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março 29, 2005
Cansado de férias? Experimente uma boa feijoada e de seguida proponha-se arranjar os estores da sala
Nada como concluir um pequeno trabalho de ‘bricolagem’ de forma expedita e bem sucedida. Além da minimização do incómodo fica-nos a sempre saudável admiração pelos dotes de “homem muito jeitoso”, o que vale para os outros, para as sogras, e para nós mesmos.
Há contudo dentro destes diversas espécies de trabalhos, e uns tantos que devem ser considerados com as devidas cautelas...
... Os casos mais desgastantes, que podem mesmo constituir-se em acidentes traumáticos, são justamente aqueles a que se dá menos importância ao princípio, menosprezando por isso o cuidado ‘aproach’ que estes nos deveriam merecer. Sublinho aqui os pequenos trabalhos domésticos de reparação pois são dentro do seu tipo os mais inquietantes. Normalmente reservam-nos tarefas aparentemente simples, contudo, por uma lei caótica ainda não aprofundada, acabam por se desembrulhar num articulado de pequenos reparos, que envergonhadamente vamos procurando remediar, cada vez mais longe da elementar tarefa a que inicialmente nos tínhamos proposto.
Não raras vezes, o isolamento de uma torneira, um interruptor manhoso, ou mesmo uma tranca de porta preguiçosa, acabam por abanar a serenidade do mais prevenido ‘bricoleur’, já atiçado sobre as ferramentas, estas esbaforidas por cada canto da casa, ele a ouvir estupefacto, já desacreditado, a família a escapulir-se com um “a gente vai só ali e já volta”. Mas no género dos “jeitinhos” mais manhosos coloco indiscutivelmente o arranjo de estores (ou persianas, conforme o ponto do país de onde se leia). Este afazer a que descontraidamente nos podemos lançar mesmo após uma bela feijoada, começa invariavelmente pela tentativa de acesso à caixa dos estores, a qual de coisa simples de “só um jeitinho aqui”, talvez por um ligeiro excesso de diligência, se acaba por transformar num caos de buchas arrancadas e um pouco de massa de cimento que já só amanhã poderemos arranjar para reconstituir o canto que entretanto se fragmenta pelo chão da sala.
Refeitos dessa contrariedade, e perfilados de um espírito filosófico, rapidamente nos propomos remeter esse “pormenor” para o final dos trabalhos. Depois vem então a parte seguinte, o desenvencilhar das cintas. Esta operação, simples, é contudo pouco elegante, já que nos faz retorcer, quase enfiar meio corpo para dentro da abertura que afinal é estreita demais e, por fim, rouba-nos toda a recomendável postura - de pai extremoso e de marido jeitoso, acabamos por sair de lá de dentro brancos de pó, escondidos por entre uma cabeleira de teias, e com aranhinhas bamboleando-se do nariz, enquanto disfarçamos a mão entalada na calha que os guia, aos malfadados estores. Por esta altura já perdemos todo o capital angariado de trabalhos anteriores, esses, porventura melhor sucedidos. Porque nesta coisa dos trabalhinhos de casa, mais do que o resultado final, é a elegância e o preparo que contam para qualquer pai de família.
Chega então a fase técnica. Normalmente é apenas substituir as fitas, reprendê-las no rolo, uns parafusos aqui, uma puxadela ali e fica pronto. Já fiz isto vezes sem conta. E de todas as vezes, como esta, faço-me prometer que nunca mais caio noutra. De todas as vezes, como esta, depois de andar a rebocar a parede, de ter esbanjado o prestígio de pai e marido, acabo aos pontapés ao rodapé e a chamar-me estúpido perante a estupefacção dos meus filhos, dos vizinhos, e já mais ao longe do senhor da sapataria e quase acredito até dos bombeiros lá no virar da esquina. De todas as vezes, como esta, quando já com a caixa fechada, as ferramentas arrumadas e o aspirador nos últimos sôfregos de pó e cimento, experimento a obra acabada, acabo por descobrir que sempre que se arranja um estore, deixamos a fita em baixo em vez de enrolada no tambor!!! O que significa apenas que tudo irá ter de recomeçar.
O arranjo de estores é por isso coisa que me é ingrata. Vejo-me quase sempre a deixar para um outro dia o arranjo, do arranjo que fiz - que por mais brio, já não há espírito para encarar aquilo de novo. Resignado, sei que irá passar o tempo suficiente para voltar a olhar para a persiana com ímpetos de a arranjar. O tempo suficiente para esquecer a lição que me levou a desistir desta vez. Hei-de então lançar-me revigoradamente, hão-de cair de novo os parafusos e as buchas nos remendos de cimento que lá acautelei, hei-de perder a compostura de novo no meio de tanta teia de aranha e tanta contrariedade, e no fim, depois de passar por tudo de novo, acabarei incontornavelmente por confirmar que a fita ficou de novo em baixo.
Amanhã vou arranjar o telhado, ou começar os planos da nova cozinha. Hei-de certamente arranjar coisa mais simples do que esta de arranjar estores.
Publicado por Eufigénio Lagoa às março 29, 2005 05:57 PM
Comentários
LOL! Pericaso, para gajo, até és muito parecido comigo quando me vejo confrontada na contingência de executar qulquer trabalho inadiável desse género, tal como mudar uma lâmpada...;-PP
Publicado por: Mar em março 30, 2005 03:13 PM