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março 31, 2005
As minhas leituras de Férias (1)
A começar pelo “Código da Estrada”:
Descobri que o recém-revisto código da estrada, se lido com a consciência devida pode introduzir um forte risco de hemorroidais. Por forma a minimizar este sempre desagradável efeito colateral das leituras de casa de banho, sugiro que não se seja tentado a colocá-lo em cima do bidé. Uma boa alternativa a este momento de leitura será por exemplo a borda da piscina. A posição de sentado, com as pernas dentro de água pode-se apresentar como a mais recomendável, até porque contem em si a possibilidade de o código facilmente se tornar ininteligível com os repuxos de água que chovem lá para as bandas (desde que vi ontem o jogo da selecção, este estilo fabuloso e retocado do Gabriel Alves – “lá para as bandas” – reconquistou-me, maravilhosa prosa) das brincadeiras dos miúdos.
Já no fim do volume, mais aliviado portanto, descobri no artigo 187º o objectivo fundamental do dito código: “ a cassação do título de condução”. Tornou-se aí claro, mesmo que disfarçadamente escrito com “ss”, qual o fito de toda a questão da vigília automobilística. Neste aspecto considero este código da estrada uma boa peça literária, alinhavando um desfecho sempre latente, mas ainda assim desenhado com a suficiente tenuidade para nos conduzir com curiosidade até ao ultimo parágrafo.
Um sorriso de orgulho se me irá esboçar no dia em que eu, sujeito automobilístico, constatar a “cassação do meu título de condução”. Com o orgulho do leitor mais arguto, tenho quase a convicção de me irei virar para o agente da autoridade e confirmar-lhe com um piscar de olhos: “Eu sabia, eu sabia, quase me sinto cúmplice de fazer parte do vosso romance sr. Guarda. Nem sabe o quão elevadamente me sinto por ser o elegido para um dos vossos “cassados”. Com quanto devo contribuir, diga-me por favor.”
Nota de rodapé, já no outro suplemento da “visão”:
Aquilo lá para cima são resquícios de momentos menos confortáveis da leitura da peça em apreço - e por motivos do foro fisiológico que nada têm a ver com a crítica objectiva da obra. Porque aqui, no final, sempre vou confessando que mesmo decorrendo de uma forte probabilidade o vir a ser um dos “elegidos”, concordo em absoluto com a aplicação do código, mesmo que não o tenha lido até ao art.º 187, por razões que para mim são óbvias. Tão óbvias quanto obscena se tornou esta realidade de mortos.
Publicado por Eufigénio Lagoa às março 31, 2005 07:55 PM
Comentários
Até à última linha não parei de rir.
Mas concordo com o remate trágico. Essa realidade violenta-me.
Publicado por: maria arvore em março 31, 2005 09:04 PM
O speed com que tu andas na prosa excede os limites de velocidade da blogosfera. Qualquer dia os invejosos apreendem-te o computador.
(eu também sou um cassador. De talentos. Vais longe, rapaz...)
Publicado por: sharkinho em abril 1, 2005 09:54 AM
M, Arvore
A parte inicial tambem me violentou um pouquinho. Tenho de ter mais cuidado com o que como, xiça.
Oh Tubarão,
Isso é o que se chama mandar poeira para os olhos pá! O homem que escreve verdadeiros manifestos de talento, a falar-me da quantitativa questão?
Publicado por: Eufigénio em abril 1, 2005 12:52 PM