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novembro 26, 2004
Eu e as Tartarugas (1)

Nota Prévia: Gostaria de começar por dizer que este não é um post humorístico. Nem tão pouco é o manifesto de um zoófobo. É apenas um apelo sincero de um homem desesperado. Neste momento tenho a família inteira a vasculhar o sótão. Dividimos tarefas; eu propus-me ficar aqui com o megafone clamando por ajuda.
I- SOCORRO TENHO 3 TARTARUGAS A ANDAR PELO TECTO
Ontem, enquanto o dia se vencia com aceitável naturalidade, ainda tinha 3 tartarugas no quintal. É certo que não se espera destes bichos zoólitos (*), de comportamentos petrificados, mais do que estar ali, cumprindo com a sua presença ornamental. Nisso não se vê grandes males, nem grandes vantagens, e até à data tem servido para suprir a falta de um gato, ou de um cão, ou de qualquer outro dos 200 animais que os miúdos entendem deveriam por aqui viver.
(*) A minha sinceridade, ou talvez a consciência de que a erudição do termo imediatamente levantaria suspeitas no léxico vulgar que é utilizado neste blog, sugere-me que refira ter rebuscado este termo do dicionário. Segundo definição encontrada, resume um “animal fóssil”.
Apesar daquele ar de rocha, acabamos por constatar que são animais maricas - ao primeiro friozinho metem-se lá para dentro, alheios ao resto da invernia. Nestas alturas, quando calha passarmos por perto, agarramos naquelas cascas e trazemo-las para lugar mais recôndito, normalmente dentro de casa. Ontem, alguém se lembrou de as colocar no sótão. A sugestão teve acolhimento geral (ai se eu me lembrasse de quem a deu), já que, se fugidas de nós, longe da nossa vista também. Supostamente lá para a primavera, alguém se recordaria delas, a tempo. Pois. E agora tenho 3 tartarugas loucas, em orgias e correrias olímpicas por cima da minha cabeça!!!
Hoje de manhã, mal acordaram, os miúdos quiseram ir vê-las. Mas não as viram. Reboliço completo. Os bichos tinham decidido saltar fora da coisa, e pufff, desapareceram. Mas de manhã há a pressa, as escolas, as arrelias do acordar e o vamos embora que já estamos atrasados. Deixámos aquela preocupação com a casa. A ela voltaríamos quando chegássemos com um vamos lá ver esta coisa. Acabámos de chegar. E neste momento invade-me tal pânico que apenas me ocorreu passar esta minha inquietação para fora, querendo acreditar que isso possa trazer alguma terapia, à custa de se desgastar no escrever. E além disso há o estimado leitor, de quem não escondo naturalmente, e reforço, uma grande expectativa de ajuda.
Estarão a pensar, “agora é que o gajo está mesmo a exagerar. procura-as e volta a pô-las lá fora”, não é isso? Isso queria eu. O sótão de que falamos é um sótão estafado, usado à maneira antiga (pelo menos enquanto não tivermos condições para fazer dele a nossa suite de 80m2 com janela para a lua …ui, ui), isto é, com o uso e desprezo que antigamente lhes davam. Aos poucos, descuidadamente foi-se transformando numa desprezada arrecadação. Pelo meio daquele madeirame todo que lhe escora o telhado, e daqueles buracos que lhe flúem pelo soalho, foram-se juntando caixotes, tábuas, radiadores velhos, enfim, todas as traquitanas que o nosso lado coleccionista resolve guardar. É absolutamente impossível encontrar por aqui aqueles 3 bichos.
Mas afinal enganei-me. Depressa soube onde estavam estes irrequietos exemplares dos quelónios (*). Aqui o(a) amigo(a) leitor(a) conclui precipitadamente com um simpatizante “ora vês, tudo se resolve. Não é preciso exagerar”. Calma, calma, eu disse que sabia onde as bichas estavam, não disse que as tinha aqui, à minha frente. E neste caso, para agravo meu, isso define uma intransponível diferença.
(*) aqui talvez esteja a exagerar um pouco, mas já que estava com o dicionário ainda aberto …
“Então que se lixem as tartarugas, elas são bichos sobreviventes, hão-de safar-se por lá”, estarão agora a pensar. Quase concordaria convosco se, neste preciso momento em que ainda tento manter a consciência instruída para acabar esta m****, sem me deixar consumir pela irritação do raio que a parta, estou a ouvir um exasperante crzzzzchhhh-crzzzzccchhhh. Oiço-o agora com tanta clareza quanto a convicção que tenho de que assim não conseguirei dormir, nem hoje, nem amanhã e enquanto não resolver isto. Ainda não me tinha posto a reflectir porque tinham aqueles bichos garras, já que sempre os vi ociosamente parados, as presas escusadas portanto. Soube agora, com aqueles riscos de arrepios sobre o gesso do pladur, a explicarem-me que as garras estiverem ali durante milénios de anos, desde eras ainda anteriores ao homem, com o único propósito de hoje me poderem atormentar.
Investiguei. A situação é grave. Os desastrados répteis deixaram-se cair por um buraco do solho, e habitam agora por cima do tecto falso deste (até à data prazenteiro) lar. Pelo barulho que fazem diria que já a consideram a sua ‘mezanine’. Vejo-me perante um problema tão complexo, que a sua própria explicação me é difícil. Desisto-me de o tentar descrever, aqui vai o boneco:
Já não receio apenas pela guerra de nervos que vou travar (e quem já teve ratos no sótão a acelerar de um lado para o outro durante a noite saberá reconhecer o trauma), mas também pelas inumeráveis visões que este meu cérebro, já descontrolado, vai antecipando.
Em uma delas, vejo a cara de um bombeiro. Ao fundo, por detrás dele, os restos da casa, fumegando ainda. Ele atónito, esforçando a escuta ao que eu lhe dizia: “Foram as tartarugas!! Foram as tartarugas!!”. Atenção, não são apenas variações de pavor que me levam até aqui, creio mesmo que há alguma base científica naquilo que agora digo. Notem, todo o tecto se faz atravessar em direcções cruzadas de cablagens eléctricas. Por entre a bicharada, o pó, e sei lá o que mais será alimento daqueles percalços pré-históricos , não me esforço nada em aceitar que aquelas mandíbulas córneas cortantes irão mais tarde ou mais cedo entreter-se com os fios eléctricos, até ao curto-circuito fatal. Assim, o meu futuro próximo construir-se-á em cima de insónias forçadas, e de tiros frustrados de carabina, até ao dia em que finalmente tudo acabará em escombros.
Desespero. Sinceramente! Por favor, alguém me dê uma ajuda, uma sugestão, uma ideia por mais louca que seja, um aparelho qualquer que tenha sido inventado em Taiwan para tirar tartarugas do sótão, qualquer coisa !!! Estou em inanidade absoluta. Entretanto, para me abstrair tanto quanto possível daquelas riscadelas zombeteiras, por cima da minha cabeça, vou preparar uma outra história, igualmente verdadeira, que me aconteceu, adivinhem com que bichos? Pois, pois, e depois digam que sou paranóico, que sou um zoófobo (acho que era assim que se escrevia), e coiso e tal.
(portanto, continua)
Publicado por Eufigénio Lagoa às novembro 26, 2004 08:33 PM
Comentários
Fico atenta aos desenvolvimentos deste acontecimento quiçá original: a fuga das tartarugas para o tecto falso que fica por cima do desgraçado a quem aconteceu ter três tartarugas no quintal.
Aconselho-te uma leitura: o cágado, de Almada Negreiros. (Aqui: http://textosreunidos.blogspot.com/2004/09/o-cgado-roubado.html )
Aconselho-te ainda que continues a escrever e que publiques...
Beijinhos e que o tecto não te caia em cima.
Complexo de gaulês!
Publicado por: madalena em novembro 26, 2004 10:10 PM
Com um tecto falso em pladur, a solução é fazer uns artísticos furos e esperar até que as tartaruguinhas amadureçam e caiam. Depois, (amigo Eufigénio nem é preciso perguntar, eu digo) sempre se podem colocar uns focos nos orifícios subitamente vazios de utilidade (e pladur) ou então criar um jardim suspenso (de trepadeiras invertidas).
Se o mau humor começar a imperar, sugiro humildemente o levantar de algumas tábuas do soalho do sótão de forma que o F. consiga alcançá-las.
Publicado por: cap em novembro 26, 2004 10:56 PM
Como se caçam ratos???? Sabem???? Com ratoeiras.... né? Então como apanhar 3 ternurentos cágados? Com cagadeiras!!!!
Então o que sugiro é arranjar alguma especie de cagadeira que atraia (sei lá, com comida por exemplo) os bichos até perto do buraco, onde, depois, se possam capturar para felicidade (e sanidade) de todos vós: pai que passa a dormir mais descansado e filhos que tem as suas criaturas de volta)
Publicado por: Zoick em novembro 26, 2004 11:26 PM
ehehehe.... qual delas a melhor. falo das sugestões claro. mas esqueçam os risos, a coisa continua a ser séria!
Acho essa das cagadeiras genial(Zoick)! Quem sabe não lhe possa depois pendurar umas trepadeiras a cair pelos fuínhos dos focos(CAP)... desde que o tecto não caia (madalena).
Publicado por: Eufigénio em novembro 26, 2004 11:42 PM
Leio-vos hoje com mais atenção, já mais calmo. Uma enorme displicência da minha parte levou-me a não ‘escutar’ aquilo que cada um dos vossos comentários sugeria. Fi-lo agora:
Madalena,
fui lá ver. É espantosa a similitude das situações. Será que esse tal de Almada me anda a plagiar. Esse é um dos riscos de se andar a editar na Net, terei de repensar isso então.
CAP,
eu até já tenho focos pelo tecto em vários sítios. Essa pode ser uma solução interessante, mas que por razões compreensíveis deixarei para último recurso. A ideia é continuar com um tecto que tape, e não um tecto que destape.
Zoick,
depois de muito me rir lá contei a ideia aos miúdos. Omitindo a parte da ‘cagadeira’ acabou por ficar uma excelente ideia. Foram eles que a notaram, tão bloqueado eu ando. Neste momento tenho o sótão cheio de tampinhas com camarõezinhos.
Deixem-me também informar-vos já que manifestaram tal preocupação e solidariedade para com a minha situação, que neste momento o meu problema se desagravou. Já encontrámos uma. O Diogo lembrou-se que tendo uma delas um problema de visão, não poderia assim andar por longe. Delimitámos o perímetro de busca ao redor do tanque de onde elas saíram e tcham-tcham, uma já cá mora.
Bem, e agora enquanto esta situação não se resolve, acho que vou postar uma outra história, igualmente acontecida, felizmente essa bem concluída.
Publicado por: Eufigénio em novembro 27, 2004 12:48 PM
Acho bem que ponhas um "proxexo" em cima ao Almada...
Olha, agora a sério: adoro aquele conto. Vem dos meus vinte e tais, trintas, idades em que eu ainda precisava de ler coisas como "chegou àquele ponto em que nem a revolta servia de nada" (estou a citar de cor, não sei se as palvras são mesmo estas, mas a ideia é!).
beijinhos
Publicado por: madalena em novembro 27, 2004 03:15 PM