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janeiro 18, 2005

Férias mesmo é estar com uma bela gripe

No sofá, por entre as mantas perde-se um livro que não cheguei a abrir. Um “Damásio” que me chegou no Natal e que para aqui trouxe com intento defraudado. As letras pesaram-me logo no título. Deixo-o cair displicente, e por ali fica, resguardando-se da minha curiosidade amolecida.

No chão o último Asterix, mais acessível, mas esgadanhado em 30 minutos. Folheei-o com jeito de criança - apenas as letras grandes tenteadas, as pranchas corridas na diagonal bastando para seguir a história, percebê-la rápido, cumprir a pressa de a concluir. E fechado de novo, desperdiçado.

O blog aberto há horas, e ainda assim, apenas meia dúzia de cliques, abrandando-se, pousando-me displicente num qualquer lugar da blogosfera, indiferente este.

A pasta que pedi, com trabalho urgente, ainda nem se abriu. Lá dentro ficam respostas para hoje que ignoro, reuniões que não serão realizadas nem justificadas, projectos interrompidos ontem com contrariedade, afinal agora sem importância.

Só os sons ainda me procuram. Foco-me na batida das obras lá fora, brinco com os ritmos. Fico nisso largo tempo, até me inventar no balanço. Depois distraio-me com o raio que súbito avança para o tapete, brincando com as cores. Esqueço os sons. Fico magicando figuras de luz outro imenso tempo. Depois, nada de novo.

Ficam apenas os sintomas do que sinto. E os sintomas do que sinto são tudo o que eu sou agora. Os meus olhos lacrimejam, convidando-se a fechar, forçando à indolência. A boca seca, prefere-se preguiçosa, sem nada que a altere, apenas assim, deixar-se na dormência do que já quase não sente. O nariz tornou-se inútil, lambido de tanto lencinho de papel, sufocado.

Por fim entretenho-me agora a seguir o torpor do sangue escorrendo-se nas artérias engripadas, quase o consigo seguir por todo o meu corpo, é imenso o meu corpo, com tanta deriva. Estou longe, envolto em nada, nem gestos, nem vistas, nem pensamentos, nem intenções, apenas assim, como se fosse uma visita do que sou. Como se procurasse o potencial mínimo, deixando-me deslizar para a concavidade do nada.

Cessaram-me todas as preocupações, todas as responsabilidades, todas as pressas, apenas fica o tempo, no quanto se tiver de demorar em mim. Sou um espaço de vagar, sou uma dependência do tempo que me irá curar. Inerte, vou-me explorando dos sentidos, que já tanto desconheço, e entretenho-me com estes, mesmo que agora adulterados. E sou capaz de fazer isso durante todo o dia.

E continuo sem perceber porque me estranham as pessoas quando lhes digo que gosto de estar doente.

Publicado por Eufigénio Lagoa às janeiro 18, 2005 01:20 PM

Comentários

Doença bem tratada poucas vezes é demorada.

Publicado por: bill em janeiro 18, 2005 02:37 PM

Apesar de gostares de estar doente desjo te na mesma as melhoras, que doença muito prolongada tb chateia.
Abraço

Publicado por: Alexandre em janeiro 18, 2005 04:42 PM

Alexandre,
Aquilo foi escrito de manhã. Agora, tenho quase a certeza de que já não o escreveria assim ...tens, tens ...Atchimmm...toda a razão.
E oxalá o Bill tb a tenha
Abraços aos dois

Publicado por: Eufigénio em janeiro 18, 2005 04:47 PM

Assim sendo não te vou desejar as melhoras, mas sim, que aproveites o melhor que o tempo te dá nestas alturas!

Publicado por: Zoick em janeiro 18, 2005 05:44 PM

Já foi tudo dito... é bom se for de curta duração e se não der dor de cabeça...
Beijinhos e as melhoras
Get well soon, também soa bem

Publicado por: madalena em janeiro 18, 2005 06:33 PM

Começo a recear o pior, que nem gripe nem constipação.... será outra coisa. Mas por aqui me fico que já anda muita gente chateada de tanta conversa de gatos :)

Publicado por: Eufigénio em janeiro 19, 2005 12:41 AM

Deves andar entre o gostar e o não gostar de estar assim;)... querer e não poder é chato...não querer e poder é bom...
As melhoras;)*
Raquel

Publicado por: Raquel em janeiro 19, 2005 05:09 AM

Raquel,
Essa de me desejares as melhoras, depois de tudo o que disse, não é de amiga :(
ainda assim, beijos

(sobre os "sim" e os "não", entendi-te ... por isso lhe chamei de férias, à gripe, a única forma que nem me põe a discutir sequer se devo ou não...rs)

Publicado por: Eufigénio em janeiro 19, 2005 11:05 AM

Como te entendo Eufigénio. Ás vezes é a única desculpa que temos para quebrar a rotina. Por isso te desejo uma gripe suave e bem aproveitada.

Publicado por: Yurei-san em janeiro 19, 2005 11:15 AM

Esse sim Yurei, esse foi um desejo amigo

Publicado por: Eufigénio em janeiro 19, 2005 11:32 AM