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abril 01, 2005

As minhas leituras de Férias (2)

“Memórias das minhas putas tristes”

Vivo numa casa colonial no passeio do sol do parque de San Nicolás, onde passei todos os dias da minha vida sem mulher nem fortuna, onde viveram e morreram os meus pais, e onde me propus morrer só, na mesma cama em que nasci e num dia que desejo distante e sem dor. O meu pai comprou-a em hasta pública nos finais do século XIX, alugou o andar de baxio para lojas de luxo a um consórcio de Italianos, e reservou para si este primeiro andar para ser feliz com a filha de um deles … a mulher mais formosa e de mais talento que houve alguma vez na cidade: a minha mãe.”

Se eu um dia soubesse escrever, era assim que o gostaria de fazer. Dotado, mas imune à tentação de enrodilhar as palavras. Simples, mas com a plenitude da narração. Real, mas tão aureolado do imaginário incredível. Este homem escreve como respira. Tenho para mim que talvez não haja hoje quem escreva assim - o saber levar-nos para dentro o suficiente para percebermos até o que ali fica por ser escrito, mas sossegadamente longe para podermos apreciar tudo com o confortável espectadorismo. Como ele, assim de repente, só o Hemingway, mas esse já tem a obra concluída.

(bem, antes que me tomem por presunçoso vai já de preparar a próxima “crítica literária”)

Publicado por Eufigénio Lagoa às abril 1, 2005 01:19 AM

Comentários

Isto a aqui a rir-me que nem um perdido.

Eufigénio, meu bandido, foste logo escolher aquele que é, de longe, o parágrafo mais bem escrito do último livro do gajo. Que é bom, é um facto, mas está a milhas da qualidade com a qual ele me tem estragado.

Um abraço

Publicado por: João Pedro da Costa em abril 1, 2005 03:53 AM

É «estou aqui» e não «isto aqui», como é óbvio.

Publicado por: João Pedro da Costa em abril 1, 2005 03:55 AM

JPC,
Homem, acredito bem que sim ( que possa ser inferior aos outros) mas ainda não to posso dizer que ainda não o acabei de ler. Como? E então, desde quando é que um crítico tem de ler a coisa toda para fazer o seu trabalho? Além disso desde que o Gabriel me pôs a delirar com a família dos rabinhos de porco eu passei-lhe uma vinheta para as mãos para assinar por mim tudo o que entendesse.

Publicado por: Eufigénio em abril 1, 2005 12:44 PM

"Encontro às vezes, na confusão vulgar das minhas gavetas literárias, papéis escritos por mim há dez anos, há quinze anos, há mais anos talvez. E muitos deles me parecem de um estranho; desreconheço-me neles. Houve quem os escrevesse, e fui eu. Senti-os eu, mas foi como em outra vida, de que houvesse agora despertado como de um sono alheio."

"Outras vezes encontro trechos que me não lembro de ter escrito – o que é pouco para pasmar –, mas que nem me lembro de poder ter escrito – o que me apavora. Certas frases são de outra mentalidade. É como se encontrasse um retrato antigo, sem dúvida meu, com uma estatura diferente, com umas feições incógnitas – mas indiscutivelmente meu, pavorosamente eu."

Lá escrevia o panilas do Pessoa na vez do Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa.

Publicado por: bill em abril 1, 2005 02:07 PM

(mas estes gajos vêm para aqui só para me desdizer? o outro a dizer que este até era dos livros mais fraquitos, e agora este a dizer que afinal talvez tenha de juntar mais uma dezena deles ao Gabriel e ao Ernesto. Pensava que isto da crítica literária fosse mais fácil)

Publicado por: Eufigénio em abril 1, 2005 03:21 PM

O velho a querer celebrar os 90 com uma virgem... (ainda só vou aqui)

Publicado por: bill em abril 1, 2005 03:32 PM

Pois é, Eufigénio! O difícil não é escrever; é sabê-lo fazer de forma simples.

Publicado por: maria arvore em abril 1, 2005 09:49 PM

Haja quem me perceba M. Arvore

Bill, essa parte pode ser lida no principio, no meio e no fim. Mas não te distraias que é livro que acaba depressa.

Publicado por: Eufigénio em abril 1, 2005 11:57 PM

E qurem te disse a ti que tu não sabias escrever, ó Eufi?

Publicado por: Mar em abril 2, 2005 04:38 PM

Boa escolha, Eufigénio
Garcia Marquez é o meu escritor favorito. Acabei de ler o primeiro volume da sua biografia e ja tenho este na prateleira à espera de tempo para o poder saborear como merece.

Publicado por: Karla em abril 3, 2005 01:46 AM

Mar, há coisas que um homem prefere que ninguém lhe diga. Haja cortesia nisso :)

Karla, é mesmo só um "glup" este ultimo livro. Ainda vamos a passar a vista no título e já aquilo a acabar.

Publicado por: Eufigénio em abril 3, 2005 01:49 AM