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fevereiro 07, 2005

Raios partam os compromissos, raios me partam a mim

Ontem ainda tentaste deixar escapar que afinal não te estava a apetecer ir ao acampamento. Mas nem sei porquê Francisco, que puto teimoso tu és, se afinal já sabes o que eu acho sobre o compromisso. Tenho a certeza de que ainda te lembras do que te disse quando te perguntei 3 vezes se querias mesmo ir. Lembras-te? Eu alertei-te repetidamente para que, se o assumisses, terias de o cumprir. Foste tu quem ligou ao teu chefe na 4ª feira, confirmando que ias, que querias ir. Eles estão a contar contigo. A partir daí terás de fazer o que disseste que farias e não apenas o que te apetece fazer. É isso o compromisso, é isso que espero que cumpras hoje, e se possível nos outros dias da tua vida. Por isso insisto tanto, não para ser bera contigo, não para me armar em pai mandão, mas apenas porque acho que te devo fazer sentir isso. Que frio está hoje. Quase me apetece dizer que sim, que não vais. Até porque este acampamento afinal, não é a coisa mais importante do mundo. Mas que frio está. Mas os nossos compromissos são para cumprir. E vais bem agasalhado, levas gorro e luvas, e tens lá muita roupa. Mas está de facto muito frio. Mas este terás de cumprir, percebes isso agora não é?

Há coisas em que um pai deve forçar, mesmo que lhe apeteça o contrário. Este é o meu compromisso. Tal como o teu, é algo que acho que devo cumprir, mesmo que não me apeteça fazê-lo. O forçar-te a assumir o teu compromisso é o meu compromisso de hoje. Mas esta madrugada, 7ºC , é de facto muito frio. Mas nós tínhamos dito que sim e vais, pronto. E agora até já nem pensamos nisso. Que bela viagem estamos a fazer. Nada como uma noite bem dormida para levantar a moral não é? Que bela viagem, cheia de humor, boa disposição, divagações como tu tão bem sabes fazer e eu tanto gosto de tentar acompanhar. E o que a gente se riu quando insinuei que ia chover! Que nem o dissesse rias tu, que nem o tentasse dizer que isso traria má sorte, que já chegava o frio. E riamos com o facto de todas as vezes que foste acampar ter chovido. Até no verão. E por isso não querias ir hoje, porque das outras vezes em vez de acampado acabaste acantonado e encharcado e enregelado. Mas agora, dois meses sem chover e logo hoje, seria grande azar. Que seria só frio sem chuva, que isso já bastava. E ríamos todos.

Passou-se num instante esta viagem não foi? Valeu a pena este madrugar. Chegámos um pouco atrasados mas bem dispostos. E os teus amigos ainda estão todos aqui, ainda ninguém partiu para o ‘raide’. E que grande festa te fizeram. Beijos miúdo. E já agora agradeço-te não ver em ti ressentimentos. Essa cara de puto para quem tudo está sempre bem deixa-me aliviado. Mas o frio …brrrrr, 6ºC agora. Ainda bem que trouxeste o gorro. Ainda bem que te despediste com um sorriso a tranquilizar-me. Ainda bem que partiste logo com os teus amigos, mostrando-me que afinal eu tinha razão, que afinal o que lá nos parece depois pode ser outra coisa. É isto o compromisso, o sabermos que o temos de fazer, e fazê-lo com a satisfação de o poder saborear, e não termos de tornar isso uma penalidade. É assim que se devem encarar os compromissos. Vejo que percebeste onde queria chegar. Mas que frio que está. Nada, tu estás bem agasalhado e vais divertir-te. Além disso tinhas dito que vinhas. É assim mesmo.

Mas este frio! Olha, estamos a partir. Tu já lá vais ao fundo, quase só te vemos a mochila enorme e as pernas magricelas por baixo. Mas vais bem, isso vê-se pela forma como caminhas, e pelos gestos de mãos que se vão mostrando por trás da corcunda de coisas que levas. Quase ainda te vejo no retrovisor … Já menos agora?!! Num ímpeto caiu sobre nós esta maldita tromba de água! Deixei de te ver, deixei quase de ver a estrada. Queria tanto voltar atrás agora para te ir buscar. Mas não o farei. Eu também faço parte do teu compromisso. Aliás sei que não virias já.

Mas se gritar alto talvez me ouças. Talvez não. Não precisas de o ouvir. Não convem que ouças. Mas eu preciso de o gritar como se tu ouvisses. Apenas para te dizer que há outras coisas importantes na vida de um homem, para além dos compromissos. A possibilidade de ele dizer “desta vez não! Desta vez não quero ter este compromisso. Que se lixe!”. Espero que da próxima vez, quando te falar de compromissos, um de nós o saiba dizer assim. É que às vezes é tão difícil para mim conseguir aguentar os teus compromissos filho.

Boa noite. Agasalha-te.

Publicado por Eufigénio Lagoa às fevereiro 7, 2005 02:07 AM

Comentários

Eu não seria capaz, acho eu. Boa noite, Eufigénio.

Publicado por: catarina em fevereiro 7, 2005 02:31 AM

não me digas nada Catarina ...

Publicado por: Eufigénio em fevereiro 7, 2005 02:32 AM

Mas acho que fizeste bem.

Publicado por: catarina em fevereiro 7, 2005 02:38 AM

Olha, vou dormir ...tentar ... estou inconsolavel. E tinha-me aguentado tão bem até agora. Porque me ponho eu a escrever estas merdas, estes expurgos de consciência?!

Publicado por: Eufigénio em fevereiro 7, 2005 02:41 AM

Porque só fazem é bem. Este é daqueles textos que vou guardar. Deixa lá isso que ele se vai divertir imenso. :)

Publicado por: catarina em fevereiro 7, 2005 02:43 AM

E agora nem sequer está a chover pois não? :)

Publicado por: Eufigénio em fevereiro 7, 2005 02:44 AM

Não! Não chove agora.
Sim! Fizeste bem. Afinal o que é um acampamento sem chuva?

Publicado por: cap em fevereiro 7, 2005 02:57 AM

um bom compromisso ?

Publicado por: Eufigénio em fevereiro 7, 2005 03:03 AM

Se me puser na tua pele numa situação destas, acho que teria exactamente o mesmo discurso.

Publicado por: cap em fevereiro 7, 2005 03:07 AM

Nada como os nossos filhos para nos fazerem duvidar de tudo...mas acho que fez bem...compromissos são compromissos..responsabilidades assumem-se...mas está tanto frio,coitadinho..vai ver que ele vai trazer um monte de trapalhadas giras para contar e o saldo será positivo,em tudo.

Publicado por: monalisa em fevereiro 7, 2005 03:09 AM

Eu também acho que fiz bem, mas isto não tira aqui este nó na garganta. Mas isso eu sei que vcs tambem sabem.
E ajudou muito 'ouvir-vos'.
Boa noite Catarina, Cap e Monalisa

Publicado por: Eufigénio em fevereiro 7, 2005 03:21 AM

Meu Deus, há quanto tempo eu não vertia uma lagriminha "furtiva"! (Eu sou muito , como é que hei-de dizer... mulher e uma mulher não chora!)É muito todos os adjectivos que tu quiseres aguentar e ensinar a aguentar a adversidade, mesmo que ela seja só climatérica como estas. Não estou a desvalorizar esta adversidade, só estou a dizer, porque sei, que os nossos filhos devem ser educados para vencer obstáculos e mais que agora aqui não desenvolvo. Já está outra vez a voltar a minha lagriminha estúpida. Vou ali ao cirurgião para ele me coser melhor o saco lacrimal... Deve ter ficado algum ponto em vão.
Beijinhos queridos Eufigénios todos. Se tu fosses um dos meus filhos (que eu já só kota) eu estava muito orgulhosa. Assim, também estou, só por ter a sorte de te e-conhecer!

Publicado por: madalena em fevereiro 7, 2005 09:08 AM

Eg...deixo te um beijo...
No entanto apetece-me dizer-te isto, é tão bom puderes assumir esses e outros compromissos com eles...hoje vou assumir o meu compromisso de levar "filhos", que tanto eles como os pais gostariam de o fazer, que quiseram acantonar quais escuteiros mas que precisam de mim para seguir as pistas!
Não fiques com isto a pensar que minimizei o teu belissimo texto, também eu com a minha jogadora faço o mesmo, embora por vezes o nó na garganta só desapareça quando a tenho ao pé de mim mas é a melhor maneira de os educarmos para respeitarem e serem respeitados. Não posso no entanto fazê-lo com a outra... Desculpa a extensão....:)

Publicado por: Luna em fevereiro 7, 2005 10:54 AM

Madalena,
Dás-me quase mais mimo do que eu aos meus filhos :)

e Luna,
Puseste a minha autocompaixão no seu lugar. Quase já desnecessário que acordei outro, já sol lá fora.
(aproveito para te dizer que acho que tens um belo compromisso com esses "teus" filhos)

Publicado por: Eufigénio em fevereiro 7, 2005 11:02 AM

O teu lado eu nunca senti, mas o lado do Francisco conheço perfeitamente!
Faz parte de um acampamento existir um imprevisto! e é isso que o torna ainda mais interessante, mais mágico! e é isso que nos vai tornando mais fortes! seja chuva, mau tempo, ...
Vais ver que ele vai vir super satisfeito e cheio de histórias!
Fala a voz da experiência! o que me custava acordar de madrugada para ir acampar...mas no momento em que chegava ao ponto de encontro mudava totalmente o meu estado de espírito! e pensava sempre "que bom afinal ter vindo!"
Bjs

Publicado por: Cacau em fevereiro 7, 2005 12:12 PM

Faltava-me a teu testemunho avalizado Cacau. Acho que já consigo sobreviver até amanhã ...rs.

(mas olha que de imprevisto esta chuva não tem nada: ele acampa, a chuva volta ... aquilo é "cavadela minhoca" coitado.)

Publicado por: Eufigénio em fevereiro 7, 2005 02:50 PM

teste

Publicado por: vague em fevereiro 8, 2005 06:31 PM

Sorrio ao ler-te e uma ponta de melancolia surge e tem q se ir embora, a seguir tenho de organizar com calma as coisas para amanhã.
O meu pai deu-me (deu-nos) ao longo dos anos uma noção de responsabilidade q me tem acompanhado. Um delas: estava qse a entrar na faculdade qdo decidi desafiar o meu pai, dizendo q não queria continuar a estudar, o q por acaso era mentira. Mas estava aborrecida com ele por qq razão e saquei de algo q supostamente o iria fazer argumentar contra mim.
Simplesmente o meu pai, calmo e experiente disse-me apenas q decidisse eu o q decidisse a responsabilidade seria minha. dava-me a oportunidade de continuar a estudar mas se eu não queria ele não podia fazer nada.
Enfiei a viola no saco juntamente com os meus contra-argumentos artilhados :)

Concluindo: é difícil e ao mesmo tempo um momento feliz ver os filhos (falo como filha colocando-me na perspectiva dos pais) trilhar um caminho q lhes pertence apenas a eles. É um pouco largar o rebento qdo o teu instinto seria abraçá-lo e evitar-lhe todas as dores, todos os frios, todas as tristezas.
Mas há coisas q se tem aprender por si próprio e se um filho tem de aprender tanto como ser humano, um pai tb aprende com os filhos a superar-se a si próprio e ao seu instinto maior de os proteger de tudo, exactamente para os proteger...
Faz sentido para ti o q digo?
Para mim faz todo e não preciso de ser mãe para sentir o que sinto. E vendo a minha sobrinha bébé, apercebo-me com mais proximidade da enorme maravilha, da grande responsabilidade e do grande desafio q é criar um ser humano para a vida.
Até :)*

Publicado por: vague em fevereiro 8, 2005 06:59 PM

Claro que faz sentido Vague. faz sentido como filho e como pai. Mas o que se sente na altura não é adocicado por sabermos isso.

Entretanto ele já chegou Cacau, e tal como tu tinhas dito cheio de histórias para contar :)

Publicado por: Eufigénio em fevereiro 8, 2005 09:04 PM