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dezembro 04, 2004

Eu e as Tartarugas (3)

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III - QUASE FINAL, OU SEJA, O DESFECHO DA SEGUNDA HISTÓRIA

Bem, as três tartarugas estão achadas, resguardadas e sossegadas. Contudo, antes ainda de relatar o final desta história devo cumprir com o prometido, o final desta outra história. Mas, verdade seja dita, pouco ou mesmo nada há já para desvendar. Ficou resolvida logo no primeiro comentário ao post, o da Maria, e aqui lhe evoco o mérito. E o desagrado naturalmente: isso não se faz Maria! :)

Mas foi isso. Retratando de forma breve a situação…

… olhava em volta e via o extravagante chão de madeira ( eu sempre disse que aquilo na casa de banho era má ideia) coberto de água. Uma metade da casa de banho ocupava-se da minha caixa de ferramentas, e destas, que entretanto tinham detonado em todas as direcções. Por lá misturada estava a retrete, ali sucumbida à minha exaltação, meia de lado, virando-me as entranhas por onde tinha sido despegada. Na outra parte da casa de banho, bem acostados ao canto pela minha já desgovernada raiva, encontrava-se a minha família. O silêncio era sepulcral, eles intimidados pelo resultado de anteriores tentativas de sugestão, eu porque apenas fitava o buraco do tubo de esgoto pelo qual ela se tinha evadido.

Mas minto, este silêncio era apenas a manta onde se insinuava aquele arrepiante riscar de garras que denunciava a sua inabalada e estúpida caminhada até à caixa de ligação (diz-se de passagem Maria?). Aí, o fim da tartaruga, o entupimento dos tubos, e o início das minhas obras. E isto tudo se passava debaixo dos meus pés. O tempo urgindo, ela tentando desconcentrar-me ainda mais. Deve ter sido a enorme vontade de a ter para a esganar, mais já do que a preocupação para a tirar dali, que me trouxe espontaneamente, esta derradeira hipótese: Aspirá-la. Expresso-me literalmente.

Pouco mais terá esgatanhado o imbecil do réptil até eu me ver equipado com a inovadora máquina de guerra, o fabuloso “Nilfisk” – e aqui tenho de referir que esta publicidade é devida, e que por razões óbvias passarei a preferir a marca. Os aspiradores normais terão 1000 ou 1500 Watts, fruto da maior debilidade e obsessão de baixos consumos que se nota actualmente nos electrodomésticos, mas aquele, de outras eras, mandava com portentosos 3000W. Um zunido de grande fôlego brotava daquele tórax, o suficiente para me encher de confiança. Assim foi. Assim foi como eu acabei tirando a tartaruga das entranhas da minha casa. Ela sugada, encolhida, encavacada pela derrota certamente, e rodopiando na ponta do tubo que eu hasteava com devida glória. E palmas, muitas palmas do pessoal lá de casa, por excesso de uma intensa descompressão. Sabiam termo-nos livrado de um complicado contexto, mas quase posso presumir que mais do que por isso, se sentiam aliviados por se verem livres daquela parte de mim, que durante dias adviria ao incidente, caso este fosse mal resolvido.

E pronto. Quase estou a ver o leitor a dizer que tudo isto era óbvio, eu sei, eu sei. Não tirem o mérito à Maria. Não me tirem sobretudo o mérito a mim. Essa é a história do ovo de Colombo, depois de alguém se lembrar … e além disso estava num momento de grande tensão, que não perdoaria a qualquer hesitação, era agir e decidir em poucos instantes. Não creio que deva ser subvalorizado o feito pelo facto de estar a lidar com uma criatura obtusa, pois ela teve sempre do seu lado um destino que, naquele dia, se quis encher de bizarrias.

Insisto, foi uma luta de animais de sangue frio, a da tartaruga … comigo.

Publicado por Eufigénio Lagoa às dezembro 4, 2004 08:45 PM

Comentários

A história está bem fixe. Desculpa ter dado cabo do mistério.
E quanto ao nome das caixas, acho que conforme a zona do país os nomes vão variando. caixa de passagem, caixa de visita, caixa de ligação...
Uma das coisas que me apercebi é que existem formas diferentes de fazer redes de saneamento no Norte e no Sul de Portugal, não por legislação, mas por tradição, dizem que no Porto, herança da presença inglesa na cidade

Publicado por: maria em dezembro 4, 2004 10:58 PM

Pois aqui deviam tê-las feito para tartarugas! :) Agradecimentos pela consultoria técnica... Já percebi que convem, por uma ou outra razão, saber sempre um pouco destas coisas, sobretudo quando se tem este tipo problemático de animais.

Publicado por: Eufigénio em dezembro 5, 2004 12:36 AM

Não advinhei o desfecho da história mas, sem dúvida, um fim feliz... para os miúdos e para ti, com certeza.

Publicado por: Zoick em dezembro 6, 2004 06:24 PM