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fevereiro 14, 2005
Porque hoje é dia dos Namorados
Estas memórias dedico-as à minha primeira namorada...
A primeira vez que me apaixonei foi há quase 30 anos atrás. Era uma loirinha magricela, que eu entrevia pela janela da minha sala de aula. Profundamente tímido, demorei quase um período escolar até ao primeiro “olá” num intervalo das aulas. Foi coisa engasgada, enrubescida, e pouco retribuída. (Na verdade nunca chegou a ser minha namorada, mas apenas porque na altura ela não o sabia.)
Uns meses depois vim a descobrir que ela morava a uns escassos duzentos metros de mim. Foram os melhores dias do meu cão, ele que nunca terá passeado tanto. Era um enorme pastor alemão, que me arrastava desvairadamente por todo o bairro. Ainda assim, quase sempre o conseguia domar até junto da janela dela. Nos melhores dias ficava ali amansando-o nos degraus do seu prédio, noutros, menos bem sucedidos, mais não conseguia do que esquiá-lo em redor do quarteirão inteiro. Certo é que ele nunca tinha passeado tanto e eu nunca tinha estado até então tão perto dela.
A persistência com que combatia aquela profunda timidez trouxe os seus frutos. Primeiro um enorme “ah, vives aqui” com que disfarcei a coincidência. Depois começou a tornar-se frequente o quase entrechocarmos, e então ríamos da forma como aquele animal me rebocava. Era contudo uma situação lamentável para os meus intentos. Trazia-me inconsolável o ver-me abruptamente arrastado pelo cão para longe dela. Ainda desferia uma graça qualquer a esse propósito, mas já raramente lhe conseguia ouvir resposta, eu já longe.
Passaram-se meses. Paciente e escrupulosamente fui mudando de estratégia. Decidi acercar-me do círculo de miúdos que todos os dias cirandavam lá pela rua. Num bairro jovem, com níveis etários muito próximos e tanta miudagem, essa era tarefa fácil. Rapidamente constatei que muitos deles eram afinal nossos amigos comuns. A nossa aproximação, ajudada pelos episódios anteriores passou a ser algo já natural.
Passámos então a fazer parte do mesmo círculo de amigos. Mas curiosamente, à medida que lhe ia sendo mais próximo e crescia uma forte amizade, esta, de forma inexplicada, aos poucos, absorvia aquele encantamento passional. O meu acanho poderá ter sido a causa para essa paixão, depois de tanto esforço, de tanto estratagema, de tantas expectativas, nunca se ter declarado de forma aberta entre nós.
Ou algo mais a terá escondido dentro de mim, àquela paixão, ainda afogueada, mas refundida lá fundo, afastada até dos meus pensamentos. Ceio hoje que, e embora o não soubesse então, estaria a resguardá-la para outros tempos, mais próprios, nos quais me fosse possível poder alimentá-la, à paixão, e fazê-la continuar comigo. Definitivamente, não permitir que ali se consumasse como coisa fugaz, como uma peculiar experiência de amor de um rapaz púbere, algo que se tornaria irrecuperável no tempo e que mais não seria que coisa episódica, e que hoje apenas recordaria vagamente.
Certo é que a nossa amizade se manteve, e acabámos por crescer juntos. A adolescência e depois os acasos da vida já adulta fizeram com que nos passássemos a ver com menos frequência, mas a nossa relação manteve-se, apesar de já só ocasionalmente a ver.
Um dia, 15 anos depois desta minha primeira paixão, apaixonei-me de novo. Casei pouco depois. Ainda hoje, quase 15 anos depois do nosso casamento, quase 30 depois daquele dia em que eu espreitava escondidamente aquela miúda magricela da janela da minha sala de aula, ainda hoje estou a reconstruir aquela minha primeira paixão, um bocadinho todos os dias. Pelo meio houve outras paixões, naturalmente, em que confesso ter-me saído sempre um pouco desajeitadamente, mas o meu primeiro e último amor, o mesmo, esse soube-o tomar bem para mim.
… e à mulher que amo.
Publicado por Eufigénio Lagoa às fevereiro 14, 2005 01:09 PM
Comentários
Liiiiiiiiiiiiindo! Sabes quantos anos eu e o meu "Valentino" temos de namoro? Trinta e três! Eu ainda pensei fazer assim um post amoroso e romântico como o teu, mas depois, em Português a coisa não soa bem: This is dedicated to my Valentine! É bonito! Este (ou isto) é dedicado ao meu Valentino! Não soa bem!
Bem, bem deste tu a volta à língua portuguesa e escreveste um post lindíssimo.
Parabéns e um dia feliz para os Eufigénios todos!
Publicado por: madalena em fevereiro 14, 2005 01:36 PM
Eu e o meu Goto temos um namoro cheio de carinho e amor há cerca de 7 anos...
Feliz dia a todos!
Publicado por: Gotinha em fevereiro 14, 2005 02:02 PM
Eufigénio, uma pessoa lê isto e fica a sentir-me melhor com o mundo e até da gripe! :)
Um grande beijinho aos dois.
Publicado por: catarina em fevereiro 14, 2005 02:29 PM
*sentir-se
Publicado por: catarina em fevereiro 14, 2005 02:30 PM
Música com baba e latim com barba.
Publicado por: bill em fevereiro 14, 2005 02:34 PM
Eg...ãã...é..
Beijos aos 2
Publicado por: Luna em fevereiro 14, 2005 02:57 PM
Parabéns! Pela mulher que tens, pelo post... e já agora pelos miudos!
Publicado por: Zoick em fevereiro 14, 2005 03:08 PM
uma pessoa fica sem palavras para dizer o quê e ao mesmo tempo com vontade de dizer que se ficou com um sorriso enorme...:)!
Publicado por: vague em fevereiro 14, 2005 04:16 PM
Como disse a Vague, :))))))))))))))))))))))))))))
(ainda só vou fazer 22 anos de namoro)
Publicado por: cap em fevereiro 14, 2005 11:59 PM
Lindo, sim senhor. que coisa bonita de se viver e escrever e ler e
Publicado por: JQ em fevereiro 15, 2005 11:57 PM
lindo, sim senhor. que coisa bonita de se viver e escrever e ler e
Publicado por: JQ em fevereiro 16, 2005 12:38 PM
Eu tinha-me prometido não comentar aqui, (nada tenho a acrescentar ao post), mas abro uma excepção só para perguntar ao JQ: Isso foi para contrariares o impulso de comentares o post do BDE? :) … (deixa lá, que eu também estou com uma vontadinha de chamar uns nomes ao Eufigénio que nem calculas)
E já que abri esta caixa de comentários…
Este blogue não tem nem terá direcção. É uma caixinha que não segue um estilo, desconhece a sua pretensão, e ignora o que dirá amanhã. É deriva pura. Por isso aqui alternam as "loirices" com outras coisas mais de dentro, coisas que se escrevem sem que eu as consiga esconder do olhar público. As primeiras deixam-me envergonhado depois de as ler, ao compreender que essas frivolidades também fazem parte de mim. As segundas normalmente fazem-me hesitar quando as escrevo, e é aí que se esgotam, e de alguma forma me esgotam. Este post foi o tudo de tudo isso. Fez-me sentir um pouco envergonhado ao lê-lo e ao sabê-lo publico, e fez-me hesitar quando o editava por saber que assim matava irremediavelmente a possibilidade de o escrever de forma mais própria, que mais próprio teria de ser, sempre. Foi também o post mais mal escrito de todos quantos aqui já escrevi, se considerada a distância com aquilo que queria escrever, e não sei.
(para quem não queria aqui deixar comentário … pois)
Beijos e Abraços a todos
Publicado por: Eufigénio em fevereiro 16, 2005 01:08 PM
Aqui para nós que ninguém nos lê, mal escrito foi este teu último comentário. O post está na justa medida! (Se não o quiseres, assino-o eu. ;) Tomara!) :)))
Publicado por: cap em fevereiro 16, 2005 11:31 PM
eheh, tou eu a lê-los (que som e rimas horríveis tem este «lê-los» )e a concordar c/o último comentario.
eufi, fizeste um strip e agora vens vestir-te à pressa. para quê? todos adoraram e (excepto eu) ninguém vai avisar a tua 1ª namorada
Publicado por: JQ em fevereiro 18, 2005 09:22 PM
Amigo Cap,
pede-me outro que quiseres, o que quiseres, mas este aqui já tem dona. E há largos anos, embora só agora se tenha escrito.
Por falar em dona JQ,
ao que sei não precisas de avisar ninguem. Parece que a 1ª namorada já o lei, e que o disse à última e que esta me fez saber que já sabia. Enfim, já um homem não pode pendurar aqui confidências, que vem logo toda a gente espreitar.
E JQ, no meu comentário não me estava a vestir á pressa, pelo contrário, estava a dar um chuto na roupa que deixara caída pelo chão.
Publicado por: Eufigénio em fevereiro 18, 2005 11:49 PM
ok, ok. já um homem não pode pendurar aqui um comentario 1/2 engraçado(?)...
Publicado por: JQ em fevereiro 19, 2005 10:51 AM