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fevereiro 14, 2005
Um "115" para este lanchinho por favor
A propósito deste post, e da atrapalhação humorada da Catarina, veio-me à memória um episódio da minha juventude, dramático mas caricato. De facto o pânico tolda-nos muitas vezes o discernimento. E se bem que em adultos, por culpa dos acidentes e incidentes da vida que vamos acumulando, nos tenhamos de alguma forma treinado para lidar com isso, quando ainda jovens, é natural que ocorram cenas tão caricatas quanto esta que agora recordo.
Teríamos aí uns 13-14 anos, idades sôfregas, em que as tardes pareciam intermináveis e a fome insaciável. Foi pela combinação destes dois factores que acabámos por alternar as nossas brincadeiras de todos os dias, na rua, com faustosos lanches em que nos esmerávamos não apenas na deglutição, mas também na confecção. Aliás, creio que em determinada altura esta terá sido mesmo a nossa actividade mais importante, ou pelo menos, encarada mais a sério. O deleite com os lanches era tal que rapidamente nos fizemos mestres da cozinha. Já não nos bastavam as carcaças com manteiga, nem mesmo se depois polvilhadas com “Milo” a fingirem-se de chocolate, nem já com o açucareiro generosamente despejado por cima considerávamos agora razoáveis estas variantes que durante anos nos haviam bastado. Não, os nossos lanches exigiam já um nível de sofisticação tal que aquele que não trouxesse consigo alguma arte culinária fatalmente se veria ostracizado daqueles repastos. Devo ainda dizer, para que melhor percebam a enorme avidez que por ali andava que na maior parte das vezes recorríamos ao estratagema de lanchar em casa de um, até sermos escorraçados da cozinha, para logo de seguida nos fazermos falidos de fome em casa de outro e assim repetirmos a dose. Com aquelas hormonas não havia fome que se saciasse ou gula que se atenuasse.
Estes nossos dotes, tinham sido treinados de forma esmerada e especializada, embora não se constituíssem em mais do que 3 ou 4 alternativas ao lanche. Foi por essa altura que me especializei no bolo de bolacha que ainda hoje sei fazer e vejo gabado, pois pudera. Era tal o gosto que tinha pelo mesmo que depois de feito o escondia com sovinice na arca frigorífica ao abrigo dos meus 5 irmãos. Ainda assim, numa tarde era bem capaz de o devorar todo, por vezes sem mesmo dar tempo a que este absorvesse o refrigério necessário para a sua consistência. Numa tarde comia-o sozinho e por inteiro, e nem por isso menos pronto para o reconfortante jantar que se avizinharia. Essa guloseima era a arte com que eu me apurara e que naturalmente partilhava naqueles lanches de grupo. Mas havia outras.
Estou a lembrar-me por exemplo que outro, o M. creio, se tinha especializado em fazer açúcar caramelizado. Bem sei que é coisa simples, mas ali a arte estava nas proporções do açúcar com a água, ou melhor na desproporção. Havia que abusar no açúcar de tal forma que o caramelo final nunca chegasse completamente a endurecer. (é isso que se chama de ponto de rebuçado?). Depois era só esperar pelo tempo certo (mais uma vez a técnica), deitar aquilo sobre o tampo de pedra da cozinha, chegar para junto os bancos e as colheres, e regalar-nos com aquele visco delicioso durante um conversado lanche.
Recordo que o F. se tinha especializado em ovos mexidos. Também aqui nesta arte aparentemente simples havia ciência, e muita. Os nossos ovos não eram iguais aos outros, e se bem que a técnica tivesse sido descoberta por mero acaso, muito nos orgulhávamos dela. A sua manufactura pressuponha uma intencional hesitação, para desta forma repetirmos com rigor o processo original, pelo qual, por mera casualidade, tínhamos descoberto tão apetitoso resultado. Assim, primeiro vertíamos o ovo como se o quiséssemos estrelar, depois, quando as suas claras começavam a esbranquiçar, mexíamo-lo rapidamente para que o mesmo resultasse numa mistura deliciosa entre as claras e a gema, entre o branco e o amarelo. Esta arte só podia ser executada na cozinha do F. pois era ali que se encontravam umas frigideiras de barro, estas suporte essencial para a nuance pretendida naqueles ovos com que depois encharcávamos os pães.
Pois bem, ou porque era isso que nos tinha apetecido inicialmente nessa tarde, ou porque muito provavelmente já tínhamos sido escorraçados de outras cozinhas (escusado será tentar descrever o estado lastimoso em que normalmente deixávamos as cozinhas, pelo que as repetidas retaliações das nossas mães tinham de ser geridas com parcimónia de entre as várias casas disponíveis), foi em casa do F. que aportámos o apetite desse dia.
Apesar das nossas preocupações quase profissionais nestas lides, nem por isso deixávamos de estar receptivos a alguma inovação. Foi assim bem acolhida a sugestão que alguém, creio que o irmão do F. trouxe de novo. Arriscámos experimentar então nova ementa. Esta variação passava por ser qualquer coisa como uma massa que se levaria ao óleo a fritar, para depois se fazer rolar em tanto açúcar quanto a conseguíssemos recobrir. Admito que o resultado final viesse a ser parecido com uma fartura, ou um churro como também se diz. Nunca o pudemos confirmar de facto.
Enquanto se preparava a massa deixáramos o óleo a aquecer, que se queria bem quente, ao que ele nos dizia. Depois, enquanto fazíamos os rolinhos continuámos a deixá-lo a ferver, aqui já por distracção. Entretanto borbulhava já, e nós continuávamos a preparar uma travessa inteira, com o devido vagar, com aqueles rolinhos que se haviam de fritar. O óleo zumbia. Nada que achássemos estranho. E lá emprestávamos os nossos cuidados culinários, com tanta calma quanto se queria, e abusando do facto de ali por casa, naquele momento, não haver nenhum adulto importuno.
Finalmente o J., o irmão do F., aquele que trouxera a receita, preparou-se para executar a parte mais complexa e que certamente lhe traria alguns créditos em futuras lancharadas. Pleno de confiança, com um ar exageradamente solene ia explicando a técnica enquanto deitava a uma vez todos os rolinhos que tínhamos acabado de arredondar. Assim que despejados estes, o óleo, que já de si se queixava borbulhando de tanto calor que lhe houvéramos dado, de imediato cresceu até verter para fora da fritadeira, respingando e zumbindo com uma raiva descontrolada.
A seguir tudo se desenrolou tão rapidamente que aqui o conto em três linhas. Assim que a espuma de óleo chegou junto do bico do fogão, de imediato ressaltaram labaredas. Nessa altura o nosso pânico era já mais que muito. Andávamos ali nos “ai, ai e agora” e já um mais expedito tinha agarrado num jarro com água e num gesto desembaraçado tinha deitado com ela para cima do óleo. Escuso de dizer o efeito que isso teve. Em dois segundos as labaredas daquela combustão precipitada chegaram ao tecto. O desacerto era de tal ordem que enquanto uns refilavam com o que tinha sido mais prestimoso, os outros corriam de um lado para o outro sem nada saberem que fazer. Entretanto os painéis de plastiglex da chaminé começavam a incendiar-se e contaminavam toda aquela atmosfera com um fumo negro e espesso. Tudo fora de controlo.
Finalmente alguém se lembrou que o melhor seria chamar os bombeiros - “alguém que telefone para o 115, rápido !! ”. O F. encaminhou-se então despachadamente para o telefone, eu seguindo-o solidariamente. De auscultador na mão, quase prestes a discar o número, ele hesita, olha para mim e pergunta: “Sabes qual é número do 115?”. Entretanto o fumo começava a alastrar pela casa inteira, e o barulho já ameaçador (e que gritos tem o fogo!) tinha afastado os outros da cozinha. Solícito, rapidamente retorno para junto deles e pergunto “Alguém sabe qual é o número do 115? depressaaaa”. Estávamos todos tão desesperados, tão imprestáveis, que quando o M. respondeu “Ó pá, vejam na lista telefónica caraças, e não se demorem. Rápido!!!”, o achámos com um enorme sangue-frio.
No dia seguinte, enquanto constatávamos que ainda assim aqueles churros apenas tinham custado afinal pouco mais do que o estuque do tecto da cozinha e uma pintura em algumas assoalhadas, e apesar do ar compadecido que tentávamos junto dos adultos, ainda ouvíamos entre nós alguém a rir baixo “qual é o número de telefone do 115? Qual é o número de telefone do 115? …eheheh”
NOTA: Naquela altura o número 115 era um número universal que se prestava para qualquer tipo de emergência. Mais tarde foi mudado para o 112, este vocacionado ao que creio só para atendimento de urgência médica. Quer isto dizer que se tiverem um incêndio durante o lanche é mesmo aconselhável irem procurar o nº tel. à lista.
Publicado por Eufigénio Lagoa às fevereiro 14, 2005 08:25 PM
Comentários
:DDDDDDDD
Até me dói o nariz de rir! :DDD
Publicado por: catarina em fevereiro 14, 2005 08:49 PM
ahahahahah!!!!!!!!!!!!!!!!
Por várias ordens de razões, essa incluida, prefiro o bolo de bolacha!
Publicado por: Guida Alves em fevereiro 14, 2005 09:07 PM
Catarina, isso é da sinusite :)
Guida, mesmo sem lume, os bolos de bolacha não deixam de ser perigosos na sua confecção. Pensar o que pode acontecer a uma arca congeladora com um bolo de bolacha esquecido no fundo, este já gelo, e vice-versa, e um puto enfiado lá dentro, de cabeça para baixo, a martelar aquilo com uma faca. Mas isso são outras histórias
Beijos às duas
Publicado por: Eufigénio em fevereiro 14, 2005 09:12 PM
Mais uma fabulosa...
Publicado por: Luna em fevereiro 14, 2005 09:56 PM
Eg....tás em 22º lugar no Weblog dos mais visitados.....
Publicado por: Luna em fevereiro 14, 2005 10:28 PM
Olha! Mas isso é tanga Luna! aquilo deve andar com gripe. E francamente, não é coisa que me entusiasme muito. Eu é mais voltinhas e bejecas
Publicado por: Eufigénio em fevereiro 14, 2005 10:41 PM
Bjecas?
Penso que está tudo combinado. Ouvi dizer que é hoje. Lá estarei.
Abraços,
Nota: Ó JPT queres aparecer também?
Publicado por: MB em fevereiro 15, 2005 09:29 AM
E lá estive.
Éramos tantos e foi muito bom.
JPT não te vi lá, porquê?
Publicado por: MB em fevereiro 16, 2005 09:38 AM
Assim muitos, muitos mesmo, só vi as carcaças das bjecas em cima da mesa. E essa do "foi muito bom" ... que queres dizer com isso oh MB? Não sei porquê isso não me soa bem pá.
Publicado por: Eufigénio em fevereiro 16, 2005 10:04 AM