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abril 18, 2005

De noite não convém perturbar o repouso das bestas de ferro

Voltava todos os dias com o fechar do bar, já noite lançada, onde se emprestava para ajudar a pagar dívida antiga - coisas da praia, do tempo do verão. Embora íngreme, o declive que tinha de vencer neste regresso era cumprido de bicicleta, que sempre melhor que o fazer caminhando.

A última ladeira fazia-se com a chegada, já no bairro onde morava. Era uma ruela estreita, não servindo outro destino que não o dos seus moradores, e que morria num pequeno largo, num plano mais elevado, no qual se encostava a sua casa. Os carros estacionavam ao longo daquela rampa de um dos lados apenas, e ainda assim com duas rodas sobre o passeio para deixar passagem.

Embora tivesse toda a largura da estrada desimpedida, galgava a subida por entre os carros estacionados e os muros das casas. Vinha nesse jogo desde que partira e não seria agora, quase dando-o por ganho, que desistiria. O punho da bicicleta e os retrovisores dos automóveis, à mesma cota, quase raspavam, e de todas as vezes um jeito no selim permitia que um ligeiro arco na trajectória corrigisse o erro já próximo. Exigia concentração que a tarefa não era fácil, mas nisso se constituía o desafio.

Já a meio, com o êxito parecendo óbvio, acabou por entrechocar com um dos retrovisores, o suficiente para o desequilibrar. Parado, perdido o desafio, com os pés no chão portanto, olhava para o raspão na mão sem conseguir disfarçar alguma irritação. Foi assim que reparou que a porta do carro estava entreaberta. Quando a fechou, pontapeando-a displicente, foi mais no pedir culpas do que na recomendação do gesto.

Preparava-se agora para reiniciar caminho galgando os últimos metros com o amargo da derrota mas interrompeu-se, como que a confirmar ainda estar parado. E contudo, o carro mexia-se. Lenta e suavemente, quase de forma imperceptível, só notado ali junto ao punho da bicicleta, ao lado do qual passava primeiro a pega da porta, depois já o retrovisor, num movimento mole e contínuo a deixar-se seguir para trás.

Quando compreendeu verdadeiramente a situação, lançou-se num ímpeto para a frente do carro, que a custo conseguiu estacar. Passados aqueles primeiros momentos de pânico, de imediato se deu conta do erro que cometera: acabara de se tornar refém da situação.

Mesmo que conseguisse fazer retroceder o carro até onde este partira, não tinha depois com que travar o automóvel. Além disso, se já mal conseguia evitar que este continuasse a descida, muito menos ensaiaria contrariá-lo. Rodou sobre si mesmo, com o cuidado de não relaxar a pressão que opunha ao carro, e sentou-se sobre o pára-choques, com as pernas tensas escorando-se no alcatrão. Enquanto assim reflectia aproveitando aquela posição de tréguas, já mais calmo, observava a situação em seu redor. O carro tinha as rodas trancadas para a esquerda, pelo que descreveria um arco suficientemente acentuado para não ser intersectado pela outra viatura estacionada abaixo dele, e contra a qual não o poderia assim deixar amparado.

Mas ao invés, a postura das rodas apontava para uma trajectória onde não vislumbrava obstáculos de que se pudesse servir, e mostrava um percurso de cerca de 20 metros até à suposta zona de embate, o muro do lado oposto da estrada, já lá bem mais abaixo. Irritado e envergonhado com a estranha situação em que se tinha deixado cair, deixou-se ficar uns bons 5 minutos assim, sustendo o carro através do seu encosto de costas sobre o mesmo. Sabia que não poderia ficar ali eternamente. Talvez aguardasse alguém que chegasse, embora àquela hora isso não fosse assim tão frequente. Poderia sempre gritar por ajuda, mas a situação já o envergonhava o suficiente, para ainda ter de passar por isso.

Sem o notar, ia dando algum alívio à força uniforme, obstinada, imprimida por aquela massa toda. Quando deu por isso, metade do automóvel já ocupava o meio da estrada. Apesar da situação se ter complicado, foi isto que lhe deu o mote para o desfecho que agora preparava. Bastaria então continuar a fazer descair a viatura, sustendo-a, até que esta se bloqueasse de encontro ao muro, cuidadosamente amparada, sem mazelas. É verdade que nessa posição o carro ocuparia toda a faixa. Mas então que fosse o condutor que por ali quisesse passar, que assim se vendo impedido iria tomar por sua conta o escarcéu todo, e logo haveria de aprestar-se alguém para o tirar dali. E por essa altura ele já estaria sossegadamente em casa, talvez ouvindo o alvoroço lá fora, e sorrindo malandro de toda aquela situação.

Olhou mais uma vez para um lado e outro, procurando o barulho de um carro, uma janela patrulhando a noite, um cãozito passeado antes da deita, mas nada. Era um bairro residencial no sossego de uma noite de um dia de semana. Confirmando de novo que teria de se haver sozinho, incomodado com toda a situação, começou a percorrer imaginariamente a trajectória do seu adversário. Faltariam ainda uns 15 metros até que o carro se imobilizasse de encontro ao muro, um ligeiro encosto, amparado por ele, pensava. A inclinação parecia ser traiçoeira, pois que na parte final se fazia mais acentuada. Teria aí de se entregar com maior empenho.

Decidiu-se então. Num ápice rodou o corpo de forma a encarar o automóvel de frente, preparado já para a liça que se avizinhava. Atravessava-se na frente da viatura, firmando-a de novo, agora esticado numa diagonal com os pés bem escorados no alcatrão. Teria agora de ir aliviando aos poucos aquela embirrativa inércia, deixando-a deslizar num movimento amansado, até que esta se imobilizasse no murete. E suspirava pelo desfecho de toda aquela bizarra situação em que se encontrava.

...

Sentia que as pernas o começavam a atraiçoar. As articulações, em particular os tornozelos, amassadas entre o peso do carro e o atrito do alcatrão, cresciam numa dormência que a ser estorvo. Era evidente nisso, nesse torpor ainda suportável, que pouco mais e haveria de ter de ceder. Além disso tinha fome, era tarde, e sentia-se cada vez mais ridículo na situação em que se encontrava. Era uma situação muito desconfortável, e por isso sabia que não poderia deixar-se ficar por ali eternamente à espera que alguém chegasse àquelas horas – não lhe via o desenlace e isso apoquentava-o cada vez mais.

Resolveu-se então em levar avante a sua estratégia. Cautelosamente, foi aliviando a pressão com que sustinha o carro, um pé de cada vez, folgando uma pequena passada, o corpo mantendo uma diagonal que mais facilmente o fazia escorar o peso do carro.

Os primeiros dois metros foram percorridos vagarosamente. O automóvel encontrava-se agora em plena faixa de rodagem. Quem ali chegasse haveria de estranhar este carro sem condutor, atravessado na estrada toda, levando na sua frente um miúdo, inclinado sobre ele, ofegante já, numa luta desproporcionada, quase épica por isso, mas com algo de cómico também. Assim, seguramente uma visão estranha.

O gesto com que ao princípio o foi folgando, embora embaraçoso, era um esforço controlado e nada exigente, em que apenas se exigia acompanhar a massa do carro, o fazê-la sustentável. Já agora, devido à crescente inclinação da estrada, notava que o carro se tornava cada vez mais pesado. Isso começava a fazê-lo sentir-se ainda mais cansado e inseguro. Enervado, porque antevia já não o conseguir, prestou-se a travá-lo de novo. Quando este se imobilizou, a muito custo já, tinha a noção exacta de que já não alcançaria mantê-lo assim por algum tempo. A situação tinha-se alterado bruscamente, ofegava, sentia-se no interregno de algo. Algo que não queria já antecipar mas que sabia, sentia-o fisicamente, ser uma inevitabilidade.

Já não se tratava de tomar uma decisão, mas de fazer parte de um episódio que não lhe cabia controlar. O carro começara a deslizar, e nisso empregava a sua inércia para se fazer tomar de cada vez mais velocidade. Estaria agora a uns 5 metros da parede para onde a frente do carro apontava. O seu corpo estirava-se já quase na horizontal, opondo-se impotente ao monstro metálico. Em todo o caso retardava-o. Imponente, o carro continuava a descrever a sua trajectória. Arfando, olhava para um e outro lado, já em desespero, mas nada, nem ninguém. Restava-lhe apenas tentar atrasar aquele embalo obstinado, atenuar o embate.

Enquanto se deixava arrastar, colocou a cabeça por baixo do ombro direito, de forma a poder ver o espaço que ainda faltava percorrer, a medir a situação. Aí a uns dois metros teria o lancil do passeio, onde agora se sentia chegar com os pés, e estes a tentarem-se aí fincar. Depois seria um metro e meio de passeio talvez, e finalmente o muro. Era-lhe impossível usar mais tempo o socalco do passeio, e recolocou os pés, já por cima dele. Daqui a pouco seria o rodado do automóvel que o encontraria, ao lancil. Imaginava a reacção do carro a embater no passeio: era alto o lancil, a velocidade ainda não muita, talvez por ali se estacasse afinal.

Mas tinha dado folga demais, irremediavelmente, naqueles últimos metros. O carro embateu no passeio secamente, viu-lhe ainda as suspensões a trabalhar, o capot agachando-se, quase resignado. Quase se regozijou do fim ali, mas as molas tensas resfolegaram de imediato o movimento contrário, e agora era o capot que ganhava altura, quase se suspendia. O carro encavalitou-se, aliviando o peso das rodas, e num esticão estas galgavam o passeio.

Tudo aquilo se desenrolava milimetricamente, como se estivesse a assistir a um filme em câmara lenta. Ocorreu-lhe em determinada altura sair da sua frente, deixá-lo seguir já, mas sem ele como presa. Aí o carro terá ainda embalado mais, embestado, com ele prostrado, a ouvir-se dizer repetidamente com voz derrotada “não! não! não!”. Depois foi um enorme estrondo, um barulho que se perpetuava, seco da massa, dobrado do metal da chapa, e ainda o grilado dos vidros dos faróis a partirem-se. À sua frente, toda aquela amálgama se explodia no ar, exagerando, clamando a vitória. Depois nada, um absurdo silêncio apenas.

Nem esperou para medir os estragos, num impulso e logo ali agachado junto da bicicleta, do outro lado da rua. Umas persianas eram abertas com espanto, mais abaixo as luzes de um hall acendiam-se inquietas, ouvia as portas uma-por-uma a serem destrancadas. Nem hesitou. Quando por fim ouviu as primeiras vozes lá ao longe já ele arrumava a bicicleta atrás da casota.

Da janela da sala ainda conseguia ver quase toda a rua, o seu enfiamento, e lá ao fundo os contornos do carro, uma mancha escura, impedindo o cinzento da estrada. E à sua volta uma turba de gente, gesticulando, arriscando opiniões certamente, mas ninguém para ali apontando. Era tarde, tinha fome, tinha sono, e sentia-se derrotado. Não conseguia compreender este acaso, porque raio haveria aquilo de acontecer consigo, numa noite mole como as outras, ele no vir da rotina de todos os dias, porquê aquela besta a pedir-lhe o medir forças, e a deixá-lo assim, sem discernimento. E isso inquietou-o a noite inteira.

Na manhã seguinte, ainda cansado da falta de sono da véspera, aprestou-se para fazer o percurso inverso. Descia a rua e ia já confirmando o muro meio derrubado. Mais um pouco, já mais perto, e conseguia ver no chão, por baixo dele, os restos de vidros, borrachinhas e tiras metálicas que por ai se espalhavam. Lá mais ao fundo, no canto da rua, encostado ao sinal de trânsito, conseguia ver um pára-choques desencaixado. E lá seguiu cabisbaixo, hoje mais cansado que lhe doíam ainda as pernas. E lamentava-se de agora ter de fazer o percurso a pé. Que a bicicleta, essa iria tentar vendê-la lá no bar, e talvez assim a ressarcir o resto da dívida.

Publicado por Eufigénio Lagoa às abril 18, 2005 11:45 AM

Comentários

Ora bolas! Suponho que seria esta a história que vinhas vindo a anunciar um desfecho que nada tinha a ver com o que imaginaras inicialmente. Será que ele ainda está no torniquete à espera de um fim apropriado para o qual foi projectado?

Publicado por: Zoick em abril 18, 2005 12:31 PM

ficou uma duvida deliciada ao ler-te...a que B é dirigida...espero pelo desfecho.

Publicado por: Luna em abril 18, 2005 10:34 PM

Ai, ai ... não tenho serão que me valha (e o carro ali estancado no meio, o coitado do moço desesperando de fome no meio da noite) ... ai, ai, eu

Publicado por: Eufigénio em abril 19, 2005 10:44 AM

Já te disse hoje que és lindo e que escreves como muito poucos? Que sorte tem os teus filhos de poderem partilhar assim as tuas "guerras", as tuas pequenas médias empresas, os teus lanches, o teu crescimento para o Homem que hoje têm ao lado.

Publicado por: Luna em abril 26, 2005 11:48 AM

Opá, tu abusas, tu exageras Luna. E depois fico para aqui a pensar que já ando a escrever demais

Publicado por: Eufigénio em abril 26, 2005 01:57 PM

Quanto aos meu filhos, eles agora andam mais virados para o Harry Potter ...rs

Publicado por: Eufigénio em abril 26, 2005 01:58 PM