convencer-me que isso é impossível. Se tu podias ter ideias “impossíveis” como esta, porque não hei-de eu poder magicar coisas “impossíveis”. Tenho saudades das tuas ideias loucas pá - faço ideia do quanto já deves ter feito rir essa malta aí.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:22 AM | Comentários (6)
junho 02, 2005
Conselhos para deixar de fumar
Obrigado pelos teus votos de sucesso nesta minha cruzada contra a besta. Começo por agradecer o mail e desculpar-me pelo facto da volta do correio ir em envelope aberto. E não posso deixar de aproveitar o ensejo para agradecer a todos aqueles que por mail ou comentário aqui têm manifestado a sua solidariedade e calor nesta luta.
Mas voltando ao aqui me traz. Lá aproveitei o teu conselho e fui até ao sítio que indicaste. Pois bem, lá li aquilo e, (adianto desculpas), aquilo é uma grande treta. Numa altura em que fervilha cá dentro a ânsia de um cigarro, acho que estou genuinamente mandatado para contradizer cada uma das recomendações que lá li, as quais só podem provir de quem nunca se viu em tão desgraçada situação. Assim, atrevidamente, lá junto meu parecer sobre as sugestões indicadas:
“É preferível parar de uma só vez. Estatisticamente, este método parece dar melhores resultados do que tentar reduzir progressivamente o consumo.”
Parar de uma só vez, ou parar de vez? É que há uma diferença estatística grande. Por acaso nesse parar a uma só vez não estão a cometer a desonestidade de contabilizar os mortos não?
“Escolha bem o momento: uma viagem de férias, um período de trabalho menos intenso... É mais fácil livrar-se do tabaco, quando está mesmo calmo.”
Isso é que era bom. Quer dizer, um gajo vai de férias para ficar mais calmo, e depois lembra-se de deixar de fumar para estragar aquilo tudo? Não basta só a desgraça de deixar de fumar? É preciso também estragar as férias? Ora, mais vale ficar em casa. Eu cá vou com isto pelo meio de relatórios e clientes chatos e vai mas é tudo pela frente, que assim toda a gente se aleija menos.
“Anuncie a sua decisão a quem o rodeia (colegas, amigos, etc.). Procure o apoio de pessoas da sua confiança. Se o seu cônjuge é fumador, convença-o a deixar de fumar ao mesmo tempo. A dois, podem partilhar-se experiências e um pode ajudar o outro em momentos de "fraqueza".”
Partilhar experiências? Mas estes gajos sabem do que estão a falar? Já alguma vez caíram no erro de fazer o que aqui insinuam? Nunca devem ter assistido a uma guerra doméstica de levantar cadeiras pois não? Se já um não se aguenta então dois … também não está mal visto não. Poupa-se no tabaco e no cônjuge. Noto agora que esta recomendação deve ser do pré-blogue, pois caso contrário ainda haveriam de recomendar o disparate de um tipo se comprometer com todos os seus leitores, assim mesmo, à bruta e sem amor próprio.
“Elimine todos os objectos ligado ao consumo de tabaco (cigarros, isqueiros e cinzeiros).”
… e já agora continuava, cadeiras, mesas, almofadas, televisões, enfim, tudo o que possa voar e pese mais de 500g. E recomendaria ainda manter os filhos a alguma distância, sobretudo se forem recém-nascidos. Ah, e talvez lembrar também para todos os dias, antes de deitar, não se esquecer de ir à rua apanhar os destroços do que ao serão terá voado pela janela – afinal a via pública é de todos nós, e nem mesmo esta situação desculpará alguma falta de civismo.
“Reduza o consumo de café, chá, álcool e de alimentos calóricos, como substitutos.”
Depois, caso ainda note em si alguma réstia de prazer, amordace-se, faça um buraco, confirme que a tampa o irá calafetar bem, e ponha-se lá dentro até contar 49873637 a palavra “eu não fumo”. Mas estes gajos estão a dar conselhos para deixar de fumar ou são de algum clube S&M?
“Encontre pequenos truques para utilizar quando lhe apetecer fumar (beber água, exercício de respiração, objecto semelhante a um cigarro para manusear, se necessário).”
Cruzar as pernas, descruzar, voltar a cruzar, descruzar, ir até à cozinha, voltar a sentar, mandar todos ir dar uma curva, ir você dar uma curva, não voltar, telefonar do café, mas só voltar com tudo a dormir, deitar-se, voltar a levantar-se, vestir-se, ir passear o cão á rua, praguejar, ir comprar um cão para passear o cão à rua … estes gajos a quererem ensinar a missa ao papa. E essa do objecto semelhante a um cigarro, isso também é válido para homens? Mas isto é recomendação para quê afinal?
“Inicie uma actividade física, para aliviar o stresse e controlar um eventual aumento de peso.”
Pois, eu por acaso ultimamente tenho andado é preocupado com o aumento de peso. Quanto à actividade tenho feito aparamento de unhas, serve?
“Se, para si, for difícil deixar de fumar sozinho ou com o apoio das pessoas que o rodeiam, uma ajuda externa aumenta as hipóteses de sucesso.”
Pronto, esta gente definitivamente vive em Marte? Então acham que por esta altura ainda há alguém ao pé de mim para falar? E se houvesse acham que alguém seria capaz de ouvir um gajo aos berros 4 horas seguidas. Hão-de dizer-me quem são os amigos deles que eu quero conhecê-los.
“O primeiro passo poderá ser falar com o seu médico de família. Está provado que os fumadores que procuram um médico têm mais hipóteses de êxito do que os que tentam deixar de fumar sem ajuda.”
Não serve se um gajo andar à procura dos gatos no quintal do vizinho, ou sei lá, das chaves que caíram no chão? Pois, os médicos devem ser especialmente indicados, sobretudo aqueles que nunca fumaram e que dão conselhos do tipo, “pois você não devia fumar”. E há sempre a possibilidade de um raciocínio filosófico nos levar a pensar que gasto o dinheiro da consulta ficam menos maços de cigarros para comprar.
“O médico vai ajudá-lo a analisar o seu comportamento de fumador. Examinará a sua motivação, os seus problemas e a melhor maneira de lhes fazer face. Caso seja necessário, o médico poderá aconselhar-lhe um medicamento.”
Bom, para começar o meu comportamento é mau, ninguém precisa de me analisar para chegar a essa conclusão. E depois o que eu quero é que ele vá examinar a mãe dele. O que há para analisar num tipo nu que anda durante toda a manhã a fazer o pino e ganir como um animal? Motivação? Olhem, se virem por aí uma amarela é a minha. Agora essa dos medicamentos é uma boa - há por aí erva ou assim outro produto natural qualquer que dê para apanhar uma pedra durante hummmm, digamos aí uns 6 meses?
“Segundo alguns estudos, dos doentes que procuram aconselhamento médico, 10% conseguem manter-se sem fumar, ao fim de um ano; se aos conselhos for associado um tratamento com medicamentos, este número sobe para 30 a 40%.”
Livra, eu é que não vou lá. Prefiro ficar do lado das estatísticas mais altas. Eu gosto de pensar em hipóteses mais altas. Eu sou pelas maiorias. Abaixo o aconselhamento médico. Vivam os armários da olaio onde um gajo se pode enfiar.
“Nalguns hospitais e centros de saúde, existem consultas específicas para quem quer deixar de fumar, em que estão envolvidos médicos e psicólogos. Trata-se das chamadas consultas de desabituação tabágica.”
Ah bom, assim de repente, com tanta gente, pensei que era um bacanal. E como começa aquilo? Sentam-se todos em cadeiras num círculo e cada um à vez vai dizendo, “Olá eu sou fulano de tal e sou viciado em nicotina” e depois cada um faz o seu testemunho “quando era mais novo cheguei a fumar 3 cigarros seguidos”. Além de que ter de esperar 4 horas sentado pela vez na consulta também será uma boa medida, pois como se sabe nas salas de espera dos hospitais não se pode fumar.
E a concluir aproveito, do alto da minha veterania, para acrescentar mais um conselho: se puder leia muitas dicas e conselhos e irrite-se com eles tanto quanto for capaz. Faça-o por escrito, que enquanto escrever nem se vai lembrar dos cigarros.
E pronto amigo Cap, por aqui fico, a agradecer mais uma vez. Pelo menos agora sinto-me muito melhor (vá lá saber-se porquê).
Aquele abraço (cuidado com o ombro)
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:00 PM | Comentários (29)
Falta o “tiro de partida”
Liguei o portátil, sentei-me
pouco tempo. Levantei-me de seguida
e voltei a sentar-me. Vi os mails, vários.
As respostas ficarão para depois
- ainda não ouvi o tiro de partida.
Levantei-me mais outra vez.
Levantei-me primeiro, depois a justificação. Qualquer.
Voltei a sentar-me. Olhei de novo para o portátil, mas só olhei,
ali nada para começar.
Levei a mão ao bolso da camisa. Ali nada também.
Tudo está no seu lugar, mas
falta tudo em tudo.
Alisei o monte para despacho, e ainda espiolhei as folhas de cima,
mas só isso. Ficaria para depois. Ainda falta aqui qualquer coisa
- falta o tiro de partida.
Passei as duas mãos espalmadas pelo tampo
à procura de coisa que agarrassem. O telefone.
Mas voltei a baixá-lo. Não havia com quem falar,
e não era falar que queria também. Não já.
- antes teria de haver o tiro de partida.
Mais um jeitinho, um toque, dois toques,
na proposta com que parei ontem. Urgente, mas só isso
que para já não lhe irei pegar.
Voltei a ver a lista que deixei para hoje
e carambolo de linha em linha,
e já ali no último compromisso, tudo tão depressa,
já não há mais. Pelo menos, não já
- não antes do tiro de partida.
Procuro outra coisa que possa fazer,
e há tanta coisa para fazer. Mas falta algo para lhes pegar
em tantas coisas que há para fazer. E eles.
Também devo falar com os meus colegas,
talvez depois. E também, hoje,
também tenho de ir ao médico, mais logo,
que logo se verá. Agora vou fazer um intervalo para o café,
mas não já. Agora vou ainda ver o que há mais para fazer.
Ainda há tanto para fazer,
mas falta tanto em tudo. Falta
- o “tiro de partida”.
Mais outro dia. Bom dia.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:10 AM | Comentários (18)
junho 01, 2005
O cigarro, era o cigarro que mexia a caneta
Estou há quase dois dias para acabar um texto. Quando cheguei à parte em que devia puxar de um cigarro para me ajudar a dar o burilado final ainda antes de aqui o pregar, baqueei. Receio bem que nos próximos tempos sobrem memórias por acabar no disco rígido, e faltem histórias deste lado de fora. Estou a ficar meio homem (*).
(*) adianto que dispenso as piadinhas fáceis, porque se algo mais perdi entretanto terá sido o humor
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:23 PM | Comentários (15)
Para todas as crianças
Chega-me por mail, do meu irmão,
esta coisa deliciosa que ele endereça a todas as crianças do mundo.

Faço então deste sítio fundíbulo (*),
e aproveito (sem esconder algum orgulho pá) para deixar caminho para mais
(*) Quando um tipo já não sabe o que fazer para esquecer os cigarros põe-se a empinar dicionários e depois dá nisto. Mas fica a nota: Fundíbulo - s.m., antigo instrumento de guerra para atirar projécteis; funda
Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:45 PM | Comentários (5)
A comprar pastilhas de Nicotina
- Das de 2mg ou de 4mg?
- De 4 se faz favor
- Tem a certeza? Deixe-me perguntar-lhe quantos cigarros fumava?
Apreciei a forma pretérita da pergunta, a rapar o vício passado. Lá desenrolei o meu ritmo ‘nicotémico’. E a senhora, muito metódica, depois de algumas contas de cabeça, repetidas segunda vez como que a confirmar a estranheza dos resultados, apreensiva:
- Ah… Pois, lamento…. Mas é que ainda não se fazem de 8mg.
E logo depois
- Mas olhe, tente com estas, pode ser que dê.
E lá se foi a simpática forma pretérita. Mas mal sabe ela que aquele seu cepticismo farmacêutico foi o bastante para eu sair de lá com mais umas horas no bolso - que nesta coisa do teimar, do contradizer, nunca há dosagens por metade.
Nem fazem ideia, essas já tantas pessoas 'desajeitadas' no falar com que me cruzei hoje, o estímulo que podem trazer em alturas como esta.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:14 PM | Comentários (11)
Eu com ar solene de garfo no ar
- Queria dizer-vos que a partir de amanhã não vou fumar mais.
- A sério?
- Sim, é a sério. É uma promessa.
- Então pai, e se fumar, tem de haver multa não é?
- Acho que sim, que sugeres Francisco?
- Se a gente vir o pai a fumar tem de nos dar um Euro.
- Bem , nem vai ser preciso. Mas se quiserem posso combinar isso convosco.
(...)
- Francisco, se o pai voltar a fumar 'bora comprar o Fifa 2005?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:54 AM | Comentários (21)