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abril 25, 2005
Memórias de um período revolucionário (1978)
Não que eu fosse do outro lado, que nem podia com esses outros de samarras e sapatinho italiano. Basicamente era do contra, embora naquela altura quem fosse do contra fosse obrigatoriamente dos outros. Mas eu nunca fui, nunca fui de nenhum, o que era uma forma de ser um bocadinho de todos. E por ali andava nas meias águas liberais, disponível assim para ganhar uns cobres a colar cartazes de diferentes cores, que nisso também havia ideologia, pelo menos para um miúdo de 15 anos. Mas daqueles não gostava, achava-os bárbaros.
Desde o tempo do Pinheiro de Azevedo a gritar “O Povo é sereno. O povo é sereno”. E a turba louca em direcção à rua augusta, pouco importada com o que ele dizia, com o que ele dissera, com as ovações que lhe dedicara antes, e depois a voltar em cavalgada, a fugir dos gases lacrimogéneos que a barravam lá do lado norte. “O Povo é sereno, o Povo é sereno”, e naquela catadupa a caírem, espezinhados, perdidos uns dos outros, agora todos em trote na direcção do rio, e ali sereno só o meu pai, abrigando-nos aos dois junto da estátua do D.José, que “isto já passa, fiquem aqui perto de mim”. E a multidão a trocar o passo, que dos lados do rio são agora os disparos da G3 da COPCON, e eles em magote a retrocederem, e o baque inevitável dos que ainda iam com os que já voltavam, e o Pinheiro de Azevedo a continuar “O Povo é sereno, o povo é sereno”. Foi por aí que deixei de gostar deles.
E depois foi lá por Chelas também, lá onde se construía um bairro novo e para onde nós partíamos a passar a tarde, a ver a expropriações das casas, e todos os dias um novo episódio, quase sempre o mesmo. O “fascista, fascista”, e este a fugir, esgazeado, esfarrapado já, no ai acudam-me que sou pai de família, e a tropeçar, e a cabeça a sangrar já, a cara distorcida do pânico. E o povo a guerrear já pelo condomínio a ocupar, e o militante da LCI(?), a tentar arbitrar, que “camaradas há-de chegar para todos, não sejamos como eles”, e depois a recuar hesitante, com a reacção daquela gente, que tão logo se tentava o tirar da habitação que ainda agora tinha-lhes sido devida da acção do povo. E de vez a vez a tropa, chaimites, uns tiros de G3 para o ar, rapazes de bochechas coradas, aquietados, apenas a fazerem-se notar, a subir o queixo para aquela gente toda, não pelas razões que travavam, mas apenas pelo fulgor da juventude. E as mocitas a acercarem-se deles, se podiam subir, suba menina, suba, e então também vai ficar a viver por aqui. E a multidão a virar-se de súbito para os lados do rio que parece que por ali anda outro, “fascistas, fascistas”, a construírem andares com o dinheiro do povo, e já mais famílias a perguntarem onde, agora sem o militante da LCI que afinal também não era flor que se cheirasse. E eu não gostava daquela mole de razões, bruta, excitada, ladroeira.
Era contra, mas não era dos outros. O Xico era, eu era apenas contra. E a pintura do Lenine, enorme, ali todos os dias a ocupar a fachada do prédio, a rir para nós, e hoje, assim noite escura, a lata de tinta que até havia em casa dele. E agora a fugir pela azinhaga, e aquele gajo enorme, mas nós, dois, cada um para o seu lado. Foi o Xico, que só podia apanhar um de nós. E depois aquela gente toda enrubescida, a gritarem-lhe puto de um cabrão, fascista de merda, ficas aí até isso sair tudo. E ele lá em cima das escadas a limpar aquilo com a própria camisa, o tronco nu, vergado de vergonha, e aquela gente toda enraivecida, e um deles ao lado de mim a perguntar inflamado “e tu puto, porque é que estás a chorar, é teu amigo não?” e eu a olhar para ele, à espera dele, e os dois a voltar, já sem Lenine, já sem revolução, a dar tempo ao tempo, nós a crescermos e eles a envelhecerem, a ficarem por lá.
Publicado por Eufigénio Lagoa às abril 25, 2005 05:48 PM
Comentários
A infância é que nos faz...
Este episÓDIO é mesmo feito de ódio. Mas tu aguentaste-te ali, à espera do teu amigo...
É de criança a valer. (Com 15 anos, só o corpo que já não é menino! A alma, o coração, a cabeça e o pensamento ainda são!)) Por isso te fizeste um homem a valer!
A minha homenagem ao menino de há vinte e sete anos atrás!
Publicado por: madalena em abril 25, 2005 06:22 PM
:)) Não era ódio Madalena, era brincar às revoluções, como os 'crescidos' afinal
Publicado por: Eufigénio em abril 25, 2005 06:30 PM
Desta tua fotografia, amarelecida do tempo (bem como de outras que por aí andam), só posso dizer que nesses três/quatro anos coexistiram dois países tão diferentes em Portugal...
Publicado por: cap em abril 25, 2005 06:45 PM
Passados 31 anos desejo que cada um possa ter a liberdade de expressar a sua individualidade.
Todos aqueles dias me marcaram, muito.
E se me dás licença conto-te uma mini história: em 1978, tinha 14 anos, estudava no Passos Manuel e era do jornal da AE e da direcção desta, de esquerda. Mais ou menos dia sim, dia não havia porrada naquele Liceu. O Durãozito, então do MRPP era um dos contratados pela direita para vir dar uns sopapos. E o Maciel que arregimentava as tropas da direita, 7 anos mais velho do que eu e amigo do meu irmão, pegava em mim ao colo contra os meus pontapés e punha-me fora dos portões do Liceu para eu não apanhar porrada.
Publicado por: maria arvore em abril 25, 2005 07:04 PM
Pelas AE's tambem eu passei, muito, na massa anónima claro que nunca me tive para grandes convicções políticas. E mantenho, que aquilo valia tanto como um jogo de futebol Maria, talvez que mais voluvel (vide D. Barroso), mas os ímpetos esses os mesmos. De tarde castanhada na AE de estudantes, à noite todos nos copos amigalhaços lá na festa da malveira. Os adultos o mesmo, diria, apenasx brincando com coisas mais sérias, mas sou eu que o digo, sem querer desacralizar o 25 de abril, no menos, aquilo que nos trouxe de bom. Mas perdeu-se uma oportunidade tão grande, perdeu-se tanto com estas brincadeiras. Enfim, continuo a ser eu que o digo, nem me reconheço caramba.
Publicado por: Eufigénio em abril 25, 2005 08:15 PM
O que se perdeu é uma visão de hoje, uma interpretação sobre aquele momento histórico. Naquela altura, naquele momento, os fazedores da história queriam fazer o que até aí não tinha sido possível.
Publicado por: maria arvore em abril 25, 2005 10:40 PM
Eu tenho uma visão menos romântica que tu sobre os motivos que estiveram por trás Maria A. Mas certamente concordamos na visão que hoje isso nos traz, e na aflição que causa sentir em outros que a liberdade de hoje, por ser "de graça", anda a ser pontapeada por tudo e por nada. Que a liberdade hoje, já não se quer apenas nos termos políticosn que a vivemos, e nesses outros termos, sociais sobretudo, precisávamos de um outro 25 de abril.
Publicado por: Eufigénio em abril 25, 2005 11:49 PM
asneiras, exageros e becos sem saída são próprios de períodos revolucionários em qualquer parte. isso inclui mortes, pilhagens e injustiças de sinal contrário às cometidas antes. por cá parece que nem se fizeram tantas como noutros países.
talvez por isso, nem 1/2 dúzia de anos após, o poder político e económico estava de novo na mão de alguns dos mesmos de antigamente e doutros que lhes imitaram a ganância se bem que com métodos mais subtis.
isto é próprio na nossa natureza colectiva? talvez. ainda bem que, por vezes, há surpresas.
Publicado por: JQ em abril 26, 2005 12:25 AM
o famoso 25 de abril, fazendo minhas as palavras do "comerciante de terrenos" o maldito Mario Soares,"a descolonização modelo", (como se algo tinha de ser descolonizado)onde diversasraças viviam e trabalhavam em comum, para atingir um futuro, que vendeu para sua ganancia voluptuosa, os próprios da raça dele(envergonho-me de ser da raça dele e doutros iguais), para poder satisfazer, as suas necessidades de poder vergonhoso que durante anos vigarizando os povos das provincias sempre se pavoneou com as receitas do fisco em que o próprio cidadão Portugues(a quem respeito), ia pagando não conhecendo a verdadeira história de milhares de portugueses, que residiam nas PROVINCIAS, mais tarde chamadas de colonias para que o vexame de se ter nascido ou simplesmente ter escolhido essas terras de DEUS para lá viver, fosse ainda maior, e assim esse vergonhoso ser, que de humano nada tem, ajudado pelo, "careca rosa vermelha",Rosa Coutinho, e outros como Otelo Saraiva de Carvalho(amigo pessoal do M.S., ccomo foi demonstrado quando este meliante foi posto em liberdade o M.S. estava na primeira fila para o abraçar"desconhecendo o que seria feito dos desgraçados roubados, e das familias dos assassinados)...É sempre com tristeza que me lembro da terra onde nasci e estudei e trabalhei, sem nunca me ter envergonhado de tal,onde estive lado a lado com diversas raças, pois até familia tenho com outras "cores",onde a liberdade nunca nos faltou!...e agora, pergunto? o que fez ele e o movimento das nossas rezervas de ouro?...não deveria dar contas a todos os portuguese disso? Edmundo o sanzaleiro repremido por uma liberdade untuosa e falsa
Publicado por: eddy56man em abril 26, 2005 07:22 PM
historia porreira, nao conhecia. nao consigo visualizar bem, temos que beber um copo sobre isto quando aí. Nao precisavas era de a utilizar para dizer mal do BE, nao achas? Ja passou tanto tempo, eles sao tao simpaticos e blogaveis...
Se me permites o comentario aos comentarios acho giro a rapaziada da esquerda de entao ter conviccoes e achar que a rapaziada que nao era deles era "contratado" para actuar - na gritaria de entao vá que não vá, trinta anos depois dá para coitadices
Publicado por: jpt em abril 27, 2005 10:52 AM
Oh homem, que eu estava só a colar fotos aqui no album, qual BE ou BI. Quanto às "contratações" posso adiantar-te que os meus melhores clientes eram justamente do lado esquerdo, que do outro lado era mais pelas miudas, giras caraças.
Publicado por: Eufigénio em abril 27, 2005 11:22 AM
ok, nem digo mais nada, mas isso de amandares bocas à LCI ainda ofende alguns dos teus admiradores, era só isso [se calhar não têm idade para a associação, não digas nada]
Publicado por: jpt em abril 28, 2005 12:55 AM
Mas que insinuações são essas sobre os meus comentadores ein? E por acaso o amigo já leu aqui alguma linha s/b política, já? mantenhamos por aqui este estado virginal sff, que o mais longe que alcanço em política ainda é o futebol. Por falar nisso, que hoje é dia de UEFA (meias finais para quem leia de lá do futuro): SPORTÉEMMMM !
Publicado por: Eufigénio em abril 28, 2005 09:35 AM