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março 11, 2005
Caras
Seria curioso se as nossas feições se alterassem conforme os estados de espírito. E não falo apenas das expressões, falo numa transmutação completa de todos os órgãos e apêndices, afigurando os caprichos da nossa própria disposição. E isso ser indisfarçável, e incontrolável.
A sair de manhã por exemplo, e ali a cruzar-me com alguém na rua - uma hesitação, e depois em jeito de cumprimento “Ah és tu, não te estava a reconhecer assim, tão irritado!”. E logo eu a confirmar identificação, a evitar confusões, e a lançar escusas também: “Mas já estou a mudar, repara que o nariz já desarrebitou, hoje de manhã estava impossível. E tenho para mim que a linha dos olhos também já não está tão sisuda”.

E tantas as disposições, tantos os estados de espírito, que no emprego andaríamos todos de placa ao peito, para desembaraçar aqueles que ainda não identificassem todas as variantes dos mais recentes colegas. “Como está Sr. Dr, não tinha a certeza de que era o senhor e bem sabe …” depois estudando melhor os esgares, as rugas abespinhadas, o arrebitamento das orelhas no outro “… talvez seja melhor voltar mais tarde?”. Tantos mal entendidos que assim se resolveriam.
E depois o chegar a casa, antes da transfiguração, antes do despir o trabalho e o trânsito, sem tempo ainda para a recuperação das feições, e logo um reparo carinhoso: “ Oh Euf, tu não podes andar sempre a aborrecer-te querido, qualquer dia arriscas-te a ficar assim, com esse nariz à banda, e nunca mais o teres direito. Descontrai-te vá lá”. E já mais calmo, as ventas recompondo-se, o serão a começar a fazer-se.
E ao jantar, numa tasca familiar lá do bairro: “O Sr. Eufigénio hoje anda com uma testa de elefante, isso foi alguma contrariedade lá no trabalho não?” E o queixo a crescer-me de irritação, com a impertinência do homem. Ele logo o notando e recatando-se “Desculpe …”
O dia seguinte. Manhã de fim de semana, todos alegres e a acordarmos belos. Uns lábios repousados, um olhar recuperado da saudade, as rugas esbatidas da tranquilidade e já alguém a perguntar “Então, ideias para o que faremos hoje?”. E logo o Diogo, transfigurando-se numa cara linda “Oh Pai, podemos ir ao Oceanário?”. E eu a pensar que nem valia a pena, que nada haveria melhor do que ficar por ali com aquela gente linda. E a descansar o nariz, a boca, os olhos, para a semana que se avizinharia.
Publicado por Eufigénio Lagoa às março 11, 2005 08:30 PM
Comentários
Descansa os ossos.
(acho que não irias gostar se fosse tudo assim)
Publicado por: cap em março 11, 2005 10:57 PM
é o que eu estou a fazer Cap, à melhor maneira.
Publicado por: Eufigénio em março 11, 2005 11:07 PM
:)
Parece que vais ouvir muitos "Euf" nos próximos tempos. ;) Carpe diem.
Publicado por: cap em março 11, 2005 11:20 PM
... ãh? desculpa, que dizias? estava aqui a endireitar o nariz.
(Um grande Carpe Diem tambem para ti BAMG - que esse do MAJ já foi)
Publicado por: Eufigénio em março 11, 2005 11:34 PM
O povo diz que o mal e o bem à cara vem...
Mas às vezes precisamos de inverter o processo,
usando a técnica da Julie Andrews: "simply remember my favourite things"!
Publicado por: madalena em março 12, 2005 12:28 AM
mas que post fantástico (+1x isto não é graxa, pá) fiquei com os beiços de tal modo que acabaram de perguntar-me se precisava duma tenaz para fechar a boca
Publicado por: JQ em março 12, 2005 10:27 AM
Pois é Madalena,
JQ,
depois de andar a espetar a minha carantonha de todas as maneiras e feitios só assim um post surrealista me safava. É um draft, aqui deixado que a ideia é gira, depois logo o componho melhor, quando olhar segunda vez para ele. E olha lá pá, é bem verdade essa coisa de postar fotos e considerações pessoais para ter mais comentários e visitantes. Mas depois isso serve para quê? Não estamos a falar de blogs? então um gajo põe-se a escrever coisas na sebenta que não lhe dizem nada, só pelo prazer de a saber ali no escaparate? Até porque há histórias que são bem mais que isso, e essas são as mais dificeis de contar ... olha, eu conheço umas tantas lá na casa de alterne
Publicado por: Eufigénio em março 12, 2005 12:23 PM
Ainda bem que o fazes... De que é que serve um blog? Para o que o seu dono quiser!
Tenho uma teoria (Meu Deus , estou velha, já tenho teorias sobre tudo, até sobre blogs!) que os blogs crescem sozinhos... Aliás fundamentei-me num tal "apenas mais um"...
Um beijinho para ti.
Podes dar-me os parabéns: acabo de saber que nasceu a minha primeira sobrinha neta.
Publicado por: madalena em março 12, 2005 01:24 PM
Eufigénio, isto não é bem o sítio para isto porque não quero desviar a atenção do teu post mas já que picaste – aquela coisa do viciado em strip emocional so lá apareceu porque, pouco antes, recebi um mail a chamar-me isso mesmo.
Sabendo já que todos vão utilizando discursos diferentes de dia p/dia, julgo que, a existir essa fixação na linguagem confessional, será mais da parte de quem lê do que quem escreve.
Isso tb se passa comigo - quando deparo noutros blogs com ficções demasiado densas, a 1ª reacção é passar ao post/blog seguinte e decerto que, assim, vou perdendo coisas que podem valer a pena. Deve ser algum sinal dos tempos - tirando a minoria que ainda lê romances, a ficção, hoje em dia, quase só é consumida no cinema.
Tb não creio que alguém use este ou aquele discurso a pensar no sitemeter. Quem tem que preocupar-se com isso é o J.Eduardo Moniz e os outros que dependem de patrocínios. Tivessem eles a sorte que eu tenho de ter um patrocinador (o seláceo a banhos na Polinésia) que me dá carta imaculadamente branca.
Post(o) i(s)t(o): só posso concordar contigo e com a Madalena – enquanto tivermos esta liberdade e vontade de publicar o que nos vai na telha, não temos outro remédio senão fazê-lo.
E desculpa-me o semi-despropósito de todo este paleio.
Publicado por: JQ em março 12, 2005 05:12 PM
Nunca vi tamanho "semi-despropósito" com tanto propósito JQ. Pois eu acho que a razão porque se escrevem menos histórias ficionais e mais estórias emocionais tem a ver com a capacidade da escrita. Sem querer generalizar ou fazer juizos, diria que estórias nossas, para passar ao papel, todos nós as temos, já saber partir do nada para contar algo é tarefa bem mais complicada. Eu por exemplo, sei que nunca serei capaz de escrever uma história ficcionada, já tu, revelas um dote nisso, e digo-o com toda a sinceridade. Provavelmente haverá quem leia um blog e possa achar que ler uma história que "não é de ninguém", é coisa para perder tempo, coisa que não nos deixa viajar completamente dentro de quem escreve. Outros saberão apreciar uma história bem contada, como a gostam de ler em qualquer lado, e poder reconhecê-la. E uma história bem contada, porque é bem contada, tem menos para se comentar - e é por isso que não se comenta. Porque provavelmente ninguém se sentirá capaz de lhe crescentar mais.
E Madalena, se quiseres, para te sentires melhor, chama-lhe convicções e não teorias. Seja o que for, não poderia concordar mais contigo.
E muitos parabens Madalena. E sê bem vinda sobrinha-neta da Madalena, que para já começas bem, começas logo por conhecer as pessoas certas
Publicado por: Eufigénio em março 12, 2005 07:50 PM
Hum...deixa cá ver...se eu recortar dali o nariz, mais os olhos da outra e aqui os lábios desta...dá....dá o quê? ;-)))
Publicado por: Mar em março 12, 2005 08:30 PM
Provavelmente a cara com que saí na 3ª feira Mar, ainda antes de me ter altercado com o Sr. Mário, e ter ficado com os lábios desta, os olhos da outra e o nariz da de baixo ;)
Publicado por: Eufigénio em março 12, 2005 08:44 PM
Mas olha, desafio-te a essa composição ... eu depois avalio de 0 a 20
Publicado por: Eufigénio em março 12, 2005 08:45 PM
Mudaste io título, mas não mudaste o último parágrafo. Ainda bem! É tão, tão lindo!!!!!
Publicado por: madalena em março 12, 2005 09:59 PM
Apenas o título, e pendurei os quadros noutro sítio. Não arranjei foi uma cara para o ultimo parágrafo, fica mesmo assim Madalena
Publicado por: Eufigénio em março 12, 2005 10:08 PM
A do último parágrafo é completamente "desdestrocida"...
Publicado por: madalena em março 12, 2005 11:44 PM
Pois. Se eu fosse um Brad Pit ainda arriscaria emoldurá-la lá, agora assim, estragava tudo ....risos
(gosto dessa definição - "desdestrocida" - perfeita na linguagem da história que conta as caras que se vestem. Que achas assim Madalena: "E a descansar o nariz, a boca, os olhos, a fazer a cara desdestrocida para a semana que se avizinharia." ?)
Publicado por: Eufigénio em março 12, 2005 11:55 PM
E lá nos pegámos outra vez. Fosga-se Eufigénio, quando fazes entrar em campo a modéstia eu fico pior que o adjunto do Trappatoni, sempre aos berros e a esbracejar como um possesso. P/escrever ficção basta a gente não gostar muito da n/pele, metermo-nos na pele de alguém que teve o azar de se cruzar à n/frente e, a partir daí...
Mais difícil do que escrever ficção é fazer dela um bolo de mármore com a realidade como, p.ex., fizeste discorrendo sobre as ventas. P/mim, mais difícil ainda, é, passe o palavrão, coloquiar quer p/escrito quer com pessoas de carne e osso.
Aquele meu choradinho sobre a ficção como espécie em vias de extinção, para além de vir de longe, porque já não devem existir velhotes a contar histórias aos netos ao fim do noite, pode ter muito a ver com esta onda actual da busca da verdade e da autencidade.
Até dá p/compreender que a maioria das pessoas tem razões para estar farta de mentiras, de invenções e não sei que mais. Mas esta busca da verdade a todo o custo, p/mim, é tão inglória como tentar jogar futebol com bolhinhas de sabão.
Nesse caminho, p/além de estarmos condenados a encontrar não só uma mas inúmeras verdades, o maior risco é mesmo perder a ginástica da imaginação.
Resultados disto? extremismos idiotas, religiosidade feroz, voyerismo e pouco mais. E assim a verdade única torna-se ficção.
Xiça, onde isto vai. Voltando ao início, não sei se já tinha dito que, se este teu post fosse uma posta, seria de baleia azul, e se fosse um poste seria feito de sequóia (isto não soa lá muito bem mas a intenção é que conta).
Publicado por: JQ em março 13, 2005 08:53 AM
A idéia é ótima. : ) Mas parece que vc a restringiu apenas à emoção de raiva, ou aborrecimento e de clama ou bem-estar. Há outras emoções que aparentes assim numa cara iam dar problemas. Ah , isso lá iam. : )
Abraços,
Silvia
Publicado por: Silvia Chueire em março 13, 2005 10:46 AM
JQ, tens razão pá. Concordo em absoluto com o que escreves e como escreves. Há provavelmente demasiada ficção "interior", há provavelmente estabelecida uma quimera do eu, e quando não é o "eu" é o "tu". E como dizes também, isso corre o risco de nos secar a imaginação e reduzir substancialmente a dimensão do mundo. E tens razão também no post, este vou guardá-lo com cuidado, para alem do blog. Não é todos os dias que esta casa pode receber um comentário destes ...fosga-se!
Publicado por: Eufigénio em março 13, 2005 12:21 PM
Olá Silvia,
É bem verdade isso, mas não tenho aqui no arquivo fotografias para os outros momentos/emoções que sugere, e bem mais dificeis de captar diria. Sou um mero fotografo amador.
Abraços
(o resto do comentário segue no 2º post acima)
Publicado por: Eufigénio em março 13, 2005 12:40 PM
Pois...eu bem gostava mas os meus conhecimentos informáticos não me permitem essas experiências...só se imprimir, recortar (de verdade, com tesoura)e depois conjugar...havia de dar uma coisa gira ;-)))
Publicado por: Mar em março 13, 2005 01:00 PM
Mar,
No que toca à pretensa "coisa gira" ficam os meus agradecimentos pelo elogio...rs
Publicado por: Eufigénio em março 13, 2005 03:56 PM