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janeiro 22, 2005
Arrotar postas de bacalhau
Acabei de descobrir a verdadeira origem desta expressão, por contingência da minha condição de enfermo (não sei se já por aqui tinha dito que me encontro adoentado). Há alturas em que se quer um homem recolhido na cama, a convalescer, recuperando-se para o mundo, mas com a dignidade de o fazer em silêncio e recatadamente. Esta parece ser a própria condição do doente, e assim foi, até hoje. Mas vivem-se tempos modernos, tecnologicamente bem armados de portáteis, placas 3G e sei lá que mais, e aquilo que era uma sossegada reabilitação física no recato do lar, pode correr o risco de se tornar uma incontinente e degradante coisa pública.
Para isso bastará que deixem o doente – este já em estado pouco abonatório – por alguns instantes, sozinho em casa, e que a este se faculte o acesso à Internet, e que nesta tenha ele por hábito cultivar e regar um blog. Depois basta presumir a já famosa capacidade clínica de todos os portugueses, o povo no mundo com maior capacidade de se autodiagnosticar e automedicamentar. O desinteresse pela posologia dos medicamentos pode potenciar mais facilmente a situação pretendida, uma vez que visará acelerar o estado de delírio que é condição a atingir e a demonstrar empiricamente.
E pronto, reunidas todas as condições, é só esperar mais um grauzinho de febre que certamente não demorará, consequência da medicação tida, e aí iremos ver, ao vivo, post atrás de post, toda a dignidade de um homem, em curtos instantes, ser desmantelada, desossada, espezinhada na praça pública, (leia-se blog), num acto de autoflagelação delirante.
E chegámos finalmente à condição demonstrativa. O povo, com a sua perspicácia e poder figurativo, diria então que este homem, para o exemplo eu, estaria a arrotar postas, (as “postas” indicam os trechos de texto com que este obstinadamente vai editando o seu blog, o “arrotar” caricaturizando o lamentável nível e incontinência das mesmas).
Quanto à parte do bacalhau … cof, cof … essa deve ter a ver com o hálito do óleo do fígado do dito. Há historiadores que falam de postas a cheirar a pescada, mas acreditamos que isso seja um modernismo que nunca chegou a substituir completamente a expressão original. Recompúnhamos então a expressão, e apliquemo-la sobre o sujeito desta dissertação:
"Oh Eufigénio, mete-te mas é na cama e deixa lá de arrotar postas de bacalhau" (não de pescada, pescada não). Acho que faz sentido, sim senhor.
E pronto. Amanhã iremos então investigar outras duas expressões igualmente conhecidas. A primeira, mais popular, que diz "não vás ao médico não", e a segunda, esta já mais recorrente nos últimos tempos que refere "se eu fosse o teu blog, mudava de password", a insinuar um claro sentimento de desaprovaçáo.
Publicado por Eufigénio Lagoa às janeiro 22, 2005 03:16 PM
Comentários
Será um contrasenso desejar-te as melhoras, dado o bom nível do peixe que tens para vender na condição de adoentado.
Mas tá bem. Como até cuidas bem do bacalhau quando estás são como um pêro, mando-te uma salada de abraços e uma sopinha de barbatanas bem quente pra matar o bicho.
Bon apetit!
Publicado por: sharkinho em janeiro 22, 2005 03:54 PM
Obrigadinho Tubarão,
Mas agora que fechei aqui a loja, estava a pensar passar por lá. Já temos postas novas, ou ainda estamos nas festas da garagem ( ao que sei durou até hoje de manhã, ein, gente rija pá, é assim mesmo)
Publicado por: Eufigénio em janeiro 22, 2005 04:15 PM
É pá, tou a ver se me sai algo de jeito. Mas ontem fui prós copos com alguns aphixadores e mais um lote de gente boa do Blogue de Esquerda e a coisa prolongou-se até às 3 e tal da matina.
Como trabalho ao sábado de manhã tou aqui que nem posso...
Publicado por: sharkinho em janeiro 22, 2005 06:42 PM
Então as melhoras e muito óleo de fígado de bacalhau
Publicado por: yardbird em janeiro 22, 2005 08:08 PM
Eu já não me contento com a automedicação nem com o autodiagnóstico (exactamente por esta ordem). Eu dou palpites acertadíssimos em relação às doenças alheias.
Já fiz o diagnóstico diferencial entre uma gravidez e uma hepatite... (Mas acho que o mimo é mesmo o melhor remédio.)
Beijinhos pois
Publicado por: madalena em janeiro 22, 2005 10:29 PM
E os piquenos portaram-se bem?
Publicado por: cap em janeiro 23, 2005 01:27 AM
:)
As melhoras, Eufigénio - acho que devias ouvir a advertência 'não vás ao médico não', que é para o teu bem, em ambos os sentidos :)
Se te apetecer um livrinho ligeiro e risonho, procura '3 homens num bote', de Jerome K. Jerome. O livro foi escrito há mais de 50 ou 100 anos, por aí, mas aquele humor britânico, contido e cheio de espírito sobre as peripécias que acontecem a 3 amigos, adultos, que decidem embarcar literalmente numa aventura, é hilariante. Levam um cão com eles e a história começa com um dos protagonistas, ao ler um livro de medicina ou a posologia de uns medicamentos começa a ver que não há sintoma descrito que não 'sinta. Daí até se sentir terrivelmente doente, a ida ao médico e este lhe receitar um bife de 1 kilo com 2 ovos a cavalo, umas cervejas e uma viagem para espairecer a melancolia, vai um passo curto. E lá vão os 3 amigos trapalhões e quezilentos, com o cão atrás, e o cão, desconfio é o mais sensato de todos :)
Bom domingo por aí entre termómetros e caldos de galinha, sem penas ;)
Publicado por: vague em janeiro 23, 2005 07:40 AM
Olha que boa sugestão vague,
Lembro-me bem desse livro da minha juventude. E aquilo passava-se pelo Tamisa acima não era? Que bem o contas. Provavelmente vou relê-lo, pois admito que esteja aqui no meio do pó ainda. Era um livrinho "de bolso" não era?
Bom domingo a todos
Publicado por: Eufigénio em janeiro 23, 2005 11:07 AM