« Essas modernices de servidores que nem deixam a terra estar em poisio | Entrada | O Afixe, perdão … a blogosfera em 2006 »

janeiro 20, 2005

Alguém viu as nossas minhocas ?

Vêm estas memórias a terreiro (termo bem próprio para a história que se segue) depois de um comentário que em trocadilhos de juventude ali fazia com o JPT. Recordava que:

“A última vez que ofereci os meus préstimos foi aos jovens agricultores que acabaram em banheiros de praia lá para os lados de Sta Cruz. Era mata de eucaliptus e nós aos pares, um de serra eléctrica na mão o outro segurando a vítima. Pois o bronco que comigo emparelhava, faz-me um lanho que vai calça, vai pele e quase ia tudo. Fico branco , "mas...mas..." ainda balbucio, de tronco na mão. E ele impávido, "desculpa aí. Olha ali outra".”

Diverti-me tanto a recuperar esta situação com as outras partes que lhe sucederam e a repescar cada um dos seus episódios, que aqui me incito a contá-la, agora por completo.

Estávamos naquela idade em que a nossa condição civil se começava a dividir em 2 facções no grupo de amizades, os que começavam a trabalhar, e os que continuavam a estudar. Os primeiros lamentavam-se de se verem precipitados para uma vida de obrigações, os segundos invejavam os primeiros pela independência que assim atingiam, alcançando ao mais cedo aquele grande anseio da nossa adolescência: a emancipação. Havia ainda uma terceira facção, mais diminuta, a dos que começavam a casar, mas esses não justifica aqui fazer notar. Primeiro porque só bastante mais tarde, quando acabámos por juntar a nossa condição à deles é que voltámos a partilhar os mesmos programas, e depois porque esta história está muito longe das fraldas que por aquela altura eles deveriam estar a manipular.

Pois bem, três de nós, aqueles que se encontravam na primeira condição, com elogiado empreendorismo, decidiram associar-se num projecto agrícola. Estávamos na altura dos subsídios à agricultura (nesta fase os de semear, só depois vieram os de arrancar), e a sua condição juvenil ainda favorecia mais as condições de candidatura e empréstimos.

Tinham decidido implantar o projecto lá para os lados de Torres Vedras, aparentemente por ser zona que lhes era comum além de que, como é sabido, é área de bons solos. O local escolhido ficava perto da praia de Sta Cruz, e se refiro a praia para além da localidade, é porque esta não será indiferente ao desfecho da história.

Arranjaram o dinheiro, arranjaram o terreno, mas não tanto a vontade de arrancar. Foi por essa altura que solidários, nós, os outros, ainda amamentados, investimos os nossos préstimos na preparação do terreno. Até porque aquilo que eles já viam como obrigação, nós víamos como diversão e a oportunidade para entremear com um mergulho na praia, e uns bons copos ao serão. Foi nesta fase que ocorreu o incidente que eu comecei por contar.

Terreno preparado, ainda sem cultivo, e já se construía uma casa. Por essa altura eu já estranhava os fins de semana prolongados por Lisboa, mas era consistente o argumento de que sem casa não havia base sólida para permanecer muito tempo, e sempre se bebia uns copos entre gente amiga, que na arte de pedreiro de pouco poderiam por lá servir.

Ao que me recordo era um projecto hortícola. Floresceu, lentamente, mas lá foi dando uns pezinhos de alface. Coisa pouca. E o pior parece que era mesmo escoar os viçosos produtos, que nas feiras de horticultura eram enxovalhados, escorraçados, apedrejados até, pois que ao que constou aquilo não era meio muito permissivo. Mais tarde, quando decidiram investir noutro tipo de produtos, lá foram confessando a uma só voz, e nisso eram solidários, que essa história de acordar às 4h da manhã, no meio da serra, no pino do Inverno, para ir vender meia dúzia de cestas no mercado abastecedor, era coisa demasiado dura para agricultores de tão elevado nível social.

De cada vez que eu lá ia, a “obra” tinha mudado, ou porque se tinham chateado com o fornecedor, ou porque afinal dava pouco retorno, ou porque requeria pequenos trabalhos de construção civil e o pedreiro não havia meio de cumprir. Certo é que aquilo não justificava tanta gente, e tanto encargo, pelo que, não sei precisar quando, entre os 3 teriam combinado que fariam a coisa por turnos. Dois retornariam a Lisboa, sendo que o outro por lá ficaria, mais de guarda do que de afazeres que nunca havia assim tanto para trabalhar. Mas este acordo era válido só para o Inverno e os frios agrestes. Pois, que no verão era ver as pranchas de surf e de bodyboard empilhadas ao lado das enxadas.

Mas não se pense com isso que era projecto abandonado. Na altura própria, que certamente não foi no verão, lá decidiram avançar com mais um projecto. A julgar pela cultura da região, era coisa garantida. Morangos. Novos empréstimos, as estufas para montar, todas aquelas estruturas, os sofisticados aparelhos para controlo do ar e temperatura, os autómatos programáveis com que desde logo me fizeram técnico especialista. Enfim, desta vez era um projecto sério.

Projecto quase acabado e comecei a ouvir uns zunzuns de que a coisa se calhar não se concluiria. Que cada vez eram maiores os custos. Que seria necessário contratar pessoal, pessoal esse que não havia. E se bem que perguntasse se eles os três não se bastavam, logo obtinha que eles eram investidores, empresários agrícolas, com outras funções de responsabilidade que não andar na monda. Certo é que tiveram de abortar o projecto. As estruturas levantadas, o material ali a monte, a terra a começar a ser preparada, mas não havia tese que justificasse que se prosseguisse no projecto.

Entretanto novo verão se avizinhava. E se aquele mister não lhes dava para o encargo, já o veraneio era bem melhor. Sol, praias, gentes e eles ali de calção vermelho, prontos a acorrer. Até nisso funcionavam em equipa. Enquanto um cumpria a espinhosa missão de por ali ficar a torrar debaixo da sombrinha, os outros lá arriscavam mais uma onda, o mais desenvolto ensaiando já um cutback que tanto maravilhava as hostes.

No final do verão começou então a adivinhar-se o projecto seguinte, que aquilo era demasiado encargo bancário para se desistir. A ideia parecia interessante, e na altura estava a proliferar em Portugal, e particularmente naquela zona. Minhocas. Nem mais. Ao que parece era um negócio em expansão, que tinha como compradores os americanos, e a estes nunca chegava o que houvesse. Para quem como eu perceba menos destas coisas, devo adiantar que não se tratava de vender minhoca mas tão somente a baba e a caca que elas produziam, e que, ao que parece, dá um dos adubos mais ricos que há, e que por sinal era pago a peso de ouro. Para além disso, as infra-estruturas - se bem que inacabadas - que tinham erigido para os morangos, serviam que nem uma luva às condições necessárias para esta nova cultura.

A parte mais problemática era mesmo a compra das minhocas. Esta tinha de ser feita junto de uma cooperativa, que impunha preços exorbitantes, resultado de um monopólio que abarcava não apenas a venda das ditas, mas também o escoamento da sua caca. Do que me lembro ainda, cada “cama” de minhocas orçava em mais de um milhar de contos, e quase afianço que na altura terão arriscado investir 2.500 contos naquele ambicioso projecto. Assim, após as férias, ou a cessação das obrigações de verão, será mais correcto dizer, lá avançaram para mais este novo empreendimento. Renascidos de motivação.

Depois de algumas visitas, fui-me apercebendo que este projecto trazia imensas virtudes. Retorno fácil, mercado em alta, aproveitamento de quase todas as estruturas que tinham sido abandonadas do projecto anterior e, mais importante que tudo, requerendo atenção mínima e trabalho quase nulo. Com efeito, pouco mais era preciso do que uma rega diária por forma a manter a terra húmida, o suficiente para que as minhocas ali se gostassem de estar. Depois presumo que seria necessário algumas operações especiais, para recolha de caca tão valiosa, mas a essas nunca cheguei a assistir.

Como referi, era projecto que lhes vestia que nem uma luva. Mantinha inalteráveis os ciclos de vida a que se tinham habituado, permitindo-lhes manter com a assiduidade de sempre as idas a Lisboa, as surfadas, e todas as outras actividades paralelas, bastando um para tratar da lide diária, esta simples como se vê. Até á primavera a coisa correu de vento em popa, depois o calor começou a apertar. Com ele um maior cuidado no tratamento dos estimados e profícuos bichos, mas também um mais alto uivo que se fazia ouvir de lá debaixo, da praia, das ondas, e naturalmente das gentes amigas, delas mais que deles. Ainda assim foram mantendo a coisa tanto quanto se podia manter.

Eu por essas alturas andava sempre em exames, e quando não, fugia a sete pés para outras bandas, normalmente o Algarve, ou senão outros lugares que apesar de oferecerem menos poiso, traziam a vantagem da maior distância e da novidade. Nesse ano, só voltei a falar com eles já em Setembro. “Então, e as minhocas?”. No meio do silêncio constrangido algum mais afoito lá foi dizendo “Esquecemo-nos de as regar”. Longe de perceber o que se pretendia dizer ainda me voluntariei: “Anda lá que eu dou-te uma mãozinha”. Um deles, um menos sorumbático: “Já não é preciso. Fugiram”. “Como assim, fugiram?”. E eles já sem paciência para continuar a conversa “Sim, fugiram porra! Desorganizámo-nos ... esse cabrão aí esqueceu-se de as regar 3ª e 4ª feira, e quando lá fomos já lá quase não havia nada. Acabou-se!

Percebi imediatamente o que tinha espoletado. Achei mais próprio naquela altura deixar espaço para eles resolverem o problema. Até porque ter de reconhecer que nem para pastar minhocas um gajo serve, não deve ser coisa fácil. Hoje já se conseguem rir um pouco dessa história, e aparentemente todos eles encontraram ofícios menos trabalhosos.

Publicado por Eufigénio Lagoa às janeiro 20, 2005 06:14 PM

Comentários

"Mas que bichos tão irrequietos!" Teriam também ido para o surf?...;)

Publicado por: Guida Alves em janeiro 20, 2005 07:24 PM

Lembro-me que a ideia também passou pelo meu grupo da época (todos estudantes), mas era ideia veloz: não parou. Também com o diabo do investimento!...

(já conheces o oitavo passageiro?) ;)

Publicado por: cap em janeiro 20, 2005 07:37 PM

Acabei de o conhecer. Qualquer dia temos todo a blogosfera metida num blog, ansiosamente esperando que o unico blogueiro que a ele não pertence os vá visitar....risos escancarados ... mas o JPC fica bem em todo o lado!

E também me parece que o Tubarão e o DerFred vão chapinhar que se farta. Enfim, ais duas holdings que se espera bem sucedidas.

Publicado por: Eufigénio em janeiro 20, 2005 07:40 PM

maravilha

Publicado por: jpt em janeiro 20, 2005 07:43 PM

Maravilha o quê JPT? as minhocas ou os blogs holding
(esta coisa de um gajo andar a conversar nos comentários começa a atrapalhar o serviço)

Publicado por: Eufigénio em janeiro 20, 2005 07:47 PM

"Qualquer dia temos todo a blogosfera metida num blog, ansiosamente esperando que o unico blogueiro que a ele não pertence os vá visitar....risos"
Não tenho nada a acrescentar, a não ser que devo ser eu o visitador! :)

Publicado por: cap em janeiro 20, 2005 08:07 PM

Cap, espera aqui que já vais ver. Mas de fora das minhocas que isto dos projectos agrícolas merece mais respeito

Publicado por: Eufigénio em janeiro 20, 2005 08:16 PM

Ok, espero. Enquanto isso, e para não teres de descer uns andares, sempre te digo que o contador de presenças que te indiquei está no Espelho Mágico (link no sítio do costume) e lá não aparece o casino...
Até já (depois da janta).

Publicado por: cap em janeiro 20, 2005 08:30 PM

Finalmente arranjo tempo para ler as minhocas. Bestial, Eufigénio! Lembrei-me de um monte de coisas enquanto li...todas as vezes que uma pessoa na vida ouve alguém dizer 'esse negócio é que dava dinheiro! :DDDD

Publicado por: catarina em janeiro 20, 2005 10:58 PM

a maravilha são as minhocas e o antes desse tempo. acho que era absolutamente explícito.
ouve lá, já estou farto desses teus pruridos com a tua caixa de comentários, todos os dias vem atrapalhação qualquer. vou à vida

Publicado por: jpt em janeiro 20, 2005 11:22 PM

Oh JPT tu vê lá.
Da atrapalhação falava do meu comentário anterior, que antes do teu "maravilha" me deixou assim em duvida sobre a que te referias tu.
Se o amuo era a sério tira-o lá se faz favor, agora que estou explicado.
Se estavas a ironizar, então esquece aqui a justificação que quem amua sou eu.

Publicado por: Eufigénio em janeiro 20, 2005 11:30 PM

:-) Só tu, Eufigénio, vais buscar estas histórias á memoria... :-)

Publicado por: Azenhas em janeiro 21, 2005 07:53 AM

Banheiros na praia, Minhocas irrequietas.


Publicado por: bill em janeiro 21, 2005 10:03 AM

E as tartarugas?

Publicado por: bill em janeiro 21, 2005 10:09 AM

A ultima foi encontrada ontem. Afinal não fazem parte da dieta alimentar dos pequenos felídeos ( esta palavra ... não sei ... lembra-me sempre qq coisa)

Publicado por: Eufigénio em janeiro 21, 2005 10:12 AM

A tartaruga também é um bicho muito irrequieto, já o caracol...

Publicado por: bill em janeiro 21, 2005 10:41 AM

fabuloso recordar estas coisas e mais anda Amigo Eg o partilha-las connosco...mas como sou uma moçoila de coincidências...que Praia em Sta Cruz...é que andaram nas minhas zonas...tinha graça se fosses um dos de calção vermelho com quem me cruzei por lá...
Já agora ainda por lá continuo...de fins de semana no jardim tenho algumas dessas criaturas, se ainda for a tempo e conseguires reconhecê-las, devolvo-tas :)

Publicado por: Luna em janeiro 21, 2005 11:28 AM

Minhocas são bichos esquisitos. Escondem-se debaixo da terra,e por lá ficam. Se calhar não perdeste grande negócio.

Publicado por: Dead letters em janeiro 22, 2005 02:42 PM

Esclarecimento: o negócio não era meu, pois eu era dos que estudavam, ainda debaixo das asas dos pais, e no luxo de me poder escolher espectador apenas. Por outro lado acho que nunca conseguiria ultrapassar o rubor quando alguem me perguntasse que actividade desenvolvia eu, dizer que criava minhocas? Mas que se perdeu negócio Dead Letters, ai isso perdeu, que era muito dinheiro investido nos bichos

Publicado por: Eufigénio em janeiro 22, 2005 04:52 PM

Isto faz-me lembrar o negocio igualmente promissor das abelhas

Publicado por: Beeman em janeiro 23, 2005 05:19 PM

Já agora, também estas fugiram, era uma sina na época, talvez uma seja ancestral incompatibilidade dos copos no Bairro Alto e a agricultura

Publicado por: Beeman em janeiro 23, 2005 05:23 PM

Ah ganda Beeman, que bom ver-te por aqui homem! Que se lixem as abelhas e as minhocas.
Mas olha que no bairro alto ainda vi muita gente a tentar encontrá-las, às minhocas e às abelhas, uns de joelhos, outros aventurando-se debaixo de camionetas, com afinco, até altas horas da madrugada. Não foi por falta de procura no BA que os bichos se perderam, digo eu.

Publicado por: Eufigénio em janeiro 24, 2005 12:58 PM