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maio 28, 2005
Aos sábados, na savana, por entre a casa
Tenho-os à bulha na sala. Já por quatro vezes levantei a voz, cuidando para que se acalmassem, a prever o desfecho, e dele lembrando-os. Eles acatam, mas por alguns momentos apenas, depois, irreprimivelmente, voltam ao mesmo, enrolam-se pelo tapete, entornam desastradamente os flocos no chão, e o telefone acaba por saltar com um piparote falhado. O reboliço irá crescendo até que eu os interrompa de novo. Este é o ritual das manhãs de sábado, de que eu, com as minhas abruptas interrupções, também faço parte. Os três sabemos como tudo irá acabar. Já falta pouco para que a brincadeira chegue ao fim - um irá aleijar-se e irá choramingar, baixinho, encobrindo culpas, e depois acabarão por trocar acusações. Nessa altura cabe-me intervir e acabar com aquilo tudo, definitivamente. Tudo isto dura normalmente cerca de 2 horas, e é uma das melhores partes do fim-de-semana deles. Não conheço nenhum brinquedo, jogo ou livro que signifique tanto gozo para eles como aquele andar de rojo com o irmão, por entre o caos que vão espalhando.
E aquele disparatar já é mais que isso, é um brincar de cria, é um treinar antigo. A sala esconsa desaba numa savana onde rebolam por entre arbustos macios. Onde sobem a cadeiras feitas de pedras altas de onde tomam balanço para o mergulho sobre o adversário. Tudo ao redor são pormenores de uma natureza que não se quebra, que por ali continuará, e a que não ligam importância. Lá ao fundo, o pai não os olha furibundo – e esconde por entre os seus afazeres o orgulho de ver as suas crias prepararem-se para serem homens. Assim medem forças, experimentam formas de aprisionar o outro, tentam olhares de desafio. Nada mais num rapaz o pode saciar tanto que isto, este afiar de garras, este treinarem-se homens que lhes vem de antes deles.
Depois chega o ralhete, e num lapso tudo volta ao que é hoje. Mudou o tempo, trocaram-se os sítios, e essa natureza selvagem de repente tornou-se repreensível ali. Ninguém percebe já nestas crias o seu brincar, o seu exercício de um tempo que foi o de sempre. Este reboliço dos sábados de manhã, afinal, ainda é a sua ilusão - que acabará numa manhã de fugida, onde nós já perdemos a nossa.
Publicado por Eufigénio Lagoa às maio 28, 2005 03:16 PM
Comentários
e enchem-nos de sorrisos apesar das dores de cabeça ás vezes provocadas. e são sinónimo de vida, de uma casa cheia. Um dia vem o silencio e dá-nos vontade de os ter de novo pequeninos, barulhentos, a reclamarem um com o outro, a brincarem num minuto para no minuto seguinte se aborrecerem e inevitavelmente o mais pequeno vir até nós a fazer queixas. Depois desculpam-se ambos, ninguem quer ter a culpa. arruma-se a savana que já nem parece sala que o gozo deles é mesmo o desarrumar. E um dia crescem vão ter eles próprios uma savana em casa e resta-nos a nós ter de vez em quando reflexos dos olhos desses meninos, nas suas crias, lá pela nossa casa que nunca mais foi savana e que reclama vida. :-)
uma ternura de post!
Publicado por: lyra em maio 28, 2005 06:25 PM
E que bem se estende o teu comentário sobre ele Lyra
Publicado por: Eufigénio em maio 28, 2005 08:01 PM
:-) bondade a tua
Publicado por: lyra em maio 28, 2005 08:29 PM