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maio 31, 2005
O meu compromisso
… com os meus filhos (ok, e convosco também; quantos mais melhor)
Tinha treze anos quando comecei a fumar. Aos dezoito fumava um maço por dia, aos trinta fumava três, e actualmente fumo vinte e mais umas tantas cigarrilhas. Durante estes quase trinta anos não houve um único dia em que não me tivesse “chutado” com aquela maldição. Fugi para as casas de banho dos sítios onde estava hospitalizado, engoli em custo travos de fumo por entre amigdalites, levantei-me a meio de filmes para me ouvir argumentar mentiras, e disfarcei envergonhado com janelas abertas os sítios onde os meus filhos recém-nascidos viviam. Posso portanto reconhecer desde já: sou viciado, ponto um.
Ponto dois, sobre este “bicho” cá dentro: Não há tolerância nem efeito de escala, nem bons ou maus vícios. Ser viciado dói, devagarinho, muito lentamente, mas dói sempre, dói no fim. É algo que fazemos sem querer fazer, é algo que nos sabe bem quando nos faz mal, mas é acima de tudo, indigno. Tudo nesta puta de vício é indigno e fraco. Há algo mais indigno que um homem desculpar-se a si próprio? É indigna a explicação com que se vê um pai partir cedo de mais por culpa deste vício. É indigna a falta de amor próprio com que se relativiza um diagnóstico de uma bronquite crónica. É indigno interromper abruptamente uma brincadeira com os miúdos só porque aqueles rebolões na sala nos deixaram sem fôlego. É indigna a mentira com que se encobre as picadas no peito com um resfriado que se apanhou na noite anterior. Ainda nestes últimos dias foi a mentira que me acompanhou nesta farsa em que assumi que iria deixar de fumar. Reduzi para uns poucos, e há muito esforço nisso, mas até quando? Até que os truques psicológicos do todos os dias me levem a esquecer a promessa? Até só fumar um depois do almoço, e do jantar, e depois do pequeno almoço, e talvez ao lanche e só mais este, e aquele? E se esta merda não é droga pura, o que mais nos cerceia assim a vontade e o orgulho? E que não venham daí as agulhas e os calmantes e os pensos e as bruxas da vontade, que isto nasceu cá dentro e é cá dentro que se tem de matar.
Mas também é verdade que nunca tive em grande conta isto de ser eu. Se for fui e pronto, e não há nisso nenhum fervor autodestrutivo, apenas um desvalorizado apego à vida. Partilho do lema do “antes viver bem e curto”. Mas isso sou só “eu”, e esse “eu” já não existe. O “eu” real tem dois filhos, e isso faz toda a diferença. Desde que os trouxe a este mundo, (e quem é capaz de se arrepender disso), deixei de poder ser egoísta. Mas sou viciado. E por isso sei que já não basta traçar compromissos comigo, é preciso torná-los vaidade. E é por isso que logo à noite vou dizer-lhes na cara que não fumarei mais. E vou deixar letreiros em todo o lado, em cada esquina destes dias que cruzo. E vou pôr placards luminosos nos outros dias do resto da minha vida, para poder ver ao longe. Porque eu sei que vou querer fumar até ao último dia. Que seja então nesse dia apenas, nisso posso condescender, nesse dia poderei pensar só em mim. Até lá, vou é ganhar vergonha e ter o fôlego que um homem deve saber ter.
E isto não há-de ser assim tão difícil, basta apenas que todos os dias, ao chegar a casa, lhes possa responder a eles, olhos nos olhos, com um sorriso na boca.
E agora, aos leitores deste blog, para amanhã: Quase não preciso dizer o que devem esperar disto. Todos sabemos que este sítio é também ele uma esquina dos meus dias. Nunca escondi que aqui gosto de me divertir, confessar-me, recordar, acusar-me, disparatar, poder ouvir-me. É também aqui que virei combater o “bicho”. Receio que se venha a tornar um sítio obsessivo (basta “ouvir” o tom deste post), e presumo que isso não o vá tornar simpático. Pois.
Ah, e já agora, sabia que hoje se comemora o Dia Mundial sem Tabaco? Não, não estou a sugerir nada, mas se quiserem passem pelo Atuleirus (de onde roubei em desespero de causa a foto) para lerem umas coisinhas interessantes, por exemplo aqui ou aqui.
Publicado por Eufigénio Lagoa às maio 31, 2005 03:00 PM
Comentários
Eufigénio: vou copiar o teu post. Vou imprimir o teu post. E vou lê-lo todos os dias a mim mesma até conseguir arranjar essa força de vontade e essa coragem. (todos os dias me digo: apregoamos que fazemos tudo por eles, dávamos a vida se fosse preciso; mas nem a merda dos cigarros conseguimos largar).
Publicado por: catarina em maio 31, 2005 03:13 PM
Aplausos.
Seja esse o impulso decisivo para conseguires o que tanto queres.
(Eu não fumo, mas já me deixei de outros «vícios» por eles - também tenho dois...)
Abraço.
Publicado por: Andy em maio 31, 2005 03:19 PM
Eufigénio,
se pudesse neste momento dava-te uma abraço daqueles bem apertados e sentidos.
Parabéns!
em 1º lugar pela EXCELENTE decisão.
em 2º lugar pelo EXTRAORDINÁRIO post.
e nós cá estamos para ajudar nessa caminhada que com tão boas razões (2 filhos) não pode senão chegar a bom porto.
(e não sabes como este post vem apanhar-me, num dia em que me despeço definitivamente de alguém que foi levado pelo cigarro, e enquanto espero o desfecho positivo de uma luta de alguém que muito amo com esse estúpido vício)
FORÇA!
Publicado por: inha em maio 31, 2005 03:23 PM
Catarina, fosse a raiva da escrita o ânimo que precisamos para deixarmos de fazer tão pouco sentido como tu tão bem dizes e eu estaria mais descansado.
Andy, obrigado. Não aplaudas. Nada mudou, nada se passou.
Publicado por: Eufigénio em maio 31, 2005 03:26 PM
Eu fumo desde os treze. Tenho fumado desde sempre aquilo que se chama (agora, porque antes era a moda!)o cigarro dos velhotes: SGfiltro. Forte o suficiente. Se compro outros cigarros que não esses fumo o dobro. Já fumei um maço por dia, já fumei dois, já reduzi o consumo e ja ando a fumar quase dois novamente. Nestes 18 anos (!!!) só tive um dia sem fumar. Um unico! Porque estive com febre e quase inconsciente. Já disse N vezes "um dia destes deixo de fumar" mas a verdade é que continuo a fumar todos os dias. Shame on me!!
Quanto á tua decisão só espero que consigas não faltar ao prometido sobretudo a ti! Pela tua saude tambem, logo por eles.
Eu...ainda não tive a coragem suficiente para.
Publicado por: lyra em maio 31, 2005 03:31 PM
Quero dizer, aplausos (para já), pela decisão.
Muita força para a concretizares!
Publicado por: Andy em maio 31, 2005 03:37 PM
compreendes agora a minha retoma? a promessa de voltar um dia a pegar-lhe...durante os 10 anos de privação sonhava com o maldito cigarro...chegava a sentir o sabor sem lhes tocar...snifava os maços dos outros...levava com os fumos dos outros...Eu sei que é uma puta de uma dependência...e a vida não será ela por vezes puta sem ter opção de escolha?
Publicado por: Luna em maio 31, 2005 04:27 PM
Parabéns pela decisão
Fumei desde os 17, até à quase 4 meses (tenho 41).
Sem nada, nem pastilhas, picadinhas na orelha, adesivos, etc, etc, etc.
Apesar da minha mulher me dizer que eu andei umas semanas insuportável, socorri-me da tática do "... já consegui 2 horas, 6 horas, um dia, 2 dias, etc, etc, etc."
Vou aguentando bem.
Já fumei um excelente Romeu e Julieta, série comemorativa pelo meio, e não foi por isso que voltei a fumar.
Não tenho cara de desistir, agora, dizer que sou mais fraco que o tabaco ??? com todos os amigos a gabarem-me????
Coragem, só custa o 1º dia
Publicado por: pois, mas em maio 31, 2005 05:03 PM
Quem a toda as horas fumou, fumará do que houver.
Publicado por: bill em maio 31, 2005 05:13 PM
Eu, mãe,professora, deixei de fumar, cedendo às pressões antitabagistas dos meus filhos, Diogo e Rafael.
Cá dentro de mim, sabia que estava também a provar a mim própria que era capaz de viver sem aquela coisa que me fazia levantar da cama e ir comprar ao Sr Manel, que de manhãzinha era o único que estava aberto.
Ele, pai, médico, deixou de fumar, depois de ser submetido uma cirurgia, em que a anestesista lhe disse: eh pá, foi difícil, tu sabes... o tabaco.
Andou um mês com um maço no bolso, sem lhe tocar. Este argumento foi a gota de água. O trabalho já tinha sido feito pelos filhos quase na totalidade.
Ele, filho, Diogo, professor, nunca fumou, não fuma. Mantém as convicções anti-tabágicas, com menos fundamentalismos.
Ele, filho, Rafael, multiprofissões, finalista de Comunicação, tuno de Agronomia sempre activo, mesmo depois de ter abandonado o curso das couves e das flores, fuma... E eu não posso fazer nada senão pedir para parar. Hoje percebo que só quando os filhos lhe pedirem.
Parabéns a ti! Beijinhos
Publicado por: madalena em maio 31, 2005 05:15 PM
Quantas cigarrillas fumaste já hoje?
Vou abrir o segundo maço do dia!
Publicado por: bill em maio 31, 2005 05:18 PM
Inha, Madalena, "Pois, mas",
Muito agradeço os vossos testemunhos, particularmente porque revelam que porque se deve e porque é possível deixar isso
Lyra,
E que tal um desafio? Juntas-te a mim. Luta mutua, de blogue para blogue? falo a sério
Luna,
Claro que continuo sem compreender. E claro que nunca me passaria pela cabeça criticar-me por isso.
Bill,
É o dia da despedida pá, o que quer dizer que se as cafécreme fossem bebida já estava em coma alcoólico. E obrigadinho pelo incentivo oh meu sacana
Publicado por: Eufigénio em maio 31, 2005 05:33 PM
ganda bill...toma lá um beijo pá:)))
Publicado por: Luna em maio 31, 2005 05:34 PM
Depois da garrafa de planalto ao almoço (partilhada), também me apeteceu um cigarrito.
Mas aguentei.
Publicado por: MB em maio 31, 2005 05:38 PM
Mega....o que um homem não sofre pelas privações:)))
eu soube-me q nem ginjas...
Publicado por: Luna em maio 31, 2005 06:08 PM
Força nisso que este é um golo de pujança descomunal!
Com o blog como saco de boxe e muitos líquidos vais ver que consegues. :)
Tu já tens a motivação - do mesmo local onde eu a arranjei quando engravidei ;) - e o que custa mais é condicionarmos nos primeiros 15 dias: ver cartaz, não fumar; ver cartaz, não fumar.
Publicado por: maria arvore em maio 31, 2005 07:06 PM
Acendi um cigarro enquanto te lia, fumei-o. Ainda não é hoje, eu sei! Será daqui a um mês, não quero deixar de fumar muitas vezes; apenas uma. Por isso não o faço já, não começo hoje. O teu banner, vou guardá-lo para o poder exibir nessa altura, se não te importares, claro!
A ideia de o blogue ter mais uma utilidade e servir também para despejar a carência da nicotina e, ao mesmo tempo, ajudar a combater o vício, lutar - colectivamente - contra a dependência, é óptima.
Um abraço, Eufigénio!
Publicado por: cap em maio 31, 2005 07:46 PM
MB,
mas tu sempre foste saudável com as coisas do vício pá. Moderação, se eu a tivesse como tu nem sequer andava aqui neste folclore da vontade.
M. Arvore,
até já tenho um torcicolo de olhar, fechar os olhos, olhar, fechar os olhos
E Cap,
A ideia de nos comprometermos uns com os outros também me parecia boa. Pena que te leve um mês de avanço, ou atraso ...(terei muito gosto em te emprestar o banner, desde que ele tenha aqui provado eficácia)
Publicado por: Eufigénio em maio 31, 2005 08:17 PM
'génio ;O) Fico com um feitio terrivel juro-te. Eu já sou uma inconstante (de humor) por natureza. Ainda fico pior. Cortante mesmo.
mas vou pensar nisso um cadinho. Tá a correr bem? Não te apetece reclamar com o mundo inteiro? Dar um tiro em alguem? Não estas insuportavel?
Publicado por: lyra em maio 31, 2005 10:18 PM
Coragem!
Um abraço.
Publicado por: Leonel Vicente em maio 31, 2005 10:41 PM
Fumei os meus primeiros cigarros à sucapa aos nove anos e sempre gostei imenso. No entanto consegui ter o bom senso de só fumar de vez em quando ao longo da adolescência (uma espécie de prazer proíbido e, por isso, refinadamente ocasional). Entretanto passei a fumar outras coisas e os cigarros continuaram esporádicos (às vezes ia um maço numa noite, mas podia passar semanas a fumar um cigarro só de vez em quando). Era bem crescida quando comecei a fumar regularmente, o que me faz sentir ainda mais estúpida. Mas sem pensar que vou deixar de fumar, consigo ter longas fases em que vou adiando cada cigarro, de modo a conseguir não fumar mais de seis por dia.
É bem verdade o que tu dizes. Uma vergonha (e o meu filho pergunta-me "não tens vergonha?!"). Como diz a mana.
Publicado por: susana em junho 1, 2005 01:58 AM
Força, Eufigénio, aqui fica o meu incentivo. Isso não presta e ainda para mais é caro. Eu já fumei, mas nunca fui viciada, sempre parei quando quis. Era capaz, por exemplo, de fumar durante o dia e não fumar mais quando chegasse a casa, ou durante todo o fim-de-semana. Para mim foi facil. Hoje em dia abomino o cheiro do tabaco.
Para quem se encontra realmente viciado deve ser muito difícil, mas é uma escolha que tem que vir de dentro e exige uma força psicológica muito grande. Ainda bem que estás disposto a fazê-lo, congratulo-te por isso! E quando te apetecer estrebuchar com alguém, estamos cá! ;)
Publicado por: Noite em junho 1, 2005 02:30 AM
Deixa sim! Força! Depois podes passar para um charuto de x em quando, não vicia do mesmo modo e sabe bem!
Publicado por: joao em junho 1, 2005 02:48 AM
Parabéns pela tua decisão.
Para o ano faz 20 anos que tenho este vício maldito. Prometi a mim mesma que os vou comemorar sem cigarro na mão. E sei que vou conseguir. É uma luta árdua, mas sei que vale a pena, por mim e pelos que amo.
Excelente post!
Publicado por: Lisa em junho 1, 2005 11:20 AM
Lyra,
Como diz quem me conhece bem: vai em frente, que com pior feitio é impossível ficares
Susana,
Mas será que todos o(a)s bloguistas são uns grandes viciados em tabaco? Olha a ti estendo-te o desafio que já estendi a outros: ‘bora aí comigo nisto? Assim em equipa deve ser mais fácil e fazer desta blogosfera um muro de lamentações sempre lhe dá alguma utilidade.
Lisa,
Para quê esperar um ano?
Publicado por: Eufigénio em junho 1, 2005 11:44 AM
Leonel Vicente, e Noite, e João
Obrigado pelo v. incentivo.
Todas as palavras que aqui me deixam são bóias que encontro em cada segundo por onde este vício ainda me arrasta (isto está a ficar um bocadinho melodramático, está está)
Publicado por: Eufigénio em junho 1, 2005 11:45 AM
Parabéns por esta decisão. Mantém-na, porque consegues. Há três anos que eu a mantenho. :) E se eu posso, todos podem.
Publicado por: Angela em junho 2, 2005 12:28 AM
O meu pai estava a morrer e todas as forças que lhe restavam eram para acender um cigarro na cama do hospital, entre o tubo do soro e o do oxigénio. Quem puder deixar de fumar, que fique assim.
Publicado por: sara monteiro em junho 2, 2005 01:38 AM