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maio 17, 2005

O Matadouro de Beirolas
II - A ‘jorna’

O entrelaçado em série daquelas tarefas era de tal forma aprimorado, que qualquer ausência de um trabalhador implicava desde logo a sua reparação. Não poderia haver lacunas insupríveis, fosse no sector onde era desferido o tiro ou já no enlaçar das patas no mono-rail por onde seguiam depois cadáveres, e menos ainda no sangrar dos bichos ou depois nas serras com que se descolava o pêlo. E todos os outros, desde os ofícios mais técnicos como o separar das vísceras e o corte das peças, ou lá em cima na parte dos cachaços, até às menos exigentes zonas de separação dos quartos ou de preparação antes da entrada nos túneis frigoríficos, até aí, estancar uma dessas operações era asfixiar todo o ritmo dessa complexa cadeia de produção.

Qualquer função ali, por menos especializada que fosse, exigia por isso a substituição imediata do seu operador. Seria desastroso que por culpa de uma gripe no Sr. António do ‘rack’ onde se dependuravam as línguas de vaca, se visse lá fora toda a logística abruptamente parada, com aquelas dezenas de camiões encarecendo o atraso. E depois havia ainda as questões técnicas, o descontrolo da temperatura, e os fiscais da qualidade a exaltar os mestres de cada sector, provavelmente já perdidas largas centenas de quilos de carne, e a serenidade.

Por isso, pelas 7.30h, logo após a chamada, cada chefe de sector coligia as faltas e entregava-as na portaria do matadouro, junto ao portão alto de ferro que se mantinha sempre fechado. Pouco depois passava então pela ‘porta do homem’ um indivíduo baixo, que todos os dias se empoleirava no vaso de cimento que ladeava a entrada. De lá começava a bradar com voz dada de importante por cima de uma boa centena de cabeças, assinalando as áreas que requisitavam voluntários. Era a vez dos homens da ‘jorna’ arriscarem a sorte de serem escolhidos.

(mas onde é que eu me meti? ... a continuar ... não sei é para onde)

Publicado por Eufigénio Lagoa às maio 17, 2005 08:15 PM

Comentários

Toda esta autópsia de carne com homens colados nas máquinas a fazer de bisturi, parece «filmada» com câmara fixa ou a avançar devagarinho.

Como eu desconheço a história do matadorouro de Beirolas, esclarece-me só uma dúvida: estes homens de jorna em Lisboa existiram em que década?

Publicado por: maria arvore em maio 17, 2005 10:00 PM

Maria, o meu voto de silêncio de narrador impede-mo de te adiantar resposta. Posso contudo garantir que daqui a 5 post's (valor por estimativa) 234 parágrafos e 10397 caracteres ficarás esclarecida.

Publicado por: Eufigénio em maio 17, 2005 10:32 PM

Partes I e II. É engraçado escreveres sobre isto sem a nota de horror que geralmente vem associada a coisas sobre matadouros. O Francis Bacon havia de concordar contigo no tom.

Publicado por: susana em maio 18, 2005 12:39 AM