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janeiro 29, 2005
Entre estudante mandrião e astuto criminoso – parte 1/3
Ainda um estudante honrado, embora já adepto da sornice
L á, na instituição onde me formei era identificado por um número mecanográfico, o 26607. Não um nome, nem uma alcunha, apenas um lugar nas pautas. Poderia agora devanear sobre a relação pedagógica que (nunca) tive com aquele Instituto, ou sobre a diferença entre formar, ensinar e apenas seleccionar. Ou ainda sobre o aviltamento de se fazer esta selecção apenas com base no princípio da exaustão física e psicológica, ignorando por absoluto as capacidades intelectuais de quem assim se viu prematuramente expurgado das suas aspirações profissionais, precoce e desonestamente derrotado.
Mas não o vou fazer, não vou falar desta escumadeira ostracista que ousou transformar os 150 alunos ainda envoltos na auréola do mérito de se verem aí seleccionados, orgulhosos de se saberem assim entre os mais promissores do ensino técnico nacional, capazes e pujantes intelectualmente, em pouco mais de 40 escanzelados, socialmente inaptos, psicologicamente falidos, inseguros, raivosos e deformados diplomados. Exagero? Raiva? Talvez. Afinal eu fui um dos sobreviventes, é natural por isso que não aborde a questão com muita objectividade.
E não vou falar sobre isso porque, precisaria de muitas linhas, de opróbrios que me valessem, e porque não é isso que aqui me traz agora. Para o efeito consideremos que de lá, conservo o título, o número, a medalha, e esta sensação de … bem, passemos então à história que aqui venho recordar.
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P or estratégia (*) ou desajustamento, todas as cadeiras daquele curso eram difíceis, e nisso faziam-se competir, quais concorrentes no ranking de alunos a si aferrolhados.
(*) Recentemente, agora lidando com o meio docente, vim a ouvir da boca de um professor catedrático uma explicação indesmantelável para este absurdo grau de severidade - e faço notar que estamos a falar de um regente de cadeira. Justificava-me ele então que o incongruente de tudo isto era o facto de os Departamentos verem as suas dotações orçamentais proporcionais ao número de discentes. Quer isto dizer que a pujança, a dimensão, a influência de cada um dos departamentos na Universidade se fazia sentir pelo número de formandos que em cada ano lectivo se notavam inscritos nas suas cadeiras, e para o qual contribuía naturalmente o número de reprovações do ano anterior… o resto do raciocínio deixo-o para vós, que a mim até me arrepia prosseguir.
Mas ainda assim era possível classificá-las por níveis. As piores eram os cadeirões a que eu chamava os “vórtices de gente”, pois neles faziam confluir estudantes do primeiro ao quinto ano, tal era o grau de intransponibilidade. Vi bastantes colegas deixarem-se desesperar nesses degraus mais custosos, insistindo, investindo as suas capacidades de forma obsessiva, e depois terem o cobro de tal esforço, um ano estafado, desperdiçados outros compromissos, os académicos e também os pessoais. Eu, quando encontrava esses cadeirões, apostava em estratagema contrário, ignorava-os, e espraiava o meu esforço pelas outras cadeiras, estas mais acessíveis, alcançando um razoável grau de aproveitamento. Aos cadeirões logo os veria, em segunda época provavelmente.
Aliás, desde cedo tinha percebido que me era favorável investir em esforço num período concentrado de tempo, durante o qual hibernava para casa da minha avó de quarentena para os exames, e assim usufruir do restante ano para outros “amores” que não apenas o dos compromissos académicos. Esta minha estratégia permitia-me assim conduzir-me numa vida de juventude suficientemente libertina para ser considerada normal, e daí recolher resultados medianos, estes suficientes para as minhas (pouco ambiciosas) pretensões académicas. Folgava-me durante o ano, para me investir somente em períodos próximos dos testes e exames, e esta sempre me pareceu escolha justa e acertada. E assim lá fui escorregando, patinando, saltando, ultrapassando, superando, tropeçando, enfim, lá fui resolvendo o meu repto académico, pé ante pé.
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M as havia um tipo de cadeiras que se manifestavam mais complexas de gerir, porque não era possível adiá-las, nem ter-me por ausente delas. Essas cadeiras obrigavam a trabalhos práticos, que não muitos, mas custosos. Aqui a estratégia era necessariamente diferente. Fossem estes trabalhos individuais ou colectivos, eram desenvolvidos com um grupo de colegas, o mesmo sempre. O princípio era simples, tratava-se do princípio da especialização. Cada um de nós fazia-se conhecedor de uma matéria em particular, e resolvia assim os percalços de todos, quando os trabalhos incidissem nesse seu domínio. Era um pacto interessante, em que cada trabalho calhava alternadamente a apenas um de nós, aliviando os outros do mesmo, senão apenas para preparar a sua defesa, e só quando este a implicasse. Era um método interessante, especialmente para um ardiloso cábula como eu.
Pois bem, a mim tinha-me calhado em ‘sorte’ o trabalho de “Calculo numérico”. Aparentemente nada de muito grave, embora aquilo se baseasse numa linguagem de programação execrável e inútil – o Fortran IV (bem sei, linguagem científica, etc, que me desculpem então os puristas). Só que a minha missão começou a revelar-se mais complexa à medida que me fui apercebendo das condições que dispunha para a sua realização.
Na primeira metade dos anos 80, a Universidade técnica mais faustosa do País, dispunha de condições informáticas primitivas. (Devo fazer justiça e lembrar-vos que os micro-computadores eram por essa altura objecto de visitas de estudo, e o Spectrum ainda se estava por revelar - é curioso notar que estamos a falar de há pouco mais de 20 anos atrás). Pois bem, os trabalhos de programação, ali, eram trazidos em caixas cheias de cartões perfurados até junto de um guichet a que pomposamente chamavam de “centro de cálculo”. Este, ao que se dizia, tinha um dos mais bestiais monstros do processamento informático em Portugal, e que até com irmão – exagerava-se com orgulho – na própria NASA. À janelinha assomava sempre um tipo de cara enlutada, (admita-se, escravo humano da máquina), que recolhia o nosso trabalho, devolvia uma senha e voltava para dentro sem um resmungo ou esgar. Nesse repente, pouco ou nada vislumbrávamos daquela gigantesca máquina que se alimentava com um apetite voraz dos cartões entregues. Normalmente, só no dia seguinte, nos era dado o resultado de tão prodigiosa mastigação. As tão desejadas listagens do programa e os resultados da sua execução.
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A parte mais custosa deste trabalho não residia contudo aqui, nesta fase em que o trabalho era finalmente processado, mas sim na perfuração de cartões que a antecedia, processo quase fabril e que explico de seguida.
Sem redes informáticas nessa altura, nem tão pouco microcomputadores, era necessária tecnologia que permitisse levar os nossos imberbes algoritmos até ao colosso informático, e por alguma via, destes o fazer alimentar. Para isso, as instruções de programação eram passadas, linha a linha para cartões perfurados, os quais, por leitura óptica eram assim interpretados pelo monstro. Tratava-se de facto de um processo mecânico, costureiro. O dedilhar sobre as teclas de uma ferrugenta espécie de máquina de escrever, permitia punçonar os cartões. Estas perfurações, codificadas, dispunham então à sua tradução. Cada instrução era trauteada num cartão, e estes, arrumados em baralho de cartas de forma não indiferente, formavam a lógica sequencial de um programa, ao ser lidos. (Como me vejo velho na estupefacção daqueles, aqui mais novos, ainda não acreditando que a um fascículo de cartões também se pudesse chamar de programa)
Mas o trabalhoso de tudo isto não era apenas este mister “jacquardiano” do picanço, do qual não conseguíamos disfarçar o rubor – nós, futuros engenheiros de um futuro parido já da electrónica que viria – de nos vermos servis de uma tecnologia herdada do séc. XVIII. É que para aqui se chegar, a esta tão arcaica programação, era preciso ultrapassar uma série de ‘nuances’ logísticas, que no seu cerne se deviam na razão de existir uma maquineta por cada 500 alunos daquele estabelecimento. Eram milhares de alunos, todos eles coincidindo-se na urgência do trabalho, no final de cada semestre. Disponibilizar 10 perfuradoras de cartões a tanta gente, e tão desesperada, era submeter a prova extrema de civismo até o mais urbano estudante. Tormentoso não era apenas aquele trabalho de teclagem, quase tecelagem, mas sim o conseguir lá chegar.
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E ra por isso fundamental ter uma equilibrada constituição no grupo de trabalho, cada um ocupando-se de diferentes competências. A começar por alguém com elevada capacidade de persuasão, e depois um outro elemento de grande disponibilidade física para quando o primeiro falhasse na sua argumentação, estes dois trabalhando em equipa. Finalmente, depois de alcançado o posto de trabalho, vinha o operador à cena, indivíduo que se queria pleno de destreza, de preferência sem ambiguidades para com as teclas, e com um invejável grau de resistência, quase hercúleo, pois que não raras vezes um trabalho era começado ao serão e só se terminava por altura do almoço do dia seguinte.
Aqui as coisas complicavam-se para mim, pois recordo que me encontrava sujeito a um pacto de grupo, este fazendo-me agente exclusivo deste trabalho, pois que noutros já havia folgado. Tinha de trajar assim as várias figuras que se alternavam até ao sucesso de toda esta façanha, e sozinho. Disputei pontos de vista, empurrei e fui empurrado, acalmei à direita, e excitei impropérios à esquerda, durante largas horas fiz-me valer de múltiplos argumentos, estoicamente, até me ver próximo da maldita perfuradora. Mas aí já não absolutamente só.
Horas antes tinha chegado até junto de mim, com aquele passo miúdo, timidez de nem se fazer ouvir, a L. Na altura estava justamente fazendo valer o meu lugar na bicha e gritando que me estava marimbando para aquela argumentação de lugar aos mais velhos. Ela tão franzina, nem a notei no meio dos vitupérios. Por fim, com a sandes pela frente dos meus olhos, lá se fez notar. Dizia que vinha a recado do J., um dos meus colegas de grupo, e que ali me trazia uma sandes para mitigar tanta hora de abstinência. Mal a conhecia, tinha-a visto de facto acompanhar o J. aqui ou ali, mas nada mais. Naturalmente fiquei-lhe reconhecido, e fiz-lhe sentir isso. Talvez por isso, julgava eu então, ela lá se ficou por perto, fazendo companhia, pouca é verdade, que ela tímida e eu sorumbático.
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Q uando dei por ela de novo, insistia que trataria daquilo, que eu não me preocupasse, que ela estava habituada e eu precisava era de ir descansar, que já se via que nem olhos tinha para as teclas. Fiquei abismado com tanta amabilidade. Aproveitei-a, sentia-me de facto incapaz para o que quer que fosse. Curioso agora rever que, apesar de tanta generosidade, nem assim lhe ganhei simpatia.
Ainda por lá passei uma ou duas vezes naquela noite, creio que por me sentir abusivo. Depois, convidado a isso várias vezes, acabei por me ir deitar. No dia seguinte logo me daria(deu) a senha da entrega dos cartões lá no “centro de cálculo”. Fiquei a agradecer, fiquei de agradecer também ao J., e lá fui ao descanso.
E foi assim que conheci a L. Desengane-se o leitor se julga que daqui se seguirá uma história de amor ou amizade. Pois que tão invulgar é a forma como a conheci, o exagero da disponibilidade, como inédito é o fim da história, se bem que hoje veja ambos os momentos entrelaçados. Esta não é história de amor, e talvez espante se disser que quando muito será história de terror.
(continuará)
Publicado por Eufigénio Lagoa às janeiro 29, 2005 05:48 PM
Comentários
Hei-de ler, agora vou jantar. Mas proponho desde já uma abordagem tipo iluminura, que cada maíscula inicial seja mesmo uma bela e pormenorizada imagem
Publicado por: jpt em janeiro 29, 2005 06:47 PM
Mau, primeiro dás-me cabo das minhas intenções de expressão plástica. Agora que me tento pelo texto apenas, não só o ignoras a pretexto da fominha, como ainda o ridicularizas apesar do toque clássico e discreto com que o retoquei apenas? Mas o meu amigo já ouviu falar da importância do editting?
Que leitor mais implicativo!!!
Publicado por: Eufigénio em janeiro 29, 2005 07:02 PM
não leves a mal ó amigo Eg...mas também eu vou dar ao dente....e logo venho tomar café, se tiveres uns biscoititos cai sempre bem, porque este deve ser para ler com calma e apreciar a escrita...espero que não leves a mal Jê mas aqui o Eg também não te fica atrás na arte da escrita!
Deve ser dos ares de infância...
Publicado por: Luna em janeiro 29, 2005 08:21 PM
Bem... vou-me sentar aqui, sossegadita, à espera do próximo capítulo: quem tramou o trabalho de grupo?
(não podes dar uma antecipação de cenas? ;)
Publicado por: maria arvore em janeiro 29, 2005 09:33 PM
(não sei porquê, mas creio que uma conclusão provável lá para o final do 3º capítulo será 'as mulheres são umas cabras...)
Gostei imenso, Eufigénio. Trouxe-me uma data de memórias paralelas, não de cartões perfurados, mas de 20 apples para uma faculdade, com disketes moles e enormes, a primeira era sempre o sistema operativo...e um dia, se tiveres paciência, também gostava de ler mais sobre esse cilindrar de alunos.
Publicado por: catarina em janeiro 29, 2005 11:01 PM
Epá, meto-me em cada uma !!! E agora escrever o resto da história ?? pois, pois
Publicado por: Eufigénio em janeiro 30, 2005 12:38 AM
Catarina, melhor não entrarmos por aí (lá pelos elistismos académicos), que se há coisa em que sou ressabiado é com isso (foram quase 6 anos de estágio)
Publicado por: Eufigénio em janeiro 30, 2005 12:40 AM
Confesso que para aperitivo é um bocadito... pesado! Farei como os outros, almoço primeiro e deppois da sesta, com outro vigor, deitar-me-ei à leitura das memórias académicas. Beijoca.
Publicado por: Guida Alves em janeiro 30, 2005 12:51 PM