« março 2005 | Entrada | maio 2005 »

abril 30, 2005

Pelo menos ainda trouxe o Blog

Por acaso ninguém que se encontre a sul da serra de Espinhaço de Cão tem uma
serra de discos.jpg que me possa emprestar?

[no que se podem subitamente transformar as prioridades na vida de um homem: até os pratinhos verdes para a comidinha dos gatitos eu trouxe, mas já a ferramenta nestúm!]

Antecipadamente grato pelo V. nobre gesto, despeço-me
Envergonhadamente

Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:33 PM | Comentários (8)

abril 29, 2005

A antecipar o fim de semana

Um …

ferramentas.jpg

Dois…
lazer1a.JPG

Ouviste ‘Prudêncio’?

Um…

ferramentas2.jpg

Dois…
lazer2a.JPG

Aquilo com calma, que a bricolagem é uma arte que se deve saber usar com moderação e alternância.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:59 AM | Comentários (17)

abril 28, 2005

AZzzzzzzAlkmaarrrrrrrr….Blerccccckk …..clic

Informamos que este cérebro deixou de emitir.
Contamos poder retomar a emissão a partir das 22h.

Pelo incómodo, a que não somos alheios,
as nossas sinceras desculpas

INFORMAÇÃO NOTICIOSA DE ÚLTIMA HORA: Após o diagnóstico dos nossos serviços técnicos, lamentamos informar que a avaria que esteve por trás da nossa interrupção cerebral se revelou de complexidade inesperada. Assim, estimando-se que esta se possa prolongar até à próxima 5ª feira, apela-se encarecidamente à compreensão dos leitores para alguns derrames que durante este período ainda se possam fazer sentir.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:35 PM | Comentários (7)

“Eja” antes, hoje “Beja” (uma pequena lição de história)

Antecipando acusações que venham a apontar a este blog apenas futilidades e umbiliquices, decidi hoje aprofundar um tema erudito do meu agrado. Falemos pois das origens de Beja, (...e de Encontros de Blogs ... e da Avó Vitorina).

Pax-Júlia, assim se chamava esta terra no final do século I A.C., hoje capital alentejana. Segundo nos conta quem sabea sua fama, bons terrenos de cultivo e criação de gado, pedreiras e minério, boas vias de comunicação, uma extensa região razoavelmente administrada, teriam sido, dada a cupidez humana, a sua perdição”. E se hoje já não se lhe relevam tais atributos, já desta fama de perdição não se livra, e para essa muito contribuindo as suas verdadeiras ‘construções’ gastronómicas com que desafia o mais renitente viajante.

Terra de nobres gentes, trouxe à notoriedade o grande paladino dos poetas andaluzes e rei de Sevilha AlMut'Amid, e mais tarde um outro, este com famoso mau-feitio, que após faustosas refeições partia à espadeirada por todo o lado - pois quem mais senão o nosso mui nobre Gonçalo Mendes da Maia, o “lidador” para os amigos. Já mais recentemente foi (e é) abrigo para a mais doce criatura deste planeta, a avó Vitorina, só por si justificando um post, se este historiador fosse algum dia capaz de trazer para palavras a admiração que sente por tal senhora.

Retornando então às suas origens etimológicas. Não se sabe exactamente quando, mas a Pax Júlia pela qual era chamada em outros tempos terá degenerado, certamente por um compreensível lapso de audição, na expressão de maior popularidade e uso, a P´rá Júlia. Mais tarde, porque ainda extenso o nome e sujeito às formas do falar conterrâneo, acabou por se ver abreviado num Àdajulia. Ao longo dos últimos séculos, e contrariamente à pretensão dos linguistas mais ortodoxos, esta expressão acabou por integrar o famoso sotaque local, tendo-se transformado num Édajulia. Finalmente, padecente da erosão da língua e da reconhecida capacidade simplificadora dos seus habitantes assistiu-se nos tempos mais recentes a um burilar da sua graça, que primeiro viu serem-lhe subtraídas as vogais do meio, e depois as consoantes que ali, sem as outras, já supérfluas. E assim, progressivamente, com a arte e o sotaque da região, acabou esta nobre cidade por chegar à denominação próxima da actual: Êja portanto.

Já só muito recentemente esta nobre terra se ouviu chamar como hoje a tratamos ao ser-lhe justamente concedido um B, do que resultou a concatenação com que hoje é conhecida por todos: Beja. Esta sigla que hoje ostenta com orgulho, confere-lhe a distinção de capital mundial dos blogues , condecoração da qual faz jus ao promover destacadas e prolíficas confraternizações entre os adeptos desta distinta arte do diletanço. E para que o leitor melhor compreenda o alcance e contributo que estas manifestações culturais e gastronómicas têm tido, arriscamos assinalar os eventos ocorridos últimos 6 meses nesta metrópole bloguiana:

- Nos idos 6 de Novembro, já história blogosférica portanto, assistiu-se a uma conversa à volta dos blogs, da qual não se poderá deixar de destacar o almoço de confraternização que lhe sucedeu

- Já mais recentemente, e deste não se estará a dar novidade tal o destaque que teve nos mais diversos quadrantes da blogosfera, foi realizado em 23 de Abril um novo encontro, a assinalar o dia mundial do livro, onde mais uma vez “eu blogo, tu blogas, ele bloga”, o qual, curiosamente, também contemplou uma prova de vinhos, a qual teve até prestação literária por parte de uma boa jornalista ao que dizem.

- E eis senão quando, a blogosfera ainda em ressaca de tão enorme sucesso, e já se anuncia mais um evento, fazendo jus ao nome deste magnífica capital alentejana, a realizar no dia 21 de Maio, a para o qual podem ser aliciados aqui. E mais uma vez, estranhe-se, a organização a não descurar a confraternização gastronómica.

E por aqui me fico, esperando poder ter contribuído para o dissecar das origens linguísticas desta terra que, tão intimamente associada à blogosfera, nos brinda ainda com bons vinhos, bons enchidos, bons doces, boas gentes, e que sabe acima de tudo (res)guardar tão bem os admiráveis 96 anos de uma senhora muito especial. Aqui deixo às duas o meu tributo, a Beja e à avó Vitorina.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:45 PM | Comentários (9)

Cogitações egocêntricas (ou a competição entre caneta e o papel)

No encalço das ligações que se fazem e esta casa, (ai ego malandro), constato que estas, embora vestidas muitas vezes por "Apenas Mais Um”, ostentam noutros casos, e em número não irrelevante, a identificação de “Eufigénio”. Ora, não será certamente pela estética do nome, [pois se até já aqui me arrependi de o ter escolhido, a pronunciar-se tão feio e ainda por cima errado (Efigénio, Efigénio sem “u” - mas agora correcção inoportuna)], algo mais haverá a justificar o destaque pelo nickname em vez do blog.

Ocorre-me então que este, (a registar o nome, não o blog), será rasto deixado pelos comentários aí fora, assim assinado, e que o outro, (o do blog), é indicação do sítio, arrisco dizer, do agrado de alguma visita. A caneta a valer mais do que o papel onde se escreve? É aqui o autor à frente da “obra” (ignore-se o excesso)? Enciúma-se esta então. Já ele, o Eufigénio, esse a pensar que é aí no comentar o que os outros escrevem, mais do que no escrever o que os outros comentam, que se apraz melhor. A pensar, a pensar, cada vez mais a pensar nesta disputa de egos e alter-egos, se é “Eufigénio” o comentador, se “Apenas mais um” blog.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:00 PM | Comentários (9)

abril 27, 2005

Confissões púberes da ‘sobrevivência’ algarvia - III

15 anos
Do depósito de garrafões também se vive

Há noite, antes da saída para Lagos, já quase um ritual, jogávamos nas sortes de quem ficaria com a missão dos garrafões, e quem, o outro, ficaria com as compras depois. Irritava-me o quase sempre me calhar a pior parte. Além de ter de madrugar, quase colando isso com o regresso da noite anterior, ainda me via incrustado de arranhões, mazelas que no fim do verão se haveriam de converter num estranho riscado branco sobre a pele bronzeada. Pelo meio-dia normalmente já tínhamos arrumado essas tarefas matinais e descíamos à praia. Eu na matina, a escapulir-me pela cerca dos fundos do supermercado, e o F., pouco depois, em tarefa mais nobre, a fazer-se abastado na caixa do supermercado. Não percebo ainda hoje como é que a inocente menina nunca desconfiou de nada, nem uma única palavra de desconfiança ou olhar de soslaio. De sorriso nos lábios, fazia a conta e ainda devolvia o troco que bom emprego teria ainda com as imprescindíveis imperiais. Terei de admitir que nesse aspecto o F. era mais dotado que eu, que lá contava da família grande, a justificar assim tanto garrafão a querer o dinheiro do depósito. E depois a ir por ali adentro e a voltar com a frutinha, pão, claro, a carne sempre, hoje sal, amanhã a margarina, mas de garrafões de água nem vê-los. Arte haveria nisso certamente para nunca ter sido questionado como entrava com 4 garrafões todos os dias, que ali das compras nunca se lhe viam sair. Enfim, eu fiquei com os arranhões, ele com a proeza.

Ainda hoje a água engarrafada que compro nunca vem em embalagens plásticas, e por isso me perguntam às vezes para quê tanto vidro, para quê tanto peso, para quê tanta procura por coisa já tão rara. Eu é que sei, que com os garrafões da água, numa dificuldade, também se pode sobreviver, pelo menos 15 dias, pelo menos no Algarve. Pelo menos, naqueles tempos podia-se.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:20 PM | Comentários (8)

Post farmacológico

A repetir 3 vezes ao dia,
post_it1.JPG
para melhor efeito, gargarejar demoradamente em cada ingestão

[Eufigénia desculpa-me, mas era-me impossível dizer não àquilo. Mas juro, nem que isto esteja a arder eu ficarei mais um minuto]

Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:57 AM | Comentários (4)

abril 26, 2005

Epa ...

Deixa lá mandar o post das "corridinhas de puto" lá para baixo que estão aqui 5 a olhar para isto !! (tantos meses de esforço assim deitados a perder por uma pequena distracção)

Mas já agora, queiram fazer o favor de me explicar o que faz a classe trabalhadora por aqui, durante o período laboral? Sim, que o 25 de Abril já foi ontem. Coisas para me deixarem envergonhado, só pode. Eu? cof... cof... eu o quê?

(ora deixa cá ver, cada linha são 17 pixels de altura, vezes 8 ... hummm... já deve chegar)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:45 PM

Esta para a rapaziada dos simuladores de corridas

Quais Playstation, quais Sony, e quais GT4, quais Collin McRae, para mim o melhor simulador de corridas ainda continua a ser o velhinho GP3. E hoje, ostento orgulhoso os resultados de um fim-de-semana passeado por cima da amigdalite:
* Melhor tempo:1m22.919s (remeto em anexo certificado)
* Posição de corrida: (nem o schumacker viu o padeiro)

Acrescento que estamos a falar do Mónaco, coisa exigente, e que estamos no modo “pro” – não há cá ajudinhas para ninguém.
Há por aí quem faça melhor, ou terei de me continuar a disputar com robots?

f1.JPG


(e não se armem em cotas a dizer que não têm tempo para essas coisas ok?)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:45 PM | Comentários (16)

Confissões púberes da ‘sobrevivência’ algarvia - II

19 anos
O frigorífico e a importância de se prever onde guardar tais despojos


Todos os dias passávamos por ele na volta da praia, e dessa ocasião se fazia sempre tema de conversa. Ali, na penumbra da cave, fazendo-se notar pelo brilho do seu esmalte branco, como que a reclamar do abandono prematuro a que fora votado, assim o vislumbrávamos do cimo da rampa de acesso. Era enorme, talvez demasiado grande e velho aos olhos do dono que ali o encostara, do lado de fora, preterindo o seu devido espaço na arrecadação. E disso protestávamos, do desperdício, da falta que a nós faria.

Naquela outra noite regressávamos dos bares junto à beira-mar, subida fora. E foi assim, acidentalmente, que deparámos com o nosso velho conhecido num ângulo da curva. Luzia como sempre, agora reflectindo a luz amarela da iluminação pública. Dessa vez não nos entretemos a entaramelar a conversa do costume. Instintivamente entrámos pela cave adentro. Cinco minutos depois, vaidosos do nosso desempenho, saíamos de lá com a carrinha agachada pelo peso daquela alva presa.

Mais fácil fora carregá-lo para dentro da pequena “morris”, que mesmo à cota, ainda assim fazia-se caber por cima dos bancos rebaixados. Já nós, três, tínhamos de nos haver todos juntos nos dois bancos da frente, e nisso nos resignávamos. O pior veio depois, que não havia como nem onde o descarregar nessa noite. Na verdade também ainda não nos tínhamos confrontado com o destino a dar-lhe nos dias seguintes, que lhe faltava casa certamente, pelo menos sítio onde não arriscássemos perguntas familiares embaraçosas.

No dia seguinte lá seguimos para a praia, os três encavalitados nos bancos da frente da carrinha. Esta engordada com um enorme frigorífico que ocupava toda a parte de trás, escondido dos olhares alheios por duas toalhas de praia que agora nos faltavam para o que eram precisas. O orgulho da primeira noite começou assim a transformar-se em pequenos episódios desagradáveis, enfim, um transtorno. De dia, no pino do calor, já nos irritávamos uns com os outros, para ali colados em suor. À noite, eram as expectantes oportunidades de boleia que se viam goradas, ali, trocadas por aquela máquina obtusa.

Na terceira noite após a captura, depois de acesa discussão sobre quem deveria sair para dar lugar à Marta, decidimos que antes o frigorífico que a nossa efémera amizade de verão, que essa ainda assim nunca se enferrujaria. Voltámos ao mesmo caminho, e acabámos encostando a carrinha, já na cave, perto do sítio onde haveríamos de voltar a pousar o “frigas”.

Das poucas vezes que fui prestar contas à esquadra, aquela terá sido a mais insólita. Nós ali a notar o ar embaraçado do chefe de turno, a tentar descortinar a pena em que incorríamos no tentar devolver um electrodoméstico abandonado. E ele a ver-nos arrependidos, a aquiescer, que antes assim que continuar a passear aquele inútil frigorífico.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:36 PM | Comentários (11)

abril 25, 2005

De noite não convém perturbar o repouso das bestas de ferro

E aqui para informar que ficou concluída a história da bicicleta, lá em baixo, e que lá para baixo se arquivará. E esta só acabada (e a custo) porque isso acabou sendo reclamado pelo amigo MB, que por mim a deixaria assim, por se escrever. Espantosa a quantidade de histórias que começo sem lhes pôr um fim, como se só parte das memórias se quisessem avivadas. E o que falta contar, quando teimo em concluir, fica com gosto insonso, de coisa para terminar apenas, sem nada que acrescente. Será que se teme aqui o “fechar” de alguma coisa, e assim vê-la cumprida?

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:34 PM | Comentários (2)

E já só falta mais uma

... bojarda injectada inoculação intra-muscular
seringa1.gif
(e eu aqui a pensar onde vou arranjar mais uma nádega até amanhã)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 08:27 PM | Comentários (5)

Memórias de um período revolucionário (1978)

Não que eu fosse do outro lado, que nem podia com esses outros de samarras e sapatinho italiano. Basicamente era do contra, embora naquela altura quem fosse do contra fosse obrigatoriamente dos outros. Mas eu nunca fui, nunca fui de nenhum, o que era uma forma de ser um bocadinho de todos. E por ali andava nas meias águas liberais, disponível assim para ganhar uns cobres a colar cartazes de diferentes cores, que nisso também havia ideologia, pelo menos para um miúdo de 15 anos. Mas daqueles não gostava, achava-os bárbaros.

Desde o tempo do Pinheiro de Azevedo a gritar “O Povo é sereno. O povo é sereno”. E a turba louca em direcção à rua augusta, pouco importada com o que ele dizia, com o que ele dissera, com as ovações que lhe dedicara antes, e depois a voltar em cavalgada, a fugir dos gases lacrimogéneos que a barravam lá do lado norte. “O Povo é sereno, o Povo é sereno”, e naquela catadupa a caírem, espezinhados, perdidos uns dos outros, agora todos em trote na direcção do rio, e ali sereno só o meu pai, abrigando-nos aos dois junto da estátua do D.José, que “isto já passa, fiquem aqui perto de mim”. E a multidão a trocar o passo, que dos lados do rio são agora os disparos da G3 da COPCON, e eles em magote a retrocederem, e o baque inevitável dos que ainda iam com os que já voltavam, e o Pinheiro de Azevedo a continuar “O Povo é sereno, o povo é sereno”. Foi por aí que deixei de gostar deles.

E depois foi lá por Chelas também, lá onde se construía um bairro novo e para onde nós partíamos a passar a tarde, a ver a expropriações das casas, e todos os dias um novo episódio, quase sempre o mesmo. O “fascista, fascista”, e este a fugir, esgazeado, esfarrapado já, no ai acudam-me que sou pai de família, e a tropeçar, e a cabeça a sangrar já, a cara distorcida do pânico. E o povo a guerrear já pelo condomínio a ocupar, e o militante da LCI(?), a tentar arbitrar, que “camaradas há-de chegar para todos, não sejamos como eles”, e depois a recuar hesitante, com a reacção daquela gente, que tão logo se tentava o tirar da habitação que ainda agora tinha-lhes sido devida da acção do povo. E de vez a vez a tropa, chaimites, uns tiros de G3 para o ar, rapazes de bochechas coradas, aquietados, apenas a fazerem-se notar, a subir o queixo para aquela gente toda, não pelas razões que travavam, mas apenas pelo fulgor da juventude. E as mocitas a acercarem-se deles, se podiam subir, suba menina, suba, e então também vai ficar a viver por aqui. E a multidão a virar-se de súbito para os lados do rio que parece que por ali anda outro, “fascistas, fascistas”, a construírem andares com o dinheiro do povo, e já mais famílias a perguntarem onde, agora sem o militante da LCI que afinal também não era flor que se cheirasse. E eu não gostava daquela mole de razões, bruta, excitada, ladroeira.

Era contra, mas não era dos outros. O Xico era, eu era apenas contra. E a pintura do Lenine, enorme, ali todos os dias a ocupar a fachada do prédio, a rir para nós, e hoje, assim noite escura, a lata de tinta que até havia em casa dele. E agora a fugir pela azinhaga, e aquele gajo enorme, mas nós, dois, cada um para o seu lado. Foi o Xico, que só podia apanhar um de nós. E depois aquela gente toda enrubescida, a gritarem-lhe puto de um cabrão, fascista de merda, ficas aí até isso sair tudo. E ele lá em cima das escadas a limpar aquilo com a própria camisa, o tronco nu, vergado de vergonha, e aquela gente toda enraivecida, e um deles ao lado de mim a perguntar inflamado “e tu puto, porque é que estás a chorar, é teu amigo não?” e eu a olhar para ele, à espera dele, e os dois a voltar, já sem Lenine, já sem revolução, a dar tempo ao tempo, nós a crescermos e eles a envelhecerem, a ficarem por lá.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:48 PM | Comentários (13)

cravo1.jpg

Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:55 AM | Comentários (10)

abril 24, 2005

Confissões púberes da ‘sobrevivência’ algarvia

17 anos
de Albufeira a Vilamoura

Atenção à lanterna !! Tens de apontar isso a direito caraças
Aii… com essst’s saaaltos toduuus … oh tosco mas nós já saímos da estrada, tu não vês que estamos a andar na berma caraças ??!
A lanterna meu !!! aponta mas é para o lado de dentro, ou queres que eu vá por ali?
Mas este gajo está a agarrar-se que nem me deixa apontar bem. Oh P. vê se te pões calmo pá!!
Deixem-me aqui, deixem-me aqui que isto vai dar merda
Aiii, mete-te pelo meio da estrada porra
E onde é o meio da estrada oh caramelo. Aponta mas é com a lanterna
Epaaaaaa, o que é aquilo lá á frente? Ai, ai, ai … deixa-me aqui caneco!
Calma, calma, não há-de ser nada. Vou parar, eu falo com o gajo.
Boa noite
Boa noite sôr guarda
Ora o que temos aqui? Não tem luzes não?
Pois, esta merda fundiu-se ali a meio caminho e tivemos de improvisar
Atenção á linguagem. E acha que vai bem assim, com risco de ser abalroado por um carro
Não tem problema, aqui o meu amigo vai a apontar com a lanterna. Eles vêem-nos.
Ah pois. ‘Tão e os capacetes?? Também se avariaram a meio caminho? Ora vamos lá ver …
Roubaram-nos sôr guarda, palavra de honra.
Roubaram os 3 capacetes foi?
Três? Mas sôr guarda eu só tenho dois capacetes?!
Nesse caso não percebo como vão três em cima da mota?!!! Quer-me explicar porque é que eu não posso passar uma multa por falta de três capacetes, já agora?
Oh sôr guarda, desculpe …
Ninguém está a falar consigo, eu estou a falar com o condutor.
Mas eu também sou condutor
Ai sim, aí atrás quase a cair da mota, é condutor do quê, quer-me explicar?
Bem. Eu sou o que põe as mudanças que o V., sentado assim como está em cima do depósito, não consegue chegar a elas.
Ah bom, assim está explicado porque vão 3 em cima da mota, um guia, o outro aponta a lanterna e o outro mete as mudanças … muito bem. Parece-me uma boa solução para ir para casa às 5 de manhã.
Pois Sôr Guarda, e…
Eu não pedi respostas
Mas sôr Guarda, eu posso explicar porque ….
Olhe, nem me explique nada está bem. Que eu nem sei como iria explicar ao chefe como é que passei 3 multas por falta de capacete a uma moto só. Ponham-se mas é a andar daqui embora.
Muito obrigado sôr guarda. Já agora podia dar aí um empurrãozinho, que isto custa a arrancar com 3 se faz favor?!
Meusss……

(naquela altura ainda havia xotas porreiros)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:12 PM | Comentários (5)

E viva o 25 de Abril

seringa.gif
O Procedimento
- Já levou alguma vez penicilina?
- Já lhes perdi a conta.
O esclarecimento
- Ai sim? humm
- Pois, coisas da garganta, apenas coisas da garganta.
A aproximação
- Então e vai ser de que lado?
- Do lado direito se faz favor. Que o outro lado ainda está combalido de ontem.
A bojarda
- Ughhhhhhhhhhh
- E pronto, já foi.
O recobro
- Pronto, já estáaaa. Já pode sair!
- Isso queria eu. Só se me ajudar a pôr a perna em baixo.
A precaução
- Sr. Enfermeiro, amanhã por esta hora, é o senhor que está aqui de escala?
- Não, amanhã é o meu dia de folga. Escala de feriados
A feliz confirmação
- Ainda bem, ainda bem.
- Como??
- Ter o dia livre para si, ainda bem que o tem. E viva o 25 de Abril!

Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:03 PM | Comentários (6)

abril 22, 2005

E para terminar de vez com a questão da do Papa

Seguindo pelos mares navegados do C.A.A. (e que boa carta marítima nos é oferecida!), cheguei até enseada que desconhecia. Desconfio sempre quando vou parar a post recomendado. Chego contido, desconfiado, mais exigente. Mas face a isto, logo fiquei desarmado destes meus tiques. Só posso dizer que a este elejo como o post que encerra mais um capítulo da blogosfera, o da "gula" papal, assim mesmo, a bater a porta com sublime estardalhaço.

O dia ganho, que pelo caminho acabei ainda por descobrir um desconcertante blog … clic … este dragão já para “as minhas voltas

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:15 PM | Comentários (10)

abril 21, 2005

Espreitares incautos

Entretenho-me a olhar para eles e a pensá-los crescidos, no como serão. Por vezes quase lhes consigo prolongar as feições, definir-lhes as rugas que terão, e a orgulhar-me da sua beleza varonil. Outras vezes, nada.

Oscila o futuro que mos traz até cá, oscilo eu nesse futuro, nas cabriolices de um destino que ziguezagueia. Retorno rápido, assustado, e volto a ancorar-me no sorriso das suas caras de criança, hoje.

E fica-me este receio, esta ansiedade, de poder estar a querer olhar algo já para além (do tempo) da minha vida.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:26 PM | Comentários (14)

Um belo jogo (uma boa causa) para oferecer aos seus filhos

(Des)interrompo-me apenas para aqui fazer eco de uma iniciativa de divulgação (que pode ler aqui) que o Carlos Araújo Alves levou a efeito, e da qual também fui destinatário.

Confesso que tenho uma aversão inexplicável (ou talvez seja explicável, talvez um dia a possa explicar, que não agora, que não é o momento oportuno) ao agarra-e-passa-ao-outro-e-não-ao-mesmo. Mas aqui abro excepção, e distingo esta, porque criativa, e mais importante, porque efectiva.

A ideia é simples e generosa: pôr diante dos nossos filhos um jogo que visa sensibilizá-los para o flagelo da fome no mundo. Parece uma ignomínia diria, esta coisa de usar a sofisticação tecnológica de uma sociedade, que chama aqui os seus filhos, no conforto de um lar onde nada falta, num momento de lazer, para o deleite de um jogo, quase vício até, para assim os despertar para esta miséria que se passa no “outro lado” do mundo. Mas é didáctico, e é o que importa. E é acima de tudo uma forma criativa de os envolvermos a eles, homens de amanhã, em algo que para já, nós, homens da ética da política e da tecnologia de hoje, continuamos a deixar-lhes de herança.

E chega. Clique na imagem,

FoodForce-jfiz.png

será conduzido até ao site onde poderá fazer o download do jogo. Dê-o aos seus filhos.

Mas vá mais longe, siga a sugestão da Vi – “copie este endereço e dê-o a todos os miúdos que têm computador e gostam de jogar. E se eles não têm acesso à internet ou têm uma ligação lenta e cobrada ao minuto, faça você o download, grave num cd (ou em vários, tantos quantos os necessários), e ofereça, distribua, impinja. Depois disso já pode gabar-se de ter tomado uma atitude em relação à fome no mundo, em vez de um simples clicar no "reenviar mensagem" para " toda a lista de contactos".”

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:08 AM | Comentários (10)

abril 20, 2005

Post único do Dia

Passou a meia-noite. Passará o dia. Já passaram tantos anos. Beijo-te cada vez mais demoradamente. Já não o sei dizer de outra maneira. Desaprendi. Ou talvez tenha passado para além do que as minhas palavras sabem contar. Aos Parabéns divide-os ao meio. Metade deles são pela mulher cada vez mais bonita em que te transformas. A outra metade por me aturares.

bicla.jpg
Achas esta bem? :)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:47 AM

abril 19, 2005

Aquela coisa da idade das trevas ...

..., hoje em dia, com tanta tecnologia de informação e comunicação, é impossível voltar a acontecer, não é? ... não é?.... não é?

papada1.JPG

[Post torpemente roubado de um comentário meu e de uma foto lá postada, na casa de alterne]

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:40 PM | Comentários (21)

É por isso que sou fã dele

“Sou contra essa ideia de especialização. Gosto de diversificar o meu trabalho, quero e tenho feito um pouco de tudo. Não se pode fazer bem um bairro social ou um museu sem ter feito casas. A arquitectura é só uma. As mãos que desenham e as mãos que constroem, seja o que for, são sempre as mesmas.”

Álvaro Siza Vieira, na “visão”

Da arquitectura dele gosto, muito. Sobre a coerência técnica do que aqui afirma, infelizmente, não me posso pronunciar. Mas sei que (ou acho que sei, pouco importa se aqui o posso dizer na mesma), ao chegar lá acima, seja onde for, seja no que for, e saber conter os nossos deslumbramentos, esse vírus da fama, e saber preservar a essência do que sempre fomos, isso sim, é uma grande qualidade.

E acrescentaria ainda (mesmo que pouca entenda das artes arquitecturais): um homem que pensa bem, assim, só pode ser bom no que faz.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:10 PM | Comentários (1)

(Re)transmissores

Lê-se tanto, ouve-se tanto, vê-se tanto, é tudo tão devorado, que fico aqui a pensar se por vezes ainda temos tempo para nos ouvir a nós próprios, ou se seremos já apenas eco disso tudo.

... e isto é extensível aos blogs,

... e pode mesmo ser, circunstancialmente, uma auto-crítica

Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:02 PM | Comentários (8)

Xupemos então

Muito me agrada poder voltar a descansar estes olhos por lá. Eu sabia que havia alguma razão para não tirar este link desta Chafarica.

(E já agora bem vindo ao clube dos "vou ali e já volto", também conhecido por "Maj-bamg", de que nunca me lembro do que quer dizer, mas que pode ser esclarecido aqui)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:45 PM | Comentários (4)

Stress

... é queremos ir tomar a nossa dosezita diária, e não a encontrarmos na gaveta do costume.

(e ao seu dono, em desespero se pergunta aqui, acidente ou algo mais?)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:28 AM | Comentários (7)

Bom dia mundo

alentejo.jpg

Eiii!!!! Bom dia mundo

alentejo2.jpg

Ah bom, assim estamos melhor.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:54 AM | Comentários (9)

abril 18, 2005

F.

Quase a fechar o computador e chega-me ele. Está exactamente como era. Revejo-lhe as feições de sempre, joviais, e o riso, a trazer-me saborosas conversas, coisas de adolescência quase. Suspendo-me - não muito, com medo de o esfumar de novo - apenas o suficiente para ali ficar a matar saudades. Demorou-se duas longas baforadas de fumo.

O resto do dia tenho-o trazido por perto, os dois cá dentro a rir daquele tempo em que fazíamos os exames a meias e no fim gozávamos com o absurdo de apenas um de nós ser glorificado na pauta.

Já só resto eu na pauta, hoje. A nota a dividir por dois, como sempre.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:23 PM | Comentários (4)

De noite não convém perturbar o repouso das bestas de ferro

Voltava todos os dias com o fechar do bar, já noite lançada, onde se emprestava para ajudar a pagar dívida antiga - coisas da praia, do tempo do verão. Embora íngreme, o declive que tinha de vencer neste regresso era cumprido de bicicleta, que sempre melhor que o fazer caminhando.

A última ladeira fazia-se com a chegada, já no bairro onde morava. Era uma ruela estreita, não servindo outro destino que não o dos seus moradores, e que morria num pequeno largo, num plano mais elevado, no qual se encostava a sua casa. Os carros estacionavam ao longo daquela rampa de um dos lados apenas, e ainda assim com duas rodas sobre o passeio para deixar passagem.

Embora tivesse toda a largura da estrada desimpedida, galgava a subida por entre os carros estacionados e os muros das casas. Vinha nesse jogo desde que partira e não seria agora, quase dando-o por ganho, que desistiria. O punho da bicicleta e os retrovisores dos automóveis, à mesma cota, quase raspavam, e de todas as vezes um jeito no selim permitia que um ligeiro arco na trajectória corrigisse o erro já próximo. Exigia concentração que a tarefa não era fácil, mas nisso se constituía o desafio.

Já a meio, com o êxito parecendo óbvio, acabou por entrechocar com um dos retrovisores, o suficiente para o desequilibrar. Parado, perdido o desafio, com os pés no chão portanto, olhava para o raspão na mão sem conseguir disfarçar alguma irritação. Foi assim que reparou que a porta do carro estava entreaberta. Quando a fechou, pontapeando-a displicente, foi mais no pedir culpas do que na recomendação do gesto.

Preparava-se agora para reiniciar caminho galgando os últimos metros com o amargo da derrota mas interrompeu-se, como que a confirmar ainda estar parado. E contudo, o carro mexia-se. Lenta e suavemente, quase de forma imperceptível, só notado ali junto ao punho da bicicleta, ao lado do qual passava primeiro a pega da porta, depois já o retrovisor, num movimento mole e contínuo a deixar-se seguir para trás.

Quando compreendeu verdadeiramente a situação, lançou-se num ímpeto para a frente do carro, que a custo conseguiu estacar. Passados aqueles primeiros momentos de pânico, de imediato se deu conta do erro que cometera: acabara de se tornar refém da situação.

Mesmo que conseguisse fazer retroceder o carro até onde este partira, não tinha depois com que travar o automóvel. Além disso, se já mal conseguia evitar que este continuasse a descida, muito menos ensaiaria contrariá-lo. Rodou sobre si mesmo, com o cuidado de não relaxar a pressão que opunha ao carro, e sentou-se sobre o pára-choques, com as pernas tensas escorando-se no alcatrão. Enquanto assim reflectia aproveitando aquela posição de tréguas, já mais calmo, observava a situação em seu redor. O carro tinha as rodas trancadas para a esquerda, pelo que descreveria um arco suficientemente acentuado para não ser intersectado pela outra viatura estacionada abaixo dele, e contra a qual não o poderia assim deixar amparado.

Mas ao invés, a postura das rodas apontava para uma trajectória onde não vislumbrava obstáculos de que se pudesse servir, e mostrava um percurso de cerca de 20 metros até à suposta zona de embate, o muro do lado oposto da estrada, já lá bem mais abaixo. Irritado e envergonhado com a estranha situação em que se tinha deixado cair, deixou-se ficar uns bons 5 minutos assim, sustendo o carro através do seu encosto de costas sobre o mesmo. Sabia que não poderia ficar ali eternamente. Talvez aguardasse alguém que chegasse, embora àquela hora isso não fosse assim tão frequente. Poderia sempre gritar por ajuda, mas a situação já o envergonhava o suficiente, para ainda ter de passar por isso.

Sem o notar, ia dando algum alívio à força uniforme, obstinada, imprimida por aquela massa toda. Quando deu por isso, metade do automóvel já ocupava o meio da estrada. Apesar da situação se ter complicado, foi isto que lhe deu o mote para o desfecho que agora preparava. Bastaria então continuar a fazer descair a viatura, sustendo-a, até que esta se bloqueasse de encontro ao muro, cuidadosamente amparada, sem mazelas. É verdade que nessa posição o carro ocuparia toda a faixa. Mas então que fosse o condutor que por ali quisesse passar, que assim se vendo impedido iria tomar por sua conta o escarcéu todo, e logo haveria de aprestar-se alguém para o tirar dali. E por essa altura ele já estaria sossegadamente em casa, talvez ouvindo o alvoroço lá fora, e sorrindo malandro de toda aquela situação.

Olhou mais uma vez para um lado e outro, procurando o barulho de um carro, uma janela patrulhando a noite, um cãozito passeado antes da deita, mas nada. Era um bairro residencial no sossego de uma noite de um dia de semana. Confirmando de novo que teria de se haver sozinho, incomodado com toda a situação, começou a percorrer imaginariamente a trajectória do seu adversário. Faltariam ainda uns 15 metros até que o carro se imobilizasse de encontro ao muro, um ligeiro encosto, amparado por ele, pensava. A inclinação parecia ser traiçoeira, pois que na parte final se fazia mais acentuada. Teria aí de se entregar com maior empenho.

Decidiu-se então. Num ápice rodou o corpo de forma a encarar o automóvel de frente, preparado já para a liça que se avizinhava. Atravessava-se na frente da viatura, firmando-a de novo, agora esticado numa diagonal com os pés bem escorados no alcatrão. Teria agora de ir aliviando aos poucos aquela embirrativa inércia, deixando-a deslizar num movimento amansado, até que esta se imobilizasse no murete. E suspirava pelo desfecho de toda aquela bizarra situação em que se encontrava.

...

Sentia que as pernas o começavam a atraiçoar. As articulações, em particular os tornozelos, amassadas entre o peso do carro e o atrito do alcatrão, cresciam numa dormência que a ser estorvo. Era evidente nisso, nesse torpor ainda suportável, que pouco mais e haveria de ter de ceder. Além disso tinha fome, era tarde, e sentia-se cada vez mais ridículo na situação em que se encontrava. Era uma situação muito desconfortável, e por isso sabia que não poderia deixar-se ficar por ali eternamente à espera que alguém chegasse àquelas horas – não lhe via o desenlace e isso apoquentava-o cada vez mais.

Resolveu-se então em levar avante a sua estratégia. Cautelosamente, foi aliviando a pressão com que sustinha o carro, um pé de cada vez, folgando uma pequena passada, o corpo mantendo uma diagonal que mais facilmente o fazia escorar o peso do carro.

Os primeiros dois metros foram percorridos vagarosamente. O automóvel encontrava-se agora em plena faixa de rodagem. Quem ali chegasse haveria de estranhar este carro sem condutor, atravessado na estrada toda, levando na sua frente um miúdo, inclinado sobre ele, ofegante já, numa luta desproporcionada, quase épica por isso, mas com algo de cómico também. Assim, seguramente uma visão estranha.

O gesto com que ao princípio o foi folgando, embora embaraçoso, era um esforço controlado e nada exigente, em que apenas se exigia acompanhar a massa do carro, o fazê-la sustentável. Já agora, devido à crescente inclinação da estrada, notava que o carro se tornava cada vez mais pesado. Isso começava a fazê-lo sentir-se ainda mais cansado e inseguro. Enervado, porque antevia já não o conseguir, prestou-se a travá-lo de novo. Quando este se imobilizou, a muito custo já, tinha a noção exacta de que já não alcançaria mantê-lo assim por algum tempo. A situação tinha-se alterado bruscamente, ofegava, sentia-se no interregno de algo. Algo que não queria já antecipar mas que sabia, sentia-o fisicamente, ser uma inevitabilidade.

Já não se tratava de tomar uma decisão, mas de fazer parte de um episódio que não lhe cabia controlar. O carro começara a deslizar, e nisso empregava a sua inércia para se fazer tomar de cada vez mais velocidade. Estaria agora a uns 5 metros da parede para onde a frente do carro apontava. O seu corpo estirava-se já quase na horizontal, opondo-se impotente ao monstro metálico. Em todo o caso retardava-o. Imponente, o carro continuava a descrever a sua trajectória. Arfando, olhava para um e outro lado, já em desespero, mas nada, nem ninguém. Restava-lhe apenas tentar atrasar aquele embalo obstinado, atenuar o embate.

Enquanto se deixava arrastar, colocou a cabeça por baixo do ombro direito, de forma a poder ver o espaço que ainda faltava percorrer, a medir a situação. Aí a uns dois metros teria o lancil do passeio, onde agora se sentia chegar com os pés, e estes a tentarem-se aí fincar. Depois seria um metro e meio de passeio talvez, e finalmente o muro. Era-lhe impossível usar mais tempo o socalco do passeio, e recolocou os pés, já por cima dele. Daqui a pouco seria o rodado do automóvel que o encontraria, ao lancil. Imaginava a reacção do carro a embater no passeio: era alto o lancil, a velocidade ainda não muita, talvez por ali se estacasse afinal.

Mas tinha dado folga demais, irremediavelmente, naqueles últimos metros. O carro embateu no passeio secamente, viu-lhe ainda as suspensões a trabalhar, o capot agachando-se, quase resignado. Quase se regozijou do fim ali, mas as molas tensas resfolegaram de imediato o movimento contrário, e agora era o capot que ganhava altura, quase se suspendia. O carro encavalitou-se, aliviando o peso das rodas, e num esticão estas galgavam o passeio.

Tudo aquilo se desenrolava milimetricamente, como se estivesse a assistir a um filme em câmara lenta. Ocorreu-lhe em determinada altura sair da sua frente, deixá-lo seguir já, mas sem ele como presa. Aí o carro terá ainda embalado mais, embestado, com ele prostrado, a ouvir-se dizer repetidamente com voz derrotada “não! não! não!”. Depois foi um enorme estrondo, um barulho que se perpetuava, seco da massa, dobrado do metal da chapa, e ainda o grilado dos vidros dos faróis a partirem-se. À sua frente, toda aquela amálgama se explodia no ar, exagerando, clamando a vitória. Depois nada, um absurdo silêncio apenas.

Nem esperou para medir os estragos, num impulso e logo ali agachado junto da bicicleta, do outro lado da rua. Umas persianas eram abertas com espanto, mais abaixo as luzes de um hall acendiam-se inquietas, ouvia as portas uma-por-uma a serem destrancadas. Nem hesitou. Quando por fim ouviu as primeiras vozes lá ao longe já ele arrumava a bicicleta atrás da casota.

Da janela da sala ainda conseguia ver quase toda a rua, o seu enfiamento, e lá ao fundo os contornos do carro, uma mancha escura, impedindo o cinzento da estrada. E à sua volta uma turba de gente, gesticulando, arriscando opiniões certamente, mas ninguém para ali apontando. Era tarde, tinha fome, tinha sono, e sentia-se derrotado. Não conseguia compreender este acaso, porque raio haveria aquilo de acontecer consigo, numa noite mole como as outras, ele no vir da rotina de todos os dias, porquê aquela besta a pedir-lhe o medir forças, e a deixá-lo assim, sem discernimento. E isso inquietou-o a noite inteira.

Na manhã seguinte, ainda cansado da falta de sono da véspera, aprestou-se para fazer o percurso inverso. Descia a rua e ia já confirmando o muro meio derrubado. Mais um pouco, já mais perto, e conseguia ver no chão, por baixo dele, os restos de vidros, borrachinhas e tiras metálicas que por ai se espalhavam. Lá mais ao fundo, no canto da rua, encostado ao sinal de trânsito, conseguia ver um pára-choques desencaixado. E lá seguiu cabisbaixo, hoje mais cansado que lhe doíam ainda as pernas. E lamentava-se de agora ter de fazer o percurso a pé. Que a bicicleta, essa iria tentar vendê-la lá no bar, e talvez assim a ressarcir o resto da dívida.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:45 AM | Comentários (6)

Ora bolas, desisto

Esqueci-me de novo do final da história. Já é o terceiro que refaço. Fico por aqui, antes que esgote todos os possíveis desfechos, e esta se torne mais uma história “a rever”, que quase certo, - a julgar pelos exemplos aqui do meu disco rígido - nunca mais (re)verá essa sua condição alterada. Eu não digo?

Publicado por Eufigénio Lagoa às 08:43 AM

Que se passa afinal com estes belos templates vermelhos?

Aqui a partilhar esta minha preocupação convosco.

Nas minhas voltinhas habituais passo sempre por aqui e por aqui. Ainda há pouco lá fui, a cada um deles, e nada !!!! tudo em branco, nada de post's. Nem pelos arquivos chego aos post's que sei ainda há poucas horas lá existiam. Isso preocupa-me. Afinal, são um dos primeiros e um dos meus últimos blogs favoritos. Têm isso em comum, ainda por cima.

Mas aqui confesso também que outra razão me inquieta (e esta mais egoísta ainda). Já olharam bem para os templates deles? Não notam mais nada em comum? e se afinal tudo isto mais não é do que um efeito epidémico que afecta essencialmente aquele tipo de templates? E se ....glup (a fazer backup's, já volto)

[Já agora, aos ilustres agricultores de tais terras, pergunto sinceramente apoquentado, há problemas por aí, ou é apenas o meu windows corrompido, qual PC do JPT, homem que afiança ver a blogosfera apenas por metade?]

PS: O Maschamba já retornou, com a legibilidade de sempre. Falta o Stress, que já segunda-feira e ainda nada

Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:18 AM | Comentários (3)

abril 17, 2005

Uma fraca memória pode trazer finais inéditos

Estou há mais de uma hora a escrever um texto. E a ver-lhe o fim, a querer chegar lá, mas a tropeçar em tudo o que é palavra. Muito me irrita não poder deitar tudo por inteiro cá para fora. Mas pior que isso é saber que quando chegar ao final, onde tinha uma ideia interessantíssima, onde até já tinha construído gramaticalmente a frase que o concluía, saber que quando lá chegar terei já esquecido de como era de facto o final que eu tanto persegui.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:55 PM | Comentários (7)

Belos contributos culturais recebi hoje nos comentários

Estive a apagar um bombardeamento de ‘spam’: desse mails torpedeantes contei uns 116!!

Fiquei verdadeiramente espantado com as múltiplas alternativas e possibilidades do sexo, (animais, viagras e ‘alargadores’ de pénis, J Lo ou Pamela, mais os anais do sexo,…), extraordinária a panóplia de serviços e produtos que aqui se oferecem.

E alem disso fez-me subir surpreendentemente nas estatísticas dos comentários. E agora vou ali ver como é um tipo sentir-se o topo dos blogs mais comentados, aproveitar este momento de glória, ainda que por um dia apenas.

--------------------------------------------------------------------------------------------------------
PS: ora ... descobri que ao apagá-los eles desaparecem também do registo estatístico. Voltei à minha posição habitual. Lá está, afinal aquela coisa dos "5 minutos de fama" a que todos temos direito, segundo o Warhol, era para ser levada com rigor. Nem mais 1 minuto, foi o que foi.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:36 PM | Comentários (15)

abril 16, 2005

Já na ressaca pós-desportiva de sábado

E lá houve, almoço jogo. Depois de tanto arrastar pelo campo chegou o apetecido: Lá abancámos na feijoada do próprio Sport Lisboa e Olivais – e aqui apenas dizer a propósito que não é todos os dias que um tipo tem o prazer de perder por 10 a 3 com o honorável Presidente deste clube a defender as redes da sua baliza, e que com tanto empenho e coragem aniquilou (felinamente diga-se) evidentes lances de golo (que os 10 lá dentro eram absolutamente indefensáveis) – e desde já a agradecer.

Íamos portanto no almoço, a rever amizades de há 20/30 anos e a pôr o que se deve em dia, as saudades e a curiosidade. Naturalmente, vieram à conversa episódios de infância ( por falar nisso, o “muro” a que te referias lá …). Depois, a saber como cada um estava, e eu a vangloriar-me da sensação de repouso que ainda consigo manter das férias recentes (ah pois, eu li as tuas postadelas a partir do Algarve). Claro que interpusemos as conversas acidentais do dia-a-dia, como aquela sobre as estradas, e dos gajos que são verdadeiros papa-quilómetros (a propósito, aquela coisa de postares no carro, tu fazes isso a andar? Ah bom), e a partilhar os miúdos, eu a querer saber como vai tudo (eu cá nem pergunto, já vi que os gajos estão porreiros pá). Falámos de tudo, do papa, dos acidentes de bricolagem (aquela cena do estore está porreira. Comigo acontece-me sempre exactamente o mesmo). Até dos animais falámos (tu que não podias com gatos, agora logo 2 ein? ). Enfim, foi um belo jogo, com poucas correrias e bem regado, como convém e se recomenda.

Depois as despedidas, e a estranha sensação de que apenas eu tinha matado saudades. E esta impressão de que alguém ‘ali’ tinha estado antes de mim. Ai Eufigénio, eu que o saiba!

Publicado por Eufigénio Lagoa às 07:52 PM | Comentários (3)

A minha manhã desportiva de sábado

Deitei-me às 5 da manhã. Acordei estremunhadamente agora, (são 8 da manhã caramba!) com um p*** de uma pestana enfiada no olho que ainda não consegui tirar. Já estou tão irritado com esta m**** que fui fazer um café, que aqui tomo, enquanto fumo uma cigarrilha, ou duas, a sossegar-me.

Às 11 horas tenho um jogo de futebol com os cotas da minha criação. Estou aqui a pensar se fico por aqui a fumar umas cigarrilhas mais e vou depois até lá aproveitando para uma corridinha antes, ou se vou tentar dormir mais um pouco.

A dúvida é sempre o que será mais saudável, se dormir um pouco mais, ou complementar a futebolada com um 'jogging' antes. Se optar pelo retorno à cama, admito que possa sempre fumar umas cigarrilhazinhas ao intervalo. Seja como fôr, nada estará perdido.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 08:13 AM | Comentários (4)

E ficamos por aqui

O Francisco tem 12 anos. É um puto cool, com uma ironia muito especial. Não sei se isso será transmitido no diálogo que teve com o professor de ginástica, mas certo é que eu me rirei sempre que aqui o ler. E isso é quanto me basta:

- Xico !!!
- Oh professor, desculpe lá mas eu não sou Xico, sou Francisco.
- Ai és? Então como é que a tua mãe te chama?
- Biscoito :)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:56 AM | Comentários (8)

abril 15, 2005

Serões cansados

(A falar da sala do portátil para a sala da TV.)

- Que foi isto? …
- Acho que foi um gato
- Terão partido qualquer coisa?
- Esperemos que não
- Bem, não é nada que não se possa ver amanhã. Cair mais já não cai
- Pois
- E ladrões não devem ser
- Pois
- Deixa estar que eu quando for lavar os dentes vejo o que se passou
- Hum hum
- Mas, o pior é se foi o quadro que trouxemos hoje de casa da minha mãe
- Não deve ter sido
- Achas que não? Talvez não
- E também se foi agora não há nada a fazer
- Pois não
- Eu depois vejo isso
- Está bem

( e a conversa continua, intermitente, entre os bytes e as ondas hertezianas)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:58 PM | Comentários (4)

O sexo deste blog

Leio algures que este é um “blog (porreiro) para gajas”. Não desgosto, mas fico ligeiramente transtornado, que assim me presumo intelectualmente efeminado, ou senão, talvez pior ainda …. Reflicto por aí, o de este ser de facto um blog para gajas, ou de o ser para gajos - um de entre os dois, que a definição exclui a simultaneidade, ou se se quiser, a assexualidade, ou ainda, a transexualidade, seja o que fôr. Ou se é varão e se diz um ‘foda-se’, ou se é pró-gaja e aí contam-se as líricas historiazinhas do jantar.

Resolvo-me por uma solução airosa. Já que não digo ‘foda-se’ de vez em quando, mas também não quero ficar do lado de lá, eis a quem interesse a definição que lhe dou:

Este blog é (tenta) “o que eu sou hoje quando os meus filhos me lerem amanhã” (bem sei que falar aqui de filhos me faz resvalar para um dos lados, mas para atenuar acabo então com um grande ‘foda-se’!!)

PS: Não esquecer lá para 2010 de tirar tamanha obscenidade, ou deixar instruções para tal, caso então não me seja já possível

Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:32 PM | Comentários (7)

"ablogamento" excessivo

Estou a ficar apanhado. Agora até já escrevo dedicatórias em livros como se estivesse a escrever post’s para os meus filhos. Hoje na A1, na bomba da “Repsol”, comprei um Júlio Verne para o Francisco. Antes de lho dar escrevi:

“Para o Francisco
Conhecer um escritor
que tinha tanta imaginação
que inventava coisas
antes destas serem inventadas”

Mas o pior veio na resposta dele, como se verá:

Olhou-me com um ar meio desconfiado
- É tão bom como o Tom Sawyer que me emprestou no outro dia?
- É diferente. Mas vais gostar.

E como este miúdo tem sempre um “mas”
- Mas pai, posso pedir mais uma coisa?
- Humm?
- Depois de ler este o pai dá-me outro que eu …

Interrompi-o já assanhado do que previa
- Oh Francisco, não achas que dá para variar das varinhas mágicas do Harry Potter e dos dragõezinhos bons que agora estás a ler?
- É por isso mesmo pai, já estou farto de tanta fantasia.
- Humm ?
- Queria pedir que me comprasse a “Odisseia”
- A quê?
- Sabe, a história do Ulisses. Nós estamos a estudá-la na escola. Mas é a versão da ...
(depois digo que agora sinceramente não me lembro e o puto já está a dormir). Só que do que já conheço acho que aquilo não conta nem metade da história. Não posso ler a versão completa para adultos?

(Há alturas em que um homem devia era estar calado)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:47 AM | Comentários (3)

abril 14, 2005

Post "sem Palavras"

leao.jpg

Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:12 PM | Comentários (5)

700 Km de Autoestrada ...

... dá para fazer imensos post's

(o problema é encontrar depois os papelinhos todos, cá dentro. da próxima vez levo um 'dictafone')

Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:35 PM | Comentários (6)

abril 13, 2005

Concerto para "Ana Lisa"

- Olá
- Pai, não gostei.
- Oláaaa
- Olá
- Agora diz lá, não gostaste do quê?
- Do concerto lá na escola. Era só música clássica.
- Ai sim? E que ouviste tu.
- Eu, espere … o pai sabe aquela do Mozart, que é da “Ana Lisa”?
- Ana quê ??
- Ana lisa !!!
- ? … “para Elisa” Diogo!!! E é do Beethoven!
- Isso…
- Trapalhão

- Oh paiiii. E sabe, eles depois cortaram aquele fio de electricidade, como o que nós temos, da Net Cabo...
- Sim?
- Foi o que gostei mais
- Do fio?
- Nãoooo. Eles prenderam o fio em duas cadeiras e fizeram uma música.
- Da Net Cabo?
- Nãooo, oh pai. O pai também nunca percebe nada.

(Percebo sim Diogo. Bastante, diria mesmo)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 08:15 PM | Comentários (4)

O muro (1970)

(Enquanto os "Olivais" não chegam, aqui vou deixando)

O muro onde abancamos nos intervalos das brincadeiras e que ladeia a entrada do prédio é, do lado oposto, muito alto. Mais alto que o meu pai. Para se olhar para ele lá debaixo, por onde se sai da cave, tem de se esticar o pescoço todo para trás.

Acho que foi o Miguel quem teve a ideia. Como é ele o mais velho está sempre a ter estas ideias que eu acho servirem para nos ir mostrando quem é o chefe do grupo. Nem hesitou. Num instantinho foi parar à relva, rebolando-se para amortecer a queda. No resto da tarde, um por um, desafiados, todos foram saltando o muro. O Paulo trincou o lábio e foi a correr para casa, em choro. Foi o herói da tarde. Olho para as gotas de sangue que ficaram na calçada e desejo que não seja nada de grave. Ele é o meu melhor amigo.

Já está quase na hora do lanche, e já saltaram quase todos. Só falto eu. Mas a altura assusta-me. Ao princípio ainda tinha deste ou daquele palavras de incitamento, mas agora começo já a sentir a troça deles. Já sei o que vai acontecer a seguir - que sou o bebé do grupo, que assim nem sequer devia poder fazer parte do bando, que sou sempre quem os deixa ficar mal. É quase verdade isso. Mas é porque sou o mais novo, muito mais novo. Tenho quase menos 2 anos que o que vem a seguir, o Tiago, que já vai já fazer 9 anos.

Estou inseguro, e magoado. Apetecia-me agora não estar ali. O meu irmão, o único que me podia ajudar, pôs-se do lado deles, também ele rindo de mim. Sinto-me muito sozinho. E com uma enorme raiva por não o ver tomar o meu partido. Bastava-lhe que contasse como ontem eu tinha feito frente à malta do Lote C, e talvez eles reconsiderassem. Mas ele nada disse, juntou-se a eles. Estou furioso com ele. Isso nota-se e serve para ele cochichar qualquer coisa, lá no meio do grupo. Sei que é sobre mim – oiço os risos - mas não sei o que ele disse. Estou afastado uns dois metros deles, uma distância agora intransponível, por isso, o que eles falam, torna-se ininteligível para mim. Sinto-me mesmo muito sozinho.

Chegou a hora do lanche. É a minha última oportunidade, mas mais uma vez não consigo. Aquilo é muito alto, é alto demais para mim. Começamos a destroçar. Eu retorno para casa sob um insinuante coro de troça. Estou envergonhado e sinto-me frágil. Mordo o lábio para não chorar, que isso ainda agravará mais a chacota que já sinto sobre mim. Agora o alívio de chegar a casa. A Srª Bia pergunta-me porque choro enquanto me dá o lanche. Mas eu estou chateado, não respondo. Não respondo a ninguém. E está-me a custar imenso estar ali, a tomar o lanche com o meu irmão. É dele que esperava auxílio. Eu ainda sou muito pequeno, e ele já é grande. Devia estar do meu lado.


...


A minha mãe está enfurecida. Nem repara a força com que carrega no algodão. Ardem-me imenso os joelhos, e assim ela não está a ajudar nada, mas nem me atrevo a queixar. Pergunta-me insistentemente sobre o que me passou pela cabeça para ir lá abaixo já ao cair da noite e atirar-me daquele muro altíssimo. E que se me tivesse aleijado a sério? Assim, sozinho, quem haveria de dar comigo? Eu ainda tento explicar que era uma aposta, nada mais me ocorre para explicar a importância que aquilo tinha cá dentro de mim. Mas ela não percebe as minhas palavras, não percebe como aquilo foi importante para mim, nem tem orgulho em mim. E ver-me assim tão insuflado ainda a encoleriza mais. Dobra-me o castigo. Sorrio indisfarçavelmente - àquele castigo sinto-o como o reconhecimento da minha façanha. Está furiosa. E eu não lhe consigo explicar que gosto muito dela, que me sabe muito bem tê-la ali a tratar de mim. Que nestas alturas ainda gosto mais dela.

O meu irmão está lá ao fundo, a ver televisão. Mas sei que olha pelo canto do olho. Também agora ele finge que não é nada com ele. Que nada sabe do assunto. Sei que ele agora me admira um pouco, mas também sei que nunca mo dirá. Eu não vou dizer aos nossos amigos que saltei, estou chateado com eles, mas queria imenso que ele lhes contasse isso. Mas sei que ele não o vai dizer. Agora que já me sinto melhor (e não precisei dele para nada), já só me falta acertar contas com ele, ele vai ver - quando sair desta cadeira, vou directo ao quarto e escondo-lhe o comboio que ele tanto gosta. E não lhe vou falar pelos menos durante 2 dias.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:00 PM | Comentários (15)

"Crie o seu blogue em 3 minutos"

O amigo Carriço aventurou-se a tirar as aspas ao seu Fragmagens, institucionalizando assim um dos nomes mais bem conseguidos para blogues. É esta a minha opinião, e gostei de saber das razões que estiveram na sua origem e que ele lá expressa.

Por isso, há alguns minutos atrás, dou por mim a comentar a esse propósito. Que concordava inteiramente, pois claro, e a elogiar, tudo isso com sinceridade. Mas depois lá fui derivando, como de costume, e isso levou-me até à remota origem do meu blog, e nisso, indelicadamente, porque em casa alheia, lá fui discorrendo. Ia descrevendo a minha origem aqui, e achava engraçado que nunca tivesse pensado nisso. Não porque o tivesse de fazer, não por abuso do ego, mas porque a origem deste blog é tão surpreendente quanto desajeitada.

Faz exactamente hoje 6 meses (não pretendo com isto recolher os parabéns, por favor, eu que desde miúdo rejeitei essa coisa de inventar dias especiais, não era agora que ia mudar este mau feitio). Nessa altura era um assíduo leitor de blogues, e já suficientemente astucioso para me servir do weblog como trampolim de mergulho nos novos post’s. Mas dessa vez deparei no topo da página (onde certamente sempre deve ter estado) , com este “placard”:

weblog1.jpg

Ora 3 minutos não são nada (muito mais tempo que isso demoro eu a abrir alguns blogues), e depois, esta mania insana do “clic”, ainda a ler a referida caixa e já o dedo inquieto a fazer-me entrar compulsivamente por ali adentro. Deparo-me com um “free trial”, nem hesito, clico outra vez. E por esta altura a minha progressão era já alimentada pela enorme bisbilhotice no saber como era tudo aquilo por dentro, aqueles mundos que eu tanto admirava, e que tanto me consumiam como leitor.

Com a mesma espontaneidade do início fui avançando, tudo era facilitado ali. Já do meu lado, irreflectido, sempre aquela marotice de querer “ espreitar por baixo das saias”. E mantinha para mim mesmo que era só um “free tour” , que no fim da experiência se haveria de encostar a máquina outra vez em qualquer lado. Que nada ali era condicionante.

Porém, quando começaram a atravessar-se à minha frente algumas perguntas que mereciam no mínimo respostas congruentes, continuei sem hesitar. Quando me foi pedido um nome para o blog avancei de imediato para …para… olha, “apenas mais um”, e continuava frenético já. Agora era já outra que me impedia de chegar finalmente à casa das máquinas para meu desespero – nome do utilizador? Utilizador: eu …eu ??? naaaaaa, põe-se para aqui qualquer coisa, ora deixa lá ver e pimba, que aqui vai um “Eu…figénio Lagoa”.

E a pressa de seguir em frente já pouco mais se apoquentou desde aí. Havia chegado finalmente às entranhas de tudo aquilo. Sentia-me agora como a andar pelos bastidores do teatro, ufano, a fingir-me parte de um elenco shakesperiano. Foi tão pouca a fleuma, tanta já a vontade de ir um pouco mais longe, só um pouco, que quando dei por mim estava a postar, desesperando por um texto qualquer, a caneta ainda presa na algibeira. Até hoje.

E foi assim que apareceu "apenas mais” este blog, para o resto da sua existência amaldiçoado com o nome mais foleiro que conheço na blogosfera. E por trás dele, este autor, com um nickname de cheirar a mofo. Mas de uma coisa eu sei, agora não mudo - nasci feio e feio hei-de morrer. Talvez quando muito, um dia, lhe ponha umas aspas, as que o amigo Carriço já não precisa e certamente me poderá dispensar !!

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:50 AM | Comentários (17)

abril 12, 2005

Interpolando (me)

Num recanto da Internet leio esta excessiva lisonjeira referência: “…chama-se Eufigénio e apresenta-se como um «simples Chefe de família». Tem um invulgar e bem-humorado olhar com que vai espreitando o dia-a-dia, sinalizando rotinas e comentando pequenos nadas que fizeram com que este blog se fosse impondo como um lugar de visita incontornável.

Já noutro meridiano da net, e do mundo, amigo franco, a quem procuro “escutar”, alerta-me para as “picuinhices da vidinha”. Dou por mim a ajustar-me na cadeira.

De esquadro e régua na mão uno então estas duas pontas. Agora, traço-lhe a bissectriz. Pronto, de novo com os pés a pisarem terreno conhecido.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:41 PM | Comentários (14)

Ufff....

De repente fiquei com a sensação que tinha deixado cair um jarrão da dinastia Ming!

(foram os 12 comentários mais rápidos que alguma vez aqui entraram)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:45 AM | Comentários (13)

abril 11, 2005

A limpar links que já não uso

Oopsss........prlimpimpim
ui, ui, ui ...catrapástáspás
aiaiaiai .....Olha, lá caíu abruptamente o "Abrupto" !!?

Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:54 PM | Comentários (26)

Corolário póstumo

Porque um almoço frugal pode sempre ajudar a organizar e a emagrecer as ideias, aqui refaço o relambório de há dois post's atrás:

Ao transpor trechos da memória, esse limbo de sabores não desenraizável, para a morfologia geómetra das palavras, ficamos com uma história extirpada, onde "sobra" aquele que fomos.


Póstumamente ao corolário póstumo: Para quem (como eu) ainda não percebeu exactamente onde quero chegar, favor dirigir-se ao post de lá de baixo que aqui linkei e ler o comentário da Catarina.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:16 PM | Comentários (10)

Dou por mim a ...

O mais inseguro e também mais meticuloso dos dois, e que na verdade pouco e quase nada escreve, enfim, que é o tipo dos retoques e berloques e dos acentos graves e agudos, aqui a exaltar-se com o post atrás:
"Ópá, que texto mais mal parido! Não podes andar a publicar coisas assim, sem qualidade nenhuma."

Diz de lá o outro, o que acorda todos os dias irritado hiper-activo, que é teimoso que se farta, mas que, mais voluntarioso, é quem mais trabalha para o blog:
"E és mesmo tu que me vens dizer isso. Da próxima vez acorda mais cedo se quiseres fazer-lhe os floreados do costume, que eu cá por mim, estou bem a cagar-me nisso"

E mais uma vez, uma outra vez, sem dar tempo ao primeiro para rever este post! As coisas hoje começam a ficar descontroladas. Definitivamente, hoje vou ser um tipo cheio de contradições.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:59 PM | Comentários (7)

Sei lá o que digo (dos dias em que acordo confuso)

É possível revisitar-nos? Quero dizer, eu sei que é, mas o que me pergunto é se é possível que o exercício escrito possa ajudar a franquear as portas da memória … ou se, na sua tangibilidade, apenas a colora com a pequena porção do que é traduzível? A juntar peças soltas, que não compreendemos, mas cada uma traduzindo-nos num qualquer momento, e que aqui, esse todo, engavetado neste exercício do escrever, amalgamado, querendo dar-se legível, como se cada instante fosse integrável nesse “sentir todo”.

E se as memórias são em grande parte inexprimíveis, irrepetíveis, vesti-las assim, tão prosaicas, não será então retirar-lhes a parte dos “odores”? Quando as escrevemos, fazendo de nós personagens relatores do nosso passado, não as estaremos a corromper com os sentidos que hoje - diferentes dos de ontem e dos que seriam amanhã - as sabem descrever. E assim ancorando-as no texto que nos sai, e nessa necessidade sôfrega de nos querermos “fingir” lá, nesta frugalidade de nos podermos ler do que já fomos, assim, com esta expectativa de nos revisitarmos, erigindo o passado no molde das palavras, emparedando-o cimentando-o de forma definitiva, assim, não acabamos nesse justo instante de substituir irreversivelmente o nosso passado por … uma história? E quem se faz jurar do que não lhe acrescenta, e do que não lhe esquece, nessa história? E onde fica agora o passado?

Quando escrevemos um trecho das nossas memórias, não se tornará este - perversamente - na única janela por onde já espreitamos? Afinal, reescrever-nos, não será trocar as nossas memórias por uma história que gostamos de ler, de sentir nossa? E no limite, poderemos nós enganar-nos tão completamente que, revestindo o nosso passado com narrações estilísticas, uma a uma, nos vão convertendo em personagens narcisistas de nós próprios?


[que "atabalhuação"!! haverá obviamente que rever este texto. Ou talvez não. Talvez nem lhe toque. Talvez seja assim que eu o vou querer reler, que há coisas que não devem ser bem ditas]

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:31 PM | Comentários (10)

abril 10, 2005

Esta hoje, ao fazer os cachorros do almoço

- Diogo, tira-me aí a mayonnaise do frigorífico
- Não sei qual é pai
- Ora, procura. Deixa-te dessas preguiças
- Pai?
(olho para ele ainda com a cabeça enfiada no frigorífico a remexer nos frascos)
- Humm?
- Mayonnaise em inglês diz-se “Top-Down”?

A falar comigo: Isto já começa a parecer um livro de anedotas do menino Tonecas. Mas também, porque haveria eu de me inibir de pôr aqui no álbum de memórias estes “grandes planos" do Diogo? Só porque isso o pode fazer parecer pueril? Pfff ... Não há aqui roupagem editorial. E além disso ... há-de vir o dia em que já só riremos com as coisas dos outros. Irão faltar estes “instantâneos” deles a fazerem um intervalo de qualquer coisa. E nessa altura há-de saber bem desfolhá-los aqui.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:30 PM | Comentários (7)

abril 09, 2005

Que raio !! sempre a ouvir a mesma música

"Olhem lá, quando é que passam de nível?"

Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:29 PM | Comentários (4)

Só este puto para me pôr a rir às 9h da manhã de Sábado

- Ó pai, os elefantes conseguem atravessar rios?
- Claro que sim, Diogo.
- Ahh
(pausa)
- Ó pai, e se forem sete rios, também conseguem?
- Sete? Bem, não sei, talvez não.
- Então porque puseram ali aquela tabuleta a dizer “sete rios” com um elefante à frente?

Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:17 PM | Comentários (10)

Ganda speed meu !

Instalaram-me ontem o "speed on". Devo dizer que estava um pouco céptico com a solução da netcabo, mas tenho de reconhecer que isto agora está um tirinho!

Claro que isso trouxe algumas implicações aos meus hábitos de navegação. Por exemplo, antes eu costumava aproveitar para fazer café enquanto esperava que as Ruínas abrissem, e agora quase nem tenho tempo para acender uma cigarilha que aquilo Zkcccc, já lá está.

Resultado: passei a conseguir clicar nos links certos já quase sem tremer o ponteirinho do mouse, (lá se foi a descoberta de novos blogs por acidente), e a deitar-me antes das 3h da manhã por falta da cafeína. (Receio que esta velocidade toda se possa vir a tornar enfadonha)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:50 PM | Comentários (5)

abril 08, 2005

Deve ser por ser 6ª feira

baralhado1.JPG

Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:25 PM | Comentários (4)

baralhado2a.JPG

Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:23 PM | Comentários (3)

Continuando a intervalar cafés (está difícil o despertar hoje)

Admitindo que porventura possa existir algum leitor distraído que aqui chegue sem ter ainda passado pelo Afixe, chamo a v. atenção para esta bela homenagem aos homens, da Isabel, uma mulher que pelos vistos nos conhece muito bem.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:32 AM | Comentários (9)

Que belo café acabei de tomar

Este homem escreve delícias !!

Obrigado Zézé, pelo cafézinho

Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:40 AM | Comentários (5)

Hoje, na atrapalhação dos "acordares"

“Oh que chatice.
Já estou a ouvir o parvo do Nuno Rogeiro e eu ainda nesta linda figura!”

Curiosa esta coisa de ter a rádio a marcar-nos os ritmos da pressa.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:24 AM | Comentários (5)

abril 07, 2005

Pronto, já está

Os gatos já foram capados. Voltámos a ser só 3 pilas cá em casa. Confesso que como macho dominante já andava apoquentado. Bem … pensando melhor ainda faltam os “tartarugos”.

Oh Eufigénia que achas se …

Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:58 PM | Comentários (18)

ughh.jpg


Desculpe, disse alguma coisa?

Publicado por Eufigénio Lagoa às 07:00 PM | Comentários (4)

Auto-retrato

A olhar ali para as “entradas recentes” deste diário, e a tentar perceber tanta misturada no rasto de tinta que aqui deixei. E a arriscar o retrato - sou então um gajo:

Deprimido (daqueles que fica a olhar para o montinho de coisas que não fez com olhos de “calimero”)
Descontrolado (e com preocupantes problemas de saúde e de alucinação)
Indeciso (e ainda por cima a justificar-me, como se o ir-não-ir e o estar-não-estar pudessem ser registados em textos evasivos. Só mesmo para me afundar ainda mais)
Babadinho (ai o risco das piadinhas do glu-glu-glu que só ao papá dizem alguma coisa)
Nostálgico (Nada mais deprimente que querer rever umas memórias que já só apertam o cinto bem por baixo da curva da barriga)
Péssima chefia (daquelas que não “faz” nem sai de deixa os outros fazer”)
Santinho (esta é nova, esta de andar a dar lições de moral. Deve ser da idade)
Negligente (quando algo começa a ser aprofundado ala que faz tarde)
Engraçadinho (como se isto de andar a fazer piadinhas da blogosfera fosse muito original)

e ainda tenho a lata de o vir para aqui gritar. Acrescente-se então um Incontinente para fechar


(fiquei deprimido)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:23 PM | Comentários (10)

Isto, afinal o “SimCity” das palavras

Não foi há muito tempo que dei conta que o Maschambeiro já se tinha lançado na lavoura do Olival. Só que quem lá tentasse chegar haveria de ficar pelo cercado com

nao encontrado1.jpg

já que afinal era terra ainda em pousio.

Pois fui agora e já dei com

construcao1.jpg

Sementeira feita!!

[E eu cá a pensar que isto de criar blogs/comunidades em velocidade acelerada já parece o SIMCity]

Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:18 PM | Comentários (5)

Só para passar à frente

oxigenada.jpg[imagem rectificada por sugestão da Karla]

Confesso que já me arrelia entrar aqui e dar de caras com o post anterior, para além do ar sorumbático que dá a esta casa que se quer alegre e loira. Agora que já cumpriu a sua função auto-medicamentosa podemos passar à frente?

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:39 AM | Comentários (7)

abril 06, 2005

Atenção: por detrás das letrinhas está sempre alguém

Aviso prévio aos estimados leitores: Texto longo, enfadonho e eventualmente irritante

Para além dos post’s há os comentários. Sendo estes um desenvolvimento dos primeiros, distinguem-se por algumas particularidades que acabam por os tornar mais sensíveis à nossa verve: são quase sempre espontâneos (sai o que sai), não são ‘regressíveis’(nada de voltar atrás) e escrevem-se num ambiente de forte interactividade (com a agitação própria das conversas).

Na maior parte a voz dos comentadores alinha-se, elogia e acrescenta até o próprio post que lhe serviu de porta de entrada. De outras vezes, (e isso já terá a ver com as características do próprio blog), a personalidade e o estilo do seu autor acabam por levar a que cada post seja uma oportunidade para que nos comentários se vá desenvolvendo um diálogo, quase contínuo, que decorre já muito para além do tema nativo do post. Seja qual for a natureza dos comentários, quase sempre têm uma característica comum, são consonantes e moldam um ambiente de unanimidade e simpatia.

Mas há outro tipo de comentários, menos frequentes é certo, mas que quando aparecem ressaltam logo de toda aquela atmosfera de convergência. E isto porque são comentários dissonantes, intenções de ruptura com a linha de aquiescência que se vem seguindo. Se são ilegítimos, impertinentes ou desajustados, diria que isso não depende do que defendem (ou contrariam) mas do tom e da atitude que trazem.

Com efeito, na maioria das vezes, este tipo de comentários são mal-intencionados, gratuitos e malévolos e podem produzir uma reacção despropositada tal, que em alguns casos pode levar à inibição de comentários, ou num limite mais dramático, ao encerramento intencional do blog por parte do seu autor. Há um ímpeto de destruição nesses comentários que é fútil, infame e cobarde (porque quase sempre vestidos sob a capa do anonimato). Compreendo por isso que se lide com os mesmos quase com as mesmas armas, se necessário usando de todo o sentido da grosseria, da provocação reles e da insípida ameaça, afinal, talvez a melhor forma para enxotar os seus autores. Nada a dizer, que cada um varra a sua casa com a vassoura que quiser. Até porque é bem verdade que tive a sorte de até hoje não ter tido um único comentário desses, pelo que não posso com sinceridade ajuizar da reacção que teria ao mesmo. Mas sobre esse tipo de comentários fico-me por aqui, que não creio justificarem mais do que contextualizar a minha opinião para o que de seguida pretendo desenvolver.

Há nesta contra-corrente outro tipo de comentários que nada têm a ver com os que referi acima. Estes outros, apesar de terem algo em comum com estes excessos gratuitos e mal-intencionados, porque também são discordantes do autor, e do post em causa, (e por conseguinte revelam uma inclinação diferente do rol de comentários que depois o sucede), em nada mais se lhes equiparam. Apresentam aliás uma dissemelhança fundamental - não são mal intencionados nem agressivos e alicerçam-se em pontos de vista que se tentam fundamentar. E aqui toda a diferença.

Devo até manifestar que de algum modo reservo uma certa admiração pelos autores desses comentários, que assim se destoando da opinião geral escolhem um papel solitário, de aparência intrusiva, mas de enorme honestidade e coerência. Diria mesmo que, se interpretados com serenidade e com serenidade merecendo a devida resposta, poderiam representar um contributo nada desprezível para aprofundar o tema do post, pelas linhas de rebatimento que podem abrir. Já o invés, a aquiescência, o sublinhado, o repercutir de novo a mensagem original, pouco contributo dará objectivamente ao aprofundamento da ideia inicial, não obstante serem um gesto de simpatia para com o autor do post e do blog e propiciarem outras vínculos de diálogo, igualmente interessantes.

E se é verdade que em muitas das vezes esses comentários discordantes têm algo de inoportuno, talvez até em alguns casos de deselegante, não deixo de sublinhar de novo que os mesmos são produzidos de boa fé, e se baseiam em pontos de vista sérios e argumentados. Acho por isso lamentável ver os seus autores serem tratados como se fossem os arruaceiros de blogs que referi inicialmente, como se não houvesse diferença entre estes que manifestam de forma sincera a sua opinião, e os medíocres que apenas visam o insulto gratuito. Sem complacências vejo-os em certos casos serem insultados, escorraçados, vilipendiados, como se o simples facto de não concordarem com alguma coisa lhes retirasse o direito de produzirem a sua opinião. Depois, o que se segue é uma sequência lamentável de rechaças a que todos já assistimos (e se calhar até já participámos).

Vejo nisto a fraqueza de nos sabermos pertencer ao lado forte da barricada, e assim a atirar uma pedra mais, na histeria do linchamento, cegos da adrenalina de sabermos fazer parte dos mais ‘fortes’. Vejo nisto a desproporção com que dispensamos o tratamento a outros só porque não lhes vemos a cara - como se alguém, sentado a uma mesa de conversa se virasse para um anónimo de ar respeitável e o chamasse de filho-da-puta e lhe sugerisse que fosse meter-o-dedo-no-cu, só porque às tantas esse senhor manifestou educada e justificadamente a sua discordância na conversa que corria.

A unanimidade não existe. E isso se calhar mais do que em qualquer outro lado, isso deveria ser reconhecido neste espaço especial de expressão (confrontação?) que é a blogosfera. Já sei, já sei, “o blog é meu, não gosta, passe à frente”. Tudo bem, não gosto, e sigo. Mas por favor, quando se pedir a alguém que saia, façamo-lo com elevação.

Haja respeito. Que por detrás das palavras há aqui gente, dos DOIS lados!

Além disso …
olhem, agora vou mas é responder aos prodigiosos comentadores que tenho a sorte de aqui receber e que felizmente são suficientemente ‘consonantes’ para não ter de pôr à prova a minha lisura :))

Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:10 PM | Comentários (27)

abril 05, 2005

Lentos mas rigorosos

Acabei de introduzir aqui na xafarica um novo modelo de planeamento que me parece quase perfeito.

É evidente que o trabalho ainda se vai atrasar mais com o tempo que iremos agora despender a preencher tanto mapa e interface, mas pelo menos já posso justificar objectivamente porque nunca fazemos as coisas a horas.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:46 PM | Comentários (9)

Olivais

A coisa começou a espreitar da troca de comentários, alguns já muito distantes, e depois já mais recente tomou-se de desgarradas desafios : que era giro semear um Olival, que gente para trabalhar essa terra não faltaria. E o meu enérgico amigo pimba, homem de agri(doce)culturas vai de adquirir logo um hectare . Até já começou a contar espingardas . Daqui me junto ao JPT, esteja ele onde estiver com toque a reunir. Há gente por aqui, (bloguistas, leitores e comentadores - esses sei que há), para se pôr ali também?

Ó Zé Flávio, aquilo aguenta com quantos?

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:19 PM | Comentários (7)

abril 04, 2005

Um coração de atleta

- Então Sr. Doutor?
- Tudo muito bem
- Mas … e o sopro que se suspeitava?
- Nada. Tem apenas o que chamamos um falso tendão, que atravessa o ventríloquo esquerdo.
- Como??
- Não se preocupe que isso com a idade desaparece. À medida que o coração for crescendo o tendãozito vai se estirando até desaparecer. E digo mais, este miúdo tem um coração de atleta!
- Ah, percebo agora.
- Ai ai mãe, isto está mal! Está, está.
- Então não ouviste o Sr. Doutor a dizer que tens um coração de atleta?
- Pois, como o pé de atleta. É mau não é?

Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:15 PM | Comentários (5)

Post apagado

Provavelmente poderei estar a exagerar, mas o certo é que me senti profundamente desconfortável ao ler o post que aqui coloquei. E apaguei-o.

Acho que de repente descobri os limites da minha escrita ‘pública’. Até hoje não me lembro de alguma vez ter hesitado em trazer para esta espampanante janela tudo o que me ia na alma, de forma incondicional, em absoluta anarquia de critérios, sem esconderijos. Arranjei um pseudónimo e leviano deduzi assim que tudo era ‘postável’. Iludi-me, pois não é o nome que nos esconde, assim como não é o nome que nos revela, e menosprezei a prudência de estabelecer regras.

Se o tivesse feito, facilmente encontraria critérios que determinariam já não os meus limites de exposição, mas a fronteira onde estes se confundem com os de outros, e onde facilmente escorregamos para o ilegítimo e o inconfidente. Para além disso, as coisas dos outros que nos ‘acontecem’, e as coisas que os outros nos dizem, por mais deleite e orgulho que nos tragam, nunca poderão ser resumidas à condição de post, com risco de deixarem de ser nossas, e de se esvaziarem de significado.

Provavelmente, tudo se poderá escrever, mas nem tudo se deve poder ler. E nisso aprendi a lição.

Siga a Marinha !

Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:26 PM | Comentários (17)

Merda de irritação matinal

... ou hipoglicémia, ou o raio que a parta !!.

Qualquer dia arranjo uma cama com rodas, e com uma mola na cabeceira que se activa às 7h da manhã - e Zás, lá vou eu com almofada e tudo parar ao meio da rua. Depois é só esperar que aquilo me passe enquanto faço parar o trânsito, me lanço ao gajo do clube video, e reviro o caixote do lixo. E pronto, depois já mais consolado, lá voltaria com um sorriso envergonhado, para lavar os dentes e dar uns bons dias à família.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:10 AM | Comentários (13)

abril 03, 2005

Desmazelo

Neste momento escoam-se as últimas horas do derradeiro domingo, antes do regresso ao trabalho. Os compromissos profissionais que levei para férias, todos assuntos de fundo, foram sendo impingidos para o dia seguinte, sucessivamente. Vejo-me agora a renegociá-los com o dia de amanhã, tal como ontem tive um raciocínio semelhante sobre os compromissos do dia de hoje. Aquieto desta forma a minha consciência, fazendo-me prometer o dia seguinte, levianamente, como se o dia seguinte fosse apenas o acerto do dia de hoje, como o de hoje assim foi ontem.

Na mesa onde pouso o portátil, está a um canto um monte de correspondência com um palmo de espessura. Pelo meio estarão lá as declarações para o IRS que, também esse atrasado, terei forçosamente de tratar, e as contas exorbitantes da Internet que desesperam para que eu mude de operador. Ao princípio organizava esse montinho por assuntos e graus de urgência, não sem antes estudar o conteúdo das cartas. Depois o montinho foi-se tornando indiscernível, inclassificável, e acabei por ir apenas poisando no seu cimo a ultima correspondência chegada, que esta requereria mais tarde atenção dedicada, e já só esse o critério. E assim todos os dias lhe junto nova correspondência: o desleixo institucionalizou-se naquele montinho. Mas amanhã, portanto, irei também tratar dele.

E chegado de férias sou mais sensível ao desmoronar desta casa já centenária. Mais arguto, porque esquecido já do que deixei, olho no canto do tecto a cal a saltar, e as novas fendas que sobressaem agora de forma mais veemente sobre a pintura das paredes. Percorro com exactidão todos os pormenores desgastados da casa, e vem-me à memória que tenho suspensa a conversa com o inestimável Sr. Albano para arranjo das telhas do telhado. Há uma meia dúzia de meses que estou para falar com ele. Amanhã, acho que arriscarei telefonar-lhe e tentar convencê-lo da sua vinda cá, para um orçamento.

Sei que não será fácil tratar de tudo amanhã. Até porque terei de inventar tempo ainda para enumerar as coisas que a minha atenuada inquietação irá deixar para o dia seguinte.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:35 PM | Comentários (11)

Esta coisa de pôr fotos ...

... dá um ar mais matutado ao que se escreve.

(deve ser por isso que o blog demora mais a abrir -
assim, mais meditabundo, pudera!)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:06 AM | Comentários (9)

Cheguei. E aparentemente tudo está no seu lugar

curia1.jpg

O montinho de correspondência continua por abrir, as fendas nas paredes esperam ainda que eu contacte o Sr. Albano e o ‘dossier’ que trouxe do trabalho para as férias continua por abrir.

Sempre apreciei chegar a casa, saudoso, e encontrar tudo no seu devido lugar.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:13 AM | Comentários (7)

abril 02, 2005

Clamp!! Torreão fechado

obidos1.jpg

Voltamos para a cidadela. Depois de largo enfartar que venham os saxões e os claxões (notai aqui a alusão às "buzinadelas" para melhor compreensão, quanto aos saxões ... ? ... ficará para explicar um dia)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:26 PM | Comentários (9)

As minhas leituras de Férias (3)

O “Record”, essa misteriosa liturgia que aparece por vezes lá por casa

Na sala da lareira (que é também a sala das janelas, da ria e do sol) há uma cesta de verga onde depositamos tudo o que é jornal e revista, embora por lá também se amontoem histórias para crianças, brinquedos de plástico e braçadeiras furadas.

É de lá que agora recolho distraidamente o “Record". É um fenómeno estranho este, pois se insisto que não sou eu quem o compra, torna-se difícil explicar (talvez por ser o único homem cá em casa com idade para vícios) como é que de vez a vez lá aparece a edição fresquinha do dia. E porque também eu não sei explicar esta aparição jornalística, compreendo assim o olhar de interrogação, quase ironia, que me é lançado quando digo “Pois não sei, quando à pouco saí foi só beber o café. Este jornal já estava aqui. E bem sabes que eu nunca compro estas coisas”.

Mas passemos à razão que aqui me leva a citá-lo, a minha crítica literária. Justificadíssima aliás no diário em apreço, porquanto, para além do noticioso futebolístico, se podem encontrar neste folhetim desportivo autênticos 'sublinháveis' da arte do escrever. Aqui ou ali, num editorial ou na legenda de uma foto, discorre tal empolgamento e paixão que é mais que alento romântico, é mesmo um frenesim poético, aquele que nos conduz ao longo da descrição de um simples lance, ou das qualidades futebolísticas de um qualquer jogador do Penafiel.

Diria mesmo que este é o espaço daqueles que, desafortunadamente inaptos para a prática futebolística, encontram na arte da sua caneta o dote que os permite transcender, ao reclamarem das capacidades atléticas, entoando-as com a “devoção”, “paixão”, “raça”, “sacrifício”, “discernimento” com que, (ai) se ou soubessem, dariam o pontapé na bola.

Não esgotadas as palavras com tal esforço futebolístico, pode ainda encontrar-se nas páginas deste jornal verdadeiras pérolas na forma como descrevem o intrincado do pontapé na bola, e o feérico mundo que o rodeia, como esta que aqui transponho:

“Agora que a sociedade se mostra cada vez mais repressiva e orientada por tiques ditatoriais … o futebol agarrou-se a conceitos indignos do seu passado. Rendeu-se ao negócio, valorizando a componente financeira muito para lá do que seria legítimo e prosseguiu com estímulo a sacrifício, esforço, luta e demais embustes, coisas menores apresentadas como bens de primeira necessidade. Atingido o caos emocional, por que a paixão antecipa a urgência e a ansiedade autoriza o despudor, o primeiro instinto é correr e chocar durante hora e meia, quebrando elos de ligação com a sensibilidade do espectador…”

E eu que julgava que esta coisa do contexto futebolístico se ditava nos três movimentos básicos - o corte pujante e irrepreensível de um defesa, a desmarcação inteligente de um centro-campista, ou o instinto e a oportunidade do lance de golo de um avançado - acabei afinal por descobrir que o desporto evoluiu já muito para além disso. Agora rendeu-se ao negócio … e à caneta do poeta ofendido.

Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:52 PM | Comentários (2)

Adeus Lagos

lagos.jpg

Continuas a ser tu quem me dá as melhores férias

Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:01 AM | Comentários (6)

abril 01, 2005

As minhas leituras de Férias (2)

“Memórias das minhas putas tristes”

Vivo numa casa colonial no passeio do sol do parque de San Nicolás, onde passei todos os dias da minha vida sem mulher nem fortuna, onde viveram e morreram os meus pais, e onde me propus morrer só, na mesma cama em que nasci e num dia que desejo distante e sem dor. O meu pai comprou-a em hasta pública nos finais do século XIX, alugou o andar de baxio para lojas de luxo a um consórcio de Italianos, e reservou para si este primeiro andar para ser feliz com a filha de um deles … a mulher mais formosa e de mais talento que houve alguma vez na cidade: a minha mãe.”

Se eu um dia soubesse escrever, era assim que o gostaria de fazer. Dotado, mas imune à tentação de enrodilhar as palavras. Simples, mas com a plenitude da narração. Real, mas tão aureolado do imaginário incredível. Este homem escreve como respira. Tenho para mim que talvez não haja hoje quem escreva assim - o saber levar-nos para dentro o suficiente para percebermos até o que ali fica por ser escrito, mas sossegadamente longe para podermos apreciar tudo com o confortável espectadorismo. Como ele, assim de repente, só o Hemingway, mas esse já tem a obra concluída.

(bem, antes que me tomem por presunçoso vai já de preparar a próxima “crítica literária”)

Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:19 AM | Comentários (11)