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abril 27, 2005
Confissões púberes da ‘sobrevivência’ algarvia - III
15 anos
Do depósito de garrafões também se vive
Há noite, antes da saída para Lagos, já quase um ritual, jogávamos nas sortes de quem ficaria com a missão dos garrafões, e quem, o outro, ficaria com as compras depois. Irritava-me o quase sempre me calhar a pior parte. Além de ter de madrugar, quase colando isso com o regresso da noite anterior, ainda me via incrustado de arranhões, mazelas que no fim do verão se haveriam de converter num estranho riscado branco sobre a pele bronzeada. Pelo meio-dia normalmente já tínhamos arrumado essas tarefas matinais e descíamos à praia. Eu na matina, a escapulir-me pela cerca dos fundos do supermercado, e o F., pouco depois, em tarefa mais nobre, a fazer-se abastado na caixa do supermercado. Não percebo ainda hoje como é que a inocente menina nunca desconfiou de nada, nem uma única palavra de desconfiança ou olhar de soslaio. De sorriso nos lábios, fazia a conta e ainda devolvia o troco que bom emprego teria ainda com as imprescindíveis imperiais. Terei de admitir que nesse aspecto o F. era mais dotado que eu, que lá contava da família grande, a justificar assim tanto garrafão a querer o dinheiro do depósito. E depois a ir por ali adentro e a voltar com a frutinha, pão, claro, a carne sempre, hoje sal, amanhã a margarina, mas de garrafões de água nem vê-los. Arte haveria nisso certamente para nunca ter sido questionado como entrava com 4 garrafões todos os dias, que ali das compras nunca se lhe viam sair. Enfim, eu fiquei com os arranhões, ele com a proeza.
Ainda hoje a água engarrafada que compro nunca vem em embalagens plásticas, e por isso me perguntam às vezes para quê tanto vidro, para quê tanto peso, para quê tanta procura por coisa já tão rara. Eu é que sei, que com os garrafões da água, numa dificuldade, também se pode sobreviver, pelo menos 15 dias, pelo menos no Algarve. Pelo menos, naqueles tempos podia-se.
Publicado por Eufigénio Lagoa às abril 27, 2005 01:20 PM
Comentários
A menina sabia tudo, mas como gostava do sorriso de F., deixava passar. E frequentava a mesma praia, só para vos ver divertirem-se com o dinheiro dos garrafões e sentia-se feliz por vos ter ajudado a serem felizes.
Publicado por: Angela em abril 27, 2005 01:42 PM
Há marcas indeléveis. :))
Publicado por: maria arvore em abril 27, 2005 02:10 PM
Água dá, água o leva.
(Ganda tosga!)
Publicado por: bill em abril 27, 2005 02:16 PM
Angela,
Admito que até fosse frequentadora da mesma praia sim, o que lhe dava a vantagem de nos conhecer como poucos, posto que era praia de nudistas, ali mesmo à beira do parque de campismo. (depois ganhei vergonha quando a deveria ter perdido, e deixei de desfrutar dessa boa e estranha sensação de andar a esvoaçar como deus nos fez)
Não Maria, posso assegurar-te que as cicatrizes acabaram por sair no verão seguinte :)
Faço ideia, ao menos chegaste bem? e tens consciência da rabecada que levaste Bill ?
Publicado por: Eufigénio em abril 27, 2005 02:34 PM
Ya môm, até andei nas horas! És um craque...
Publicado por: bill em abril 27, 2005 02:40 PM
A água de Monchique é do melhor!:)
Publicado por: amie em abril 27, 2005 09:57 PM
Olá Amie, bem vinda
Eu da àgua de monchique não posso dar grandes referências, mas já do medronho, aiii ... que néctar!
Publicado por: Eufigénio em abril 27, 2005 10:05 PM
A necessidade, aguça o engenho.
Não sei se hoje te safavas no Algarve, com 4 garrafões por dia. ;)
Publicado por: Karla em abril 28, 2005 10:43 AM