« Mas esta gente não dorme ? | Entrada | Estou orgulhoso »

novembro 27, 2004

Eu e as Tartarugas (2)

tartaruga_001.gif

II - TAMBEM JÁ TIVE UMA TARTARUGA NO ESGOTO

Ora bem, vínhamos da minha luta com estes repteis provocadores, creio. Ainda agora lhes oiço os arrepios riscados no tecto, e antevejo colónias de tartarugas mutantes a apoderaram-se do meu sótão, quiçá do mundo, enfim … Definitivamente a minha vida há-de ser amargurada por esta espécie de minerais amorfos (com o devido respeito aos minerais naturalmente) que dão pelo nome de tartarugas, e que viram a luz com o único fito de me desvairar.

Senão como se explica estatisticamente que algo de semelhante já me tivesse acontecido, a mim, ao mesmo homem? Esta outra situação desenrolou-se sensivelmente há 1 ano atrás. Na altura ainda não tínhamos uma colónia de carapaças, era apenas uma. Mas ainda que actuando sozinha, foi patente a mesma intenção de me dar cabo da vida, para o que pediu ajuda ao meu filho mais desastrado. Mas lá chegarei.

Aqueles bichos emporcalham-se muito, o que não deixa de me levantar fortes interrogações. Quando se corre muito sua-se, quando se come muito, enfim, percebem certamente. Mas aqueles animaizitos não fazem nada disso, e no entanto, fedem. Eles, a água, e tudo em redor. Impõe-se a higiene semanal. A mim coube-me comprá-las e fazer-lhes um trabalhoso suporte de madeira, aos miúdos cabe dar-lhes de comer e mudar a água, ou seja, tê-las como suas.

Esta operação passava (até então) por despejar a água pútrida na sanita. Com aquelas coisas de miúdos, capazes de encontrar no mais pequeno afazer um coliseu de brincadeiras, distraíam-se em ter a tartaruga naquele ponto de equilíbrio, balouçando-a na borda do ‘tartaruário’, inclinando-se na asneira, o desastre brincando suspenso, resistindo ao fluxo da água vertida. Naturalmente, foi apenas uma questão de segundos para que o inevitável acontecesse. Plofff, ela lá dentro. “Oh pai, oh pai”, nestas idades ainda julgam que nós cicatrizamos tudo o que não lhes agrada, e insistia “oh pai oh pai”, como se eu pudesse inverter o tempo, até à fase em que a tartaruga balouçava, numa réstia de hesitação, mesmo antes do limite do drama. Nada a fazer. E chorava.

A partir daqui inverosímeis situações se precipitaram, uma a seguir à outra, numa espiral de acontecimentos tão diabólica que nem o mais são dos homens lhe resistiria. Por uma tarde inteira, o mundo resumiu-se a mim, à tartaruga, e a um acaso que decidiu andar a brincar ao gato e ao rato comigo.

Ao princípio, apesar de a coisa já não estar para brincadeiras, ainda tentei uma abordagem convencional. Arregacei a manga, voluntarioso, mas enquanto me encorajava para mergulhar o braço, o raio do bicho decidiu-se esgueirar pelo sifão adentro. Deixei de o ver e de lhe chegar. Impossível acompanhar a curva do sifão com a dobra do pulso, para além de repugnante. Ainda me armei em inteligente com os miúdos: “vão ver que com comida aqui à tona da água a gulosa volta para cá”, mas apenas os consegui desesperar mais a eles. E a mim.

Sentíamo-nos fortemente desapontados, para ali sentados os três, ouvindo-a esgatanhar no interior da retrete. Eles receavam pelo bicho, eu receava o pedreiro, o pó, as idas e vindas dos banhos em casa das avós, a viagenzita que ficaria para outras núpcias. Mas adiante, já conhecem a minha falta de sangue frio para com estas ignaras carcaças fossilizadas.

A coisa complicava-se, complicou-se. O que de seguida aconteceu foi de si tão estrambólico, que mais uma vez só com um boneco o conseguirei explicar (e isso deve dar-me um bónus para aí de umas 1000 palavras)
tartaruga421.JPG
Pois bem, tínhamos o bicho esgatanhando em cima da curva interior do sifão (ver refª1 do esquema), provavelmente num equilíbrio tão precário que eu nem me atrevia a antecipar. Que fazer ? que fariam ? A decisão difícil, porque inevitável, acabou por começar a ser considerada. Nesta altura já estava de caixa de ferramentas na mão. Tinha visto uns meses antes um pedreiro de volta com aquilo, a tentar o encaixe da sanita no sítio certo, durante uma tarde inteira. Depois voltar no dia seguinte, repetindo o trabalho, repetindo as horas, simplesmente porque o encaixe não se queria dar. E pensava que eu nunca tinha tentado tal coisa, nem me parecia encontrar em mim convicção suficiente para me acreditar mais bem sucedido que um suposto profissional.

Pus-me ao trabalho, de chave de bocas na mão, ajoelhado, com a cabeça por entre o bidé e a sanita, naqueles sítios onde se escondem os panos e os produtos amoniacais, quais subúrbios desta assoalhada. Tomei então em mãos a sanita e fui levantando-a suavemente, tendo sempre presente que com ela traria empoleirado o desastrado animal. Tinha-a agora a uns 20 cm de altura, e começava a desviá-la para o lado , para a poisar. Packcc … Packcc ? olho por cima dela, para a zona do tubo de descarga e que vejo? Lá estava, balanceando-se no excêntrico (*) conforme representa a Refª 2 do esquema.

(*) peça cuja designação aprendi mais tarde. Já durante a noite, após a segunda ou terceira tentativa de acoplamento da sanita, descobri também porque é esta o terror dos pedreiros. Mas isso são outras histórias.

Tratava-se agora de pousar aquela coisa pesada que tinha entre mãos, ao mesmo tempo que mantinha os olhos fixos no bicho e ainda ia respondendo ao “olha que me molhas o chão todo” com um agora isso não tem importância que depois logo se limpa. Pedi silêncio, tive-o. Pedi que o tempo se suspendesse por alguns segundos, e aí não fui tão bem sucedido. Próximo de a agarrar, Zapppp. Não queria acreditar. A burra da tartaruga tinha mergulhado pelo tubo. A cada tentativa para a agarrar, mais ela se embrenhava pelas entranhas da casa, até deixar de a ver de todo.

Desespero total. A família inteira calada, suspensa. Apenas aquele esgatanhar por baixo dos nossos pés, (ver Refª 3 do esquema acima) de novo o esgatanhar. Um metro mais e a parva da tartaruga iria encontrar uma caixa de ligação, aqui, mais do que simbolicamente, representando o desfecho deste infortúnio. Os miúdos choramingavam de nervos, eu ainda não.

Mas a adrenalina tem destas coisas - faz-nos parecer mais rápidos que o tempo. Ocorreu-me de repente uma ideia louca, mas provavelmente a única que ainda assim era plausível …o meu ego de pai voltou a encher-se. Lá fui correndo, a buscar …

Nota de Interrupção:

E por aqui me suspendo. Relembro o leitor que o meu encargo ainda é tirar as tartarugas que, lampeiras, continuam o regabofe mesmo por cima da minha cabeça (vide “eu e as tartarugas(1)”). Não é por antipática vontade que aqui me interrompo, mas apenas porque viso repor a ordem dos acontecimentos narrados. Quando tiver por resolvido o problema que hoje tanto me apoquenta, certamente não esquecerei de vir aqui colocar um fim, e um ponto final, numa história que como verão acabou em bem. Já agora alguém quer dar palpites?

Publicado por Eufigénio Lagoa às novembro 27, 2004 01:11 PM

Comentários

Não me digas que recorreste ao aspirador?
Fico a aguardar o desfecho.

Publicado por: maria em novembro 27, 2004 06:23 PM

PS. As caixas de passagem são visitaveis ... ou por cima, ou por baixo. Imperativos legais.

Publicado por: maria em novembro 27, 2004 06:31 PM

Oh Maria :(((
Com tanto post que por aqui comentaste, não te poderías ter quedado antes deste?
Olha, já agora vai ao "tartarugas 1" dar-me a solução, pois que dessa é que preciso !
:) Boa

Publicado por: Eufigénio em novembro 27, 2004 09:56 PM

Sem desprezo pelo mérito da Maria, mas já sei qual foi o erro. Há ali um parágrafo demasiado indiciador. Vou tirá-lo.

Publicado por: Eufigénio em novembro 27, 2004 09:58 PM

Não acredito!!!!
Perdi meia hora de trabalho a ler este post (começo a ficar com alguma inveja como este gajo escreve, enfim ;) ), e depois... plof... tal tartaruga a sumir-se pelo esgoto abaixo... nada...
Fiquei a ver o rebuçado a sumir-se, o acordar de um sonho maravilhoso...
O pior é que fiquei sem ideias para sugestão. As "cagadeiras", aqui, não parecem funcionar. Que tal o "desentope buracos" ou raio como esse objecto milagroso se chama?!
Aguardo os desfechos de ambas as histórias...

Publicado por: Zoick em novembro 29, 2004 11:49 AM