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maio 20, 2005
Os que nasceram para tomar conta do mundo (brincando com o PaintBrush)
Se forem dois irmãos é quase certo que terão naturezas opostas. E se ao primeiro lhe sair em sorte esse deslizar aéreo sobre as coisas, esse estar-e-não-estar, então sobejará para o mais novo aquilo que normalmente são traços de irmão mais velho – a voluntariedade. Fica-lhes o encargo de tomarem conta das coisas. São os que ficam para trás quando alguém se deixa atrasar, ou que dão o peito quando alguém lá na frente receia algo. E há nisso um insaciável desejo de agradar, e também a contradição de não quererem dar nas vistas mas gostarem de ser reconhecidos.
As contrariedades resolvem-nas sem desvios, e suportam-nas até ao limite, em solidão. A última coisa de que serão capazes, é mostrarem as suas fraquezas em público, e por mais dolorosas que essas sejam, sairão sempre com um olhar orgulhoso, até que cheguem a casa. Aí, no calar do dia, só aí, deixarão que as lágrimas lhes corram, e apenas para dizer: “não volto lá”. E neles, o que dizem nestas alturas, é para se saber ouvir, e é bom que aprendamos a ficar antes dos limites do seu orgulho.
São naturalmente obstinados. Muitas são as vezes que conseguem em esforço o que outros alcançam com mais facilidade. São tímidos e orgulhosos, teimosos e inseguros, e nessa têmpera de contradições encontramos uma invulgar tenacidade. Nada neles é aparatoso, e por isso nem sempre os descobrimos facilmente, ou do que fazem pelos outros. Mas eu aprendi a reconhecê-los pelas mãos. São grandes, fortes e têm um jeito de dedos no agarrar das coisas que os desmascara: são as mãos de um artífice. Foi assim que as aprendi a ver no meu pai, e foi assim que as redescobri no Diogo.
Sei que na sua disponibilidade haverá muito de uma solidão especial, e que empurra para dentro as coisas que não interessam aos outros. É isso que fará com que, - mesmo que venha a alcançar quase tudo o que quer - nunca se sinta completamente feliz. E essa inquietação fará com que cada vez mais se procure realizar com os outros. Nasceu voluntarioso, mas pressinto que isso que está dentro de si o tornará acima de tudo alguém muito generoso. Há quem tenha nascido para se sentir mais nos outros que em si mesmo. Como pai receio que essa maneira de ser, tudo isso, tudo o que ele é, torne os seus caminhos mais árduos. Mas como homem sei também, tenho a certeza, que o irei respeitar por isso.
[ Hoje desenhei-te assim Diogo, tu aqui homem e lua ]
Publicado por Eufigénio Lagoa às maio 20, 2005 06:31 PM
Comentários
Só me sai um sorriso meio tonto . (acontece-me sempre isto quando leio algo de que gosto muito)
Publicado por: lyra em maio 20, 2005 06:58 PM
Não sei a quem hei-de dirigir uma palvrinha bonita que eu também não sei ainda qual é: se ao pai, se ao filho, se aos dois.
As pessoas continuam-se nos que as continuam!
Um beijinho ao Diogo, o meu amigo da internet e ao pai, aquele que me conhece...
Olha a minha faculdade de me enternecer a transbordar...
Publicado por: madalena em maio 20, 2005 07:14 PM
Estou siderada com a análise, pelo que demonstra de capacidade de entender os outros.
O Diogo é um homem de coragem.
Seria bom se fazer das tristezas forças tomasse conta do mundo.
Publicado por: maria arvore em maio 20, 2005 08:43 PM
Olha! Desatei a chorar com o teu post. Pá...(eu volto mais tarde).
Publicado por: catarina em maio 20, 2005 10:46 PM
fiquei sem palavras e com vergonha por ter-me identificado demasiado com quase tudo
Publicado por: irmão mais novo em maio 20, 2005 11:07 PM
Lyra,
Põe cá fora o outro lado do sorriso. Já é altura de não fazeres cerimónias
Madalena,
Não sei porquê mas ainda estava a escrever este post e já sorria do teu comentário Madalena. A tua faculdade de enternecer (os outros) transborda sempre. Agora compreenderás se, sendo sobre quem é, eu achar o teu comentário um bocadinho faccioso …rs
Publicado por: Eufigénio em maio 20, 2005 11:31 PM
M.Arvore
O Diogo é um homem de coragem sim senhor. E eu espanto-me como consegues ler “tanto” do que escrevo. Essa tua última consideração diz tudo. Quanto à “análise”, bem, achas que há muito mais gente no mundo que eu tente compreender tanto como aos meus filhos?
Oh Catarina
Já és a segunda :)
(mas volta então)
Publicado por: Eufigénio em maio 20, 2005 11:33 PM
Irmão mais novo
Apenas espero que não sejas o outro filho dos meus pais. Isso deixar-me-ia prostrado. Mas não, tu irmão mais novo, o meu, já tinhas antes de ti quem fosse assim.
Assim, irmão mais novo (que não o meu), vergonha porquê? Há aqui algo que envergonhe?
… mas espera, conheço um irmão mais novo assim, exactamente assim, serás tu anónimo? Se és, não tens aqui o que te possa envergonhar. Se és, dedico-te este post, JÁ !
Publicado por: Eufigénio em maio 20, 2005 11:37 PM
É um estar bonito e um ser discreto, como se costuma dizer. Muita sensibilidade, a tua.
Publicado por: susana em maio 21, 2005 02:45 PM
Suzana,
Sensível foi esse teu comentário. Disseste tudo ali. É isso mesmo (e as voltas que eu dei) :)
Obrigado
Publicado por: Eufigénio em maio 21, 2005 03:24 PM