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abril 26, 2005

Confissões púberes da ‘sobrevivência’ algarvia - II

19 anos
O frigorífico e a importância de se prever onde guardar tais despojos


Todos os dias passávamos por ele na volta da praia, e dessa ocasião se fazia sempre tema de conversa. Ali, na penumbra da cave, fazendo-se notar pelo brilho do seu esmalte branco, como que a reclamar do abandono prematuro a que fora votado, assim o vislumbrávamos do cimo da rampa de acesso. Era enorme, talvez demasiado grande e velho aos olhos do dono que ali o encostara, do lado de fora, preterindo o seu devido espaço na arrecadação. E disso protestávamos, do desperdício, da falta que a nós faria.

Naquela outra noite regressávamos dos bares junto à beira-mar, subida fora. E foi assim, acidentalmente, que deparámos com o nosso velho conhecido num ângulo da curva. Luzia como sempre, agora reflectindo a luz amarela da iluminação pública. Dessa vez não nos entretemos a entaramelar a conversa do costume. Instintivamente entrámos pela cave adentro. Cinco minutos depois, vaidosos do nosso desempenho, saíamos de lá com a carrinha agachada pelo peso daquela alva presa.

Mais fácil fora carregá-lo para dentro da pequena “morris”, que mesmo à cota, ainda assim fazia-se caber por cima dos bancos rebaixados. Já nós, três, tínhamos de nos haver todos juntos nos dois bancos da frente, e nisso nos resignávamos. O pior veio depois, que não havia como nem onde o descarregar nessa noite. Na verdade também ainda não nos tínhamos confrontado com o destino a dar-lhe nos dias seguintes, que lhe faltava casa certamente, pelo menos sítio onde não arriscássemos perguntas familiares embaraçosas.

No dia seguinte lá seguimos para a praia, os três encavalitados nos bancos da frente da carrinha. Esta engordada com um enorme frigorífico que ocupava toda a parte de trás, escondido dos olhares alheios por duas toalhas de praia que agora nos faltavam para o que eram precisas. O orgulho da primeira noite começou assim a transformar-se em pequenos episódios desagradáveis, enfim, um transtorno. De dia, no pino do calor, já nos irritávamos uns com os outros, para ali colados em suor. À noite, eram as expectantes oportunidades de boleia que se viam goradas, ali, trocadas por aquela máquina obtusa.

Na terceira noite após a captura, depois de acesa discussão sobre quem deveria sair para dar lugar à Marta, decidimos que antes o frigorífico que a nossa efémera amizade de verão, que essa ainda assim nunca se enferrujaria. Voltámos ao mesmo caminho, e acabámos encostando a carrinha, já na cave, perto do sítio onde haveríamos de voltar a pousar o “frigas”.

Das poucas vezes que fui prestar contas à esquadra, aquela terá sido a mais insólita. Nós ali a notar o ar embaraçado do chefe de turno, a tentar descortinar a pena em que incorríamos no tentar devolver um electrodoméstico abandonado. E ele a ver-nos arrependidos, a aquiescer, que antes assim que continuar a passear aquele inútil frigorífico.

Publicado por Eufigénio Lagoa às abril 26, 2005 12:36 PM

Comentários

Eufigénio,
ainda tens essa morris? Estou a precisar de despachar a maquina de lavar roupa ...
A única vez que prestei contas à polícia foi desconfortável e não posso aqui contar o motivo que me levou, naquele ano de 81, à esquadra de Belém ;)... mas era um Onda 600... LOL

Publicado por: Karla em abril 26, 2005 01:36 PM

Ora bolas .... esqueci-me do H
Honda 600, amarelo :))

Publicado por: Karla em abril 26, 2005 01:44 PM

nem precisas contar mais sobre o Honda 600 ... (se é o mesmo) :)

Publicado por: Eufigénio em abril 26, 2005 01:53 PM

upsss ... esqueci-me de tomar as gotas hoje.
LOL

Publicado por: Karla em abril 26, 2005 02:08 PM

posso sugerir nesse caso, (nem sei a que propósito isso me vem), já na arqueologia deste blog, que leias a "bilharada". Talvez usar a "pesquisa" para lá chegar

Publicado por: Eufigénio em abril 26, 2005 02:14 PM

Não é necessário ... já me lembrei.
E até já me envergonhei ... o episódio em si, não merece ser falado mais do que uma vez. Juro que tenho muitos outros momentos da minha juventude igualmente interessantes e engraçados.

Publicado por: Karla em abril 26, 2005 02:25 PM

Que se esclareça que neste não se fala de hondas nem de maremotos, que nada tem a ver certamente com outras contas na polícia.

Publicado por: Eufigénio em abril 26, 2005 02:30 PM

E qual o posto do polícia de turno?... Sim, qual era o posto?... Era cabo?...

Publicado por: maria arvore em abril 26, 2005 08:52 PM

devia ser cabo sim Maria, o cabo dos trabalhos, viemos a saber depois

Publicado por: Eufigénio em abril 27, 2005 12:35 AM

Ficaremos todos à espera dessas tantas outras histórias que Vocês os 3 passaram.

Publicado por: MB em abril 27, 2005 12:13 PM

É só pedir MB, é ir lá acima (já não somos é os mesmos 3. Outras idades, outros amigos, que tudo naquele tempo era muito volátil:) )

Publicado por: Eufigénio em abril 27, 2005 01:46 PM