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janeiro 12, 2005
Eu sei, eu também tenho um blog, mas que diabo...
Tenho visto por aí ecoar notícias como esta do BdE , em que se manifesta a indignação, mais ou menos acirrada, pelo despedimento de alguém que mantinha um blog. Na maioria das vezes estas situações são até cogitadas como a acção de um prepotente poder político contra a liberdade de expressão. Antes de avançar devo dizer que tenho sempre algumas reservas sobre todas as opiniões que se manifestam sem reservas.
Nem me atrevo a incluir aqui o caso em referência, citado pelo Jorge Palinhos, pois este esgrime a precavida comprovação no link que nos remete para a fonte, e que me contradiz assim: “…in the satirical blog he writes in his spare time … Mr Gordon, a senior bookseller who rarely mentioned work in his blog and did not directly identify his branch of Waterstone's …”, nos dois pontos que eu pretendo aqui desenvolver. Tenho-o aqui, apenas porque regista o oposto do que quero dizer, e assim melhor sublinha o meu ponto de vista.
Mas certo é que tenho (temos) lido notícias relacionadas, propaladas pela blogosfera, nas quais a evidência destes dois aspectos não está em claro. E sem as citar, é pela generalização que agora incorro.
Com cautela, saberemos nós constatar em quantos dos casos enumerados:
1. O blogger despedido mantinha o seu blog durante o período da sua actividade profissional, sendo isso objectivamente uma das alegações da entidade empregadora?
2. E em quais desses casos o blogger criticava ainda de forma publica a Empresa/Organização, divulgando aspectos da sua actividade empresarial, municipal, etc (conforme os casos)?
Da interpretação destes casos na notícia que os trazem até mim, ressoam sempre a crítica ao poder político, à liberdade de expressão, e até a perseguição ao meio bloguístico. Pois é aqui que me oponho, é aqui que derivo, é aqui que eu manifesto a minha indignação perante a indignação levantada. Admito que tenha a ver com o que o meu pai me dizia “tu tens de estar sempre no contra”, mas a verdade é que acho que tudo isto, na maior parte das vezes, poderá conter alguma distorção. E a seguir me justifico nos dois pontos:
1. Se a entidade patronal, contratualiza com o seu colaborador o seu préstimo profissional, este determinado num volume de horas de trabalho, normalmente explicitado num regime de trabalho, definido de forma precisa; Se essa actividade é compensada salarialmente por remuneração acordada; Se o empregador constata que no período em que o colaborador presta (ou deve prestar) a sua actividade em prol da organização a que pertence, afinal, despende-o para outros fins, estes de natureza pessoal; Se esses fins não trazem directa ou indirectamente benefício à Empresa; Pergunto: Sou eu que não estou a perceber bem onde falha a justa causa do despedimento? Se quiserem posso pôr a questão de outro modo: independentemente de criticarmos o grau de severidade (que aliás não podemos ajuizar porque não conhecemos com rigor toda a situação) parece pouco razoável que alguém seja despedido por, durante o período de trabalho, se entreter a brincar com um “pokemon”? E se for uma outra actividade de usufruto particular, como por exemplo ter um blog, o facto de esta ser uma actividade de expressão intelectual, atenua a gravidade, deve alterar a decisão?
2. Sobre o segundo ponto: A empresa tem o direito de exigir o sigilo profissional aos seus colaboradores, assim como a sua exclusividade profissional por exemplo, neste segundo caso esta deve ser explícita contratualmente, mas já no primeiro caso não creio precisar de tanto, pois a não confidencialidade constituiu objectivamente um dolo para a Empresa; Se um colaborador utilizar formas públicas para divulgar bens, estratégias de gestão, dados, conteúdos da empresa, não incorre numa tentativa consciente de prejudicar a empresa rompendo o princípio da confidencialidade? Quando expõe publicamente no seu blog, criticas declaradas à organização a que pertence, identificando-a, fundamentando estas com o testemunho (confidencial ou não) da actividade da mesma, não está a lesar a empresa? É isso eticamente e profissionalmente aceitável?
Reconheço que não sou um especialista da jurisdição laboral, por isso alguém me diga o que estou eu a ver mal? Ou será que sou um beneficiado sem o saber, será que o facto de ter um blog, (e de lá dizer o que entender, de o trabalhar durante o período da minha actividade profissional) me iliba deste tipo de ónus que tenho para com a empresa? Ter um blog é afinal um caso de excepção, no plano ético e profissional? Insisto, alguém me pode esclarecer?
Eu sei, eu também tenho um blog … Mas que diabo, haverá assim tanto despropósito nisto tudo ??!
Publicado por Eufigénio Lagoa às janeiro 12, 2005 10:38 PM
Comentários
Meu caro Eufigénio. Primeiro vou bater palmas. Na mouche.
Depois, quanto a ser (dentro dessas hipóteses) suficiente para a justa causa de despedimento, manter um blog dentro do horário profissional, isso depende. Creio que seria, sim. Não sei é como se faz a prova. Ou melhor: tecnicamente é simples, não sei é como é a nossa legislação e se é lícito.
(isso é como aquela história da utilização dos emails das empresas para fins particulares: não se deve, mas quem usa não sei se pode ir para o olho da rua, porque aí se mete o problema da invasão da privacidade na abertura dos emails de cada um para provar esse facto.)
Refiro-me ao ponto 1. da tua análise.
Quanto ao ponto 2. nem me passaria pela cabeça alguma vez quebrar o meu sigilo profissonal: mas isso seja em blog ou em conversas de café.
E lesar a entidade empregadora, utilizando o horário de trabalho, brada aos céus...
Creio que o bom senso, como em tudo, deve imperar.
Publicado por: catarina em janeiro 12, 2005 11:06 PM
continua assim que um dia destes estás a escrever sobre política
Publicado por: jpt em janeiro 13, 2005 12:09 AM
Na mouche digo eu Catarina,
De facto é preciso destrinçar os extremos do meio-termo-bom-senso. Não tenho duvidas que haverá abusos destes no trabalho, mas tambem não creio que tenha de ser trabalho é trabalho e cognac é cognac. A comentar estas coisas digo o mesmo, não seremos certamente nós os bons e eles os maus. Pelo menos eu não quero estar do lado dos maus que estão no meio dos bons, nem do lado dos bons que estão no meio dos maus.
(pronto, tinha de ser, tinha de estragar o post todo)
Oh compadre JPT,
É curioso que estava a escrever isto e estava precisamente a pensar que um dia destes ainda te acabaria a pedir guarida lá na horta.
Publicado por: Eufigénio em janeiro 13, 2005 12:19 AM
De menino de bibelots passo a comentador político? humm... continuas acutilante ... pensando bem ...
Publicado por: Eufigénio em janeiro 13, 2005 12:22 AM
Um dia destes, não JPT, ele já começou! :) e bem! Também vi o título da notícia, mas sem toda a informação é "criminoso" tomar partidos. A ser como manifestas nos teus dois pontos é reprovável.
Publicado por: cap em janeiro 13, 2005 01:08 AM
(Tá-me a dar umas ganas de desconstruir esse teu post, Eufigénio... LOL)
Agora a sério: concordo contigo. É óbvio. Mas porque será que, tirando o ponto 2., simpatizo imenso com esse fulano?
Publicado por: João Pedro da Costa em janeiro 13, 2005 03:22 AM
Cap,
Já comecei nada, que isto é um blog sério, e não coisa de arrufos. Até porque não tenho paciência para ler jornais, e revistas lux, e no record só fala de gente importante. Não entro em guerras sem ter comigo pelo menos uma bazuca.
JPC,
(aqui não tocas oh homem das tenazes cirúrgicas. se te controlares eu prometo que tiro de lá o meu comentário sobre a tua dissecação do JLP)
Não terá essa simpatia a ver com a parte do "...in the satirical blog"?, pois :)
Publicado por: Eufigénio em janeiro 13, 2005 09:34 AM
Touché. :))
Publicado por: João Pedro da Costa em janeiro 13, 2005 10:01 AM
De repente senti um peso enorme em cima de mim quando li o ponto 1...
Mas digo sempre o mesmo a mim: "tens de parar, tens de parar de ler os blogs no trabalho..." Será que existe algum BA (Blogueiros Anónimos)???
De qualquer maneira eu concordo 200% com o despedimento, mesmo contra mim falando...
Um dia destes vê-se alguem queixar, no seu blog, que enquanto assaltava um grupo de velhinhas que o chamou de ladrão. Altamente imoral!
Publicado por: Zoick em janeiro 14, 2005 02:13 PM
Zoick,
Todos nós sentiremos, mesmo que ligeiramente, esse peso. Mas acho que tudo tem a ver com a não radicalização em nenhum dos sentidos, acho que um pouco de bom senso chega. Caso contrário também teríamos de deixar de atender chamadas de amigos nos telemóveis das 9h às 18h.
Apanhaste o ponto-chave, é justamente contra as velhinhas caluniosas que falo ...(risos)
Publicado por: Eufigénio em janeiro 15, 2005 04:46 PM