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fevereiro 25, 2005

Batatinhas congeladas? Bahhh ... as coisas que nós pensávamos!

Há pouco, a interpor o jantar com a futebolada (ah grande Sporting, ah que grande jogatana). Entretanto chegam os pratos pedidos, o odor quente a lembrar-nos da fome, a disputar a nossa atenção. Pouco depois a Eufigénia comenta, talvez com o propósito de nos aproximar ao talher:
- Que belas batatas. Estas são a sério, das genuínas!! - Abstraído, acabei a provar uma, tacteando-a com os dedos, que os olhos, esses presos na tela grande. Noto-me a assentir, mas achar aquilo estranho sem saber porquê (genuínas?). A expressão, depois a minha anuência, ficam-me como um despropósito. Impulsivamente lanço-me a rebobinar. Cinco anos, dez, vinte, vinte e cinco anos …

Estávamos por ali, no quarto da P., a acabar a tarde, longe ainda de acabar aqueles tempos de estudante que nos deixavam assim, entretidos a acabar a tarde assim. A irmã tinha acabado de chegar do primeiro ano matrimonial, vinha de um território nórdico e de um marido repórter. De férias de ambos, presumia. As nossas atenções viravam-se naturalmente para as suas histórias daquelas terras vickings tão distantes que quase místicas. Falava-nos de hábitos estranhos, agora, pormenores culinários. E desabafava
- … Mas o pior nem é isso. O pior é mesmo a comida. Aquela gente nem sabe cozinhar.” - E perante a nossa interpelação no olhar, calada, para não interromper
- Aquelas matronas suecas comem sempre o mesmo e compram sempre tudo feito. Vejam lá o ridículo, até as batatas fritas compram já descascadas!” Aí ninguém se conteve em largar um “Ãhh??”. E lá continuou detalhando
- A sério! Eles compram as batatas já descascadas, e congeladas. A única coisa que sabem fazer é pô-las a fritar, e mesmo isso … aliás, tudo aquilo é congelado.”

Pensarmos que aquele era um país bem mais avançado que o nosso, - e no que isso nos sugeria a probabilidade de tal representar, melhor, antecipar, o nosso futuro - e vermo-nos ali a comer batatas congeladas era inconcebível, ridículo até. Não alcançávamos a imagem de um belo bitoque ali esgalhado na molhança já usada da frigideira, que não viesse acompanhado daquelas batatinhas semi-queimadas-semi-cruas, cortadas pelo defeito e com aquele seu saborzinho de coisa que cresceu na terra. Era uma imitação tão surrealista que cada vez ríamos mais desprendidamente. Provavelmente alguém terá arriscado fazer humor ao antever-nos dali a 25 anos a lançar elogios por trincarmos uma batata frita das “nossas”. E ríamos do absurdo. Outro terá até imitado dentro desse registo de humor a nossa expressão a comentarmos espantados "- Que belas batatas. Estas são a sério, das genuínas!!”.

O que a gente ria naquela altura. Do que a gente ria naquela altura.

Publicado por Eufigénio Lagoa às fevereiro 25, 2005 02:20 AM

Comentários

Sem dúvida que as batatas, cebola, alho etc que achavamos impensável agora nos alivia e ajuda na carga diária que tão bem conhecemos, e que também nos permite esgalhar ali á pressa o dito vbitoque e nem dás pela diferença...só dás o merecido valor e por isso quando te cruzam qual objecto raro. Deixa-me só aqui acrescentar que o facto de as mães estarem ali a criar os filhos (a tempo inteiro) ajudava, na casa dos meus pais ainda não entra nada destas modernices acrescentadas com um...voces hoje em dia só comem porcaria!!!!

Publicado por: Luna em fevereiro 25, 2005 10:22 AM

Pois, na casa dos meus pais eu e o meu irmão fomos habituados a estas batatas fritas ultra modernas, apesar do "torcer do nariz" que faziamos. A resposta era imediata "Então descasquem voces as batatas". Rendemo-nos. Hoje, em minha casa, são descascadas manualmente e a tradição ainda é o que era.

Publicado por: Zoick em fevereiro 25, 2005 11:58 AM

Pois é... foi só há +/- há 20 atrás... mais ou menos pela altura que abriu em Portugal o primeiro hipermercado: o Continente.

Ás vezes, sinto que parece que o tempo não passou mas os factos estão aí para demonstrar o contrário.

E depois, gostaria de defender as batatas pré-fritas já que não aumentam tanto o colestrol no organismo como as «genuínas».

E defender a cebola, o alho, a salsa e cos coentros cortados e congelados e o abençoado micro-ondas que permitem criar refeições em poucos minutos e com sabor. É que a única tarefa doméstica de que gosto é cozinhar mas quanto mais diminui o tempo , mais gostamos das coisas que diminuem o tempo de preparação.

Publicado por: maria_arvore em fevereiro 25, 2005 12:00 PM

Naturalmente, ligam o texto às tarefas domésticas, e ao tempo que estas "novas" batatas encurtam. É evidente que não ouso dizer o contrário, eu próprio rendido a estas soluções. Mas falo da distância que vai entre uma e outra coisa, aqui a prolongar o tempo (não a poupá-lo) e dos sabores, e da vulgaridade com que se transformou o espanto do passado. Enfim, apenas cruzo memórias, ignoro o tempo e recordo sabores.

Publicado por: Eufigénio em fevereiro 25, 2005 12:32 PM

«A vulgaridade com se transformou o espanto do passado» é a vertigem com que tudo se modificou. Há 20 anos jogavamos no spectrum, falavamos pelo telefone fixo e escreviamos cartas à mão ou à máquina. Os computadores usavam umas disquetes enormérrimas e moles. E não havia morangos o ano todo...

Publicado por: maria arvore em fevereiro 26, 2005 11:29 PM

É isso mesmo Mª Árvore,
Mas que belos post's tu escreves nestes comentários. Cá com uma vontadinha de ...

Publicado por: Eufigénio em fevereiro 27, 2005 02:25 PM