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novembro 20, 2004
A menina da caixa, o “ferrador” e os sacos de plástico
A menina da Caixa (hoje, no Supermercado)
- Vou ter de ficar a dever-lhe 2 Cêntimos.
- Não.
- Como não ?
- Não quero que me fique a dever 2 Cents
- Mas eu não tenho 2 Cents para lhe dar !
- Nesse caso fico eu a dever-lhe 3 Cents.
- Ai desculpe, mas …
- Terá de resolver o problema como entender.
- Humm... então vai ter de esperar
...
- Olhe, ainda aqui estou
- A minha colega já aí vem
...
- Pronto, aqui tem os seus 2 Cents.
- Obrigado. Passe um bom dia.
- Hummm
Pois tenho, pois tenho, tenho mau feitio!
- //-
A culpa é do “Ferrador” que nos educou mal (há uma data de anos)
Pois, é provavelmente por culpa dele que me saí hoje tão despropositado. Quem não se lembra do famoso slogan “corra Portugal de lés a lés, com meias Ferrador nos pés”. Uma verdadeira rede de lojas, antecipando-se ao modelo de negócio que hoje prolifera - méritos não reconhecidos em outros tempos.
Outros tempos sim. As moedas a chocalharem no caminho para o recado, esperando-se troco ainda. Pois aí, nessa digna loja, por entre as nuances de cheiros a sabonete, a cordel e a lençóis, havia sempre alguém de imaculada bata cinzenta, que respeitosamente me atendia, apesar de fedelho.
Pois bem, naquela retrosaria apostava-se uma estratégia comercial muito agressiva, hoje sem significado, porque se baseava nos tostões e terminações, para os quais hoje já não olhamos. Todos os preços acabavam sem arredondamento, nos 9 Centavos. As famosas peúgas por exemplo, poderiam custar 2$99. O cliente assim nem achava caro, achavam eles.
Mas quando íamos a contas ninguém ficava a dever nada a ninguém. Nem que o trocado viesse em rebuçados ou molas da roupa, para o efeito ali ajeitados em cestinhos de verga ao lado da máquina registradora. Mas era conta que acertava sempre. Ninguém ficava a dever nada a ninguém.
Outros tempos. Deve ser daí que veio o meu mau feitio com a menina da caixa”.
-//-
Os sacos de plástico (de um tempo que já não era o meu)
Claro que já não sou do tempo da minha avó, fui apenas vítima disso. Passava-se bastante mais tarde, na fase em que hibernava por lá, por sua casa, numa tentativa desesperada de recompor um semestre desastroso no Técnico. No meio daqueles mimos todos, sobrava-me a parte das compras domésticas. Nessas alturas ela estendia-me os 4 sacos de plástico e eu, não disfarçando o embaraço, lá os ajeitava no bolso. Entendia ela que assim é que era, porque era assim que sempre fora.
Era no mínimo uma situação invulgar para uma época em que a economia já engolira os tostões, e já havia passado uma adolescência inteira desde os rebuçados do “Ferrador”. Mas obviamente não a contrariava. E lá me via, encavacadíssimo, a desemaranhar os saquinhos, sob os olhares cómicos da fila do supermercado. E se a situação não é de todo invulgar, quando muito susceptível, naquela altura parecia-me definitivamente desajustada - um atentado grave contra as minhas hormonas de rapazola, e tudo por causa de uns míseros 2$50.
De outras vezes ainda pensei deixá-los, aos sacos, esquecidos no bolso. Mas acabava por me sentir sempre fortemente revoltado comigo mesmo. Não me peçam para explicar porquê. Sabia apenas que as avós são só avós, não têm idiossincrasias, e portanto, nós também não.
-//-
É por isso que tenho mau feitio
Enfim, mas o tempo da minha avó era outro tempo. Um tempo que já não se encaixava no meu. Provavelmente como o meu já não se encaixa no tempo da “menina da caixa”.
Publicado por Eufigénio Lagoa às novembro 20, 2004 10:49 PM
Comentários
Ora pois... 20 em 20 cêntimos enchemos nós a carteira. Já me aconteceu com 2 ou 3 cêntimos, agora 20?!
Agora nem com 1 cêntimo. A menina da caixa que se desenrasque!
Até me podem chamar forreta...
Publicado por: Zoick em novembro 20, 2004 11:20 PM
Ao menos a menina da caixa era bonita?
Publicado por: nproblemas em novembro 21, 2004 01:19 PM
Zoick,
Pelo teu comentário dei pelo erro no post. Isto de centimos e centavos, euros, escudos, põe um tipo todo baralhado. Vai daí, cometi a indecência de o corrigir, o que fez com que o teu post parecesse injustificado. As desculpas foram por mail, mas aqui seguem também.
Amigo NProb,
Bom olhos o leiam por aqui. Mas diga lá, acha que se a menina da caixa fosse bonita eu me punha com aquela birra, para depois vir para aqui escrevinhar linhas e mais linhas a justificar a mim mesmo tão inusitada atitude ?
Ou trata-se do problema 332 ? venha ele depressa para mandar aquele do 331 lá para o fundo da página!
Publicado por: Eufigénio em novembro 21, 2004 01:56 PM
Hoje, ao ver o post com 2 cêntimos, pensei. Olha, eu fiz asneira. Devia de estar com o sono ou então ando a ver zeros a mais... Além de forreta estou pitosga. O pior é que não me apetecia ir comprar uns óculos... Mas depois vi que afinal não errei... Ufa... A idade não perdoa... ;)
Publicado por: Zoick em novembro 21, 2004 02:01 PM
Nunca tinha pensado nisso... mas realmente porque é que são eles a ficar a dever em vez de ser o cliente. Esses cêntimos todos que eles ficam a dever ao final de um mês ainda deve dar um extra jeitoso!
Publicado por: Augite em novembro 21, 2004 09:36 PM
(não levem a mal esta pergunta sim ?)
Mas ao ver que todos os comentários se centram na 'menina da caixa', pergunto-me se terão lido o resto do post ou se, enganados, o julgaram acabar por ali.
Augi,
Gosto em ver-te por cá :)
Publicado por: Eufigénio em novembro 21, 2004 09:44 PM
Lindo, o resto do post. Trouxe-me a reminiscência do cheiro das drogarias (isto ainda existe?), onde também me davam rebuçados pequeninos de troco (ou selos, o que já não era tão apreciado :)
Publicado por: Mi em novembro 22, 2004 05:09 PM
Obrigado Mi,
E a mim satisfaz-me que alguém o tenha lido todo! :)
Acho que vou começar a propor quando me disserem que não têm 2 Cent's: "então aceito rebuçadinhos"
Publicado por: Eufigénio em novembro 23, 2004 01:14 AM
Ora essa, o melhor vem sempre depois do "continue a ler..."
Quanto aos trocos, acho uma óptima ideia. Nem que seja pelo insólito e para ver a reacção das "meninas das caixas". Aposto que, de repente, arranjam lá uns trocos para a malta.
Vou entrar em fase de experimentação e cá voltarei para expor os resultados :)
Publicado por: Mi em novembro 23, 2004 11:24 AM
E lembraste dos sacos plásticos lavados estendidos no estendal? Lá em casa era assim...
Publicado por: azenhas em novembro 23, 2004 01:30 PM
Mi,
Cá fico ansiosamente aguardando reacções a essa experiência, digna do Sr. Bono :)
Azenhas,
Atão não lembro! nessa altura ainda funcionava o 1º(?) princípio da Entropia, "nada se perde, tudo se transforma". Mas convenhamos que agora ainda há quem saiba tirar aproveitamento dos saquinhos, por exemplo, nunca deste uma cabeçada num saco de plástico cheio de àgua à porta de uma tasca? "é para espantar as moscas" respondem-nos.
Publicado por: Eufigénio em novembro 23, 2004 02:12 PM
De facto é, Eufigénio. Vamos lá ver como reagem as senhoras, quando bloquearmos o seu comportamento mecanizado. Espero não provocar nenhum curto-circuito.
Quanto aos sacos de plástico, continuam a ser reaproveitados em grande estilo. Quem nunca viu senhoras gorduchinhas a correr, com um saco de plástico na cabeça, num dia de chuva? :)
E ainda me lembro de fazer vestidos para mim com os sacos de plástico. Agora, faço uma espécie de aventais para atelier de pintura para a pequenota. Nada se perde...
Publicado por: Mi em novembro 23, 2004 03:05 PM