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maio 30, 2005
O Pontapé ( II / II )
(A parte chata das histórias divididas em dois fascículos é que nos obrigamos a escrever a segunda parte de algo que apenas nos deu gozo ao princípio. E eu nunca mais aprendo)
… E lá fui revivendo a cena ao mesmo tempo em que ambos, entusiasmados, a contavam ao JM. Tudo se tinha passado por altura do Euro 2004. Vivia-se como todos pudemos testemunhar uma atmosfera incrível, empurrada pelo clima, pelas pessoas e por um estado de exaltação como não vi igual. Uma grande boa onda de que nós aproveitámos todos os bocadinhos. Durante esse período pegávamos todos os dias nas bicicletas, depois dos trabalhos e das escolas, e partíamos para a Expo. Lá chegados deambulávamos por entre as várias actividades, e palcos, e barraquinhas de lazer, deleitando-nos com toda aquela animação, e gente, e tão boa disposição. Daquela vez caminhávamos os quatro a pé, com as bicicletas a passearem-se encostadas às ancas, e assim cirandávamos por entre as várias “box” que se dispunham por baixo da pala do Pavilhão de Portugal. Já junto à doca, por onde saíamos, fincaram-se entusiasmados a apontar para um pequeno stand no qual se pretendia medir a velocidade de disparo de uma bola pontapeada pelos esforçados candidatos. A nossa trajectória saltitante sofreu daquela pulsão magnética e enviesou-se para aquela beira, com eles já no meio dos espectadores.
Lá, três jovens exibicionistas alternavam-se na marca dos pontapés e mantinham admirada com o estrondo dos chutos uma plateia muito considerável de espectadores. Havia ali pujança, juventude e sobranceria suficiente para intimidar qualquer outro candidato. Mas os miúdos insistiam, uma e duas vezes “Oh Pai, um chuto só, a ver quem ganha de nós”. Colocámo-nos impacientes por trás do último dos três animadores do momento. O estourar continuou à nossa frente. Subiam-se marcas. O melhor deles tinha acabado de conseguir um pontapé de 93 km/h. O record que se mantinha desde o primeiro dia marcava em destaque uns balísticos 124Km/h. Era marca quase inconcebível, depois de se ver os petardos que por ali se desferiam nem lhe chegar perto. Entretanto, aquele que tinha mais tiques de vedeta, de tronco nu, não inocente, fez questão, magnânimo, de nos reservar o lugar “deixa aí o homem jogar! É a vez deles”. Agradeci com a mesma ironia com que ele me tinha convidado ao desafio. A amadurecida gentileza de quem sabe que a minha concorrência eram ali os meus dois filhos, que já não tinha idade para andar a hastear músculos em plateias ocasionais e que “Cota hás-de ser tu, oh puto da treta”. Pensado assim, convidei o Diogo ao pontapé. Um e depois o outro, e logo ficaram os dois a argumentar que a seguir fariam melhor, que só mais uma vez, e eu a recolher, que havia que seguir caminho, e que não havia cá desculpas de futebolista. “Então agora é o pai”. Ainda declinei, mas depois, que muito bem, cá iria.
Dei por mim, enquanto ajeitava a bola na marca do pontapé, a sentir-me infantilmente acabrunhado. Como se de repente aquele pontapé passasse a ter importância. Notava nas minhas costas a expectativa que me seguia. Não por aquela dúzia de pessoas que acidentalmente estancaram ali, nem pelos três marialvas que se preparavam para fruir da situação. Na verdade, podia quase sentir a expectativa dos miúdos a antecipar, a comparar-me, já não com eles, mas com os outros antes, os do ribombar da bola, os dos vruummssss na rede. O confronto estava então lançado. Pelos miúdos? Por mim a pensar que pelos miúdos? Alguém de repente tinha subido a parada, e eu já intimidado com isso. E irritado comigo mesmo.
Por isso, quando avancei para tomar balanço sentia-me inquieto. Um ocasional pontapé por entre o nosso passeio tinha-se subitamente transformado em algo que não conseguia encarar com naturalidade, e isso modulava-me os movimentos. Mas concentrei-me o melhor que pude e disparei. Ainda no primeiro impulso do gesto senti logo que teria para uns meses, mas ainda assim o “ai” saiu no fôlego do movimento, e isso também não me impediu de pontapear a bola. O sapato escapou-se quase com tanta velocidade quanto a bola, ricocheteou no canto entre as duas paredes e caiu finalmente inerte no chão. No meio do espalhafato vi-me a suster a quase-queda com um braço, em posição descambada já, excessivamente agitada para um impulso que se deveria medir apenas pela brincadeira com os miúdos. A bola, não sei como, ainda assim desferiu uma trajectória suficientemente acertada para acabar embatendo do lado de dentro da baliza que distaria aí uns 10 metros.
Quando me voltei a endireitar, depois de calçar o sapato, procurei algo acabrunhado os miúdos, para lhes lançar um “vês pá, isto já não é para a minha idade”, ou algo assim que relativizasse tudo aquilo e ao mesmo tempo me devolvesse à minha condição de pai que apenas tinha ali ido fazer a vontade aos putos. Mas era impossível deixar de reparar no silêncio, e depois, na cara de cada um dos espectadores, no seu sorriso enigmático. A situação era algo constrangedora - tanto olhar, só por causa de um chuto desengonçado. Mas senti logo ali os braços do Diogo a abraçarem a minha cintura - um apertar vigoroso, a dizer que estava ali, lembro-me que gostei daquilo - e lá no dispusemos a seguir os dois. Mas logo ali fomos interrompidos por um dos três gabarolas que por ali estavam a entreter a plateia - perguntava-me ele se eu não iria assinar o livro de registos, e dizia-o com inusitada veneração. Ainda antes de lhe perguntar porquê olhei para o indicador electrónico: marcava 171Km/h !! Tinha simplesmente pulverizado o “record” anterior, e já se ouvia comentar num burburinho que aquele já ninguém bateria até ao fim do “Euro”.
Fui embora com o aperto orgulhoso do Diogo, cada vez a enlaçar-me mais a cintura e a ouvir um “nem o Roberto Carlos ! nem o Roberto Carlos ! ” do Francisco, extasiado, a antecipar baixinho as explicações lá na escola.
Há coisas que um homem deve ter a franqueza de agradecer à electrónica, sobretudo quando sabe que esta lhe terá concedido provavelmente a última grande oportunidade para brilhar (desportivamente) junto dos seus filhos. Erros? E não é de erros que nascem os mitos? E há melhor mito do que este de um pai para os seus filhos?
Publicado por Eufigénio Lagoa às maio 30, 2005 02:55 PM
Comentários
Bestial pá! Não sei o que diga, estou dividida entre o orgulho dos miúdos em ter um pai que é um herói e o que um pai, que se transforma em herói de uma história para contar, sente numa ocasião dessas.
Publicado por: catarina em maio 30, 2005 03:16 PM
Bem, para ser sincero o que eu senti foi um forte ardor no peito do pé :)
(mas o orgulho dos miudos, ai esse já ninguem o tira, olarilas, que pontapé há só um, o do pai, este aqui, olarilas)
Publicado por: Eufigénio em maio 30, 2005 03:24 PM
Os leões não se entretêm a caçar pardais.
No Sábado, é imperativo os putos estarem presentes no Pavilhão do SLO, qual poção mágica!
Publicado por: bill em maio 30, 2005 04:06 PM
Bill, e tu achas que eu arrisque assim por tamanha futilidade a desmistificação?
Ou também tu acharás que eu dou pontapés daqueles? Andas a tomar o quê pá?
Publicado por: Eufigénio em maio 30, 2005 04:09 PM
Psilocibina através da televisão, tenho de largar a televisão!
Se deste ou não, não vi... mas que aqui contaste que deste, contaste... e como tal (tenho de eclarecer isso com os miúdos)
Publicado por: bill em maio 30, 2005 04:20 PM
tinhas dado jeito ontem no Jamor :-) lá que tu te esqueças dessas coisas julgas que eles se esquecem? ficaste pai herói :-)
Publicado por: lyra em maio 30, 2005 04:27 PM
Isso, esclarece. E vais poder sentir-lhes os olhos brilhantes com que confirmarão. Pergunta à Eufigénia que também ela dir-te-á a velocidade exacta com que se envaideceu de mim. Não mo perguntes a mim, que só eu não acredito naquilo. Mas caramba, que importa isso, se tendo sido ou não, não há coisa que faça um homem sentir-se tão grande assim :))
Lyra, não foi preciso. Aquilo lá no Jamor resolveu-se a contento antes que fosse preciso eu lá ir aplicar o meu pontapé-canhão :)
Publicado por: Eufigénio em maio 30, 2005 04:37 PM
A ti não te pergunto nada, já respondeste. E depois tu és um rapaz com efeitos que antecipam a evidente exprimentação que irás levar a cabo. Óbviamente que os resultados serão "ligeiramente" diferentes, mas isso é devido ao facto de o tempo do pensamento e da acção não serem os mesmos.
Publicado por: bill em maio 30, 2005 05:02 PM
Bill, eu sei que é uma história com características quase irreais mas também não é preciso atingir esses niveis filosóficos, que quase me senti a sair da pele
Publicado por: Eufigénio em maio 30, 2005 05:14 PM
Só por um abraço assim, o que não faz um pai. :)
Publicado por: cap em maio 30, 2005 05:18 PM
Caro Sr. Mito,
Estou a entender porque jogaste na minha equipa, aqui há atrasado.
Apesar de não ter visto esse tal pontapé canhão, acredito que tenha sido muito útil depois da minha saída do campo. A ver pelo resultado final ...
Publicado por: MB em maio 30, 2005 05:19 PM
Ó MB, aquilo só funciona à frente dos putos.
Publicado por: bill em maio 30, 2005 05:25 PM
A justa paga de tanto esforço Cap
Vcs os dois aí, agora estou a reconhecer-vos, tu Bill eras o gajo da camisola de alças que chegou aos miseros 81Km/h ? e tu oh MB, calcinha de cabedal ein, e nem assim mais do que 93Km/h? Azarrr !!
Publicado por: Eufigénio em maio 30, 2005 05:35 PM
Afinal acreditas naquilo!
Publicado por: bill em maio 30, 2005 05:40 PM