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janeiro 18, 2005

(A)os homens da minha família

Hoje lembrei-me deles todos, e do que eu sou afinal. Fui buscar-me lá atrás, reli-me e retive saudades, se é que assim posso chamar a este tê-los sentido tão próximos.

Hesito em colocá-lo, pelo seu lado intimista, que é texto que partilha mais do que eu, e nisso abuso. Coisa saída a quente, em Novembro de 2001, mas poderia ser antes, ou depois, poderá mesmo ser escrito amanhã, por um dos meus filhos. E por isso acabo por admitir que por aqui se espraie. Será indiferente ao estilo com que se escreve, apenas interessado em como será lido, será indiferente a quem o lê, apenas espreitando, um dia talvez, ser lido por eles.

“Ontem, morreu o último dos homens das gerações anteriores à nossa. Aos poucos vi-os seguir no inexorável destino desta família. A minha vida, e a dos meus filhos, já não se afaga com a presença masculina das gerações mais velhas. Mas a minha teve-os quando precisei deles, já a dos meus filhos me terá apenas a mim e aos homens da minha geração. E isso nunca poderei preencher ou substituir completamente.

Revejo-os. Recordo-os quando a eles me encostava criança, procurando o conforto, depois já não o mimo e as festas mas o apoio e o estímulo, mais tarde ainda, juntou-se-lhe o companheirismo de homem. Eram eles quem me trazia confiança, e que ora simpatizavam o mundo ora o deixavam entrar selvagem, mostrando-me as duas faces de uma realidade, alternada mas suavemente. Pois digam o que quiserem, aos homens o mundo mostra-se pelos homens, ainda que sabiamente retocado pela aveludada visão das mulheres.”

Releio e vou corrigindo: Este não é necessariamente um lamurio, nem tão pouco um típico pensamento machista do meridiano. É apenas uma fraca tentativa de tradução de um homem, que se procura compreender algures entre a cumplicidade dos homens que o viram nascer, e o afecto pelos homens que hoje vê crescer.

“Nem todos terão sido especiais, os homens que vi serem da minha família, mas todos, foram-no. Cumpre-se na minha memória a sua presença, como todos os homens mais velhos deveriam ter para cumprir em todas as famílias. Hoje, com a partida do meu tio-avô, o último desses, e já depois do meu pai, e dos meus avós, mais do que a tristeza, sinto a saudade dos tempos em que precisava deles sem o saber. Será uma perda, mas acima de tudo a lembrança de como me foram construindo, e essa não me é penosa. Reconheço-lhes a efeito em mim, nem bom, nem mau, apenas completando-se. E como foi bom ser miúdo e ter o mundo agarrado por aquelas mãos grandes, encaminhando, boleando as pontas mais agrestes, outras fingindo-as espinhosas.

Ocorre-me hoje, embora o sinta demasiado prematuro, que eles nos deixaram o seu legado. Olho para as minhas mãos e vejo-as fortes, enrugadas, peludas. Mas vejo lá longe as suas mãos. Com esta partida instala-se-me pela primeira vez a noção de nos estar designado sermos os pais, os tios, os avós mais tarde. Um inteligível sussurro chega-me trazido pela voz do Tio João. Despede-se e é ele que fala, mas são com ele todos os homens que nos viram e fizeram criar e que habitam a minha memória. E ouço que poucas coisas mais importantes existirão no mundo dos homens que o estar perto dos que nos sucedem, ao crescerem homens. Esta terá sido provavelmente a última mensagem que dele(s) me esforcei a ouvir. Sem o saber quando nem como, mas certo de a ter escutado.

Ao partirem tornaram-nos inapelavelmente homens, a nós agora, no toque final. Senti-los partir é saber conviver com a nossa parte infantil, mas forçosamente assumirmos também que agora desempenhamos um papel para outros, aqueles que vêm a seguir a nós, como eles desempenharam para nós. Não será seguramente a última coisa que receberemos deles, mas aceitemos que a sua última lição foi tornarem-nos homens, ao fazermos nós dos nossos, os seus verdadeiros homens. As minhas mãos - noto-as agora como se fosse a primeira vez - são fortes, enrugadas e peludas, como as deles eram. Pois saiba eu usá-las por metade do que fizeram comigo.”

Publicado por Eufigénio Lagoa às janeiro 18, 2005 12:49 AM

Comentários

Oiço dizer e parece-me verdadeiro que, enquanto temos família antes de nós, algo do miúdo que somos nos segue a vida inteira, algo da origem nos protege e nos dá caminho para andar. Depois é tempo de reorganizar o espaço de cada um na família, como se os papéis de redistribuíssem e víssemos que nós somos também aqueles que já partiram. E a vida roda, cíclica e sem parar. Como no poema, apetece dizer: "Párem o mundo por favor! Quero sair um bocadinho"
É uma bela homenagem esta, e a maior será conseguires trasmitir o legado que várias gerações te deixaram.
E um abraço :)

Publicado por: vague em janeiro 18, 2005 11:20 PM

Li com muita atenção, mas também com ternura, com a tua ternura, com a minha ternura, acredita!
Vejo que te deixaram um legado de ternura que não desperdiças e do qual queres dar testemunho.
Um beijinho para ti.


Publicado por: madalena em janeiro 18, 2005 11:30 PM

Quatro vezes a palavra ternura... não há sinónimos, é o que isso significa.

Publicado por: madalena em janeiro 18, 2005 11:32 PM

vague e madalena,
Leio-vos aqui e constato em quão pequeno poderia ter escrito este post afinal :)

Publicado por: Eufigénio em janeiro 18, 2005 11:55 PM