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maio 02, 2005

(para quem não sabe) Nem só de chapa se faz um carro

Voltávamos pelas 6h da matina do Alcântara-mar no meu insuperável 127, ainda naquela noite gabado, aliás os dois, que ao que parece os meus dotes, a forma como ali o mantinha domado, também era notada. Mas terá isso sido mais ao princípio da noite, que por aquela hora nem eu estava de merecer elogios, nem quem mos pudesse fazer estava já em condições para tanto.

Lá seguíamos em plena Av. Ceuta, - da qual aliás não se pode dizer que tenha um traçado sinuoso - a descrever uma curva suave, ligeiramente aberta para a direita. O M. lá atrás a recomendar que cortasse pelo lado de dentro para fugir às bandas sonoras. Logo a seguir já no ar, nós, o carro, a galgar uns pneus enchidos de cimento, que assim faziam assinalar as obras por estas bandas. Depois um baque, a dor do impacto, o estrondo, a aflição.

O carro virado de través, sem rodas no chão, segue com o polido do aço a escorregar por ali fora. Lembro-me como se fosse hoje, a imagem ao retardador, a não querer acabar, eu a ver o alcatrão a raspar-se por baixo das longarinas, ali mesmo ao lado da minha cabeça, e o carro a seguir sem abrandar pela estrada fora. E o lancil da divisória central a vir, assim de esguelha, bem apontado à minha cara, e alguém do outro lado, de lá de cima portanto, a fazer-se pesar para cima de mim.

Após uns bons 50 metros de rojo acabámos por parar com uma pancada já amortecida no passeio, eu a julgar-me rachado ao meio já. Mas nada. Apenas um silêncio esmagador, só cortado pelo cheiro lancinante da sucata que ali deixámos, a borracha queimada, o estalar do metal ainda, o odor do óleo quente do motor. E aí, de súbito o arrepio de que aquilo fosse explodir. Saí rápido, puxei a A. O último que se aprestava a sair por onde antes estava o pára-brisas era o M. Contagem feita, quase nem arranhões, a bebedeira curada num ápice.

Ele a compor-se e já eu o reclamava para que me ajudasse a pôr o carro outra vez sobre as 4 rodas, um empurrão apenas, antes que mais alguém passasse. Mas ele nada, nem me ouviu - partiu largado na direcção do local onde se dera o primeiro embate no alcatrão. Sigo-o com o olhar, naturalmente preocupado, quase o perdendo lá ao fundo no escuro da noite. Depois vejo-o baixar-se, aí eu já inquietado não fosse o dano ser de outra natureza. Eis que volta a correr. Vejo-lhe na mão um baloiçar do que parecia ser uma cobra. Já quase não tenho duvidas, aquele baloiçar é de coisa viva, e a enrolar-se nas pontas que se desprendiam da sua mão. E ele em passo acelerado, a voltar.

Agora já a acercar-se, e nós a interrogar-nos mutuamente sobre o que aquilo, assim tão importante, poderia ser, que cobra já não era, nem assim já ao perto poderia tratar-se de coisa viva. Uma borracha! Nem precisei de perguntar, que ele logo ali justificava. Ao que parece tinha batido com o carro na semana anterior, e calcule-se, tivera de pegar quase 15 contos pelo friso de borracha que fixa o pára-brisas. Pois, calcule-se, um exagero. Que quinze contos não era nenhuma ninharia.

O carro foi para sucata, a bebedeira acabámos por curá-la uns dias mais tarde, mas a borracha, claro, ainda lá a tenho.

Publicado por Eufigénio Lagoa às maio 2, 2005 07:22 PM

Comentários

Borracha cara mas durável.

(gostei do suspense até ao final)

Publicado por: maria arvore em maio 2, 2005 08:48 PM

Pois Maria, havias de ver a cara de suspense do meu pai comigo a chegar às 8h da manhã ...rs... apetecía-me dizer que levava a borracha na mão quando o meu pai me perguntou "então e o carro", só para poder dizer "está aqui" a acenar com o friso de borracha, mas isso já era fugir à verdade

Publicado por: Eufigénio em maio 2, 2005 09:39 PM

Ufffaaaa!!! Que sorte, todos! Gostei muito do pormenor (ponto central?) da borracha e de esta continuar lá, a relembrar a sorte.

Publicado por: Angela em maio 2, 2005 10:24 PM

Angela,
O ponto central para mim é mesmo o M. mas compreendo que se veja nisso - pela sequência - a borracha. E agora aqui confesso algo (que fica fora do texto ok ? ...rs) naturalmente que não guardei a borracha, só que não sabia como acabar o texto (tudo o resto assim foi de facto)

Que exagero de sinceridade esta minha, as minhas desculpas

Publicado por: Eufigénio em maio 2, 2005 10:38 PM

:) Não foi um exagero, foi um desvendar de artifícios literários, que trouxe o final nº 2 à história.

Publicado por: Angela em maio 3, 2005 12:11 AM

hummm....esta história não está incompleta?

Publicado por: Raquel em maio 3, 2005 01:03 AM

Diria talvez imperfeita Raquel :) não concordas que a deixe assim?

Publicado por: Eufigénio em maio 3, 2005 01:06 AM

Como é possível !?

Publicado por: Eufigénio em maio 3, 2005 01:07 AM