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maio 10, 2005
Azar nítido (brincando com o PaintBrush)
Se forem mais do que um é quase certo que um deles será o puto do azar nítido. Normalmente é um espirra-canivetes, desengonçado, com mãos que não se vêem quietas e que esvoaçam pelo espaço de forma desarticulada, com braços de lastro desastrado a que as coisas se apegam, e que tem no seu corpo uma arma letal do desastre. Não caminha, tropeça. A espera é um momento que inventa para a transformar na eminência de algo que vai correr mal. São tantas as topadas nos pés na única pedra da areia da praia, e as arranhadelas no prego esquecido da parede, e as vezes em que os pratos se poisam no exacto sítio de onde cairão, são tantas as pequenas fatalidades que, resignado, acaba por conviver de uma forma dócil com esse lado fatídico. Os acidentes, as contrariedades, a tudo isso se acostuma a dar-lhes uma proporção relativa, e isso fará dele provavelmente uma pessoa mais contemporizadora, mesmo que com alguns arranhões. Há uma resignação serena quando se recupera da dor, já de sorriso na boca a dizer “oh pai deixe. É o azar nítido do costume”. E vai ser alto e feliz.
Não sei porque me lembrei disto. Ou melhor, até sei. Soube-o logo assim que criei a falha na ponta do rochedo. Depois juntei-lhe aquele sol quente de fim de tarde, e ficou o Francisco.
Publicado por Eufigénio Lagoa às maio 10, 2005 01:10 AM
Comentários
4 UAUS. 1 pó texto. outro pá imagem e o último, a dobrar, pó Francisco
Publicado por: JQ em maio 10, 2005 03:13 AM
Amigo Eufigénio, em pequeno eu já não preenchia ficha no hospital de Sintra... Já era conecido.
foram tantas e tantas e hoje olha para mim...
( nota-se muito?)
Um abraço apertado ao Francisco!
Publicado por: azenhas em maio 10, 2005 08:01 AM
Obrigado aos dois; dar-lhe-ei pelos dois; e um bom dia aos dois.
Abraços
Publicado por: Eufigénio em maio 10, 2005 09:25 AM
A imagem tem qualquer coisa do traço de Hergé.
É simples e bonita como o Apenas Mais Um.
O texto é uma maravilha de imagens intensas: «é um espirra-canivetes, desengonçado, com mãos que não se vêem quietas e que esvoaçam pelo espaço de forma desarticulada» ou «as topadas nos pés na única pedra da areia da praia» que soa quase como poesia.
Na minha opinião, o Francisco tem uma sorte nítida. :)
Publicado por: maria árvore em maio 10, 2005 11:26 AM
Mas que simpática que ela acordou hoje :)
Obrigado
(Um tipo que não vê televisão, e se não lhe apetece ler, resta-lhe ficar a fazer bonecos, não é? )
Publicado por: Eufigénio em maio 10, 2005 11:42 AM
Bonecos?! Ó Eufigénio, chamar bonecos às ilustrações é uma heresia que eu não perdôo.
Publicado por: susana em maio 10, 2005 01:04 PM
voltei apenas p/realçar um pormenor que me escapou da 1ª vez. o peito para fora da figura com o rochedo a desabar. tão de acordo com o «sorriso na boca a dizer oh pai deixe...».
se continuar assim, vai ter mesmo mais hipóteses de ser feliz
Publicado por: JQ em maio 10, 2005 01:09 PM
Suzana,
Chamar a isso uma ilustração, vindo de ti, até me faz corar :)
JQ,
Apreciei que tivesses reparado no pormenor, ele para além da catástrofe, e tê-lo associado tão exactamente no texto. É uma nuance já tão "para mim" que confesso me supreendeste ao notá-la.
(que enorme prazer este de ter comentadores assim)
Publicado por: Eufigénio em maio 10, 2005 02:06 PM
E o mais engraçado é que falas dele como escreves! ;-)(quase o conseguimos ver com as descrições e os episódios que contas dele) :-)
Publicado por: Mar em maio 10, 2005 03:16 PM