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abril 13, 2005
O muro (1970)
(Enquanto os "Olivais" não chegam, aqui vou deixando)
O muro onde abancamos nos intervalos das brincadeiras e que ladeia a entrada do prédio é, do lado oposto, muito alto. Mais alto que o meu pai. Para se olhar para ele lá debaixo, por onde se sai da cave, tem de se esticar o pescoço todo para trás.
Acho que foi o Miguel quem teve a ideia. Como é ele o mais velho está sempre a ter estas ideias que eu acho servirem para nos ir mostrando quem é o chefe do grupo. Nem hesitou. Num instantinho foi parar à relva, rebolando-se para amortecer a queda. No resto da tarde, um por um, desafiados, todos foram saltando o muro. O Paulo trincou o lábio e foi a correr para casa, em choro. Foi o herói da tarde. Olho para as gotas de sangue que ficaram na calçada e desejo que não seja nada de grave. Ele é o meu melhor amigo.
Já está quase na hora do lanche, e já saltaram quase todos. Só falto eu. Mas a altura assusta-me. Ao princípio ainda tinha deste ou daquele palavras de incitamento, mas agora começo já a sentir a troça deles. Já sei o que vai acontecer a seguir - que sou o bebé do grupo, que assim nem sequer devia poder fazer parte do bando, que sou sempre quem os deixa ficar mal. É quase verdade isso. Mas é porque sou o mais novo, muito mais novo. Tenho quase menos 2 anos que o que vem a seguir, o Tiago, que já vai já fazer 9 anos.
Estou inseguro, e magoado. Apetecia-me agora não estar ali. O meu irmão, o único que me podia ajudar, pôs-se do lado deles, também ele rindo de mim. Sinto-me muito sozinho. E com uma enorme raiva por não o ver tomar o meu partido. Bastava-lhe que contasse como ontem eu tinha feito frente à malta do Lote C, e talvez eles reconsiderassem. Mas ele nada disse, juntou-se a eles. Estou furioso com ele. Isso nota-se e serve para ele cochichar qualquer coisa, lá no meio do grupo. Sei que é sobre mim – oiço os risos - mas não sei o que ele disse. Estou afastado uns dois metros deles, uma distância agora intransponível, por isso, o que eles falam, torna-se ininteligível para mim. Sinto-me mesmo muito sozinho.
Chegou a hora do lanche. É a minha última oportunidade, mas mais uma vez não consigo. Aquilo é muito alto, é alto demais para mim. Começamos a destroçar. Eu retorno para casa sob um insinuante coro de troça. Estou envergonhado e sinto-me frágil. Mordo o lábio para não chorar, que isso ainda agravará mais a chacota que já sinto sobre mim. Agora o alívio de chegar a casa. A Srª Bia pergunta-me porque choro enquanto me dá o lanche. Mas eu estou chateado, não respondo. Não respondo a ninguém. E está-me a custar imenso estar ali, a tomar o lanche com o meu irmão. É dele que esperava auxílio. Eu ainda sou muito pequeno, e ele já é grande. Devia estar do meu lado.
...
A minha mãe está enfurecida. Nem repara a força com que carrega no algodão. Ardem-me imenso os joelhos, e assim ela não está a ajudar nada, mas nem me atrevo a queixar. Pergunta-me insistentemente sobre o que me passou pela cabeça para ir lá abaixo já ao cair da noite e atirar-me daquele muro altíssimo. E que se me tivesse aleijado a sério? Assim, sozinho, quem haveria de dar comigo? Eu ainda tento explicar que era uma aposta, nada mais me ocorre para explicar a importância que aquilo tinha cá dentro de mim. Mas ela não percebe as minhas palavras, não percebe como aquilo foi importante para mim, nem tem orgulho em mim. E ver-me assim tão insuflado ainda a encoleriza mais. Dobra-me o castigo. Sorrio indisfarçavelmente - àquele castigo sinto-o como o reconhecimento da minha façanha. Está furiosa. E eu não lhe consigo explicar que gosto muito dela, que me sabe muito bem tê-la ali a tratar de mim. Que nestas alturas ainda gosto mais dela.
O meu irmão está lá ao fundo, a ver televisão. Mas sei que olha pelo canto do olho. Também agora ele finge que não é nada com ele. Que nada sabe do assunto. Sei que ele agora me admira um pouco, mas também sei que nunca mo dirá. Eu não vou dizer aos nossos amigos que saltei, estou chateado com eles, mas queria imenso que ele lhes contasse isso. Mas sei que ele não o vai dizer. Agora que já me sinto melhor (e não precisei dele para nada), já só me falta acertar contas com ele, ele vai ver - quando sair desta cadeira, vou directo ao quarto e escondo-lhe o comboio que ele tanto gosta. E não lhe vou falar pelos menos durante 2 dias.
Publicado por Eufigénio Lagoa às abril 13, 2005 12:00 PM
Comentários
Vi esta história num filme não há muito tempo... acho que é um filme russo.
Publicado por: bill em abril 13, 2005 01:05 PM
Ou é italiano!?
Publicado por: bill em abril 13, 2005 01:16 PM
não brinques com a criança Bill (já viste que ela tem mau feitio, para quê provocá-la?)
Publicado por: Eufigénio em abril 13, 2005 01:42 PM
E da próximo vez não te fies só no título (lê as legendas, preguiçoso)
Publicado por: Eufigénio em abril 13, 2005 02:07 PM
Não estou a brincar, estou a falar a sério... acho que é passado na Sicilia... os putos têm de saltar de uma torre para a água e nem mais: dois irmãos, um bando, uma mãe e mais não sei o quê... e quem não salta é maricas e marginalizado pelo bando... e tal como tu o puto mais novo ficou para a noite gozado por todos e pelo próprio irmão... e só saltou sozinho.
Publicado por: bill em abril 13, 2005 02:11 PM
Eufigénio,
Vai pedir os direitos, são todos teus.
Será que já passaram a filme tantas outras histórias que se passaram no Olival?
Haverá concerteza realizadores amigos que queiram pegar nelas e passá-las à tela.
Podemos também voltar ao muro, e hoje, ver quem ainda consegue pulá-lo.
Publicado por: MB em abril 13, 2005 02:26 PM
Eu bem que desconfiava das minhas origens! Eu bem que sabia que tudo isto não passa de um filme!
Publicado por: Eufigénio em abril 13, 2005 02:27 PM
Olha o MB ... espera, não foste tu que estiveste agora em Itália? não, não quero acreditar ... nem isso seria possível que este argumento, embora já há muito vivido, só ontem à noite viu a luz, ou seja, o escuro. Assim de realizadores amigos estou a lembrar-me de um, mas não sei se ele aceita curtas-metragens
Publicado por: Eufigénio em abril 13, 2005 02:31 PM
Eu estive lá em filmagens.
Publicado por: MB em abril 13, 2005 03:20 PM
Antes de teres uma estrela no passeio da fama, posso pedir um autógrafo ao protagonista?
Publicado por: Karla em abril 13, 2005 04:26 PM
outro para ler off...beijos
Publicado por: Luna em abril 13, 2005 04:32 PM
Não ma lembra o nome do filme! Ninguém sabe? Só lembro de "Tornando a casa" mas não me parece que seja este.
Publicado por: bill em abril 13, 2005 04:43 PM
Aniki Bóbó?
(nas gruas da doca do poço bispo tambem se saltava para o mar/rio)
Publicado por: Eufigénio em abril 13, 2005 06:03 PM
E a célebre corrida nas docas, entre os nosso amigos em que um ganhou e o outro protestou por causa das lombas (que não existiam).
Aguardo que contes esta história, ou então algum dos habituais convivas desta tua casa.
Publicado por: MB em abril 13, 2005 06:30 PM
MB, assim de repente na ma lembra.
Não queres tu avançar com ela?
anda para aí um blog que parece que se franqueia a quem trouxer memórias dessas!
Ein?
Publicado por: Eufigénio em abril 13, 2005 08:00 PM