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maio 09, 2005
E vós, quem dizeis que eu sou/escrevo ?
Quem está por trás do que se escreve? Será que gostamos de quem escreve como gostamos do que escreve? Será o que escreve - não importa agora a forma, o conteúdo ou o estilo, ou a intimidade com que o faz - e quem escreve, a mesma pessoa? Ou há aqui o eterno mito do escritor?
Juntemos-lhe uma imagem, um gesto, a expressão, tornemo-lo diferente, mais real. E agora ainda é a mesma pessoa? Ou já só é quem parece? Ou será partes dos dois? E se assim é, qual domina a outra, em nós? A dos sentidos? A dos sentires? As duas? Mas como se reúnem em nós essas duas partes da mesma pessoa?
Quando conhecemos alguém, na realidade, e depois lhe conhecemos o que escreve, juntamos-lhe mais dele, fica ali, a fazê-lo mais preciso, diferente sem dúvida, mas ele lá, aquele que sempre conhecemos, mesmo que eventualmente isso nos possa fazer sentir surpresos com o que agora conhecemos dele.
E ao contrário, e quando conhecemos alguém pelo que escreve, antes de a ele mesmo? Não iremos aqui sentir-nos mais surpreendidos? Ou será que essa sequência do conhecimento irá abreviar-se, quase desonestamente, para de repente nos sentirmos próximo de alguém que ali vemos pela primeira vez? Não? E se, (admitamos que sim), no meio de uma conversa, talvez logo a primeira, ficarmos com a sensação que conhecemos essa pessoa há imenso tempo, ou melhor, como se fosse há imenso tempo?
É normal que conheçamos as pessoas pelo que são, o que parecem que são, e aos poucos lhes vamos descortinando o que têm dentro de si. Caminhamos nesse conhecimento de fora para dentro, vagarosamente. Por isso, poder um dia lê-las, pode ser a oportunidade de conhecermos recônditos delas a que nunca chegáramos, o que pode tornar-se um processo súbito de (aprofundamento do) conhecimento que temos dela, e isso pode surpreender-nos.
No caso oposto, quando conhecemos alguém depois de o resgatarmos das palavras que escreve, estaremos a caminhar de dentro (de si) para fora, como se de repente nos dessem um presente que já sabíamos qual era, e apenas, (talvez) tivéssemos alguma curiosidade em saber de que cor seria.
Quererá isso dizer que conhecer alguém pelo que lhe lemos é partir de um conhecimento mais próximo (mais perscrutador) da sua verdadeira natureza, do que ver-lhe os gestos, as mãos, a fisionomia, a espontaneidade com que se revela ao conversar? E se assim é, há intimidade nisto, aquela que apenas concedemos a quem conhecemos?
Que confusão, eu sei. São apenas esboços de fim-de-semana. Pode ser que um dia me sinta menos esclarecido e assim os possa retocar melhor.
Publicado por Eufigénio Lagoa às maio 9, 2005 01:41 AM
Comentários
Conhecer alguém de dentro para fora (independentemente do que possa achar, de facto, sobre o processo) é uma imagem lindíssima. Como se a flor da pele fosse, afinal, interior.
Um beijinho.
Publicado por: Mi em maio 9, 2005 02:14 AM
Rapidamente, digo-te que (pela positiva) não surpreendes quem te vê pós-leitura. :)
Publicado por: cap em maio 9, 2005 02:14 AM
E tudo se torna tão familiar Mi :)
Cap, tu também não surpreendes, és quem já eras ... lá está o que eu digo!
Publicado por: Eufigénio em maio 9, 2005 02:20 AM
É isso, não é? Quando gostamos mesmo do que conhecíamos, não nos enganamos. Colam-se outras coisas, mas não há decepções.
Publicado por: susana em maio 9, 2005 02:29 AM
É isso sim Suzana, haverá "confirmações" talvez :)
Publicado por: Eufigénio em maio 9, 2005 02:34 AM
(Comentário à la Tuby:)
Eu sempre fiz questão de conhecer todas as minhas namoradas de fora para dentro. E de dentro para fora. E de...
Publicado por: João Pedro da Costa em maio 9, 2005 04:24 AM
"confirmações" foi o que fiz ao conhecer-te Eufi. E quase o mesmo ao conhecer a Eufigénia sem nunca ter lido uma linha que ela tenha escrito (mas isso foi por outras razões mais...geográficas);-).
E sim, a pessoa que fala com voz e com olhos corresponde inteiramente à pessoa que aqui fala com palavras escritas.
:-) (e estás mesmo esclarecido pá, pareces um filósofo qualquer! eu hoje não consigo escrever nada...);-)
Publicado por: Mar em maio 9, 2005 12:41 PM
JPC,
Isso é um comentário à JPC, e sem trocos ! :)
Oh Mar,
Eu já estarrecido e tu mandas com aquela do "filósofo qualquer". Logo hoje que eu já não ando bem? ... rs
PS: Sobre a Eufigénia, comigo aconteceu-me exactamente o mesmo, também nunca lhe li uma linha (ela é das que nem precisa de escrever...rs)
Publicado por: Eufigénio em maio 9, 2005 12:50 PM
Muitas das tuas interrogações já eu as coloquei a mim mesma. Às vezes há desilusões. Outras, confirmações e consolidações do que já sabíamos e passámos a saber melhor.
Beijinho a ambos.
Publicado por: 1poucomais em maio 9, 2005 01:43 PM
Parece-me que conhecer alguém de dentro para fora cria uma maior intimidade e este meio facilita esse conhecimento.
Ao chegar ao conhecimento «real», julgo que este só pode confirmar o que se pensava sobre a pessoa em causa. Caso contrário, lemos muito mal. ;)
Publicado por: maria árvore em maio 9, 2005 03:41 PM
Articulamos como escrevemos? Trajamos como pomos pontos de exclamação? escrevemos tudo o que falamos, (ou só parte, que a outra é sobre o que calamos)? As duas partes que se mostram são as mesmas M. Arvore? E os códigos, não os ortográficos, mas os outros, aqueles que inventamos e que não servem para nada, e que tantas vezes balizam o 'parecer'? O que a (1pouco+)Azul fala, - e é certo tb o que fala - , das desilusões, não há esse risco?
Mas concordo contigo, já concordava, é mais abrupto, mas de dentro para fora, é intimidade mais honesta. O ideal era que nós conseguíssemos comunicar com as mesmas "coisas" com que escrevemos. (mais polémica cá dentro ...rs)
Publicado por: Eufigénio em maio 9, 2005 04:02 PM
Pois, pois...eu hoje é casaquinho às riscas beje e pretas, serve? :)
Publicado por: catarina em maio 9, 2005 05:21 PM
(Este cabrão, hã?) Não estou a falar de ti Eufigénio (mas também podia).
Só não te digo o que acho deste texto porque depois tu pensas que digo o mesmo a todos os blogueiros...
Mas quanto ao resto, fiquei conversado. És tal e qual.
Publicado por: sharkinho em maio 9, 2005 05:42 PM
Talvez eu não seja uma pessoa que resista a "ir ver", mesmo quando às tantas era preferível "pensar melhor no assunto". Gosto da ideia de ter um rosto para associar às palavras. Mas até é bem mais do que isso... Quando leio, vou construindo "bonecos" das pessoas do outro lado das letras: já imaginei putos que eram quarentões, quarentões que saíram com ar de putos, carecas que afinal têm muito cabelo, ruivos que nem o são, cromos de pastinha que andam sem mala, figuras frágeis e magrinhas que não o são assim tanto, gente que pensava alta e afinal se encaixa nos meus braços nos abraços das despedidas, olhos castanhos que afinal são da cor do céu, olhos da cor do céu que afinal são castanhos... sei lá! O certo é que nunca acerto. E depois isso também não é importante. A imagem real acaba sempre por fazer sentido. Aliás, em termos de imagem, nunca fiquei verdadeiramente surpreendida. Mas há pormenores que são surpresas e esses, sim, gosto muito deles: o tom da voz, o calor dos sorrisos, a gentileza no olhar, a delicadeza dos gestos, ou a brusquidão. As inseguranças que detecto - às vezes tão parecidas com as minhas -, ou aquele ar confortável de quem está de bem com a vida... e talvez por isso acabe sempre por ir espreitar. Mesmo temendo dar a cara. Mesmo achando que o meu corpo não irá acrescentar em nada ao que sou pela Net. Há desilusões às vezes, como é óbvio. Mas não é o aspecto que desilude. É a pessoa, a tal que acabamos por ir dissecando à medida que lhe pesamos cada uma das palavras. Outras vezes - felizmente - nunca nos chegam a desiludir. E, se for a contabilizar as minhas experiências, direi sempre que o tanto de bom que me trouxeram estes encontros mais do que compensa uma ou outra desilusão que já tive.
Publicado por: Hipatia em maio 9, 2005 06:08 PM
Vou apropriar-me das palavras todas da Hipatia.
Publicado por: 1poucomais em maio 9, 2005 07:27 PM
por isso hoje faz tanto sentido a expressão "foi amor à 1ª vista",como a espressão"foi amor à 1ª leitura".
Publicado por: miguel em maio 9, 2005 07:35 PM
Ai vais, Zu? :))))
(eu por acaso vinha por aqui outra vez só para prometer ao Eufigénio que, para a próxima, ponho açaimo nas teclas... Ou então ponho logo os comentários em dieta rigorosa ;))
Publicado por: Hipatia em maio 9, 2005 07:42 PM
Um gajo vem aqui deixar uma graçola nos comentários e de repente por causa deste post fica com um sorriso idiota na cara que só deve sair lá para sexta-feira.
Um granda abraço, pá!
Publicado por: PN em maio 9, 2005 08:02 PM
Até podemos falar as palavras de forma diferente do que escrevemos. E o timbre de voz pode encaixar no imaginado ou não. Mas o texto é o mesmo porque é dificil escrever sobre o que não se conhece.
Podemos vestir de mil maneiras mas o que as roupas expressam tem a ver com a forma como usamos a pontuação. Uma pontuação exuberante costuma ter por trás alguém vestido com peças muito próprias.
O que não dizemos, também diz. Ou porque não se conhece ou porque magoa.
O que acabo de dizer é apenas o que penso porque julgo que descontada a parte artística da escrita - e até aí as opções escolhidas denotam a personalidade de quem escreve - sempre que escrevemos é a nós que estamos a descrever. Por isso julgo que é muito mais rápido conhecer alguém pela escrita do que «ao vivo».
As desilusões, acontecem com o tempo, quando descobrimos algo que afinal não nos agrada. Mas isso pode acontecer em qualquer lado, virtual ou não. E às vezes, são as nossas expectativas mal dimensionadas que criam a desilusão e não o outro.
Eu sou fã da intimidade de dentro para fora. A coisa que nos faz comunicar está na moleirinha e pode ser usada em todos os locais.
Publicado por: maria arvore em maio 9, 2005 08:09 PM
(mas esta gente não trabalha?)
Publicado por: Eufigénio em maio 9, 2005 08:36 PM
Catarina,
Se forem vírgulas talvez se aproveitem sim. Pontinhos é que seria pior, detesto pessoas cheias de hesitações
Sharkinho,
Tu deves dizer isso a todos os blogueiros pá!
Publicado por: Eufigénio em maio 9, 2005 08:48 PM
Hipatia,
Agora fizeste-me lembrar o Cap ...rs ... Num registo mais sério: eu não sou como tu, eu prefiro quase sempre não ver.
1poucomais,
E eu agradeço a simpatia de não te teres apropriado 'ipsis verbis' :)
Miguel,
Sobretudo se se estiver a ler Platão
PN,
E outro para ti pá! (Vê lá se guardas um bocado do sorriso para o fim de semana que é quando faz mais falta)
Publicado por: Eufigénio em maio 9, 2005 08:53 PM
Maria,
Cá para mim nós hoje devemos estar vestidos da mesma maneira!
E disseste uma coisa que dava para outro post: "E às vezes, são as nossas expectativas mal dimensionadas que criam a desilusão e não o outro". Talvez mesmo para abrir um blog.
Publicado por: Eufigénio em maio 9, 2005 08:55 PM
Estou de calças. ;)
Publicado por: maria arvore em maio 9, 2005 09:58 PM
Acho que nesta última frase da maria, que acabas de citar é que está a explicação para muito do que já foi dito: Só se desilude quem espera algo. As expectativas mal dimensionadas é que dão azo a apreciações "intencionadas" à pessoa que nos aparece pela frente. Que pode corresponder ao que se esperou ou não, produzindo no que "expectava" reacções de maior ou menor intensidade emocional.
Quando se vai para um encontro destes, de peito aberto, apenas com a curiosidade natural de associar um rosto a alguém a quem já "vimos as cuecas" que é como quem diz, conhecemos a alma e de quem já gostávamos, mesmo sem rosto, não há lugar a desilusões, apenas às tais constatações que refiro ali em cima.
E foi assim que me senti nos dois encontros em que tive a felicidade de participar. ;-)
Publicado por: Mar em maio 10, 2005 03:40 PM
Et Voilá Mar
(gostei dessa de "a quem já 'vimos as cuecas'". andam cheias de propriedades vcs aqui nesta caixa de comentários)
Publicado por: Eufigénio em maio 10, 2005 03:55 PM
(as tuas não eram aquelas com ursinhos e corações??? ou essas seriam as do João Pedro? Sim, porque as do PN eram as rosa-choque e as do shark, azul-mar com um tubarão estampado, claro!
Já as do fred tinham um slogan, abaixo os EUA! e as do descompensado, correntes sobre um fundo preto, enquanto as do cap eram uma paisagem bucólica de verdes e azul-céu...:-))))
(quem quiser que fale sobre os fios dentais das meninas...)
Publicado por: Mar em maio 10, 2005 04:17 PM
Mar:
Quais fios dentais? Eu cá sou muito púdica. Só uso cueca de gola alta!
:)))
Publicado por: Hipatia em maio 10, 2005 06:21 PM